Arquivo da Categoria: Valupi

O discurso do filho da puta

“Politica e socialmente, uma política que é apenas vista como austeridade é claro que não é sustentável”, afirmou o presidente da Comissão Europeia esta manhã, em Bruxelas, numa conferência sobre “Federalismo ou Fragmentação”.

Barroso defende por isso que a política de correcção dos défice e da dívida, que sublinhou ser “indispensável”, deve ser combinada com “um ênfase mais forte no crescimento e medidas de crescimento a curto prazo”: “Temos dito isto, mas temos que dizê-lo de forma ainda mais clara senão, mesmo que as políticas de correcção do défice sejam correctas, (…) não serão sustentáveis politica e socialmente”.

“Sei que há conselheiros tecnocratas que nos dizem qual o melhor modelo, mas que quando perguntamos como o implementar, dizem que isso já não é com eles. E isto não pode acontecer ao nível europeu”, diz o presidente da Comissão Europeia, que acrescenta que, além de precisar de uma política económica “correcta”, a Europa precisa garantir “os meios para a sua implementação e (…) aceitação política e social”: “Foi aqui que penso que não fizemos tudo bem”.

Durão Barroso

Revolution through evolution

Patients With Surgical Complications Provide Greater Hospital Profit-Margins
.
How Sexual Frequency Corresponds With Happiness
.
Famous Performers and Sportsmen Tend to Have Shorter Lives
.
Language Instruction Improved With Fun and Games
.
Acute Stress Primes Brain for Better Cognitive and Mental Performance
.
Training the Brain to Improve On New Tasks
.
Mental exercises may prevent mental decline in seniors

Continuar a lerRevolution through evolution

A pior austeridade imaginável

Não existe nenhum romance, nenhum filme, nenhuma canção que capte a experiência por que passa Portugal às mãos do passadismo ou, para o vexame ser ainda maior, do longo ciclo das crises iniciado em 2008. O hino dos Diolinda “Parva que sou” foi aproveitado para o marketing do 12 de Março de 2011 com sucesso, mas essa obra não apresentava qualquer visão sobre a comunidade ou a sociedade ao tempo, apenas explorava de forma lírica o crescimento do desemprego jovem. Os nossos artistas imitam o grosso dos académicos e primam pelo absentismo face aos sucessivos choques que empobrecem e desvitalizam o País. Os políticos rendem-se à sua impotência.

Não há pior austeridade imaginável do que a morte da imaginação.

Bagão tem a solução

Há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia “provocative”. Não estou a dizer que pode vir a acontecer, mas nós precisamos de abanar a cabeça senão morremos atrofiados. É quase impossível chegar a acordo com o PCP, mas, se alguma vez se chegar a acordo, este será cumprido. O PCP é muito respeitador, institucionalista. Não é a fantasia do Bloco de Esquerda.

Bagão Félix em 5 de Março de 2011

__

No começo de Março de 2011, quando Portugal poderia ainda escolher soberanamente o destino a seguir apesar dos pesares, este passarão do Bagão até com os comunistas iria para a cama caso isso lhe garantisse ver o seu querido CDS e o estupendo PSD a salvarem o País das garras dos tenebrosos socialistas e seus viciosos esquemas de promoção dos cuidados de saúde, dos apoios sociais, da educação, da geração de energias alternativas, do investimento na qualificação, na promoção da ciência e da tecnologia, da construção de vias rodoviárias no Interior, da dinâmica e ousadia nas exportações, na reforma do Estado e uma quantidade imensa de outras falhas que andavam a deixar a população em péssimas condições morais. Como ele mesmo nos diz, os direitolas corriam o risco de morrerem atrofiados, e o caso não era para menos.

Ora, se em 2011 se justificava o acarinhamento deste sonho lindo acima pendurado, quão mais em 2013, altura em que a devastação passista causada nesta desgraçada terra ultrapassou até o próprio fundamentalismo da Troika. Como Seguro não pode mostrar a mínima vacilação sob pena de perder o lugar, só resta ao Governo, e de facto, o PCP como aliado. Imagine-se o que não seria para Merkel e Barroso poderem dizer que em Portugal o consenso ia desde o CDS ao PCP. O Mundo quedaria boquiaberto e o papa Francisco seria de imediato aclamado como o inspirador do milagre. Pelo que só resta transformar o impossível em possível. E isso consegue-se oferecendo ao PCP os seguintes ministérios:

– Ministério dos Sindicatos
– Ministério das Manifestações
– Ministério da Constituição
– Ministério da Festa do Avante

E chega. Quanto ao resto, não faltam afinidades. Basta fazer um levantamento das votações entre 2009 e 2011. E se mais nada houver a ligar este terno, recorde-se com Bagão que o PCP é muito respeitador, institucionalista. Quer-se dizer, o PCP é tão inútil para o desenvolvimento do País que até dá gosto.

And here’s to you

“Here’s To Life”

No complaints and no regrets
I still believe in chasing dreams and placing bets
And I have learned that all you give is all you get
So give it all you’ve got

I had my share, I drank my fill
And even though I’m satisfied, I’m hungry still
To see what’s down another road, beyond a hill
And do it all again

So here’s to life
And every joy it brings
Here’s to life
To dreamers and their dreams

Funny how the time just flies
How love can go from warm hellos to sad goodbyes
And leave you with the memories you’ve memorized
To keep your winters warm

But there’s no yes in yesterday
And who knows what tomorrow brings, or takes away
As long as I’m still in the game, I want to play
For laughs, for life, for love

So here’s to life
And every joy it brings
Here’s to life
To dreamers and their dreams
May all your storms be weathered
And all that’s good get better

Here’s to life
Here’s to love
And here’s to you

Fenómenos do entroncamento

Desde 5 de Junho de 2011 que o Presidente da República deixou de considerar urgente, sequer necessário, aquilo do falar verdade aos portugueses. Não lhe voltámos a ouvir tais pedidos lancinantes, o que causa naturais interrogações. Será esse silêncio o resultado de mais um daqueles cortes no serviço público despesista impostos pela tal austeridade laranja que nos está a salvar dos anos em que consumimos irresponsavelmente verdades luxuosas que não trabalhávamos o suficiente para conseguir pagar?

Aquela máquina

A metáfora do Estado ser como uma casa de família no que diz respeito ao modelo de autoridade e à gestão das finanças já tem séculos de denúncia filosófica. Todavia, continua a manter a sua eficácia política na direita mais retrógrada e populista. Isto por duas razões principais: (i) transporta uma ideologia oligárquica e patriarcal, a qual instiga ao individualismo e ao abandono da política; (ii) é uma deturpação simplista de imediata identificação acrítica pelos simples. Ainda recentemente, Ferreira Leite montou esse burro para as eleições de Setembro de 2009. Ela não fazia ideia do que estava para acontecer à Grécia e na Europa no princípio de 2010, por isso nunca falou de uma crise das dívidas soberanas que não existia ao tempo, mas apelou a um entendimento doméstico, no seu duplo sentido, dos problemas económicos de Portugal. E tinha uma solução, e não mais do que essa, igualmente simplória para resolver a coisa: parar tudo – ou seja, suspender todos os investimentos, não gastar, não comprar, não sair à rua. A dona de casa para quem a maior crise económica mundial dos últimos 80 anos não passava de um “abalozinho” prometia ao eleitorado a cura dos males socialistas pela abstinência colectiva. Com base nesse programa anal, cuja parte largamente maioritária consistia tão-só nos caudalosos e conspirativos ataques caluniosos, o que a Manela explorava e promovia era a ideia de que a família – como entidade mítica – era a substancial fonte da lógica e da moralidade do Estado.

Já Vítor Gaspar nunca será apanhado a reproduzir a falácia de o Estado ser como uma família. Ele tem um prestígio científico a defender, não se pode dar ao luxo de usar de retórica tão básica e tão academicamente inaceitável. Só que o resultado é, no presente de Portugal e da Europa, devastadoramente pior. Porque faz uso de uma falácia muito mais sofisticada e quase imbatível: a concepção de que a economia é uma ciência matemática e não uma ciência humana. Nesse paradigma, a política torna-se numa engenharia financeira onde se acredita conseguir prever os acontecimentos com a segurança com que um físico faz cálculos a respeito de massas e velocidades no espaço. E tal como na física, o passado é visto como informação irrelevante para a descrição do presente e os condicionalismos são reduzidos à sua expressão mínima. Foi assim que vimos Gaspar em Julho de 2011, e ao arrepio de tudo o que tinha sido prometido na campanha eleitoral e nos programas do PSD e CDS, a anunciar a sua primeira intervenção na economia:

O Governo decidiu propor à Assembleia da República a aprovação de uma medida excecional em sede de IRS, a sobretaxa extraordinária. Esta medida é imprescindível para acelerar o esforço de consolidação orçamental e cumprir o objetivo decisivo de um défice orçamental de 5,9 por cento para este ano.

De acordo com os cenários que consideramos previsíveis, e dentro das margens de incerteza que consideramos normais, é nossa intenção firme que esta sobretaxa seja apenas sobre os rendimentos de 2011. Sinalizamos isso ao ter na própria lei uma cláusula que explicita que a sobretaxa incide sobre rendimentos de 2011 e não vigorará para rendimentos de anos futuros.

Temos aqui o microcosmo do que viria a ser a sua actuação até aos dias de hoje. Em vez de cortar despesas, procura aumentar receitas; justifica a medida através de contas erradas; mente a respeito do futuro. Será que Gaspar fez de propósito? Será que Gaspar é tontinho? Nada disso, ele está a dar o seu melhor e o empenho na função será homérico. Acontece-lhe é estar preso naquilo que Pascal chamou de esprit de géométrie, essa inteligência perfeitamente adequada para lidar com abstracções mas um desastre no convívio com os corpos imperfeitos da realidade. Para esta dimensão, Pascal recomenda o esprit de finesse, precisamente aquilo que distingue um grande político.

Neste Bloco Central, podemos ouvir um homem que nos descreve a economia a partir de outro paradigma, o da biologia. E tal como na biologia, nas suas palavras, expressão da sua experiência, a economia é composta por tecidos, trocas químicas, organismos vivos. A inteligência biológica procura simbioses, harmonias, adaptações – isto é: compromissos para se conseguir sobreviver em sistemas e ambientes com diferentes factores de instabilidade. Esse homem é Silva Peneda, um dos poucos políticos do cavaquismo que resistiu à decadência da direita. Com ele à frente do Governo teríamos agora um primeiro-ministro tarimbado em concertação social, o qual recolhe o respeito e a confiança de todas as forças vivas da economia portuguesa. Em vez disso, continuaremos com um primeiro-ministro que existe apenas como figurante de uma experiência onde um país é governado por uma máquina de calcular. Marada.

Uma maioria, um Governo, um Presidente, uma Procuradora-Geral e até um líder da oposição

Que lhes estará ainda a faltar para começarem a meter xuxas no chilindró? Se a Associação Sindical dos Juízes, o Correio da Manhã, o Carlos Barbosa e o Duarte Marques conseguiram sem qualquer dificuldade reunir provas dos crimes socialistas, andará a Judiciária a engonhar? Será que os socráticos têm procuradores comprados com os milhões que sacaram à doida? Ou o plano é mesmo o de esperar pelas eleições legislativas para os processos de repente ganharem uma animação justicialista extraordinária?

Gaspar by Comenius

Seria fascinante – ou, às tantas, de um aborrecimento invencível – poder observar o que atravessou a cabeça de Vítor Gaspar nesse qualquer tempo que mediou entre ter recebido o convite para ser o procônsul da Troika para a região de Portugal e o momento em que se decidiu a aceitar o fardo, mesmo que isso o obrigasse a ter como secretário um tal de Passos Coelho. Em que terá pensado? E, talvez ainda melhor pergunta, quanto tempo demorou a reflectir? Semanas? Naaaaa… Dias? Se sim, muito poucos. Horas? Não seria nada que espantasse. Minutos? É possível, especialmente quando nos recordamos que uma hora costuma ter sessenta deles. Segundos? Esta seria a minha aposta, pelas razões que se seguem.

Como o vídeo que a Penélope trouxe mostra, Gaspar é capaz de falar com a fluência de uma pessoa normal. Para tanto, basta que lhe indiquem estar perante estrangeiros. Aí, começa logo a descontrair pois sabe que poderá palrar em inglês, a língua do seu coração. Ora, essa normalidade contrasta enigmaticamente com o que lhe acontece ao ter de falar português e para portugueses. Tal como as suas conferências de imprensa lusitanas exibem, e logo desde a primeira, a prosódia gasparina é feita de um ritmo que só conhece dois andamentos: devagar e devagarinho. Como se temesse ainda assim ir rápido de mais para as capacidades de assimilação da audiência, quase todas as palavras lhe saem antecedidas e procedidas de uma pausa. Essa apneia não se deve a eventuais problemas graves do foro cardíaco ou asmático, antes a uma intenção. O que ele intenta filia-se na tradição iniciada por Comenius em 1649, ano em que publicou a Didactica Magna – cujo subtítulo não pode ser mais optimista ou desvairado, é escolher: “ensinar tudo a todos“. Nesta obra se encontram os princípios da pedagogia como ciência e do ensino como arte. Em particular para o assunto, nela se encontra uma imagem que explica o espectáculo que tem deixado intrigados jornalistas e vulgo por igual:

Não há no mundo um penhasco ou uma torre tão alta que não possa ser escalada por quem quer que tenha pés, desde que a ela se encostem as escadas necessárias, ou então, talhando as rochas no lugar e com a ordem apropriada, nela se façam degraus, e, do lado dos precipícios perigosos, se ponham defesas.

Numa torre alta, daquelas que rasgam o céu, é onde Gaspar se sabe a morar. Ele chegou a partilhar o segredo para se subir a patamares tão estratosféricos: foi graças a uma educação “extraordinariamente cara”, a qual durou algumas décadas, e a qual o motiva para estar agora entre nós a vocalizar a conta-gotas – porque, e lá está, o que ele nos diz é para o nosso bem, trata-se de um verdadeiro fármaco. É o remédio contra a nossa ignorância, nós os desgraçados que tivemos educações apenas caras; ou nem isso, talvez só daquelas que se pagam com os impostos dos outros. Maneiras que ele aí está disposto a ensinar-nos tudo o que sabe e de uma forma adaptada às nossas limitantes dificuldades.

Este o quadro no qual se funda a minha crença de ter demorado breves segundos a sua resposta ao convite para vir tomar conta disto. É que uma vocação pedagógica desta grandeza e altruísmo não aparece de repente. Isto é tarefa de uma vida. Uma vida fechado em gabinetes a olhar para números, vida que era interrompida a intervalos regulares para se fechar em salas de reunião com outros colegas que também passavam a vida fechados em gabinetes a olhar para os mesmos números. Como é óbvio, essas são as condições ideais para desenvolver ideias superiores, ideias que jamais poderiam ser desenvolvidas por aqueles que passam as suas inúteis vidas fora dos gabinetes onde se olha para os números. Perante a oportunidade de poder ensinar um povo tão carente de elevação e conhecimento, Gaspar não terá hesitado mais do que o tempo que gasta nas suas pausas misericordiosas.