Arquivo da Categoria: Valupi

Gazeta do optimista

– Temos eurodeputados a declarar no Parlamento Europeu que em Portugal já não vigora o Estado de direito, que a liberdade de expressão foi abolida e que o Governo quer rivalizar com o Balsemão.

– Temos a Presidente do maior partido da oposição desasada a pedir às agências de rating para darem cabo da economia nacional.

– Temos a CGTP, o PCP e o Bloco prontos para barricarem as ruas e derrotarem o capitalismo, o imperialismo e os fachos do PS.

– Temos jornalistas que gozam com deputados no próprio Parlamento e depois vão para a televisão gozar com os espectadores.

– Temos um Presidente da República que gastou as suas energias nos meses que antecederam as Legislativas, um tempo em que a ética e a transparência punham na ordem o Governo corrupto.

– Temos um Procurador-Geral que não presta porque não alinhou numa golpada.

– Temos o Benfica mais forte dos últimos duzentos anos.

– Temos o Sporting mais forte das últimas duas semanas.

– Temos ainda mais dez meses do melhor 2010 de sempre.

Perguntas do camandro

Este artigo faz a seguinte pergunta:

Será que a promiscuidade impede a extinção?

A resposta é relativa ao reino animal, sem aplicação para humanos. Contudo, e recentemente, estudos sobre o adultério revelaram uma paisagem genética muito mais poliândrica do que a moral das esposas e a auto-estima dos maridos preferem admitir.

Os genes são uns marotos.

Senhores da Guerra

Paulo Pinto de Albuquerque escreveu mais um libelo contra Sócrates. Ele diz que o Procurador-Geral errou e que o caso pode ir parar ao Tribunal de Estrasburgo. Pelo meio, aconselha a que se faça queixa, a partir das escutas, para a abertura de um processo criminal, e ainda que se peça a inconstitucionalidade da decisão de Pinto Monteiro. Chega ao ponto de citar uma passagem das escutas publicadas ilegalmente para sustentar a sua posição. Ou seja, declara que gostaria de ver Sócrates passar os próximos 20 anos entalado entre a PT e a TVI.

Acontece que ele pode ter razão. Em tudo. Sei lá eu. Afinal, estamos perante um doutor das leis, um cromo da jurisprudência. Só há uma coisinha que me baralha no seu comportamento: fará sentido usar a ilegalidade para fazer política em nome da Justiça? Se sim, o actual ganha-pão do Pinto de Albuquerque tornar-se-á rapidamente obsoleto.

Continuar a lerSenhores da Guerra

Rugido

Uma bizarra Associação de Adeptos Sportinguistas invocou o conhecimento de escutas a Pinto da Costa de forma a apelar à hostilidade para com o Futebol Clube do Porto em Alvalade.

Acontece que esta associação foi criada em 2008, e acontece que pago as quotas do Sporting, ininterruptamente, desde 1980. Isso faz com que eu tenha um balanço de 28 anos para dizer o seguinte aos gajos da AAS: na parte do estádio que me couber, esse cm quadrado, prefiro ter sentado o Pinto da Costa a suportar a peidola de quem finge ser Leão.

Being Earnest

Tudo é mais complexo, e mais simples, do que nós imaginamos. No caso do Pacheco Pereira, é mais simples. A mitologia à volta deste homem conta que estamos perante um intelectual influente no curso político dos últimos anos. Admito que sim, tendo em conta o seu currículo, a sua ubiquidade mediática e o seu poder partidário no consulado de Ferreira Leite. A ser assim, então a política nacional é passível de ser influenciada por um desavergonhado irresponsável. Quando ele escreveu que no Aspirina B pululam empregados do Governo, e incluiu o blogue numa frente da calúnia da qual nunca exibiu um só exemplo das ditas, eu (pelo menos eu, mas admito que muitos outros) fiquei a saber algo a respeito do Pacheco que não iria descobrir enquanto mero espectador das suas actividades. Desafiado a provar a acusação, saiu-se com mais um jorro de petulantes e desvairadas indirectas, incapaz de assumir a responsabilidade por uma opinião vendida.
Continuar a lerBeing Earnest

Guerra Civil – II

Portugal divide-se entre aqueles que se vão lembrar de Sócrates ter sido o primeiro chefe de Governo a depor na Assembleia da República e aqueles que não se vão esquecer de Sócrates ter sido o primeiro chefe de Governo a ser alvo de espionagem política a coberto de uma investigação judicial.

Ser do PS aumenta a inteligência

Quem não é do PS não precisa de se esforçar. Todas as suspeições contra Sócrates são acolhidas e festejadas. Os boatos chegam para ter certezas acerca do seu carácter, responsabilidade, honradez.

Quem é do PS, militante ou simpatizante, está sempre na berlinda. Tem de lidar com as sucessivas campanhas e manobras de destituição de Sócrates. O resultado é um permanente exercício analítico e reflexivo onde se interpretam notícias, declarações e comportamentos.

Conclusão: qualquer estúpido repete uma calúnia e ataca sem provas, mas é preciso ter uma inteligência robusta para defender a Cidade da invasão dos bárbaros.

A Última Famel

Fui ontem assistir à estreia, em Lisboa, do filme de Jorge Montereal. Uma produção a custo zero, feita com a generosidade e entusiasmo da equipa e de quem lhe deu os apoios.

A palavra despautério foi inventada já a pensar nesta obra. Entra directamente para o top do burlesco nacional. E com uns pequenos toques até ficaria parecido com um filme para levar muito a sério.

Vais gostar. Mas não é possível antecipar porquê nem do quê.

Génio de Carvalhal

Coitadinhos dos bifes. Caíram na genial armadilha do genial Carvalhal. Tudo começou em 20 de Janeiro. Sá Pinto e Liedson representam uma farsa onde simulam ofensas e agressões. Ninguém suspeitou de nada ao tempo. Seguiram-se as desgraçadas derrotas e humilhantes empates. Todos acreditaram que a equipa estava acabada, incluindo o próprio Carvalhal que era o autor deste plano. Por fim, um 1º jogo com o Everton onde se deixa no ar que eles poderiam vir até Lisboa a passeio. E assim foi: entraram no jogo com a clarividência de duas cabeleireiras de Brighton depois de três garrafas de Mateus Rosé. E pronto. Veloso, Saleiro, Djaló, Moutinho e Pedro Mendes resolveram a coisa em 30 minutos.

Segue-se o plano para esmagar o Atlético de Madrid. Coitados dos espanholitos.

Guerra Civil

A Sábado publicou aquele que pode ser um casus foederis para, finalmente, se abanar o sistema de Justiça para além da sua capacidade de reequilíbrio. A notícia expõe a interpretação de Aveiro acerca dos acontecimentos que levaram às decisões de Pinto Monteiro. E diz isto: o Procurador-Geral é cúmplice de uma conspiração criminosa destinada a proteger o Primeiro-Ministro, sendo este também responsável por outra conspiração criminosa. A partir daqui, há vários corolários:

– Magistrados e Judiciária em Aveiro consideram lícita a utilização da comunicação social para atacarem o Governo, a Procuradoria-Geral, colegas e cidadãos através da divulgação de escutas não sujeitas a defesa legal, sequer a contraditório dos visados.

– A gravidade desta suspeição, caso não seja desmentida pelas autoridades nela mencionadas, é matéria para comissão parlamentar de inquérito, obviamente, mas também para Conselho de Estado. Se o Presidente da República aparece alvoraçado a pedir transparência e ética por causa de um negócio entre privados que nunca chegou a acontecer, e se faz declarações solenes para falar dos Açores e dos seus emails, está política e moralmente obrigado a pronunciar-se sobre a notícia da Sábado.

– Não pode haver empate neste confronto Aveiro-Lisboa. A radicalidade da suspeição é fatal tanto no caso em que se confirme como no caso em que se infirme.

A Justiça é unanimemente apontada como um dos principais problemas de Portugal, tanto pela sua morosidade como pela sua ineficácia. Tem sido também um sistema cheio de vícios antidemocráticos, onde os magistrados se sabem blindados com protecções e vantagens exclusivas – acima da sociedade, dos partidos e até do Governo. Neste conflito onde uma comarca judical abriu uma investigação contra o Primeiro-Ministro em ano eleitoral, temos visto esta ferida sistémica infectar cada vez mais, os tecidos corroídos até ao osso. Só que o osso não é uma entidade abstracta chamada Regime. O osso é o Povo, o Soberano.

Aveiro, ao lançar estas suspeições, declara guerra aos fundamentos do Estado de direito. Seja por manobra política de alta escala ou peçonha vaidosa de uns quantos, está posta em causa a legitimidade do edifício da Justiça e sua hierarquia. Presidente da República e partidos têm de tomar posição. Este não é tempo para limpar armas, embora seja sempre bom conselho que se faça pontaria com calma.

Asfixia alvar

O grupo de expedicionários que foi para a frente da Assembleia da República fazer número (um número à volta do algarismo 30), num protesto contra o plano de Sócrates para comprar televisões, jornais, rádios e castanhas assadas com dinheiros das empresas públicas, continua activo? Trocam inflamados emails? Estará na calha um blogue para denunciar o engenheiro? Já marcam presença no Facebook? Vão fazer novas manifestações? Irão juntar-se num lauto e festivo almoço em 2011 para comemorarem o 1º ano do movimento que libertou Portugal?

Será uma pena se essa união nacional deixar aburguesar-se e desmobilizar.

Quando o telefone toca

Henrique Monteiro, na Comissão de Ética, repetiu o que andamos a ouvir há três anos dos guardiões da Verdade, e o que ele próprio já tinha contado na altura: que Sócrates, em certas situações, ligou para directores de jornais. Pelos vistos, com o Henrique só aconteceu uma vez; ou teria contado mais histórias. E o episódio diz respeito a uma suspeição que visava apenas atacar o carácter do Primeiro-Ministro, não a tópicos de política partidária ou governativos.

Estamos perante uma pressão? Estamos. Mas do género baixa pressão, daquelas onde se mete muita água. Para começar, o telefonema relatado foi privado, o que também pode sugerir intimidade, ou confiança, ou respeito, ou hombridade. E eis o extraordinário: terá durado hora e meia. Hora e meia, mais coisa menos coisa, são 90 minutos. 90 minutos para fazer um pedido manhoso? 90 minutos para fazer uma ameaça? 90 minutos para fazer uma chantagem? Que tipo de pressão telefónica demora 90 minutos a ser realizada? Diria que Monteiro não pode servir a Deus e ao Diabo: se a conversa era para o pressionar de qualquer forma ilegítima, teria tido curta duração; se a conversa se arrastou por hora e meia, foi do interesse do pressionado.

Não têm conta as bocas de notáveis acerca da normalidade das pressões sobre jornalistas. É matéria de manual escolar. E nem vale a pena tocar na promiscuidade das relações entre a política e a comunicação social, monumento à simbiose. No entanto, Henrique Monteiro elegeu uma conversa com Sócrates como exemplo de uma grave intromissão na liberdade de imprensa. Fica provado que é um incorruptível, mesmo quando o fazem falar ao telefone durante hora e meia.

Why The Media Seems Biased When You Care About The Issue

Este artigo recorda um estudo dos anos 80 que expõe o mecanismo pelo qual nascem polémicas à volta da cobertura noticiosa dos assuntos que mais nos importam. A conclusão é a seguinte:

– Quando estamos envolvidos numa questão, tendemos a radicalizar a nossa posição de forma a vermos o assunto a preto e branco.

– Uma cobertura equilibrada, isenta, dessa questão irá parecer cinzenta; logo, iremos reparar no que falta e no que se opõe, não no que lá está e com o qual concordamos.

Enfim, só vemos o que queremos ver, não o todo que está à vista.

Sócrates fan club

Não existem socráticos. Ou melhor, os socráticos são os que detestam Sócrates. São eles que passam os dias em exaltada obsessão com o engenheiro. Os dias? As horas. A quantidade de textos produzidos contra Sócrates é avassaladora. Nada mais existe para estes infelizes a não ser a magnífica presença do Primeiro-Ministro, motor imóvel da sua fúria.

Sócrates não tem um discurso messiânico, não gosta de se ouvir, não tenta sequer agradar à multidão. O seu discurso é simples e energético, mas nasce de factos, de números, da realidade. Claro, será apenas uma versão da realidade, como é inevitável para seres humanos, mas não se furta ao confronto com outras versões e luta para defender a sua. Há mal nisto? O único mal é não conhecermos melhor as versões concorrentes, entretanto esquecidas na voragem do culto a Sócrates, o Grande Satã.

O PS gosta de Sócrates, mas não lhe presta culto algum. Se ele sair, ou quando ele sair, muitos socialistas sentirão alívio, outros desforra. A maior parte, a enorme parte, contudo, ficará agradecida por ter estado ao lado de alguém que despertou tanta raiva nos adversários – inequívoco sinal de impotência.

É no que dá não saber perder, fica-se escravo do vencedor.

No teu deserto

Uma vez que as conhecemos não podemos fingir que não conhecemos. Eu, pelo menos, não posso.

[…]

Uma vez que aquilo veio a público, não há como esconder a cabeça na areia…

Miguel Sousa Tavares

*

Este argumento beneficia o infractor. E se ninguém o admitiria se dele fosse a vítima, vendo a sua privacidade exposta e deturpada criminosamente, que falência da inteligência leva tantos a serem cúmplices da publicação de escutas que não devíamos conhecer, ou que não deviam publicar-se de forma incompleta e insidiosa?

Há que o dizer cada vez mais alto e mais vezes: quem viola os direitos dos governantes, ou dos políticos, mais facilmente violará os direitos dos cidadãos comuns. Aqueles que, à esquerda e à direita, não controlam a ambição e o ódio, aceitando que os fins justificam todos os meios, são declarados inimigos da democracia.

O Miguel não admitirá ser inimigo da democracia, antes um seu paladino. Contudo, não é capaz de reconhecer que uma notícia criminosa não pode ser usada contra a sua vítima. Mais valia que enfiasse a cabeça na areia do que dar este espectáculo onde é a areia que se enfia na sua cabeça.