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Uma ministra que acha que andamos todos a pastar
Mentira 1 da Drª Albuquerque: «Quando este Governo entrou em funções, o problema relativo aos ‘swap’ contratados por empresas públicas já existia, tendo mesmo motivado a emissão de dois despachos do anterior Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, em 30 de janeiro de 2009 e 9 de junho de 2011. Apesar disso, na transição de pastas, nada foi referido a respeito desta matéria».Explicação dada: Não mentiu porque na pasta dela como secretária de Estado não estava nada.
Crítica da explicação: O Economista Português já tinha admitido esta hipótese, que, sem a nomear, qualificou de reserva mental ou, tempos antes, de negócio jurídico simulado com o Doutor Vítor Gaspar. Só que a 25 de junho a Drª Albuquerque falou em pastas, no plural: a pasta dela e a pasta do Sr. Ministro, subentendemos. Mas que pasta? Se «pasta» foi usada no sentido de Ministério, então o caso fica julgado: mentiu, pois ela não falava em nome das Finanças e o Doutor Gaspar já declarou que fora informado pelo Prof. Teixeira dos Santos, seu antecessor. Mas porque iria a Drª Albuquerque falar da pasta da Saúde ou da Educação a propósito dos swaps? É mais provável que pasta seja o objeto físico. Se a pasta era um objeto físico, então na «pasta» do Sr. Ministro já estava o aviso. O plural pastas incluía pelo menos a do Sr. Ministro, não só literalmente mas também porque à época a Drª Albuquerque não representava as Finanças. Por isso, a Srª Ministra mentiu – e ontem nem reparou que confessou a mentira. Ou reparou, mas não se importou – o que é inteletualmente melhor e é pior do ponto de vista da ética política. Como no seu depoimento de ontem a Drª Albuquerque trocadilhou com aqueles dois sentidos pertinentes da palavra pasta, O Economista Português inclina-se para a segunda hipótese.
Com efeito, na «pasta» do Sr. Ministro das Finanças, Doutor V. Gaspar, estava o aviso deixado pelo seu antecessor, o Prof. Teixeira dos Santos. O Doutor Gaspar tem variado na sua apreciação da suficiência das informações dadas por Santos; ontem, acertando o passo com a sua sucessora, passou a declará-las insuficientes. Ao que sabemos, Santos cumpriu os deveres de ministro cessante – categoria que a Drª Albuquerque parece confundir com a daqueles orientadores de tese de doutoramento que ajudam os doutorandos mais fracos a escreverem as suas teses.
A Drª Maria Luís Albuquerque deve demitir-se >>> leia abaixo as três Razões da sua Demissão
Forrobodó no laranjal
Exactissimamente
Que maravilha maravilhosa
Confirmado: Rio vai ser o próximo presidente do PSD
“Se vivêssemos numa democracia adulta, uma pessoa que chega ao Parlamento e não diz a verdade a toda não tinha condições para desempenhar o cargo [de ministra das Finanças]”, disse Rio, sobre Maria Luís Albuquerque, considerando que, hoje, “ela já é um problema” para o Governo de Pedro Passos Coelho.
O autarca, que está a beira de deixar a presidência da Câmara do Porto, depois de três mandatos, disse que a avaliação que faz das capacidades técnicas da ministra “é muito má”, afirmando que ela é “uma pedra no sapato”, “um erro” e o “elo fraco” do Governo. Ainda assim, defendeu que Albuquerque não deve sair agora, uma vez que uma nova demissão provocaria “outra crise” política.
“Se apoiasse Luís Filipe Menezes era hipócrita. Se não dissesse nada era oportunista. Todos os dias faz promessas e promessas e promessas (…). Tenho a obrigação ética de me demarcar muito claramente do candidato que vai destruir tudo o que foi feito. Isto descredibiliza os partidos”, lamentou o autarca social-democrata, em entrevista hoje à noite à RTP1.
Afirmando-se “desgostoso”, Rui Rio reprovou o PSD por estar “a infligir pesadas medidas aos portugueses, dizendo que a culpa é de quem endividou o país” e, ao mesmo tempo, escolhe “para o Porto Luís Filipe Menezes, que em Gaia fez pior do que os antecessores socialistas que [o Governo] critica”.
“Tenho a obrigação de demarcar do meu partido. Não é politicamente honesto porque o partido que durante 12 anos disse uma coisa [aos eleitores do Porto], agora diz algo completamente diferente”, afirmou.
Rio admitiu poder vir a ser “sancionado” pelo PSD pela posição assumida na entrevista, mas recusou “ser hipócrita” e alertou que quem suceder a Menezes na Câmara de Gaia “vai ter um problema gigantesco”.
Qual a legenda adequada para esta foto?
Farinha do mesmo saco
Não preciso de repetir o que já quase todos mostraram: que Maria Luís Albuquerque mentiu repetidamente, perante o Parlamento e os portugueses. As suas mentiras não são comparáveis às de quem, como Sócrates e Passos Coelho, fez promessas que não cumpriu.
A saída do parlamento de pessoas como Honório Novo, Ana Drago ou, há uns anos, Diogo Feio (que foi para a Europa), é especialmente grave num momento em que a política vive uma “crise de vocações”. Não posso deixar de admirar a resistência dos que, tendo talento e dignidade, se mantiveram tanto tempo no ativo. E tenho pena que partam. E é também por isso que me incomodam as generalizações sobre os políticos, como se fosse tudo “farinha do mesmo saco”. Esse é o discurso que medíocres e desonestos mais apreciam. Que permite à nova ministra das Finanças mentir como mentiu sem temer pelo seu lugar. Afinal de contas, ela é, diz o povo, apenas mais uma igual a todos os outros.
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Este texto é um notável exemplo de dissonância cognitiva. Notável pela patente contradição nos critérios exibidos e notável dado o percurso e influência do seu autor. É um perfeito microcosmo do bloqueio do sistema político à esquerda. Mas não só, e ainda pior.
O Daniel foi um dos puros e verdadeiros esquerdistas que alinharam nas campanhas de assassinato de carácter contra Sócrates gizadas na Lapa e em Belém. Juntou-se animado ao coro dos que berravam a toda a hora ser Sócrates um mentiroso pulsional e impenitente. Chegou ao ponto de o carimbar como o pior primeiro-ministro da História, ou segundo pior (foi evoluindo, reconheça-se). Onde é que isso já vai? Vai e vem. Repare-se como no final de Julho de 2013 estamos outra vez perante um exercício nascido do ódio. A equivalência entre Sócrates e Passos é estabelecida como verdade indiscutível, sem ser necessário gastar uma caloria a demonstrar a paridade. Ora, Passos abriu uma crise política e fez uma campanha eleitoral que afundou o País neste abismo, tendo mentido de todas as formas e feitios no processo. A mentira no trajecto de Passos e do seu PSD não é apenas um fenómeno cuja ocorrência, densidade e consequências não têm paralelo com nada que tenha sido registado em democracia; a mentira foi – e é – também a condição sine qua non para a conquista e exploração do poder. Como é que Sócrates compara com Passos? Mentiu mais? Mentiu o mesmo? Mentiu metade? Mentiu um décimo? Quais são, afinal, as infames mentiras desse celebérrimo mentiroso? Deviam ser fáceis de listar, por alegadamente serem tantas e tão graves, certo? O facto de ninguém o fazer, nem sequer à direita, é apenas a ponta do novelo.
Como a minha vizinha do 4º andar faz questão de me repetir, ainda não se descobriram provas de Sócrates ter mesmo nascido no planeta Krypton, embora seja razoável supor que tenha por lá um tio ou alguns primos. Tal consciência devia permitir olhar para o homem e conseguir ver para além do monstro que assustou tantos apenas por ter ousado uma liderança que não se acobardou frente aos poderes fácticos. Acima e antes de tudo, o caso Sócrates remete para a qualidade do regime democrático, pois este cidadão foi eleito e assumiu responsabilidades como governante com plena legitimidade. Para além de ter sido o político mais investigado e devassado pelas autoridades policiais e judiciais que se conhece – o que, por inerência, faz dele o político que mais testes de legalidade e integridade passou dado que nem arguido foi de coisa alguma – a realidade de ter sido alvo de uma gigantesca campanha de difamação e calúnias corresponde, portanto, a termos assistido à violentação do Estado de direito e ao esmagamento da decência mínima sem a qual não é possível existir uma comunidade onde o respeito e a liberdade sejam direitos consagrados. E um mal nunca vem só: quem agora exibir a sua indignação contra o que fizeram ao regime na pessoa de Sócrates passa automaticamente a agente do Grande Satã.
A triste ironia do texto do Daniel, pois, consiste na sua genuína intenção de contribuir para a defesa da democracia e da qualidade do regime, pilares da nossa vida em comum que estão a sofrer fortes tensões e abrasamentos causados pelas crescentes tendências populistas que invadem a comunicação social e a sociedade. Não se duvida que este jornalista e político, cuja principal carreira tem sido feita adentro da política-espectáculo, seja sincero no repúdio das práticas e manifestações que procuram tolher e denegrir a classe política. Mas há que lhe apontar a himalaica incoerência que consiste em não aplicar a sim próprio o critério que exige aos outros. Ao nivelar Passos e Sócrates sem justificar a generalização, reproduzindo com exactidão as imutáveis estratégias sectárias do PCP e BE, a mensagem que se transmite é a de os dois serem farinha do mesmo saco. Só que, neste caso, o moleiro é o publicista e não lhe faltam burros para transportar a sua farinha pelos quatro cantos do reino da estupidez.
Serviço público
Passos, um verdadeiro homem do Norte (da Europa)
Não sei, porque não há estômago para o confirmar, mas apostava os 10 euros que tenho no bolso em como Passos Coelho repete em todos os discursos que faz no Parlamento estes refrões:
– Em 2011 chegámos à bancarrota por causa do PS.
– Em 2011 pedimos o resgate por causa do PS.
– Em 2011 fomos salvos graças ao PSD.
Se o primeiro-ministro se entrega maniacamente a este exercício, ainda mais os seus coronéis e soldadesca. Isso leva a que, muito provavelmente, não tenha ainda existido uma única sessão plenária em que alguém das bancadas do PSD e CDS tenha deixado passar o tempo sem se ter levantado para achincalhar o PS com a bancarrota e o Memorando. Ora, se eles o fazem é porque obtêm vantagens nesse comportamento. E elas não são apenas psicológicas, pois igualmente vão mantendo activo o processo de culpabilização do PS por todos os males terrenos e de diabolização do Sócrates por todos os males cósmicos.
Do outro lado, reina o silêncio intencional de Seguro e dos seus. E assiste-se à indiferença, primeiro, e repúdio, depois, por aqueles que insistem em contar uma história alternativa. Nesta versão, os portugueses foram e estão a ser enganados com vista ao seu empobrecimento imediato e estrutural. Os factos e números que explicam e demonstram esse plano são abundantes e ubíquos. Porém, exigem literacia e esforço cognitivo para serem assimilados. Tal contrasta com a ausência de esforço intelectual, bastando apenas a passividade, que leva à aceitação dos assassinatos de carácter, simplismos difamantes e distorções caluniosas. Este registo pretende apenas a excitação emocional, a qual será tão maior quão maiores forem a ignorância, o medo e o desespero – já para não falar das patologias mentais, igualmente um terreno fértil para a captação de voluntários para os grupos de linchamento populista.
É especialmente interessante analisar a anfibologia do uso do Memorando nos discursos do Passos. A Troika é, à vez e em simultâneo, algo positivo e algo negativo. É positivo porque ela vem resolver os nossos problemas, é negativo porque ela está cá por iniciativa do PS. Dito de outra forma, o Memorando é a prova de que Portugal não tinha saída para a crise, mas o Memorando é igualmente a prova de que Portugal tem saída para a crise. Desta forma, o PSD pode continuar a castigar o PS por, afinal, ter conseguido com que as nossas deficiências de décadas sejam resolvidas.
Onde é que vemos a mesma dinâmica manipuladora? Nos casos de violência doméstica, onde o agressor consegue levar a vítima a sentir-se culpada pelas violências sofridas. As agressões são justificadas como sendo o resultado de falhas cometidas, pelo que são benéficas para quem as sofre, são correctoras e preventivas. A continuação da violência doméstica depende da crença da vítima na impossibilidade de uma alternativa, por isso o agressor tudo faz para isolar socialmente e enfraquecer mentalmente a sua presa.
O tema da culpa dos portugueses na direita, já a começar com Ferreira Leite e tendo a sua consumação febril em Passos, dava um tratado multidisciplinar. Contudo, talvez a origem deste vendaval que assola a sociedade portuguesa seja tão simples como o que ouvimos ao primeiro-ministro na Assembleia da República: o Norte da Europa conseguiu colocar o seu cobrador a mandar na barraca.
Revolution through evolution
A Woman’s Work Is Never Done?
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To Savor the Flavor, Perform a Short Ritual First
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Too Many Antioxidants? Resveratrol Blocks Many Cardiovascular Benefits of Exercise
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HOW THE CIA CAN SEND A DRONE AFTER ANY MOBILE PHONE
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Psychopathic criminals have empathy switch
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Optimists Better at Regulating Stress
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10 Easy Activities Science Has Proven Will Make You Happier Today
Parabéns, Manuel Pacheco
Gente séria do meu país
O que não posso deixar de notar é que a forma como esta questão tem sido tratada lembra-me um pouco alguém que coloca fogo a uma casa e depois queixa-se que os bombeiros não chegaram suficientemente depressa», disse Poiares Maduro aos jornalistas, em Cantanhede, à margem da inauguração da Expofacic.
«A questão fundamental aqui é saber como foi possível, durante sete anos, em Portugal, serem celebrados contratos ‘swap’, quem foi responsável por isso, quem é que tinha tutela quando foram celebrados», argumentou.
Poiares Maduro: Ministra dará «todos os esclarecimentos» sobre ‘swap’
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Estas declarações são especialmente relevantes, apesar da sua inerente efemeridade. Vejamos:
– Poiares Maduro chegou com a aura de ser um jovem e brilhante académico com prestígio europeu e internacional, a antítese perfeita de Miguel Relvas que substituía na pessoa, no estilo e na estratégia. Trazia modernidade e esperança para um Governo de fraquíssimas figuras.
– O professor de direito em universidades de Itália e dos EUA chegou também sem passado político, o que o deixava imune para escapar ao registo de baixa política onde o PSD encontrou nos últimos largos anos o arsenal para conquistar e manter o poder.
– Ei-lo, então, a usar uma analogia que se aplica como uma luva ao que PSD e CDS, entusiasticamente acolitados pelo BE e PCP, fizeram no Parlamento a respeito do caso BPN. Nesse processo, o alvo mais ferozmente perseguido – aliás, o único alvo – dava pelo nome de Vítor Constâncio. Crime do senhor? Ser socialista. Agora com o Poiares, os bandidos voltam a ser os polícias.
– Só que há polícias maus e polícias bons. Os maus estão todos nos Governos do PS, embora nada se demonstre acerca dessa insinuação e, portanto, tudo se difame. E os bons estão neste Governo, apesar de se ter no currículo obra feita à conta de muito swap embrulhado e despachado in illo tempore, e apesar de se mentir à boca cheia, inclusive sob juramento numa comissão parlamentar.
Este é tão-só mais um episódio onde constatamos a decadência da direita portuguesa, a qual nem com sangue novo e neurónios aparentemente em boas condições consegue sair do charco onde vegeta e procria. Lembre-se que a primeira vez em que o povoléu foi brindado com a notícia da existência de tais bicharocos ocorreu em Abril de 2013, em cima do congresso do PS. E que, a partir daí, o que se veio a saber do processo deixa uma imagem deplorável tanto de Maria Luís Albuquerque como de Vítor Gaspar. Não só estavam os dois devidamente alertados e informados desde que chegaram ao Executivo como não foram capazes de resolver o assunto mais cedo e ainda vieram culpar os governantes passados, os mesmos que começaram a tratar da questão e que foram transparentes a seu respeito na mudança de poder.
Para além dos considerandos imediatos, um pouco mais de tempo a matutar nas manhas do Maduro leva-nos para uma mais tenebrosa conclusão: este PSD do valente Pedro só concebe a acção política em modo pós-Estado de direito, particularmente quando está no Governo. Aqui, temos um ministro a dizer que o actual mandato dos governantes não deve ser tido em conta para o apuramento de responsabilidades políticas, morais e até criminais. Ali, temos um Governo a fazer dois Orçamentos inconstitucionais e a queixar-se de um Tribunal por este insistir em defender a Constituição. Acolá, temos ministros a ofenderem-se uns aos outros em público e por escrito, a fazerem juras e a voltarem imediatamente com a palavra atrás a troco do crescimento das sinecuras.
Isto, a esta escala, com esta falta de decoro, às escâncaras, nunca se tinha visto no Portugal democrático, tem sido amiúde repetido. Mas isto, colhe frisar, igualmente nunca tinha sido imaginado como sendo possível. É que estes são os mesmos da “política de verdade”, do “falar verdade aos portugueses”, da “década perdida”, do “fim do regabofe”, do “os familiares de Sócrates deviam ter vergonha”. Esta é a gente séria do meu país.
Na civilizadíssima Itália
A democracia não é para broncos
Maria João Rodrigues é um dos mais qualificados quadros do PS. A sua área de especialidade e de influência é a Europa. Nesta entrevista, não diz nada que justifique uma notícia no dia seguinte, sequer um comentário num blogue ordinário. À excepção deste.
Este tipo de políticos é indispensável num partido que pretenda exercer a governação na plenitude das suas capacidades. A sua formação não é instantânea, vão ganhando valor à medida que constroem as carreiras. E podem quase passar despercebidos junto do público ofuscado pela espuma dos dias. Por exemplo, a audiência que consumiu esta intervenção deve ter sido de pouquíssimos milhares. E estou a ser optimista.
Que nos diz a antiga ministra de Guterres? Que estamos na Europa, surpresa. E que se a ideia for a de por lá/cá continuar, então a austeridade vai também continuar. Só que não existe apenas uma maneira de aplicar a austeridade, por um lado, e que apenas com austeridade não temos salvação, pelo outro. Mais nos alerta que o actual Governo é composto de alimárias que nem sequer conseguem aproveitar os fundos europeus. Esta perspectiva é a do PS e é também a de qualquer que use de módico senso comum. É a posição inevitável para resolver o problema, pois os problemas têm essa mania de exigirem ser definidos com o máximo rigor em ordem a poderem ser solucionados com a eficácia possível. Donde, podemos presumir, sem probabilidade de falhar, que as ideias que a Maria João apresenta e explicita merecem a aprovação dos eleitorados do PSD e do CDS. E, continuando a gastar do senso comum inicial, podemos recordar que em nada este enquadramento da situação nacional diverge do que foi o entendimento e prática dos Governos socialistas – precisamente porque estamos no domínio do consenso fundante da nossa pertença à União Europeia. Valeu a pena, então, ter trocado Sócrates por Passos? Valeu a pena, pois, ter trocado a soberania pela Troika? Valeu a pena ter premiado com o poder aqueles que trataram os eleitores como gado para abate? Alguém enganou alguém, portanto, para estarmos metidos em tamanho buraco.
Trago este momento condenado ao imediato esquecimento precisamente para realçar que a qualidade do debate no espaço público depende das opções editoriais que os órgãos de comunicação social fazem, como diria la Palice, e onde a escolha dos protagonistas é decisiva. Uma discussão com base em retóricas demagógicas e populistas, ou sectárias e fanáticas, ou difamantes e caluniosas, diminui a inteligência das audiências e auditórios, promovendo uma passividade cognitiva que está ao serviço das dinâmicas de autoridade cultivadas por quem pretende constranger, atrofiar e, por fim, anular a autonomia dos cidadãos. É que a democracia não é para broncos, apesar da bronquite crónica que a perverte desde que foi inventada.
Seguro já merece uma estátua
Este intervalo de poucos dias, só até à moção de confiança, na demência que Passos, Portas e Cavaco despejam caudalosamente na política nacional permite voltar a sovar o PS de Seguro. O que está em causa não é o que o secretário-geral fez e não fez em Verões e Invernos ultrapassados, muito menos os seus dotes carismáticos ou falta deles, antes algo objectivo e actual: a estratégia de liderança da oposição. A situação é tão mais bizarra quanto estamos a falar do mesmo partido que vinha de exercer o poder ao longo de 6 anos e foi obrigado a negociar um empréstimo de emergência nas piores condições possíveis.
Seguro decidiu apagar qualquer referência – vamos repetir: “apagar qualquer referência” – ao contexto que antecedeu a sua tomada do poder no Largo do Rato. Não foi apenas uma desvalorização ou distanciamento do consulado Sócrates, algo que seria absolutamente legítimo e até previsível, tratou-se foi de uma verdadeira purga que vinha acompanhada de um angelismo fundador. Com ele, o PS iria libertar-se da peçonha que o corroía por dentro e, nesse balanço, salvar a Nação que agonizava nas mãos da corrupção de todos menos do António José. Aquando da crise gerada pela eventualidade do avanço de Costa contra Seguro, vimos como essa pulsão revanchista está inscrita nos elementos da sua direcção. E nestes dois anos tem sido penoso e degradante assistir aos silêncios cúmplices de Seguro perante os insultos com que o PSD e o CDS não se cansaram de causticar os socialistas em todas as sessões parlamentares. Espectáculo vexante até para quem não é nem quer ser do PS.
Mas é na relação com um Governo de incompetentes e de irresponsáveis que a liderança de Seguro se constitui como gravemente danosa para o País. De facto, esta legislatura iria ser a da Troika, pelo que seria sempre obrigatório começar por definir a postura face ao acordo original. Da parte da direita, o Memorando foi não só desejado como aclamado. Diziam que era a receita para os problemas nacionais, que já devia ter chegado há muito e Passos chegou a declarar que as medidas do PSD seriam as mesmas caso ele não existisse. Qual deveria ser a posição do PS? Figuras como Sócrates, Teixeira dos Santos, Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira deixaram-na de modo lapidar: quem tinha aberto a crise tinha de ser responsabilizado pelas suas consequências. Ora, as consequências revelaram-se catastróficas, pois em cima de um resgate já de si penoso para a população, a entrega do comando a Vítor Gaspar arruinou por completo o tecido económico das pequenas e médias empresas e agravou colossalmente a crise financeira e social. Estes resultados não são apenas negativos em si mesmos, acresce à violência que se abateu sobre os portugueses o escândalo das condições em que foi possível ter estes decisores a desgovernar Portugal.
Entende-se facilmente a razão pela qual o PCP e o BE não atacam a direita por ter aberto a crise em Março de 2011. E recordar o que disseram esses partidos ao tempo será o equivalente a visionar uma cerimónia das seitas apocalípticas. Mas testemunhar a passividade do PS perante a impunidade de quem fez o mal e faz a caramunha é grotesco. Seguro mostrou que a história do partido é coisa inferior à história da sua peculiaríssima ambição pessoal. E, por conceber o partido à imagem e semelhança da sua megalomania, tem levado a que o PS não consiga convencer o eleitorado a querer uma mudança de Governo. Este feito, sinceramente, merece uma estátua.
Concordar no essencial, discordar substantivamente
Marina Costa Lobo é uma cientista política que se caracteriza pelo zelo metodológico e por uma corajosa honestidade intelectual. No auge da campanha para derrubar o Governo em 2011, foi das raríssimas vozes que alertaram para a desgraça que se seguiria caso Cavaco e PSD abdicassem da defesa do interesse nacional: A resistência de Sócrates serve Portugal
Eduardo Paz Ferreira, para além da carreira académica ilustre e da intervenção cívica exemplar, é um cinéfilo apaixonado e um fordiano de alma e coração. Em Março deste ano, sem saber o que me esperava tamanha a distracção, fui à Cinemateca ver o THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE. Tratava-se do ciclo UMA QUESTÃO DE CARÁCTER e o Eduardo fez a apresentação da obra. Quem não é fordiano não o pode saber, mas o que está em causa nesta vocação é da ordem da metanóia. Ford, em cada um dos seus filmes, repete igual chamamento: sê grande, vence o mundo.
Estas duas simpaticíssimas personalidades aparecem neste debate a concordarem no essencial e a discordarem substantivamente. Representam a multiplicidade das posições ao centro, espaço da suprema inteligência política por ser o mais abrangente e complexo. No centro pode ser-se de direita ou de esquerda, contra ou a favor da Troika, da Europa e da Atlântida, apoiar este desgoverno ou pedir a sua demissão para anteontem. Pode ser-se tudo o que se queira, menos sectário ou pulha – ou seja, ser tudo menos ser estúpido. É por aqui que vamos.
Exactissimamente
Isso não se faz ao reformado, Pedro
Maria Luís Albuquerque, secretária de Estado do Tesouro, voltou hoje a garantir que na altura em que entrou de Governo não foi informada sobre as swaps.
“Na pasta de transição entre mim e o anterior secretário de Estado do Tesouro, Carlos Costa Pina, não constava nada sobre as swaps. Mantenho o que disse na audição parlamentar”, disse na primeira conferência de imprensa que o Governo resolveu começar a fazer diariamente.
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O ex-ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos garantiu este sábado ter informado o seu sucessor, Vítor Gaspar, de “toda a informação necessária” sobre os contratos swap envolvendo empresas públicas em reunião a 18 de Junho de 2011.
A actual ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, teve conhecimento sobre o caso dos swaps quando tomou posse como secretária de Estado do Tesouro, em Junho de 2011, e até mostrou uma “preocupação especial” com a situação da Metro do Porto, garantiu nesta terça-feira no Parlamento o seu antecessor, Carlos Costa Pina.
O antigo director-geral do Tesouro Pedro Rodrigues Felício disse nesta terça-feira que falou com Maria Luís Albuquerque sobre swaps aquando da tomada de posse como secretária de Estado, tendo-lhe enviado no dia seguinte um “ponto da situação”.
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“O primeiro-ministro deu-me a garantia de que sobre Maria Luís Albuquerque não pesa” qualquer coisa menos correcta, afirmou o Presidente da República. Cavaco Silva não critica a escolha de Pedro Passos Coelho, já que se o primeiro-ministro considera bem não será ele a dizer o contrário, justificou.
Ainda teremos saudades desta direita
Em matérias de salubridade da acção política, não se aplica o cliché com que os homens do futebol racionalizam a depauperação dos plantéis. Neste Portugal, quem não está faz mesmo muita falta. Porque muito nos falta. E porque não parece haver quem nos valha.
Repare-se como foi possível ver Cavaco, no desfecho da palhaçada em que embrulhou o Governo e os partidos, a pavonear-se como o messias da “cultura política de compromisso” sem que, concomitantemente, o Sol se tenha apagado ao meio-dia e um estrondo cavernoso tenha percorrido cidades, estradas, parques de campismo e baldios. O fulano que a partir de meados de 2008 tudo fez para destruir qualquer possibilidade de compromisso entre o PS e o PSD lançando-se numa estratégia de difamação e ataques de carácter em que sugeria abertamente que o Governo socialista mentia aos portugueses e era corrupto, o beltrano que enganou o eleitorado e violou a Constituição, o sicrano que abriu uma crise política com a intenção de entregar o País aos credores internacionais e levar uma direita de pulhas ao poder, é o sonso-mor que trata os cidadãos como servos da gleba. Eis a única coerência que dá conta da oportunista e cínica variedade dos seus critérios.
Não há dúvidas, não há hesitações. Cavaco é a figura maior da direita após o 25 de Abril. Tutela e simboliza um modo de fazer política caracterizado por uma singela regra: vale tudo desde que não sejas apanhado. A regra vem com esta adenda: mesmo que sejas apanhado, continua tudo a valer a pena. Por isso a indústria da calúnia, as campanhas negras e as conspirações são o arsenal utilizado preferencialmente pela oligarquia – e tão mais e ferozmente utilizado quão mais forte for o adversário.
Será que a direita portuguesa está condenada a esta decadência? A avaliar pelo que se vê nas juventudes partidárias do PSD e CDS, ainda teremos saudades da actual miséria.
