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Sou inimigo da ideia de felicidade. Por isso, repito as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:
Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.
Quem tem um inimigo, está abençoado. Pode lutar com ele, desenvolver as forças, crescer extraordinariamente. Descobrir que o Diabo só faz o que Deus lhe permite, e que todo o mal que nos acontece é para nosso maior bem, aprende-se na arte da guerra; hoje raramente ensinada, pervertida pelas suas imitações, estando os mestres incógnitos nas catacumbas da sapiência. Este paleio de paragem de autocarro só para introduzir uma ruiva americana: Gretchen Rubin. Esta senhora teve o discernimento de querer viver da escrita, e está num país onde tal é possível sem dificuldades de maior. Tanto assim que já guarda no bornal uma besta célere, e anda danada a tentar meter mão noutra. A data prevista para a prova dos 9 são os finais de dois mil e ditos. Contudo, o livro já se vende sem existir e sem que alguém tenha ainda dado um tusto por ele. Ei-lo: The Happiness Project.
Como se pode ler logo no cabeçalho, Gretchen está a escrever uma obra que vai misturar Aristóteles, Santa Teresinha do Menino Jesus e Oprah, entre muitas, muitas e muitas outras fontes. O tema em estudo é o Everest da arrogância e cowboismo imperialista: a felicidade. Entenda-se por felicidade, pegando nos três exemplos históricos indicados, a realização, a santidade e o sucesso. Vale tudo, pois. Estamos em pleno bacanal semântico. E como se não bastasse, provando que ainda não há tecnologia que consiga introduzir juízo no sistema neuronal de um americano, a autora propõe-se identificar as regras para alcançar a felicidade. Identificadas, vai testá-las. A sua vida passa a ser o laboratório da eficácia dos ensinamentos recolhidos, mas só durante um ano. Isto obriga a um qualquer calendário fechado de testes. Se, por hipótese, reunir 12 conjuntos de regras, poderia ter 1 mês para cada exercício. Se forem 52, uma semana. Mas talvez sejam centenas, como ela ameaça no topo da sua loja, e com durações variáveis. Por exemplo, os ensinamentos de Buda a serem testados durante 3 meses, de preferência no Verão; a biografia de Bill Gates levando a um fim-de-semana passado na garagem; e o caminho místico de S. João da Cruz apenas tendo direito a umas horas de gasto depois de um filme maroto à meia-noite, procurando aplicar o despojamento radical da Noite Escura no tempo que restar até o Sol nascer, et pour cause.



