Quem são as figuras mais representativas, que não só notáveis, da direita portuguesa? Cavaco Silva, Paulo Portas e Marcelo Rebelo de Sousa. A soma da longevidade, e da influência, deste trio tem moldado decisivamente o destino político do País e o espaço público. O elemento mais excêntrico do grupo é Marcelo, o qual exerce o seu poder apenas na comunicação social, tendo sido efémera e irrelevante a sua passagem pelos palcos partidários.
Na televisão, Marcelo é um agente incansável e eficaz de combate partidário através de uma forma sofisticada de baixa política, explorando todas as formas possíveis de difamação ao alcance da persona que passa por ter autoridade moral supra-ideológica. Na edição deste domingo, Marcelo conseguiu o duplo feito de ter colado Sócrates ao processo Casa Pia e de ter reavivado e reforçado as calúnias relativas à licenciatura de Sócrates.
Eis o que, a respeito desse último caso, despejou na pantalha:
Miguel Relvas devia ter aprendido com a experiência de José Sócrates. José Sócrates teve um episódio menos clamoroso do que Miguel Relvas mas muito parecido. Quer dizer, numa certa geração, determinado conjunto de políticos achou que precisava de canudo para a sua afirmação. Ora, a licenciatura é muito importante, mas a licenciatura é importante se for um factor de formação adicional. Uma licenciatura tirada a trouxe-mouxe, ou não tirada, que ainda é pior, não tem valor rigorosamente nenhum. As pessoas valem por si, há tanto político internacional que não precisa de licenciatura e que é um grande político sem licenciatura. Com José Sócrates, eu já acho que uma das razões pelas quais ele perdeu a maioria absoluta em 2009 foi a história da licenciatura. Ainda agora estive a reler o despacho do Ministério Público que arquivou, por não haver nenhuma prova realmente criminal contra ele, mas as trapalhices foram imensas – porque quem lhe deu equivalência não tinha competência para dar, porque as lições de Inglês Técnico eram em 15 minutos no gabinete do reitor, porque as notas foram lavradas num domingo.
Vamos esquecer que Marcelo tem explicado a perda da maioria socialista em 2009 conforme lhe dá jeito na ocasião e façamos um exercício de objectividade:
– Marcelo consultou recentemente o despacho do Ministério Público a respeito do caso e declara, do alto da sua sapiência jurídica, não ter encontrado nele qualquer prova criminal.
– Marcelo afirma ter encontrado “imensas” “trapalhices”.
– Marcelo apenas referiu três (3) supostas trapalhices: suposta incompetência de um docente para dar uma equivalência, suposta falha nas aulas de uma disciplina, e suposta irregularidade de calendário na formalização em pauta de algumas notas.
Em momento algum este nosso juiz da ética e discência alheia explica o contexto desses episódios, em especial o anterior percurso académico de Sócrates e a razão para ter optado por atingir o grau de licenciado nos modos processuais em questão. Não interessa a Marcelo dar ao público qualquer elemento que possa legitimar a inocência de Sócrates. Pelo contrário, tudo é dito e sugerido para o condenar sem possibilidade de defesa. A lógica da sua manipulação dos factos é uma e só uma: achincalhar um adversário que se teme por ser tão poderoso e tão ameaçador para o seu clã. Repare-se como a sua descrição tenta colar o caso Relvas com o caso Sócrates de modo a poder continuar o ataque contra o socialista.
Ironicamente, neste mesmo sermão (minuto 16) ouvimos o mesmíssimo Marcelo a falar da sua experiência docente. O que nos diz ganha um brilho ofuscante por comparação com a sua desonestidade intelectual e cinismo bélico:
Tenho um critério como professor, tenho uma bitola como professor, e depois aplico essa bitola de forma diversa
Ao longo do tempo vou mudando de rigor
Marcelo está meramente a ser honesto e a relatar a experiência de qualquer professor. Ensinar e avaliar é praticar diferentes formas de injustiça, eis a puta da verdade. Mas a docência também implica, se o professor for bom, a prática de diferentes formas de justiça; pois é suposto – e ainda mais no ensino superior – que o professor seja autónomo ao ponto de escolher diferentes estratégias pedagógicas consoante os diferentes alunos, as diferentes matérias e as diferentes circunstâncias na escola e na sala de aula. A esta variabilidade intrínseca à relação professor-aluno ainda devemos acrescentar a complexidade da instituição de ensino em causa, com o seu corpo de professores e administrativos a interagirem como profissionais, cidadãos e pessoas. Logo, não lembraria a ninguém fora do ensino perder tempo a discutir se um dado professor foi ou não a escolha legítima para dar uma equivalência, ou se um dado professor pode ou não optar por dar aulas de 15 minutos no seu gabinete, ou se as notas publicadas a um domingo valem menos do que as notas publicadas à segunda ou à sexta. Existem milhares de histórias escabrosas a envolver professores e escolas ao longo das décadas e a sociedade nunca se incomodou com a reinante incompetência, quando não puro desvario, de tanta gente em tanto lado. Acontece que Sócrates precisava de ser abatido e a direita, com o gaúdio da esquerda, revirou a vida do homem do avesso e avacalhou-a sem pudor nem freio.
Para Marcelo, em política vale tudo menos perder a máscara. Aposto que nessa matéria ele é um dos melhores professores que Portugal já teve ou terá.