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Portugal já não é um Estado de direito
Paulo Rangel, Parlamento Europeu, 2010
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Uma das deliciosas (amargas? repulsivas?) ironias de sofrermos um Governo que tem alergia à Constituição reside na suspeita de que esse Governo se assume como representante da direita, a que acresce termos um primeiro-ministro que consta se assume como liberal. É irónico porque devemos ao liberalismo a invenção do Estado de direito, criado precisamente para garantir a propriedade, a igualdade e a liberdade individuais. Contra todos os despotismos, de sangue ou armas, a instituição do Estado de direito é uma conquista civilizacional adequada ao modelo capitalista que realiza na perfeição o ideal democrático original. Daí que os totalitarismos, de esquerda ou direita, abominem o império de uma lei que o povo decide dar a si próprio – esse céu estrelado e pacificador que devemos a Kant, entre outros heróis da liberdade em que hoje vivemos e somos.
Ser de direita em regimes democráticos, portanto, sempre implicou uma ontológica vocação para a defesa do Estado de direito, pouco importando se a direita em causa era de tipologia conservadora ou liberal. E, logicamente, pensar e promover o Estado de direito é concomitante à ponderação e desenvolvimento das questões relativas à soberania e à justiça. De tal maneira estas instâncias são conexas que seria impossível alguém de direita abdicar da valorização da segurança jurídica e da liberdade que daí decorre e que aí se consagra. Quer-se dizer, é suposto haver mínimos de racionalidade na teoria política onde ainda vigore o princípio do terceiro excluído.
Pois bem, no Portugal do passismo vemos a direita – e logo a dita liberal, minha nossa senhora do Caravaggio! – a invectivar o Tribunal Constitucional por este insistir em bizarrices como o respeito pelos direitos dos cidadãos. Estas luminárias (alimárias?) pretendiam que os juízes abdicassem irresponsavelmente dos princípios e normatividade do Direito em favor das decisões avulsas de um Executivo. Ou seja, os liberais portugueses transformaram-se em defensores de um soberano absolutista para quem a separação de poderes é uma força de bloqueio para o seu génio transcendente. É a loucura da juventude, rapaziada, ou será dos ácidos?
Acontece que há uma boa explicação para esta cegada (cagada?). São os próprios que a repetem sem se cansarem. E consiste nisto: Passos e brilhante equipa que o aconselha (guia? ampara? refreia?) acham que o Estado é uma empresa, agora sua, e que a economia de um Estado se administra com a mesma simplicidade aritmética com que se fazem contas numa mercearia. Na Lusodisney onde se fantasiam de estadistas, os problemas resolvem-se com despedimentos e reduções de salários pela simples razão de ser assim que os grandes empresários fazem nas suas grandes empresas. A mesma basicidade para as consequências da austeridade violenta e estúpida, a qual, se vista pela moral da outra senhora, igualmente se revela uma fonte clássica de virtudes cardinais e teologais – até por só tocar aos outros de quem nem são parentes nem amigos nem vizinhos nem nada. Governar é uma cena bué fácil, basta cortar bué da cenas. Só é pena é ainda ninguém ter privatizado a Constituição.
Se os planos do liberal Passos Coelho continuarem a ser aplicados, vamos ficar cada vez mais pobrezinhos, mais miseráveis, mas também mais limpos, honrados. E depois, purgados das porcarias que o Tribunal Constitucional nos metia na cabeça, aí veremos quão maravilhosa é uma sociedade liberal à portuguesa. Um país onde seremos todos tão livres que nem precisaremos de ter estradas, carro, casa, cuidados médicos, férias, salários, reformas ou mesmo comidinha na mesa, esses vícios socialistas.