Arquivo da Categoria: Valupi

Bento enigma

Depois de um grupo de melancias ter sido corrido a tiro de Alvalade, Bento tem de ficar até ao fim da época, pelo menos. A sua permanência tornou-se numa causa leonina.

Quanto à equipa, toda a minha gente, do treinador ao presidente, passando pelos jogadores e pelo relvado, diz o mesmo: a situação está difícil. Não se diz é porquê. E talvez seja melhor assim, arriscavam a que a situação ficasse ainda mais difícil se mostrassem não saber como a explicar. Porque, de facto, não sabem.

O que ele queria era uma pirâmide

No último Câmara Clara, onde bem se fala dum português demasiado independente e brilhante para que alguma vez se torne popular, aparece Alegre a dizer que não entende quais são os critérios para ficar a repousar no Panteão Nacional. E, sem perder o embalo, pergunta por que não há um panteão dos poetas. É que tudo lhe pareceria mais fácil.

Eis o que proponho ao PS: ofereçam-lhe um mapa de Portugal e mandem-no procurar o local ideal para a construção do futuro Panteão Nacional dos Poetas. Isso irá ocupá-lo nos próximos 10 a 15 anos.

As armas e os barões assinalados

Tal como Marcelo aqui se esforça por dizer, o PSD vive em guerra civil irreversível. Os barões utilizam as suas armas uns contra os outros, desprezando o futuro do partido com o mesmo entusiasmo com que têm desprezado o futuro de Portugal.

A irrelevância do PSD é total. Nem conseguem fazer oposição, nem servem para governar. Mais valia que fossem até à Taprobana, sem pressa de regressar à ocidental praia lusitana.

Videotecas municipais

Cada município devia ter uma videoteca produtora. Podiam começar por copiar esta da minha cidade. É tão fácil, tão barato, recolher e criar imagens que só falta alguém mostrar aos poderes autárquicos as vantagens culturais – leia-se, políticas e económicas – do apoio municipal à produção vídeo. Seria um serviço de extraordinário valor histórico e científico encontrar o Michel Giacometti dos filmes em cada concelho. O acervo recolhido, para lá da importância documental, seria também um chamariz turístico. Igualmente no campo artístico, a produção municipal poderia gerar obras que unissem o mérito intelectual com o prazer estético, transformando memórias em esperanças. Como nesta lista. E como neste belíssimo exemplo:

Continuar a lerVideotecas municipais

Ironia Oculta

Quatro dias antes da inventona de Belém ter sido lançada, 14 de Agosto, Aguiar-Branco deslocou-se ao Algarve para oferecer um discurso de quinze minutos à comunicação social. Levava propostas para o desenvolvimento do País, esperança para os portugueses? Se levava, nada disso subiu ao palco da Festa do Pontal. Mas os minutinhos foram bem aproveitados. O actual líder parlamentar do PSD fez o discurso mais nojento de toda a campanha, despejou vis insinuações à boca cheia. Insultou a democracia usando o caso Freeport, os contentores de Alcântara, o computador Magalhães, a Fundação das Telecomunicações, a TVI. Disse que o PS tinha uma visão sovietizada e que o Governo estava sob suspeição. Só não falou na mãe de Sócrates, e no apartamento dos mafiosos, por manifesto esquecimento. Depois deu um forte abraço ao Bota e ala de volta para a Manela. Estava feito o servicinho preparatório, o Zé Manel trataria do resto.

Continuar a lerIronia Oculta

Cineterapia

How Green Was My Valley_3
How Green Was My Valley_John Ford

Nós, os fordianos, somos uns lamechas. Não resistimos a uma justa e longa greve, especialmente se for de mineiros galeses. E ficamos encantados quando se castiga o clérigo odioso. Derretemo-nos se alguém faz frente à hipocrisia, maldade e cobardia do puritanismo. E que dizer de uma boa sova num mestre-escola psicopata? Enche-nos a alma de entusiasmo e faz-nos soltar olímpicas gargalhadas. São assim os fordianos, perdidos de amor pelo divino coração do povo, pela humana justiça de Deus.

Este colosso de ternura luminosa cometeu o sacrilégio cinéfilo de ter roubado o Oscar de Melhor Filme a Citizen Kane, a obra-prima que estava destinada a tornar-se, décadas mais tarde, no cliché de ser o melhor filme de sempre. E Ford ainda se agarrou ao Oscar de Melhor Realizador, num páreo que incluía gabirus do tamanho de Orson Welles, Hitchcock, John Huston e Howard Hawks. Para o vexame ser completo, tratou-se de uma dobradinha nesta categoria, no ano anterior tinha ganhado com The Grapes of Wrath. Enfim, esperar que a Academia tenha os critérios de gosto dos Cahiers devia estar sujeito a pesada multa.

O Vale era verde, mas foi filmado a preto-e-branco. O Vale era em Gales, mas foi filmado na Califórnia. O Vale era uma adaptação de um romance, mas transformou-se no romance da adaptação de cada um à imortalidade do que ama e de quem ama. Mas se achas este paleio demasiado lamechas, contemplar os estonteantes 19 anos de Maureen O’Hara chega e sobra para entrar no Vale.

Rangel, um farol para o PSD

Paulo Rangel é o maior bluff do PSD, nesta época 2009/10. Fez uma campanha ridícula para as Europeias, cujo única força esteve nas prestações televisivas onde o terrorismo verbal, próprio das suas intervenções parlamentares, serviu como injecção de testosterona numa partido desvitalizado e depressivo. Mas quanto a relevância no discurso ou carisma na presença, zero. As sondagens eram o retrato fiel do que valia. Depois, aconteceu um imprevisto fenómeno de absentismo que castigou o PS e deu a vitória ao PSD. Os elogios que se fizeram a Rangel, o desvario dos festejos na Lapa, até o louvor a Ferreira Leite pela acertada escolha do candidato, foram reacções delirantes, próprias dos grupos que preferem a fuga à realidade.

Nesta entrevista, vemos somente um tecnocrata do carreirismo político. Não tem nada para dar a Portugal. Ainda por cima, está no PSD apenas por ser este maior do que o CDS em poder político, não por adesão ideológica seja a que projecto for. Acaso estes partidos trocassem de dimensão, Rangel trocaria imediatamente de camisola. O seu posicionamento já é de porteiro, com um pé dentro e outro fora, repetindo a agenda de Portas.

Um militante deste calibre nada quer arriscar, é tudo pela certa. Não? Foi para líder de bancada em situação de desespero da mesma, depois desta ter sido reduzida a escombros por Sócrates. Se ele falhasse, ninguém reparava nem lhe pediria contas. Se meramente conseguisse não ser humilhado, o partido gritaria vitória. Foi para as Europeias como último recurso, se falhasse a culpa era de quem o tinha escolhido em cima da hora, não do pobre coitado. Agora, este exemplar de raça barrosã prefere ser assalariado lá fora a ganhar a vida ajudando Portugal. Por uma razão demasiado óbvia: ele tem primeiro de queimar Marcelo e Passos Coelho antes de avançar. Espadas de Dâmocles só de plástico.

Rangel corporiza o modelo clássico do político à portuguesa, paradigma que o PSD exemplarmente cultivou: licenciados em Direito, cínicos, sanguíneos, de chã ambição. A sua agressividade verbal simula uma capacidade de liderança que a intuição não confirma. A facilidade com que mente, e a grosseria das mentiras, é demasiado obscena para sequer ter direito a um período de dúvida expectante. Mas ele pode ser muito útil para a politica nacional: basta vê-lo como farol, faiscando no breu tempestuoso onde navega o PSD, e saber que ir na sua direcção é ter a certeza de acabar naufragado ou encalhado.

Varados

Ranhosos e imbecis rejubilam com as fugas ao segredo de Justiça e chafurdam no facto dos cidadãos poderem ser constituídos arguidos sem terem de passar pelas demoradas condenações.

Ah, que pena a vara ser tão curta.

Plano Nacional de Vacinação anti-Pacheco

Uma vacina é feita com o agente patogénico. Neste caso, vamos usar esta sequência genética: POIS É, JÁ HÁ MUITO TEMPO QUE SÓ SE TRANSMITE FOLCLORE TRANSMONTANO.

E comecemos pelo fim:

Mas seria profundamente errado pensarmos que é aqui que a “claustrofobia democrática” é mais grave. É no homem comum, que tem medo de perder o emprego, no pequeno empresário que teme perder uma encomenda porque refilou com as dívidas do Estado ou o fisco ou a ASAE, no funcionário público que sabe que tem que agradar ao chefe do PS, no jornalista que questiona o pack journalisme é logo afastado da “política” por se suspeitar que “está feito com o PSD”. É no homem que tem o direito de viver num país livre, com uma comunicação social crítica, com uma informação equilibrada, e nem sequer se pode aperceber até que ponto está a ser, todos os dias, manipulado com “folclore transmontano”.

Assim termina o milionésimo manifesto anti-situacionista do agent provocateur da Marmeleira, agravando uma situação pessoal repetitiva cada vez mais desgraçada; especialmente por estarmos em período pós-eleitoral e ainda ninguém o ter avisado. A novidade é ver Pacheco assumir que fala em nome do homem comum. E o que é o homem comum, para um homem tão incomum? É alguém que está paranóico, explica. Um ser que vive atemorizado, silenciado, olhando com pavor para os cantos e as sombras nocturnas. Um leitor regular da Helena Matos e do João Gonçalves, inevitavelmente. Teme ser seguido por operacionais da ASAE especialistas em comentários contra o Governo, comunica com os amigos e colegas por gestos, vai para a cama calçado e mete a caçadeira debaixo da almofada. Deste cenário de terror salta a provável fonte da inesquecível denúncia da Manela no final da campanha para as Legislativas, quando alertou os eleitores para o facto de poderem ter a sua correspondência violada pelo Governo. É uma imagem que faz jus ao génio intelectual do Pacheco, essa de imaginarmos Sócrates, trémulo e alucinado, a rasgar envelopes numa cave dos CTT. Foi deste material que se fez a psicose chamada Política de Verdade, a tal salvação anunciada com a passagem de uma estrela decadente pelos céus de Belém.

Continuar a lerPlano Nacional de Vacinação anti-Pacheco

Carambolas

O Filipe integra-nos num novo grupo chamado blogues agregados e regista que em nenhum deles se falou da notícia do dia. Porém, não identifica a dita. Qual terá sido? Fazes alguma ideia?

O mais engraçado nestas três tabelas, et pour cause, é a certeza de o Filipe também não ser capaz de revelar qual foi, afinal, a notícia do dia 29 de Outubro de 2009.

Queridos velhos, queridos mortos

Já Aristóteles se queixava, ou meramente registava, que os velhos eram desprezados. E com razão, a velhice é um absurdo biológico. O velho custa, no duplo sentido do termo. Os avanços na medicina, e na higiene, agudizaram esse prolongamento da decadência do corpo. Um corpo incapaz de se reproduzir, provavelmente incapaz de produzir, talvez incapaz de contribuir. Com a migração para as cidades, veio o grande isolamento dos velhos; metidos nos lares, uns, abandonados, outros. À sua volta, o consumismo mediático celebra um erotismo cada vez mais precoce e agressivo. Esta é a história desde os anos 50, a década que inventou a juventude como ideal social. A libertação sexual e política dos anos 60 consumou a mudança de paradigma. Não ser jovem passou a significar ser velho, passou a ser visto como doença, passou a ser vivido como vergonha.

A Europa envelhece, Portugal envelhece. Os velhos aumentam de número e de anos de vida, aumentam em capacidades e apetites. Fala-se em prolongar a idade da reforma e actualizam-se as classificações. Hoje, morrer aos 60 é morrer novo. Morrer aos 70 é morrer cedo. A morte sempre a ser chutada para a frente. Para os 80, vá lá. Para os 90, está bem. Dentro em breve, para os 100, pronto. Mas ninguém se esquece da ambição primeva, a imortalidade. Menos do que ela será dano fatal. O animal que criou os deuses não irá parar enquanto não lhes fizer companhia.

Não dignificamos os velhos se fizermos das suas fragilidades um tabu. Pelo contrário, devemos usar da mais implacável lucidez no trato com esses seres que nos enchem de coragem ao suportarem as debilidades que irão ser as nossas. Pois as diferenças são ilusórias, somos todos velhos, todos jovens, todos outra coisa que não tem a idade do tempo – que é uma melodia, uma vibração. Como neste exemplo aqui em baixo, onde um jovem de 84 anos tenta ajudar um velho de 36. Não consegue, mas as lições continuam à disposição dos que não confundem a lata com a sardinha; como ensinava o meu querido velho, querido morto, Agostinho da Silva.

Continuar a lerQueridos velhos, queridos mortos

Um adolescente cheio de força e sonhos

O marketing digital fez ontem 15 anos. Começou a dar bandeira com um banner. Hoje, confunde-se com a própria essência da Internet, como o Google poderá explicar a quem lá passa todos os dias, muitas vezes ao dia. E vai ultrapassando, em valores de investimento e conhecimento dos mercados, a publicidade e media tradicionais.

Ironia da História, este capitalismo 10.0 dá a todos a possibilidade de serem autores e produtores. Uma cultura comunitária cresce em ambiente democrático e igualitário, onde qualquer um pode discursar criativamente, sem os constrangimentos sociais e psicológicos das interacções presenciais. É confuso? Sim, mas só durante o período de adaptação. Depois, faz o que se espera de qualquer tecnologia: aumenta a nossa liberdade.

Quanto tempo falta para podermos agradecer ao Paulo?

Temos muito para agradecer a Paulo Bento. E desejamos que ele tenha uma carreira pejadinha de sucessos. Entretanto, Guimarães fica como o fim da linha. E o problema não está no resultado (ide falar com o Real Madrid, a equipa mais cara da Via Láctea, acerca do tópico “resultados”), nem na qualidade do futebol (o futebol é sempre lindo quando se ganha). O que assinou a guia de marcha foi esta declaração:

Fomos castigados pelo que não produzimos na primeira parte e pela forma algo irresponsável como encarámos o jogo.

Pelo que a questão é a seguinte: que leva moçoilos de sangue na guelra e muito dinheiro para gastar, cuja actividade laboral diária consiste em dar uns toques na bola e fazer ginástica, a serem irresponsáveis na gestão das benesses de que usufruem? Preferem trabalhar numa seguradora, na construção, num bar de alterne? Deram-se conta de que a sua profissão é fútil e vão recomeçar a estudar, vão para doutores? Há uma virose depressiva no balneário e estão de tal forma desanimados que deixaram de se responsabilizar no relvado? Qual a causa da abstrusa irresponsabilidade, pergunta um sócio com as quotas em dia desde 1980.

Esta moda dos treinadores dialogarem com a equipa através da comunicação social não ajuda ninguém. Nem os jogadores, tratados como cachopos, nem o treinador, que se transforma num comentador em vez de assumir-se como o chefe, nem os adeptos, que se alimentam de mística, não de psicanálise. Haja alguém que institua esta escola de ser sportinguista ao serviço do Sporting, e outro leão rugirá – isto é, finalmente o leão rugirá.

Bento, gostámos de ti, mas tu não gostaste de nós. Obrigadinho e felicidades.