Scolari, vai-te embora – IV

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Pode ser que Portugal ganhe à Alemanha. E que ganhe os dois jogos seguintes. E pode ser que o faça com exibições notáveis. Se for assim, será uma desbunda que fará bem a toda a gente lusa, onde se incluem os que não nasceram cá, nalguns casos nem falando português, mas para quem o nome Portugal traz um sopro de alegria. Porém, os sinais esotéricos apontam para a derrota. Conjuga-se a húbris do seleccionador com a mística alemã e a tragicomédia nacional activada pela traição de Scolari. Antevê-se o desaire dentro de poucas horas. Mas seja o que for que aconteça, o resultado não será mais do que a expressão do destino — ou seja, da sorte.


Contra a República Checa, o golo de Deco é uma invenção da sorte. Durante a maior parte do jogo, e toda a 1ª parte, foram os checos quem jogou melhor e esteve mais perto de marcar. O pontapé de Ronaldo que lhe dá o golo saiu-lhe bem, outros saíram mal. Em certas jogadas, os checos não marcaram por centímetros ou segundos. E que teria acontecido se fossem eles a ficar na vantagem? Não se pode saber. Nunca.

O que se sabe é que Scolari representa o papel do predestinado, por isso não aguenta o confronto com a realidade. O seu mundo é o do mito, e as falhas apenas a maldade dos inimigos. As vergonhosas declarações após a derrota com a Suíça, por si só, dizendo que suíços e austríacos conspiraram para que houvesse uma derrota de Portugal, e que ela tivesse cartões e lesões a prejudicarem-nos, justificariam que fosse chutado do cargo acto contínuo. Também por isso importa seguir a pista do Paulo Querido, indo ter com o Miguel Gaspar. É no seu depoimento, pela boca de Fátima Campos Ferreira, que se corrige a ideia de ter sido Scolari o responsável primeiro, principal e único pelo fenómeno das bandeiras.

Havia em 2003 a necessidade de escolher um seleccionador que levasse Portugal a fazer boa figura no Euro que iria organizar. Escolheu-se alguém à prova de dúvidas, um recém-campeão do Mundo falante de português. O resto, é dinheiro do Estado, jogadores de clubes e povo que iria sempre fazer uma festa. Mas Scolari não ajudou, perdendo o primeiro jogo com uns merdas — o que teve o benefício de o levar a baixar as calças e aceder a imitar o meio-campo do Porto nos jogos seguintes, como todos pediam e ele desprezava. Bastaria um empate com a Espanha, a Rússia, para termos ficado logo pelo início. Bastaria um Ricardo menos abençoado, menos louco, para cairmos nos quartos-de-final. E depois, pela segunda vez, com tudo a favor, a derrota sem qualquer brio na Final. Isto é um falhanço, gigante. No Mundial na Alemanha, um grupo facílimo, o acaso e a sorte, levaram-nos até à meia-final. E foi só. Porque na qualificação para este Euro 2008, Portugal jogou um futebol miserável, feio, sem ideias, e ainda tremeu. Mário Wilson ou Quinito teriam conseguido o mesmo.

Quem mudou o futebol em Portugal tem outro nome: Carlos Queiroz. E tem ano: 1987. Dois anos depois, 90 minutos das arábias varrem Portugal como nunca antes. Éramos campeões do Mundo, com uns chavalos habilidosos finalmente disciplinados. Outros dois anos, outro título mundial e uma festa delirante no antigo Estádio da Luz. Fora o resto, em todos os escalões jovens Portugal a aparecer como potência de referência e hábitos conquistadores. Nada mais foi igual, e aqui nasceu o amor pela Selecção. Desculpa lá, ó Scolari.

27 thoughts on “Scolari, vai-te embora – IV”

  1. Dá vontade de aplaudir o texto quase todo — mas fico pelo fim.
    “Quem mudou o futebol em Portugal tem outro nome: Carlos Queiroz. E tem ano: 1987 […] Nada mais foi igual, e aqui nasceu o amor pela Selecção. Desculpa lá, ó Scolari.”
    Verdade, verdadinha, as mudanças estruturais cavam mais fundo que a cosmética dos sentimentos do adepto (sem desprimor para esta, que também se precisa e poucos a fazem e Scolari fez).
    Embora isto não sirva para invocar o seu regresso para seleccionador agora. Este futebol não é para Carlos Queiroz.

  2. Eu acho que quem mudou o futebol em Portugal foi o Mouzinho de Albuquerque. E o Camões. E o Viriato. Mas chato, chato, chato é o Valupi, que está aqui obviamente a apostar numa derrota nacional. Ainda por cima o título tornou-se ridículo…

    Só li as primeiras linhas e as últimas. Depois levas mais.

  3. Queiroz é uma figura atípica, num clube atípico. Ele falhou no Sporting, e talvez não pudesse nunca ter sucesso no Real Madrid. Se calhar, já está tudo preparado para que substitua Ferguson. E se mantenha 10 ou 15 anos à frente da equipa. Ou, então, para sempre ficará como o adjunto do Manchester, garantindo a unidade da casa nas transições de treinador. Ou não, porque são cargos que implicam boa intimidade. Enfim, que nada se sabe (e ainda bem).

    Mas pelo menos no plano da integridade ele continua a ser uma aposta segura. Assim parece, claro.

  4. Atípico, yes. Não sei se falhou no Sporting, falhou no Real. E falhou no Real porque Queiroz é um treinador de tempos longos, um cientista, e o Real uma máquina de resultados numa época — ou menos.
    Queiroz é um construtor de equipas, o Real é um devorador de jogadores e treinadores.
    Sim — ele TEM de substituir Sir Alex como principal, foi para isso que se preparou, é por isso que aceitou durante este tempo todo ser segundo (e já lá vai mais paciência do que aquela que lhe conheci, nos tempos de 85 e 86 e 87). Não o estou a ver ser segundo de mais ninguém no mundo, nem sequer no Manchester. E muito menos a trocar a paciente preparação de quase uma década por… Gilberto Madaíl, Pinto da Costa e Valentim Loureiro — e estes são os melhores exemplares, se me faço entender.

  5. Tens razão, Paulo, também hesitei quanto ao resultado do seu trabalho no Sporting. Mas eu estive lá naquela tarde de chuva e banho do João Pinto. E a substituição do lateral ainda hoje não foi digerida…

    Também hesito quanto à perspectiva de ele ser adjunto de mais alguém. Só que, lá está, tudo muda – e ele também pode mudar…

    E sim, sim, sim. Madaíl, Pinto da Costa, toda a chusma de vígaros, não se devem poder aturar depois de um banho de civilização.

  6. não é o Scolari que ganha os jogos, Valupi. é o Cristiano Ronaldo e companhia.

    por isso, acredito que estejas enganado (sem patriotismos bacocos). até o Deco quer ganhar…

    só espero que o teu Ricardo não dê casa e não se assuste com o moço que agora é louro, que a uefa lhe deu um jogo de descanso, nem se fie no golpe de vista.

    o scolari é palha, bandeiras e “caixa”…

  7. Vai-te embora Scolari e leva o agoiro contigo.
    Valupi, fónix, a cena do referendo irlandês ainda calo mas isto é demais.
    E estou com o Nik, ainda venho cá para mais uns tirinhos.
    Eu dou-te a parada e resposta, ò apanha-bolas da treta.
    Bute lá cilindrar os krauts e depois conversamos mais um bocadinho, seu tonto.

  8. Eis-me, de rabinho entre as pernas, a dar a mão à palmatória.
    Pró ano é que é!
    (ai não, isso é o Benfica…)
    Daqui a quatro anos é que é!

  9. É como dizes, luis eme, não é o Scolari que ganha os jogos. De facto.
    __

    shark, não tenhas dúvidas: o próximo treinador, e seja ele quem for, vai pôr a equipa a jogar muito melhor. E por esta simples razão: pior é impossível.

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