Arquivo da Categoria: Valupi

Forever Old

zzzzazzdggg57.jpg

Velhos são os trapos e a juventude está num farrapo, vincam-nos desde o bibe. A idade como problema dá pano para mangas, alimenta o corte e costura nos corredores, é pesadelo dos colarinhos brancos. Mas as linhas com que se cose o envelhecimento são o resultado do tecido social que nos cobre, sujeito às modas dos estilistas da idade. As concepções do que é ser velho ou jovem, do que seja deixar de ser jovem ou começar a ser velho, têm como pano de fundo uma tábua de valores onde cada um engoma a sua camisa-de-forças. Sem surpresa, no pronto-a-despedir da indústria criativa procede-se à estampagem dos mais sombrios preconceitos relativos à produtividade do geronte. Romper com as limitações, rasgar os medos, desembainhar a ignorância, pede tesouras visionárias.

Continuar a lerForever Old

Blogues que marcam (2)

Em Novembro publiquei uma reflexão motivada por post do Luis. Tive a sorte de receber vários comentários interessantes, mas um deles foi especial. Assinado pelo sharkinho, figura conhecida no circuito, resumia o essencial desta cultura dos blogues: alguém dá um espectáculo à borla, alguém o aprecia por acaso. É de graça, no seu duplo sentido. Este espírito de jogral, pantomineiro, farsista, é o que reconheço em mim, aqui onde tudo pode ser ilusão e delírio, e é o espírito que cultivo nas interacções.

O Fernando fez questão de assinalar o 1º milhão de page views. Foi uma excelente lembrança pela oportunidade de fazer uma homenagem já atrasada. Cumpre destacar duas pessoas nesta ocasião: o Luis Rainha, que fundou este projecto e o viveu a seu modo, apaixonadamente; e o Fernando, não menos apaixonado, supremamente generoso, que nos honra com o seu saber e o amor a Portugal e à Galiza, irmã que guarda parte da nossa herança comum. Foi por causa do Fernando Venâncio, num certo e secreto sentido, que o Aspirina B ainda não se dissolveu nas banais neuroses centrífugas.

Por enquanto, não há resfriado que resista a esta sopa de letras.

Borralho do Referendo — “impor uma moral”

Dos variados sofismas que construíram a lógica do SIM, um deles ganhou especial popularidade. Por ser de simples entendimento, e de entendimento dos simples. Consistia na tese de que a criminalização do aborto era de origem moral (o que está certíssimo), logo deveria ser vista como uma imposição ilegítima (o que é de doidos). Os do NÃO, malvados, estariam a querer impor aos outros a sua moral, eis a denúncia que encheu peitos, papéis e ecrãs. E, se atravessássemos as meninges desses arautos, veríamos seres absolutamente convictos de estarem a descobrir a pólvora — indiferentes aos archotes que agitavam frenéticos.

Para lá do aborto como questão moral, temos aqui a moral como problema cultural e cívico. O argumento que detecta uma moral malsã, por confronto com o suposto direito à amoralidade, requer um sofisticado processo de reflexão. Implica que se recolham primeiro as definições propedêuticas da Filosofia e do Direito, sem as quais tudo o que se diga a respeito será apenas um psitacismo, uma verborreia — uma tanga no país da mesma.

Ora, se é um facto que Portugal é o pedaço mais estúpido da Europa — onde acima de 75% dos habitantes não foram além do Ensino Básico, e os licenciados não chegam a 10% da população; sendo que a cereja no cimo do esterco é a taxa de abandono escolar, a mais alta da União Europeia (a 25!) —, como esperar que desta mole de cabeças duras viesse uma decisão inteligente em questão que até confunde doutores e sábios das mais requintadas, e requentadas, academias? Não veio, mas a grei não tem culpa. Os culpados são alguns dos 10% que burilaram um argumento primário — ópio feito de cravos.

Continuar a lerBorralho do Referendo — “impor uma moral”

Daltónicos

SkinColorScale.jpg

Ninguém se surpreenderá com esta notícia. Porque já todos sabemos dela. Porque só acontece aos outros. E lá longe, parece.

Será mais uma das áreas cinzentas da vidinha; cujos cinzentos, parece, chegam para nos deslocarmos diariamente, sem chocar nas esquinas, sem precisar de contrastes cromáticos, sem ferir os olhos na luz. Achamos que não nos devemos incomodar, com tanta coisa já em que pensar, com tanto com que nos preocupar. Parece.

Zen it, criativo

zazen_19.gif

A ideia de aplicar os princípios do budismo Zen a uma agência de publicidade poderá parecer redundante, tendo em conta o número de criativos que já se consideram iluminados. Acresce ser a iluminação do criativo uma simulação perfeita do verdadeiro satori, estado em que se rompe com o pensamento lógico. Este é um fenómeno para o qual muito contribuem os briefings que recebe, repletos de absurdos, paradoxos e enigmas insolúveis — o que faz deles genuínos koans. Inevitavelmente, tal como na prática do zazen, um criativo tem de passar a maior parte do seu tempo sentado e a meditar sobre o vazio. Com sorte, com muita sorte, terá a ajuda de um mestre sempre atento à sua evolução, numa mistura de doçura e severidade; que no Japão dá pelo nome de Roshi ou Sensei, e que no mundo dos reclames é conhecido por Director Criativo. Até o espaço físico da agência em tudo simula um templo, com as suas zonas para o departamento de contacto e departamento criativo a demarcarem a separação entre o profano e o sagrado. Nem faltam os altares contendo as santas relíquias, estatuetas olhadas com devoção e de onde emana uma aura de pacificação cármica: os cobiçados prémios. De facto, o dia-a-dia numa agência está cheio de rituais e cerimónias, só compreensíveis para iniciados; como as compungidas conversas sobre a porcaria que as outras agências estão a pôr no ar ou a procissão de rostos em júbilo celestial aquando da aparição dos clientes.

Continuar a lerZen it, criativo

Morrer a cantar

cock1.jpg

Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: “Não te vi eu no horto com Ele?” Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo.

João, 18:26

O galo estava num dos terraços do palácio. Todos os que se aqueciam ao redor das brasas, no pátio, olharam para cima, para os salões. O galo andava pela berma do terraço. Dava uns passos e inclinava-se para baixo, como se estivesse a pensar seriamente em saltar. Os servos diziam uns para os outros que nunca tinham visto um galo nos terraços. Os guardas trocavam piadas que misturavam ovos, fomes e as servas da cozinha. Pedro afastou-se do grupo e caminhou em direcção ao portão. Não queria ficar ali, mais, à espera de um homem que nunca tinha compreendido, em quem nunca tinha, sabia-o finalmente, acreditado. Ao sair, uma velha embrulhada na sombra, que Pedro não reconheceu, disse-lhe: “Aquele galo vale mais do que tu. Ele nunca mentiu, e quando morrer vai alimentar alguém.” Pedro respondeu: “Aquele galo não sabe mentir. Mulher, eu já só desejo morrer a cantar.”

Ironia e maiêutica socrática

nikesocrates2003399ut.jpg

Sócrates não tem rivais. Nem na política, nem na opinião publicada. Não há uma única alma que consiga sequer ser credível na crítica ao Primeiro-ministro, quanto mais relevante. É a primeira vez que esta situação ocorre em Portugal. E é uma sorte estar a acontecer.

Os cães ladram e José Sócrates passa, a correr. Isto resume o principal da sua estratégia de comunicação. O episódio de maior notoriedade na aplicação desta filosofia do douto silêncio foi durante a crise da falta de quórum na Assembleia, em Abril do ano passado. De Sócrates, triplamente responsável perante os eleitores e a Nação, nem um vagido foi escutado. Falaram, pouquíssimo, os lugar-tenentes, nem sequer os coronéis deram a cara. E tudo passou, e rapidamente. Uma das maiores vergonhas na política portuguesa pós-25, sintoma de outros vícios debilitantes e letais para a democracia e a Justiça, foi anestesiada e varrida para debaixo do tapete. Em Portugal, a culpa morre solteira, e virgem.

Mas ele faz bem. Aliás, ele faz bem e o povo gosta; que ele faça, mesmo sem saber o quê. A oposição nada faz, e ainda consegue fazer mal esse nada. Do CDS ao BE, o que se exibe é um paradigma onde ser Oposição consiste em tentar, sempre e por todos os meios, prejudicar a actividade do Governo. Para os envolvidos, o processo é viciante, alienante. Quem aponta falhas imagina-se justiceiro, missionário da Verdade e do Bem comum. Contudo, como as falhas apontadas são invariavelmente demasiado técnicas ou insuficientemente legítimas, o resultado é o de suscitarem respostas suficientes da parte dos responsáveis governativos ou não captarem o interesse público. Porque insistirá a Oposição no seu suicídio?

Quanto aos jornalistas e publicistas, não se safam melhor. As críticas à pose e ao modo de Sócrates são a prova da falência da análise, agarrando-se ao despiciendo, ignorando o essencial. E o essencial é isso de Sócrates ser um chefe político que se decidiu a ser gestor do País. Há muito que a ideologia foi enterrada, só os zombies é que o ignoram, e, por isso, nenhum romantismo o move. Conhece a falibilidade e miséria moral dos seus pares de profissão, está vacinado contra o cinismo paralisante das elites portuguesas, e tem a coragem de ousar decidir a seu favor, a favor do futuro. Ou seja, é o primeiro político do século XXI, o século em que a própria política foi metida na gaveta.

Já temos um Sócrates, esperemos pelo Platão, sem o qual a coisa não fica composta, e o qual irá educar Aristóteles. Mas não o procuremos na Oposição; nem no PS, agora que mandaram o Cravinho dar a grande curva. Esses, todos, só têm cicuta para despejar na Cidade.

Os limites do infinito

p0706aw.jpg

Estica-se o braço em direcção ao céu nocturno. Aponta-se ao calhas. E repara-se na porção coberta pela largura de um dedo, o mais à mão. Cabem aí 50.000 galáxias.

Não se sabe quantas galáxias há. Nem se sabe quantas estrelas tem cada uma. Fazem-se cálculos, tenta-se encontrar a média. As contas oscilam entre 200 a 400 mil milhões de estrelas por galáxia. Valor similar para o total de galáxias, 200 mil milhões delas, quentinhas. Se quiserem agora descobrir o número de planetas, façam favor, desatem a multiplicar estrelas por galáxias até que o pensamento saia fora de órbita. Nem deus, assessorado pelas legiões angélicas, conseguiria decorar os nomes dessas extraterras e respectivos apeadeiros.

Vertiginoso espaço cósmico. Dimensões que ultrapassam a nossa compreensão. A cultura ainda não enfrentou as consequências antropológicas e civilizacionais que resultam do conhecimento astronómico — ou do da física das partículas, que é simétrico na vertigem, no espanto. Mas existe no universo um fenómeno que supera em grandiosidade e mistério o conjunto dos átomos, estrelas e galáxias: é o aborrecimento. Aqueles que olham à volta e se sentem fartos ou vazios. Estupendos seres de fazer inveja às potestades celestes. Para eles, nem o infinito é suficiente.

Língua de fora

orelha.jpg

Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.

João, 18:10

Malco recuou dois passos e ajoelhou-se. Ficou a olhar fixamente para o tufo de ervas onde o sangue da sua orelha rasgada caía como bátegas dispersas de chuva negra. A imagem dos olhos alucinados de Pedro, no momento em que avançava de espada na mão, era a única dor que sentia. As vozes à sua volta ficaram sólidas, blocos de granito ondulando em círculo. Não percebia o que estavam a dizer, não queria saber. Surgiu-lhe, radiosa, a memória daquela manhã. Tinha brincado com a filha, fizeram corridas, ele deixou-a sempre ganhar. Quando se despediu, puxou-lhe carinhosamente a orelha. Ela riu, baixando o queixinho, sedoso como os pêssegos que crescem na margem do rio Jordão. E fez-lhe uma careta com a língua de fora.

Volare

1pmdg_cockpit-large.jpg

Um preconceito, ferozmente instituído pelos mesmos que nos anos 50 e 60 começaram a transformar a velhice em estigma e a morte em tabu, acaba de levar um tiro certeiro num dos motores, podendo vir a despenhar-se no futuro próximo. A American Academy of Neurology acaba de publicar os resultados de um estudo de 3 anos com mais de 100 pilotos de aviação. Objectivo: comparar as capacidades dos pilotos em relação à diferença de idades, cujos limites foram de 40 e 69 anos. Descoberta: se os mais novos começam por obter melhores resultados, os mais velhos acabam por conseguir os melhores desempenhos ao longo do tempo. Tendo em conta que pilotar um avião requer mais competências cognitivas do que as exibidas usualmente pelos nossos políticos, patrões e jornalistas, a descoberta é relevante para todo o mercado de trabalho e demais funções públicas.

Para além da inteligência cristalina, temos agora a inteligência cristalizada. A qual pode levar a altos, e seguros, voos.

Define a tua espiral

regaleira4.jpg

Fernando Pessoa é um português como nunca houve, nem ele. Viveu pouco, se medirmos o tempo; viveu demais, se conhecermos a obra. Não precisou de viajar para Paris, Londres ou Nova Iorque em ordem a vangloriar-se de ser moderno, de ter conhecido a civilização. Ele foi, nos passeios da Baixa e margem do Tejo, uma civilização oblíqua.

Pessoa não é só o gigante literário que envergonha o falante de língua portuguesa que nunca o leu, nem a personalidade prolixa que trabalhava em escritórios, ilustrava tertúlias, fazia horóscopos, matava-se com aguardente e escrevia cartas de amor absolutamente ridículas. Também foi um publicitário, um supremo criador a fingir de vulgar criativo. E quis a ironia das circunstâncias que trabalhasse a marca mais importante na História das marcas, a Coca-Cola. O Quinto Império ao serviço do novo imperialismo, o consumo.

Continuar a lerDefine a tua espiral

T.P.C.

O Traz o PÚBLICO para Casa de hoje justifica-se pela leitura do que Francisco Teixeira da Mota oferece à Nação. Um dia, mas quando?, a melhor parte de nós vai querer começar a salvar Portugal pela Justiça. Até lá, é a palhaçada.

Die Grosse Stille — Philip Gröning

into-great-silence-die-grosse-stille-poster-0.jpg

Por vontade desse semideus chamado Paulo Branco, quem for ao NIMAS passar os 169 minutos de O Grande Silêncio, e ficar o tempo todo sentado naquelas cadeiras, vai sofrer mais do que os sacrificados monges cartuxos que cirandam pelo ecrã. Que é feito dos intervalos? Nem num filme de quase 3 horas se permitem 10 minutos para aliviar o stress muscular, metabólico e mental? A estupidez da ganância cega os distribuidores para as evidências. Há um público de milhões que pode frequentar os cinemas. Essa gente é constituída pelos mais díspares indivíduos, mas comunga de um desejo que a todos une: o gosto dos outros. Ir ao cinema, mesmo quando se vai sozinho, é uma experiência comunitária. Tem elementos rituais que são análogos aos das celebrações eucarísticas. Num lado como no outro, ficamos ao lado de estranhos, calados e reverentes. Uma corrente afectiva atravessa esses agrupamentos e todos se influenciam, todos se permitem ficar na dependência uns dos outros (e cada vez mais, por causa dos telemóveis que não se desligam). Ora, na missa católica há um momento em que somos convidados a cumprimentar e celebrar a presença de quem está à nossa volta. É sempre um momento forte; e, num certo sentido, é o que de mais importante acontece dentro do templo. No cinema, durante décadas, esse momento de celebração comunitária acontecia no intervalo. Corria-se para os cafés, para os lavabos, para os cigarros, para as conversas e para os olhares. Os intervalos eram ocasiões de sedução e de pães-de-leite com fiambre. Guardo recordações dos pães-de-leite com fiambre do TIVOLI que rivalizam em fervor religioso com descrições extasiadas da Capela Sistina.

Ir ao cinema, depois dos anos 70, perdeu glamour. Entra-se a correr, sai-se a correr, e em muitas salas fica-se refém das mandíbulas apipocadas. A redução da escala monumental das telas, que nos anos 80 e 90 ameaçou exibir os filmes em alguma coisa pouco maior do que o tamanho de um televisor, é um crime de lesa cinefilia. O mal que se fez à criação de um público fiel escusa de ser demonstrado. Contudo, ir ao cinema (e não só, como é óbvio, mas dele se trata nesta ocasião) é um acto que voltou a poder ser recuperado pela dimensão política. Agora, já libertos da chancela esquerdista que animou os cineclubes (embora com singulares excepções) e as elites da crítica durante os anos 60 e pós-25, o cinema oferece-se como manifestação de uma nova resistência. A resistência contra os imbecis.

Continuar a lerDie Grosse Stille — Philip Gröning

Calicracia

1811W_ROYAL_wideweb__470x267,0.jpg

A palavra calicracia não existia antes de eu a ter inventado. É, pelo menos, uma ilusão que defenderei com unhas e dedos. E inventei-a para falar do reinado da candidata à Presidência francesa, Ségolène Royal. Quer ela vença ou perca a eleição, já ganhou. Ganhou a atenção dos jornalistas, dos homens, das mulheres e dos intelectuais de cepa clássica mais avessos a questões superficiais.

O que é novo na candidatura de Ségolène não é a temática do género. Mulheres com poder sempre existiram em alguns períodos da Historia, da mais antiga à mais recente. Nem sequer a coincidência de se ver a Alemanha, a França e os Estados Unidos com mulheres em posições cimeiras do sistema republicano será o que mais releva. A absoluta novidade, no caso da candidata socialista, consiste na primazia dada ao seu aspecto físico.

Continuar a lerCalicracia

Derrota

scorceses.jpg

Este foi o ano em que se impôs como obrigação moral da indústria cinematográfica americana atribuir o Oscar a Scorcese. Tratou-se de um movimento que assumiu contornos de cause célèbre, e de facto. Ora, o filme premiado não o justifica. Tirando o asqueroso Babel, é inferior a toda a concorrência. Um filme que se vê e se esquece, dando-se por bem empregado o tempo passado, mas é obra sem génio ou momentos de génio.

Para os poucos (na última contagem, restavam dois em todo o mundo conhecido, e lembro que já se conhece o mundo todo) que ainda esperam dos 5.830 eleitores da ACADEMY um qualquer critério racionalmente artístico, esta é a última chamada para a realidade. Os nomeados são apenas os beneficiários de um sistema que funciona tal e qual como a Misericórdia. Todos os anos há um orçamento de prémios para distribuir por quem der mais, e todos os anos há que escolher novos sortudos. Não tem nada a ver com qualidade, acontece é a qualidade conviver feliz com quem lhe paga mais, daí as eventuais coincidências. E são esses, os que pagam, que tentam também comprar os membros que têm os canivetes e os queijinhos na mão, usando um marketing desenhado para o efeito. O investimento mais do que compensa, pois o filmes nomeados e premiados ganharão um acrescento de rendimentos, directos e indirectos — estes últimos ainda mais importantes, pois valem negócios futuros.

Para mim, ver Martin Scorcese Oscar-dependente é triste. Porque é banal, venial. É uma ofensa, mesmo que involuntária, à memória dos que nunca entraram na história dos premiados e em cujas obras está o melhor da História do cinema. Do Raging Bull não esperava esta derrota.

Feeling the feeling

torreretorcida.jpg

É um ilustre anónimo, de quem tenho a sorte de ser amigo. Designer gráfico de profissão, poeta à solta por vocação. Os seus versos são visões alucinantes que compõe com a rudimentar câmara de um telemóvel. Luís Castro mostra-nos que a beleza é excessiva, mas por estar em todo o lado. Ou por estar nele, que a recria por onde passa.

No seu non friction, logo abaixo do nome, encontra-se uma citação retirada de um diálogo do THE SINGING DETECTIVE, a única série televisiva que merecia ganhar óscares, e muitos. Só por esta secreta celebração, já apetece lá entrar. Pelas imagens fotográficas que parecem pinturas pós-realistas, não apetece sair.

Borralho do Referendo — “as mulheres”

As mulheres são fodidas. Não sei se, mais de 12 anos após o lançamento d’O AMOR É FODIDO (da então, ainda, coqueluche da alta cultura pop), alguém se perturba com este vernáculo. Seguramente não os responsáveis da SIC que permitiram ao Fernando Rocha um ciclo de glória no débito de palavrões frente às câmaras. Mas a verdade é para ser dita com todas as sete letras, e acontece que as mulheres são fodidas. São fodidas em casa e no emprego. São fodidas de manhã e à noite. São fodidas deitadas e de pé. São fodidas em qualquer lugar, até num referendo.

Alguém disse que, numa cultura onde se venera uma mulher que engravidou sem ter relações sexuais, a sanidade mental na relação entre os géneros nunca mais se iria recuperar. Os paradigmas dualistas, a mulher santa e puta, têm entretido párocos, escritores, artistas plásticos, cineastas, advogados, psicólogos, polícias e taberneiros. Só que nós, herdeiros dos mitos católicos, não somos por isso menos do que os outros, os que não tiveram tal sorte. A condição feminina é vítima do incondicional masculino em todo o Mundo e desde que há memória. O século XX, no tanto que alterou, não resolveu o assunto. As discriminações continuam, como revelam ano a ano os índices comparativos de salários, cargos de chefia empresarial, poder político e, imagine-se, investigação médica. Veremos o que mudará pela força da onda sociológica, quando houver mais mulheres licenciadas do que homens para os mesmos lugares, e as posições forem maioritariamente ocupadas pelo belo (e agora também inteligente) sexo.

Continuar a lerBorralho do Referendo — “as mulheres”

O PÚBLICO mudou; mas para melhor?

logoPPT_r1_c2.gif

É sempre injusto avaliar mudanças estéticas e conceptuais nos primeiros dias. O choque afecta o entendimento da nova organização. E é igualmente injusto esperar demasiado; injusto para o nosso sentido crítico fatalmente acomodado, entranhada a estranheza. Para começo de conversa, que poderia ser já conclusão, não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.

A questão é fascinante: conseguirão os jornais resistir à Internet? O pânico está instalado. Todas as forças apontam para a bancarrota do papel-notícia; onde se incluem as razões evidentes — um jornal diário sai com um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação, e isto numa cultura que promove a reacção imediata, que automatiza a cognição, que impõe um modelo restritamente visual e transitivo — e as emoções subterrâneas — um jornal é anti-ecológico, um desperdício que não se recicla e, last but, now, not least, suja as mãos e a casa. Na era da ubiquidade digital, e da instantânea saturação mediática, os diários carregam a vetustez hebdomadária e os semanários evoluíram para embrulhos de revistas. Num certo sentido, a imprensa em papel deixou de veicular noticias, reduziu-se ao comentário (e, com sorte, à investigação, mas já lá vamos). É este o cenário, em versão minimalista, para o drama do PÚBLICO e dos outros jornais generalistas.

Continuar a lerO PÚBLICO mudou; mas para melhor?