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A explicação mais verosímil para a estupidez da Europa

Luís Amado não fica surpreendido: «conheço bem a forma como, a partir de certa hora da noite, os processos negociais se resolvem. E resolvem-se pelo cansaço, pela abstenção, pela saída de elementos que desistem de acompanhar uma negociação que não está no centro das suas preocupações. Não imagina a quantidade de erros que ao longo dos anos se têm cometido por causa de decisões tomadas num ambiente de cansaço. Às vezes está a fechar-se uma decisão crítica e está-se à espera que a bolsa de Tóquio abra, e às vezes é nessa hora, nesse limite que a decisão tem de ser precipitada. É essa a natureza de funcionamento do Conselho. É muita gente a mexer na panela e de vez em quando sai asneira»

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Figuras tristes – estamos e vamos ver muitos a fazerem muitas

Quanto à RTP, mostrou que continua a ser a RTP de sempre, capaz de corromper a lucidez e turvar o raciocínio mesmo dos mais experientes. A solução não é a esquecida privatização: é a extinção. Noutros tempos até se salgariam as terras que pisou…

(Como é público, tenho a pior opinião possível de José Sócrates como político, como governante e como pessoa. Mas não fiz qualquer consideração política nesta argumentação. É que, como jornalista, até como jornalista que não gostava da política do primeiro-ministro, sempre quis entrevistá-lo e dar-lhe a palavra, algo que ele sempre recusou, anos a fio. […]

Zé “Inventona de Belém” Manel

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O homem que fez de um jornal com um histórico de referência o instrumento de perseguição a um governante e a um partido que frustraram, ou não favoreceram, os interesses empresariais do seu patrão, nos quais também participava como accionista; o homem que fez do jornal que dirigia o instrumento das jogadas de bastidores de Cavaco Silva; o homem que fez de um jornal outrora digno o instrumento do mais escabroso escândalo da democracia portuguesa ao ser protagonizado pelos tenentes do Presidente da República com a intenção de perverter as eleições legislativas e autárquicas em 2009. Este homem exibe-se em carne viva, destituído do mínimo sentido do ridículo, quanto mais da vergonha.

Diz ele que tem a pior opinião possível de Sócrates como pessoa. Que será isso? Em que consistirá ter a pior opinião possível de uma pessoa enquanto pessoa? Desconfio que não será nada bonito de se ver, sequer de contar, sendo muito provável que o alvo dessa opinião tenha feito algo que entre na categoria dos crimes contra a humanidade. É por isso patético estar a justificar o seu fel ressabiado com a recusa de Sócrates em ser entrevistado por tão ruim criatura. Como todos os porcalhões que ganharam aversão ao banho, ele já não sente o pivete com que empesta os locais por onde passa.

O regresso de Sócrates – ironia e maiêutica

Tal como opinaram António Costa e Francisco Assis, a ida de Sócrates para a RTP no papel de comentador político começa por não parecer boa ideia. Por um lado, vai fatalmente interferir na relação do PS com o Governo e sua coligação parlamentar, criando uma diversão que será explorada pela direita; por outro, a função de comentador, para mais tão em cima dos acontecimentos que levaram à sua saída do poder e que permanecem plenos de actualidade, corresponde a um estatuto que apouca a sua memória tamanha a importância histórica e cultural da sua governação. Mas ainda mais bizarramente, a sua entrada na RTP pode ser vista (e de imediato a arraia-miúda histérica expressou essas insinuações conspiratórias ou debochadas) como o resultado de ter feito um qualquer acordo com o Governo ou de ter recebido a anuência do ministro da tutela, o indestrutível dr. Relvas (o qual é só o maior especialista vivo nos critérios de vergonha que devem reger a consciência moral dos familiares de Sócrates). Esta é a dimensão irónica do caso.

Acontece que Sócrates é livre. As suas prestações rapidamente esclarecerão o que o convoca e motiva. Qualquer previsão a respeito das consequências da sua presença mediática é menos certeira do que um palpite na roleta. Inclusive até poderíamos fantasiar por desfastio uma alucinada teoria da conspiração alternativa onde ele estaria a vir a convite da Comissão de Trabalhadores da RTP e com a missão de salvar a casa das garras dos fanáticos que a querem destruir e vender. O facto é que há um trabalho a fazer em nome da democracia, do Estado de direito, da salubridade do espaço público, da decência, da coragem e de Portugal. Esse trabalho consiste no confronto sem piedade com os agentes da indústria da calúnia, os manipuladores das misérias económicas, educativas e psicológicas, os serventuários da oligarquia, os vendilhões da República. Esse trabalho devia ter sido assumido por Seguro, quão mais não fosse por módica lealdade ao partido. Ora, Seguro não só se calou como até alinhou no massacre. Enfim, o que vier a nascer da intervenção de Sócrates será sempre um acrescento de racionalidade argumentada e de contraditório benéfico. Esta é a dimensão maiêutica do caso.

Sócrates desperta o ódio em senhoritos muito vaidosos e em senhoras podres de sérias. Sócrates também desperta o ódio em quem acha que sabe tudo acerca de tudo e em quem realmente não sabe nada acerca de nada. O ódio é a cicuta da inteligência.

Perguntas simples

Se o Memorando estava mal desenhado, era marado, tinha beribéri, quer isso dizer que o laranjal vai ser desclassificado das triunfais 6 anteriores avaliações da Troika, as tais em que no final apareceu sempre a vangloriar-se da sua inumana capacidade para empobrecer portugueses e destruir irracionalmente uma economia?

Apologia de Passos, Relvas, Portas e Gaspar

Em princípios de 2011 havia em Portugal um primeiro-ministro que garantia não ser necessário recorrer a um empréstimo de emergência para resolver as crescentes dificuldades de financiamento do Estado. Parceiros europeus, Comissão Europeia, BCE e Merkel acreditaram nesse primeiro-ministro e tentaram que ele visse aprovada no Parlamento uma solução destinada a manter a soberania intacta. Mas a direita portuguesa, que vinha desde meados de 2010 a fazer campanha dentro e além fronteiras para a capitulação do País face aos mercados, boicotou esse plano e jurou conseguir resolver todos os problemas só com a sua superioridade moral. Dois anos depois, essa mesma direita transformou o que era gravíssimo e perigosíssimo em algo que é catastrófico e em grande parte irrecuperável.

A actual direita partidária portuguesa é decadente, não hesitando em atraiçoar os superiores interesses da comunidade apenas por ambição irresponsável e gula incontrolada. Contudo, ela aceita o peso da governação. Mesmo que Passos, Relvas, Portas e Gaspar estejam a causar uma devastação económica e social sem paralelo em democracia, eles são os rostos e os nomes dessas escolhas políticas. O eleitorado fará o seu juízo a respeito das suas acções caso se voltem a apresentar a eleições, e a sociedade gerará as suas opiniões que o tempo irá guardar ou desvanecer. Isto é a democracia no seu melhor, pois a democracia no seu melhor não é mais do que a renovação da esperança através da liberdade.

Ora, que dizer da extrema-esquerda na comparação? O dia 28 de Setembro de 2009 acordou com 1 005 056 votos para o BE e PCP, correspondentes a 31 deputados e 17,60% do eleitorado. Neste milhão, algumas centenas de milhares de votos foram metidas nas urnas com a ansiada expectativa de que o PS perdesse a maioria e daí nascesse uma aliança com o PCP e/ou BE. Um ano e meio depois de coligações negativas entre a esquerda pura e verdadeira e a direita decadente enquanto a Europa se afundava num marasmo caótico que arrastava Portugal para crescentes medidas de austeridade, foi isto que os líderes vermelhos disseram como se tivessem acabado de chegar de Plutão:

O secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, defendeu hoje a realização de eleições antecipadas “para devolver a palavra” aos portugueses.

23 de Março de 2011

Rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise.

Louçã, 23 de Março de 2011

Que pensavam estes aquilinos e esclarecidos visionários que iria acontecer depois do chumbo do PEC IV e consequentes eleições? Só há duas, e não mais do que duas, possibilidades: (i) pensavam que os seus partidos, um deles ou os dois juntos, iriam vencer, ou (ii) pensavam que a direita iria vencer. No primeiro caso, estaríamos perante um grau de alucinação que aconselharia internamento compulsivo num hospital psiquiátrico. É altamente provável, vamos dizer sem favor, que não tenham sequer perdido uma caloria a imaginar a primeira possibilidade. Restará a segunda, aquela onde Louçã e Jerónimo sabiam perfeitamente o que viria a seguir: a chegada ao poder dos mais incompetentes e fanáticos governantes de que há memória depois do 25 de Novembro. E sendo esta a evidência, é também evidente que a esquerda pura e verdadeira tem sido uma força antidemocrática, antipatriótica e absolutamente contraditória com os ideais populares que alega representar. As suas lógicas de decisão são meramente tribais, reféns de uma identidade conservada em formol que meteu a dialéctica na gaveta e mandou queimar o móvel.

Comunistas e bloquistas querem ocupar espaço político e mediático por razões que, no fundo, são as mesmas de Passos, Relvas, Portas e Gaspar: querem safar-se, sacar o seu e o resto da maralha que se foda. Mas com esta diferença: a direita decadente arrisca o prestígio, até a honra, no processo porque o prémio é gigante, enquanto a esquerda pura e verdadeira consola-se com as migalhas e faz tudo para fugir ao desafio de fazer compromissos para governar em democracia.

Para quem defende as muralhas da cidade, é preferível enfrentar um bando de ogres do que passar a vida a tropeçar em ratazanas de esgoto.

Do passismo ao passadismo

Caso Miguel Beleza esteja doente, medicado ou sob a influência de algum acontecimento traumático, as minhas antecipadas desculpas ao próprio e sua família. Mas caso a sua intervenção pública seja prova suficiente para afastar essas suspeitas, e até eventual informação em contrário, então o que podemos ouvir abaixo é a mais espectacular manifestação de desespero dos cúmplices deste Governo que se conhece à data. Beleza dispara numa fuga em frente onde mistura os laços pessoais com Vítor Gaspar com a crise de 1383-85 numa salgalhada trôpega e delirante. Perfeitamente clara fica a mensagem de que a oligarquia está disposta a deixar que Portugal bata no fundo, sendo esse o preço a pagar para que a economia se regenere – custe o que custar. E ainda termina a falar contra o TGV e a louvar Deus pela existência do Governo do casal Passos-Relvas.

Este homem, neste estado, caso estivesse no Titanic teria sido dos primeiros a juntar-se à orquestra com o seu cavaquinho. E passaria o tempo restante até o navio afundar a pedir às mulheres e crianças para não entrarem nos botes salva-vidas e ficarem no convés a dançar.

Miguel Beleza, Fórum TSF, 18 de Março

Duas pessoas que adoram pessoas

António José Seguro disse que, por vezes, quando ouve o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, a falar, fica “com a ideia de que tudo isto era mais fácil se não houvesse pessoas”.

“Isso é lá com ele. Nós gostamos muito das pessoas e a política só tem sentido se pensarmos e agirmos sempre em função das pessoas”, sobretudo aquelas “que menos têm, as que estão desempregadas, as que têm pensões de miséria, as que não têm qualquer tipo de apoio”, afirmou.

Fonte

Para quem é que Seguro fala com este discurso infantilóide? Que boçalidade é esta de dizer que se gosta muito de pessoas? Triste destino o nosso de termos a liderança da oposição entregue a alguém que não encontrou nada melhor para introduzir no espaço público do que um análogo do demagógico lema da “política de verdade”: “As pessoas estão primeiro”.

É por isso relevante encontrar o paralelo político mais próximo desta formulação; e ele está neste discurso, o qual foi aplaudido pelo actual secretário-geral do Partido Socialista:

Necessitamos de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.

A pessoa humana tem de estar no centro da acção política. Os Portugueses não são uma estatística abstracta. Os Portugueses são pessoas que querem trabalhar, que aspiram a uma vida melhor para si e para os seus filhos. Numa República social e inclusiva, há que dar voz aos que não têm voz.

No momento que atravessamos, em que à crise económica e social se associa uma profunda crise de valores, há que salientar o papel absolutamente nuclear da família. A família é um espaço essencial de realização da pessoa humana e, em tempos difíceis, constitui o último refúgio e amparo com que muitos cidadãos podem contar.

Discurso de Tomada de Posse do Presidente da República

Há vários pontos de plena coincidência entre a prática e o discurso de Cavaco e Seguro. E, para além de gostarem muito de pessoas, ao ponto de quererem fazer dessa categoria filosófica e/ou religiosa um projecto de construção social, colhe ainda recordar que Seguro já se assumiu como um “chefe de família”. Eis mais uma faceta deste socialista valente que deve deixar encantado o reformado de Belém.

Populismo, o ópio dos impotentes

A tragédia social, económica e financeira a que vários governos conduziram Portugal interpela a consciência dos portugueses no sentido de porem em causa os partidos políticos que, nos últimos vinte anos, criaram uma classe que governa o País sem grandeza, sem ética e sem sentido de Estado, dificultando a participação democrática dos cidadãos e impedindo que o sistema político permita o aparecimento de verdadeiras alternativas.

Neste quadro, a rotação no poder não tem servido os interesses do Povo. Ela serve sobretudo para esconder a realidade, desperdiçando a força anímica e a capacidade de trabalho dos portugueses, bem como as diversas oportunidades de desenvolvimento que o País tem tido, como aconteceu com muitos dos apoios recebidos da União Europeia.

A Assembleia da República, sede da democracia, desacreditou-se, com os deputados a serem escolhidos, não pelos eleitores, mas pelas direcções partidárias, que colocam muitas vezes os seus próprios interesses acima dos interesses da Nação. A Assembleia da República representa hoje sobretudo – com honrosas excepções – um emprego garantido, conseguido por anos de subserviência às direcções partidárias e de onde desapareceu a vontade de ajuizar e de controlar os actos dos governos.

Manifesto pela Democratização do Regime

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A seguir ao discurso da tomada de posse de Cavaco, este documento é o sintoma mais grave da deriva populista da sociedade portuguesa em contexto de crise económica. A gravidade não resulta dos conteúdos apresentados, pois todo o argumentário populista é por regra inane e alucinado, mas dos signatários. Ver Vasco Lourenço, Manuel Maria Carrilho, Eurico de Figueiredo, José Adelino Maltez, Henrique Neto, João Gil, Rui Tavares, Ventura Leite, Elísio Estanque e Veiga Simão juntos a maldizerem os partidos é espectáculo que pode chocar o melhor cristão.

Atente-se ao modo cobarde como o texto abre as hostilidades: lança-se alcatrão e penas para cima dos Governos por grosso, nada explicando e por isso a todos equivalendo em responsabilidades, depois ataca-se os partidos pelo que fizerem nos últimos 20 anos (??) e por terem criado uma classe sem grandeza e sem ética (???), a qual andará por aí a impedir o aparecimento das “verdadeiras alternativas” (????).

Este manifesto tresanda a ressabiamento e almoços bem regados de uma ranchada de tiranetes caducos. Como já não têm forças para criarem um projecto político original, entretêm-se tentando demolir a cidade.

Revolution through evolution

Men who like big breasts are more sexist, says study
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Babies Prefer Individuals Who Harm Those That Aren’t Like Them
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Plants give bees a caffeine buzz
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How Your Moral Decisions are Shaped by a Bad Mood
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Fungi May Be Able to Replace Plastics One Day
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Job Burnout Can Severely Compromise Heart Health
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Dwelling On Stressful Events Can Increase Inflammation in the Body, Study Finds
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Life in the Universe: Foundations of Carbon-Based Life Leave Little Room for Error
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Playing Action Videogames Improves Visual Search
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Soldiers More Likely Than Peers to Be Convicted of Violent Offenses
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Denied the Chance to Cheat or Steal, People Turn to Violent Video Games

O feitiço do pensamento mágico

“Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”, ilustrou, considerando que só com “persistência”, “exigência” e “intransigência” o país terá “credibilidade”.

O primeiro-ministro considerou ainda que esta atitude de exigência deve começar na escola mas estender-se a todos os níveis da sociedade e deu como exemplo as empresas.

O primeiro-ministro pegou ainda no exemplo da escola e do ensino para defender que “se criou a falácia” de que as grandes reformas levam anos a produzir efeitos.

“Não é verdade. Em cada aula que se dá, tudo pode mudar. As pessoas ajustam-se rapidamente à mudança. Mas tem de haver uma mudança. Agora se se arranjam sempre desculpas e explicações para os maus resultados…”, afirmou.

“Os agentes ajustam-se muito rapidamente e antecipam os resultados quando há credibilidade”, acrescentou.

Passos pede aos portugueses para serem “menos piegas”

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Bastaria organizar um florilégio ao calhas das afirmações de Passos Coelho ao longo da sua carreira política para constatarmos que estamos perante uma cabeça invulgar, tal como a sua biógrafa Felícia Cabrita cinzelou em título. Mas a invulgaridade em causa consiste no facto de, comparada com a sua, a cabeça de Santana Lopes nos parecer brilhante e mesmo, com mais 10 ou 15 segundos a manter a comparação, verdadeiramente genial.

Alguém diz coisas a Passos e Passos tenta repetir o que ouviu. Têm de ser coisas simples, e quão mais simples mais alta a probabilidade de ele as conseguir repetir com alguma fidelidade. Neste famigerado episódio, ocorrido num tempo em que o sonho começava já a dar crescentes sinais de vir a ser um pesadelo no curto prazo, Passos lança-se num discurso acusatório contra o próprio povo que o elegeu e a quem ele tinha prometido um analgésico para as dores da austeridade. Íamos cortar gorduras, ficar mais bonitos. Íamos acabar com o regabofe socialista, cheio de opulência, desvario e corrupção. Íamos, mas só até ao dia 5 de Junho de 2011. Semanas depois, a “política de verdade” chegava finalmente aos nativos para lhes ensinar maneiras e respeitinho. Para começar, iam ficar sem dinheiro, a fonte de todos os vícios.

Acredito que Passos acreditou que “as pessoas ajustam-se rapidamente à mudança”. É uma ideia que pode ser defendida com argumentos racionais, verosímeis, eloquentes. Veja-se, por exemplo, o que acontece numa catástrofe, numa guerra. E acredito que Passos acreditou que lhe bastaria impor uma qualquer mudança para obter os ajustamentos que melhor favorecessem os seus interesses. Afinal, se o casal Passos-Relvas tinha derrotado cavaquistas e baronato laranja, que dificuldade especial oferecia tratar de um país que se tinha ido entregar voluntariamente nas suas mãos?

Passos Coelho é um dos políticos mais violentos que já exerceram o poder em Portugal em democracia. Violência acrescida pelo seu estilo dúplice que oscila entre a fanfarronice de telenovela e a postura obnóxia. Só que a culpa não é dele, coitado. A culpa é de quem lhe faz a cabeça.

Lembrando, recordando e memorando

Quem diz que estamos a pagar pelos erros cometidos desde 2008, ou 2005, ou 2002, ou 1995, não diz que teria feito diferentemente caso tivesse exercido o poder nesses períodos. E não o diz ou porque não faz a menor ideia do que deve dizer ou porque não quer ser confrontado com o facto de não ter dito nesse tempo o que agora lhe apetece dizer.

Consta que Sócrates, e afinal, não terá sido o causador da maior crise económica mundial dos últimos 80 anos. Consta. E há quem sugira que Sócrates não foi assim tão decisivo no eclodir da crise das dívidas soberanas na Zona Euro como se pensa. Uns malucos, óbvio. Mas a respeito dos seguintes factos já só há certezas:

– Ir para as eleições de 2009 e 2011 escondendo o contexto internacional de modo a poder diabolizar um primeiro-ministro e o seu Governo é desonestidade intelectual e política que exibe uma pulsão desenfreada para a manipulação, difamação e calúnia.

– Boicotar o acordo que o Governo minoritário socialista alcançou com os parceiros europeus, Comissão Europeia e BCE para evitar o resgate e a inerente perda da soberania foi um acto de traição ao supremo interesse de todos os portugueses.

– Fazer uma campanha eleitoral vil e mentirosa do princípio ao fim e de alto a baixo, onde se prometeu o fim da austeridade e dos sacrifícios por via das soluções que juravam estar estudadas e prontas a aplicar, expõe o estado de putrefacta decadência moral da direita portuguesa.

– Aproveitar o escudo da tutela estrangeira para instaurar um regime de saque fiscal e de ataque ao Estado Social, e nessa desmiolada política arrastar o País para uma depressão económica de consequências destrutivas incalculáveis, é o mais grave escândalo na História de Portugal depois do 25 de Abril.

Em 2011, por causa de uma crise aberta exclusivamente para derrubar um Governo minoritário à custa da qualidade de vida e do futuro de milhões de portugueses, foi acordado nas piores condições possíveis um empréstimo de emergência que garantia aos credores a realização de certas medidas. Lembremos quais foram e recordemos quem pegou nesse desenho e de imediato o desfigurou na sua sanha contra o povo.

Escuta, laranjal: nem só de imbecis se faz Portugal

Cometeu-se um erro de irresponsabilidade. Os partidos levantaram-se em conjunto para chumbar o PEC para agora ter um programa pior que o anterior. Isso é que eu não consigo compreender. O PSD actuou por cobiça de poder, achou que esse era o momento para ganhar eleições.

Se o PSD queria eleições, podia ter viabilizado o PEC e depois, mais à frente, quando já não causasse prejuízos, provocava uma crise política. Cometeu-se um erro de pura leviandade que ficará nos anais da história política portuguesa.

Sócrates, 2011

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O primeiro-ministro e presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, considerou na terça-feira à noite que os sociais-democratas têm um «grau de identificação importante» com o programa acordado com a ‘troika’ e querem cumpri-lo porque acreditam nele.

«É curioso que o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional», declarou Passos Coelho, durante uma sessão com militantes do PSD sobre a revisão do programa do partido, num hotel de Lisboa.

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD «não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham», Passos Coelho concluiu: «Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer».

Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, «executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido».

«Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas.»

«Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados», reforçou.

Passos, 2012

Que se lixe a oposição

O PSD é o único partido a subir na estimativa de resultados eleitorais, se neste momento se realizassem eleições legislativas, de acordo com os dados do barómetro de março de 2013, do CESOP/UCP, para o DN/JN/Antena 1/RTP.

Com mais quatro pontos percentuais que em setembro de 2012, o PSD regista agora 28% da intenção de voto dos inquiridos, depois de distribuídos os votos dos indecisos (ver ficha técnica).

O PS não capitaliza eventuais descontentamentos com o Governo, mas também não desce com a subida dos sociais-democratas: 31% (como também em setembro) – que se traduz numa diferença que estatisticamente já não é significativa entre os dois partidos.

Há um dado relevante neste barómetro: o trabalho de campo da sondagem foi realizado nos dias 9, 10 e 11 de março, uma semana depois da manifestação que reuniu centenas de milhares de portugueses nas ruas de 40 cidades.

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