Os jornalistas têm um superpoder: variadas pessoas, aparentando estar na posse das faculdades mentais respectivas, sujeitam-se voluntariamente às suas perguntas. É uma situação onde o jornalista é sempre a parte forte, mesmo quando não obtenha qualquer resposta a uma dada interrogação. Essa força começa logo pela escolha das questões, as quais obrigam o entrevistado a deixar-se atingir pelos seus pressupostos e eventuais associações, e continua através da exploração das declarações obtidas num contexto onde o sujeito interpelado corre sempre o risco de se expor demasiado ou equivocamente.
Dir-se-ia que esta prática contribuiria para o conhecimento e fiscalização dos agentes institucionais e fácticos que constituem e moldam a sociedade, assim fazendo da imprensa um verdadeiro 4º poder. Porém, em Portugal é raro encontrar jornalistas que se cumpram neste ideal, sendo muito mais frequente contemplar o pífio espectáculo onde os jornalistas são cobardes e estúpidos ou se concebem como rivais e juízes dos políticos, usando de uma soberba e acrimónia que nasce de vaidades desvairadas, perseguição agendada e ausência de respeito deontológico.
O Manuel Acácio, no Fórum TSF, tem sido eficazmente acutilante nos seus diálogos com os convidados, gerando situações caricatas onde a retórica de fachada se desmonta e cai no chão com estrondo. No primeiro exemplo, Arménio Carlos é levado a admitir que, afinal, pois é, enfim, não pretende contribuir para o aumento do salário mínimo. A culpa estará numa tal caixa de Pandora que poderia ficar aberta, e isso era um sarilho do camandro. Deve ser uma caixa de grande importância, talvez aquela onde guarda as jóias da família. Certo, certinho, é que ele entra cheio de confiança no pugilismo sindical e sai com o rabinho entre as pernas apenas porque foi confrontado com a evidência do seu indestrutível sectarismo. Oiça-se: Arménio Carlos e a mitologia grega
O segundo exemplo é como uma caixa de Petri dos tratantes que afundaram Portugal. Nuno Encarnação, de resto uma figura simpática e que aparenta ser civilizada, acumula com ser deputado do PSD o ter de falar em público. Isso leva-o para territórios desconhecidos onde rapidamente se perde e entra num estado de tamanha desorientação que o seu cérebro desliga-se e o aparelho vocal começa a funcionar em piloto-automático. Os interessados em testemunhar o fenómeno irão encontrar este conjunto de nós cegos:
– O Governo está apenas a cumprir o Memorando, o qual é responsabilidade do PS e não do PSD <-> O Memorando obriga a fazer reformas e a conter despesas, o que o PSD considera ser exactamente a solução indicada para os problemas nacionais
– O Memorando foi mal gizado pelo PS <-> O PSD a cada três meses pode corrigir com a Troika qualquer falha do Memorando
– Abebe Selassie critica o Governo <-> o Governo critica o PS
– Estamos como estamos, cada vez piores e a falhar as metas acordadas, por causa do que o PS fez no passado <-> Este Governo já não se rege pelo Memorando original porque anda a resolver os problemas todos no presente e para o futuro
Oiça-se: Nuno Encarnação e a lógica
Manuel Acácio, toma cuidado. Qualquer dia deixas de ter fregueses deste calibre.