Precisamos de outro memorando

Para 46 por cento dos inquiridos, o actual cenário económico e social é considerado pior, ou muito pior, quando comparado com a vida há 40 anos, antes do 25 de Abril. Se a comparação for feita com um período mais recente, as perspectivas são ainda mais desanimadoras. Mais de metade dos portugueses (58 por cento) vê a vida actual como pior ou muito pior face há 25 anos, antes da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE).

Janeiro de 2011

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Os infelizes que nos finais de 2010 responderam a este inquérito patrocinado por Belmiro de Azevedo mereciam receber a pena suprema aplicável a quem respondeu a inquéritos patrocinados por Belmiro de Azevedo em 2010: voltar a responder em 2013.

Mesmo que nos lembremos da vendeta jurada a Sócrates pelo clã Azevedo, os resultados do estudo são verosímeis se também nos recordarmos que logo a partir de 2008, e sem interrupção daí em diante até às eleições de 2011, foram manipulados e extremados os naturais sentimentos de insegurança e medo da população apanhada num ciclo de crises económicas imprevisíveis. Repetindo sistemática, através da comunicação social, e institucionalmente, através de Belém, o estribilho de que o Governo era uma agremiação de inveterados corruptos sempre a roubar e a mentir e que nenhuma das informações que dele viesse era confiável, especialmente as notícias positivas, a direita agitava um papão que apelava espontaneamente à esquerda: a paranóia conspirativa e catastrofista contra o Estado que alimenta todos os populismos. Sócrates iria cair nem que para tal fosse preciso destruir o País. E se bem o pensaram, melhor o estão a fazer.

Quando alguém diz que se vivia melhor antes do 25 de Abril não é preciso partir logo para o insulto e o tabefe, poderá estar simplesmente a enunciar uma grande verdade. Porque é verdade. Alguns, não tão poucos quanto isso, viviam muito bem no tempo de Salazar e Caetano. Contudo, talvez o mais provável seja essa declaração ter uma causa apenas emocional, ser uma forma hiperbólica de expressar a indignação ou aflição. Talvez. Isto porque antes da Revolução a maior parte do País vivia em diferentes graus de miséria. Miséria material terceiro-mundista, com falta de segurança, saúde, vias rodoviárias, água canalizada, electricidade, transportes, bens e rendimentos. Miséria cívica, com censura, polícia política, ausência de liberdade democrática e uma guerra colonial invencível. E miséria cultural, onde uma elite provinciana mantinha Portugal num pesadelo ditatorial novecentista.

Como é que se chega a 2010, segundo o tal inquérito, com metade dos portugueses a desejarem voltar a esse mundo imundo? Dos actuais PSD e CDS não há nada a esperar no que à decência e ao patriotismo diga respeito. São apenas máquinas de ocupação do Estado para quem vale tudo no combate político, tendo trabalhado com raiva para essa paisagem vergonhosa e demente. Mas do PCP e do BE era de esperar um fervor de memória que tornasse impossível a deturpação completa do que aconteceu antes do 25 de Abril. Espantosamente, a sua recusa em negociar com o PS soluções governativas faz com que promovam uma repulsa por tudo o que aconteceu depois do 25 de Novembro. Ou seja, os radicais desenvolvimentos que arrancaram Portugal às misérias da ditadura são apagados ou deturpados na retórica de comunistas e bloquistas. Como não têm a sua assinatura, os pilares e o edifício do Estado social são da “direita” – mas num registo de compulsiva bipolaridade, estes bravos reclamam a posse ideológica da obra da “direita” sempre que a ocasião faz o ladrão.

Os comunistas, que serão quem conhece melhor o que foi a luta antifascista, pouco ou nada conhecem do que se passou na comunidade depois de o seu plano totalitário ter sido derrotado. E a direita, que construiu com os socialistas o modelo de sociedade com que chegámos a 2011, está agora nas mãos de um bando que despreza o passado e o presente daqueles que lhes deram a liberdade e as oportunidades. Isso faz com que a defesa simbólica do 25 de Abril, na actualidade, dependa quase que exclusivamente do Mário Soares lendário. Ora, só isso não chega, porque o que aconteceu – fará daqui por uns meses 40 anos – não cabe, muito menos se esgota, num só homem, num só partido ou numa só geração.

Eis uma dimensão da nossa crise de regime a precisar urgentemente de um memorando.

6 thoughts on “Precisamos de outro memorando”

  1. a ideia de máquinas de ocupação do estado é mesmo boa, um desenho, uma imagem fiel. e neste caso o tempo é – aquilo que se diz em ambiente industrial – o mensurador da capacidade instalada da taxa de ocupação. e o que diz o tempo? que a produção não corresponde à capacidade instalada e nem sequer há aposta em I&D. adorei.:-)

  2. oh bécula! a produção de asneira supera de longe a capacidade instalada e não há i&d que te valha, experimenta a auto-imolação numa cimenteira com filtros de partículas que faça co-inceneração.

  3. Agora estamos endividados e sem crédito como no dia 27 de Maio de 1926.

    Se demorou 40 anos a apertarmos o cinto para termos crédito internacional, agora vamos estar de mão estendida e chapéu na mão durante mais 40 anos.

    As prespectivas agora são piores porque temos portagens em estradas sem transito, universidades sem jovens, maternidades sem parturientes, e etares sem uso porque quem não come…não precisa etar.

  4. ignatz, o teu comportamento é preocupante.se um pjota aparecer no aspirina,ao fim de uns dias, está convocar-te para prestares declaraçoes,sobre os reiterados maus tratos a uma mulher.é urgente o teu internamento em psiquiatria!.

  5. nuno: o ignatz e a edie são dois pseudo-sensatos que julgam precisar de acompanhamento psicótico. e estão à espera que eu morra, vê lá tu, quando eles é que entornam veneno. :-D

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