Este é o país da completa bagunça.
Chegámos aqui com um trabalho bem orientado pelo senhor primeiro-ministro, que tem tido o cuidado de se fazer rodear de indivíduos absolutamente incompetentes, que manifestam o maior apreço pela sua própria incompetência e pelo carácter de ditador inconsequente e sem consciência. É um indivíduo impreparado para qualquer coisa que seja uma actividade política.
Nesta entrevista à Renascença, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados apela a Cavaco Silva para que se recandidate à Presidência da República. “Eu ficaria surpreendido que ele [Cavaco Silva] estivesse disposto, mas daqui, como o indigitado candidato que não sou nem nunca fui pelo Diário de Notícias, o incito a que concorra outra vez para nos livrar desta escumalha que tem governado o país”, refere Pires de Lima.
Sócrates é um aldrabão de feira.
Pires de Lima, Fevereiro e Julho de 2010
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Os ataques virulentos à suposta incompetência dos políticos começaram na antiga Grécia, com o advento mesmo da democracia – isto é, da política feita pelos cidadãos. Quem fazia os ataques nessa altura eram os poderosos, donos das terras e da tradição. As leis do sangue e da riqueza, as que melhor serviam os seus interesses, permitiam conservar a ordem social e as hierarquias de classe cujas origens se perdiam na noite dos tempos. A democracia grega, aumentando incontrolavelmente a quantidade daqueles com direito a exercer o poder, provocou uma reacção de defesa, e repulsa, nos oligarcas que permanece até aos dias de hoje. Há até quem diga que toda a ciência política não passa da reflexão acerca desse trauma inicial, feita a partir do ponto de vista da aristocracia.
Este Pires de Lima, filho de um próximo colaborador de Salazar, verbalizou publicamente o que os derrotados de 2005 e 2009 diziam em almoços e jantares, casamentos e baptizados, empresas e clubes. Aliás, ele apenas apresentou eufemismos, pois na privacidade os senhores sempre se confundiram com os carroceiros quanto ao gasto do vernáculo e pulsões animalescas. Estas citações têm a vantagem de ilustrar o ambiente moral da nossa elite social e financeira, pela primeira vez após o 25 de Abril afrontada por um rival que conhecia a sua decadência e contava com ela. A raiva que cega Pires de Lima é exactamente igual à que invadiu o espaço público vinda de Soares dos Santos e Belmiro, Ferreira Leite e Pacheco, Paula Teixeira da Cruz e Maria João Avillez, Moura Guedes e Crespo, Francisco José Viegas e Eduardo Cintra Torres, Henrique Neto e Carrilho, entre dezenas de outras figuras – à cabeça das quais está Cavaco Silva – que publicamente manifestaram o seu ódio repetida e crescentemente até ao dia 5 de Junho de 2011.
A magnitude do fenómeno não se explica através da redução ao simplismo do par Governo-oposição e seus conflitos, pois os poderes fácticos querem é fazer negócios, lidando igualmente bem com a direita ou com a esquerda – como se constata banalmente a nível autárquico, por exemplo. Para algo com esta dimensão nunca antes vista, em que diariamente podíamos ouvir e ler relatos pungentes da brigada dos deprimidos e apocalípticos, e tendo inclusive recorrido à tentativa de criminalização de um primeiro-ministro envolvendo polícias e magistrados, só há uma realidade psíquica e sociológica onde as peças encaixam na perfeição: o medo.
Estavam apavorados por não terem quem alcançasse superar Sócrates em força executiva, coragem reformista, carisma na liderança. Então, repetindo as conspirações na antiga Grécia contra Péricles, recorreram à calúnia sem vergonha ou hesitação. Como nem desse modo o conseguiam chantagear e assustar, a impotência aumentava ainda mais o seu desespero. A cena do ódio foi, assim, a medida do medo.