A notícia de que Barroso forçou o Governo socialista na crise política e financeira de 2011 a assumir mais austeridade do que a considerada adequada pelas autoridades nacionais – Sócrates diz que Barroso o obrigou a mais austeridade – passou com o mesmo impacto que o trânsito de Plutão pelo éter cósmico tem no quotidiano dos terráqueos. Não é assunto que interesse, sequer aos próprios socialistas. Mas abre uma boa ocasião para realçar um aspecto crucial na temática do chumbo do PEC IV e suas consequências.
Este: tudo o que se passou em Março de 2011 era historicamente inevitável e foi politicamente lógico. Era historicamente inevitável por ser politicamente lógico, eis o nexo. Realmente, os agentes que decidiram aproveitar a crise das dívidas soberanas para interromperem a legislatura e conquistarem o poder limitaram-se a cumprir a sua ambição. Eles não pretendiam ficar na História por terem ajudado o País a lidar com uma conjuntura internacional inaudita, com isso minimizando as suas consequências económicas e sociais para toda a população e especialmente para a classe baixa e classe média, pois nessa eventual missão heróica teriam de abdicar da colossal oportunidade para derrotarem os adversários que as circunstâncias permitiam; e que, nesse modo da lógica política básica e rapace que é a sua, tornavam inevitável. Não foi outro o sentido do episódio, dado como factual, em que Marco António Costa ameaça Passos Coelho com o seu derrube dentro do partido caso não avançasse para o derrube de Sócrates chumbando o PEC IV. Aquele golpe, aliás, tinha sido longamente preparado, tendo demorado o tempo necessário para Cavaco obter a reeleição e estar em condições de gerir a crise que se ia abrir de maneira a boicotar o PS e favorecer o PSD até ao limite das suas capacidades. E foi o que fez com pleno sucesso, começando com o discurso da tomada de posse, continuando com a pressão política assim que se viu Passos a vacilar após a reunião secreta com Sócrates nas vésperas da apresentação pública do PEC IV e, finalmente, garantindo que a crise aberta chegaria às suas últimas consequências: levar Portugal para um resgate de emergência e levar Sócrates a eleições com esse jugo no pescoço. Caso este mesmíssimo plano não tivesse sido aplicado em Março, seria levado avante em Outubro ou Novembro a pretexto do chumbo do Orçamento para 2012.
Não sei se algum dia se saberá o que foi combinado entre Sócrates e Passos nessa tal quinta-feira à noite em que discutiram o futuro imediato do País. O certo é que o PSD no dia seguinte mostrou-se alinhado com a estratégia de Portugal, a qual era a que a Europa também pretendia que vingasse. Belém foi célere a intervir, tomando a iniciativa da abertura da crise ao reclamar não ter sido consultada e dizendo que se estava perante uma grave falha institucional e Passos passou para o registo da mentira desenfreada – e à traição ao interesse nacional por chantagem interna – no espaço de 48 horas.
Esta história da nossa História é acolhida com gargalhadas, sorrisos ou apatia pela enorme maioria dos portugueses. Gargalhadas dos que concebem a política como uma guerra civil onde vale tudo, fazendo da luta pelo poder uma campanha de terra queimada sem o menor tremor de consciência. Sorrisos dos cínicos, protegidos pela segurança e conforto obtidos por acomodação, os quais acham que a política é isto e só isto e não pode deixar de o ser, não perdendo uma caloria com surpresas ou indignações. E apatia dos miseráveis, dos broncos, dos fanáticos, dos sectários, dos alienados, dos calculistas e dos que sobrevivem na cidade sem saberem quem lhes pode valer.
Sim, claro, a política é esta selvajaria pulsional, a qual tanto pode ficar confinada a um quadro institucionalizado ou levar a pegar em armas. Aqui e em todo o lado. Hoje como há centenas e milhares de anos. Porque é a sempiterna luta pelos recursos finitos e pelo estatuto hierárquico. Mas será só isso? A civilização foi criada para perpetuar os privilégios de uns poucos à custa da fragilização de muitos? Os ideais que nos arrancaram à animalidade, à irracionalidade e à violência tribal nasceram de figuras com estas cobiças oligárquicas? A resposta terá de vir de cada um – e pela resposta saberemos a que futuro pertencemos.



