Uma campanha alegre

A revista Happy Woman está há uns meses com uma excelente campanha publicitária. Encontro-a nas carruagens do Metro e consiste em anúncios para ler. Só por isso, por não se limitar à convencional fórmula da frase em cima de imagem, tem um mérito que justificaria 3 ou 4 medalhas daquelas que os presidentes da República distribuem no 10 de Junho lá por razões que só eles entendem e que ninguém perde tempo a discutir. O mais importante nas peças da campanha, todavia, é o acesso à psique feminina. Os textos são listagens de gostos relativos a um universo de temas variados e contrastantes. E será preciso pertencer ao grupo de tontos que continua a festejar o resultado do referendo na Irlanda para não dar o devido valor às informações que estão a ser generosamente veiculadas pela revista. Da peça actualmente exposta, eis as 3 revelações que mais me impressionaram:

Gosto do Freud

Gosto de pensar alto

Gosto de dizer “panóplia”


Não chegaria lá sozinho, confesso sem vergonha. Nunca ouvi a mulher alguma, onde incluo a minha santa mãezinha e a tia Graciete, a vocalização de qualquer afeição pelo Freud, sequer estima passageira, e temo pensar nas consequências de tal gosto para a sã convivência com senhoras nessa condição e fama. Tal como não poderia conceber, nem recorrendo à desvairada imaginação, que as mulheres gostassem de pensar alto. É daqueles fenómenos que devem ocorrer exclusivamente em casas-de-banho e balneários públicos onde ainda se pratique a segregação sexual. Quanto a gostar de dizer “panóplia”, que dizer? Como lidar com a formidável descoberta? A mente masculina esvazia-se, viaja para um outro tempo; aquele em que Freud, precisamente, deixou a imortal pergunta: Carago, mas que querem as mulheres? E, chegados aí, é inevitável começar a pensar alto — panópliapanópliapanóplia… É um mantra, feitiço, diabólico dispositivo militar feminino onde a masculinidade arrisca vexante derrota lexical.

Numa categoria à parte — mas que, em simultâneo, subsume e transcende os três exemplos anteriores — coloco a seguinte declaração:

Gosto de pensar na solução para o conflito israelo-palestiniano

Recordo-me de ter sustido a respiração quando li pela primeira vez esta frase. E não consigo relê-la sem novo concubinato de sensações espasmódicas. Mas o facto permanece, insólito e soberbo: há leitoras da Happy Woman que não só têm soluções para o conflito israelo-palestiniano, que as têm, como são também detentoras do gosto, quiçá do gostinho, de pensar nas ditas. É de maravilha esta notícia. Mas, alto!, a frase aparece imediatamente antes de Gosto de sair sem pressas, e imediatamente depois de Gosto de narizes de palhaço. Maneiras que estaremos perante uma inscrição do tal pensar alto? Serão legítimas leituras freudianas do conflito israelo-palestiniano à luz das mensagens sair sem pressas e, especialmente, narizes de palhaço? Abre-se a boceta de Electra, como diria um psicanalista brasileiro suficientemente alcoolizado, e renasce um anúncio transformado em panóplia de escrita automática.

Seja como for, resolvi um problema que me arrasava desde a adolescência: a indiferença das mulheres. Agora, nessas mesmas carruagens do Metro, calhando cruzar olhares com o Eterno Feminino, já não sofro com a distância altiva, solene, fria, que obtenho invariavelmente como resposta aos meus lancinantes olhares de cachorro mal-morto ou carneiro abandonado. Já não penso que sou um desgraçadinho, condenado a uma existência infame onde o único consolo seria criar piadas sobre a ASAE e seus dedicados agentes, acabando por ter de vendê-las ao Cavaco. Não. Parto é logo para a conclusão mais óbvia:

Malditos Montes Golam!

15 thoughts on “Uma campanha alegre”

  1. Eu via a minha madrinha a fazer o cordão (é por aí que se aprende) e eu teimosa disse-lhe que queria aprender isso nessa tarde (nada de cursos prolongados) e casmurra aprendi o cordão numa tarde. Depois, passei aos fechados e abertos ;-P E dos quadrados, passei às rosetas (de certeza que o Valupi não entende nada disto). LOL
    Com estas brincadeira, fiz umas tantas de almofadas toscas (as primeiras) e uma toalha magnífica, redonda, que todas as velhotas da aldeia se fartam de gabar quando a vêem.

    Ai como é bom ser mulher! LOL

  2. Fiquei a pensar nos misterios (problemas) da adolescencia… Cresci num ambiente contraditorio: por um lado rodeada de uma familia sobretudo feminina em que se sentia um elogio silencioso às mulheres que trabalham e ficam com os filhos depois de divorcios mais ou menos dificeis, por outro uma outra silenciosa mensagem de que somos todos mais ou menos iguais (esta descrição não está a sair muito bem…)

    Agora sinto-me a explodir para uma outra adolescencia tardia em que descubro com misto de surpresa e choque: os homens e as mulheres são mesmo diferentes.

    Mas não consigo pôr mesmo as palavras nos is, então sentir essa diferença faz-se como um constante jogo de adivinha. Por isso, gosto de ter no mundo “Happy Women” e a possibilidade de “Happy Man”. Porque podem acertar numa franja qualquer da verdade…

    Por exemplo: acho que as mulheres pensam alto. Não é um fenómeno que ocorre em locais onde ainda se pratica a segregação sexual mas não é sempre facil de identificar… okay estou a sentir-me a dizer uma coisa cretina… mas acho mesmo que falar é uma forma de pensar alto… e que as muheres exploram esse lado da conversa mais que os homens…

  3. claudia, a minha mãe ensinou-me a fazer cordão aos 7 anos e aos 10 já fazia crochet e tricot. aos 15 produzia camisolas com desenhos irregulares em duas semanas. deixei-me disso. era uma actividade que se fazia muito em conversas na sala e sessões de televisão, mas dava cabo das costas.
    quanto ao valupi tenho a certeza de que um dia aprenderá algumas destas tarefas, se não outras. toda uma panóplia, que lhe permitirá pensar alto na partida que freud lhe terá feito para se encontrar em tal situação.

  4. Eu só aprendi quando vim para Portugal aos 9 anos. Tricot, não. Aquelas agulhas todas e as peúgas que saíam de lá – eu achava aquilo feio (eu era trenga, eu sei). A minha mãe ainda me quis pôr na renda de bilros em Vila do Conde, mas, como tivemos que voltar para França, não cheguei a aprender.
    Concordarás comigo que é algo que nunca se esquece. Há anos que não pego numa agulha e em novelos, mas sei que sei fazer :-) Tu também, claro. :-)

    Beijocas.

  5. claudia, mas a ideia não era a de generalizar. Ao contrário.
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    HJC, concordo!
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    susana, podendo escolher, espero aprender outras.
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    Comendador, e a Monica já sabe disso?
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    dina, concordo que o conversar, nas mulheres, seja um pensar alto. Mas ter ido por aí não me permitiria a construção de uma piadola sem graça.

    Quanto à consciência de que mulheres e homens têm algumas diferenças, bem-vinda. Vais ver que a vida se simplifica muito quando vista pelos olhos do outro.

  6. já eu, sempre fui dez polegares e aqueles arpões com cabo nunca me inspiraram confiança alguma.
    Qual era mesmo a pergunta?!
    Ah os “gosto de” da Happy. Assunto que, como se nota, dá pano para mangas, também já andei aparvalhada a ler o saco. ;)

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