Bullying ao bullying

Não me conformo que, havendo mais de 1 milhão de palavras na língua portuguesa, tenhamos de suportar o bullying anglicista do bullying. Antecipando já uma eventual crítica, recordo que os comportamentos descritos como bullying não se circunscrevem ao espaço escolar, podendo ocorrer numa empresa, na rua ou pela Internet, por exemplo.

Estas são as minhas melhores alternativas, por ordem de preferência:

Acossamento / Acossado / Acossar

Molestamento / Molestado / Molestar

Maltratamento / Maltratado / Maltratar

Quais são as tuas?

12 thoughts on “Bullying ao bullying”

  1. Problema classico. De um ponto de vista juridico, o “bullying” é geralmente considerado como uma das variantes do assédio, embora aluda mais especificamente ao comportamento de um grupo dirigido contra um individuo (tal como o “mobbing” estudado por H. Leyman em 1996).

    Portanto, eu acrescentaria “assédio” e “assediar”.

    Quanto ao resto simpatizo com o teu comentario : lutar contra os estrangeirismos é também, em Portugal, lutar contra a nossa deploravel propensão para considerar que as palavras estrangeiras, por maioria de razão quando estão na moda, se referem à realidade objectiva, logo a algo que, em principio, não tem nada a ver connosco…

    Boas

  2. joão viegas, “assédio” é uma boa sugestão, embora o seu território já esteja muito marcado pela temática sexual, por um lado, e a sua semântica seja mais passiva do que activa, como se vê no caso do assédio militar, o qual é um cerco.

  3. boa! a nossa língua é para ser bem abusada: também existem assédios felizes.

    Molestamento / Molestado / Molestar ou qualquer outra das tuas. mas também abuso/abusado/abusar ou humilhação/humilhado/humilhar. este último conjunto aproxima-se bastante por conta de estar sempre presente em qualquer outro referido. e deve pesar a emoção.

  4. Ola,

    Tens razão, mas isso esta a mudar com a intrusão do conceito de assédio moral (por exemplo no trabalho). Vê aqui : http://pt.wikipedia.org/wiki/Ass%C3%A9dio_moral.

    Ha ja legislação sobre o assunto no Brasil, e eu até ia jurar que em Portugal também (ou foi so um projecto ?).

    Seja como fôr, ha aqui também uma forma de estrangeirismo, dado que o assédio moral aparece, tanto quanto pude verificar, como a transposição lusa do “harcèlement moral” francês (o qual veio na sequência do “harcèlement sexuel”, e em francês a palavra também tinha uma conotação sexual, como todos os fãs do Bobby Lapointe sabem muito bem).

    Boas

  5. “posto de lado”,num gabinete sem trabalho,foi o que fez a empresa onde trabalhei a um colega, que de taõ doente que estava,nem se preocupou em responder,a contestar o seu despedimento,foi o caso mais dramatico a que assisti.a comissaõ de trabalhadores como era liderada pelo pcp,não mexeu uma palha,julgo que por ele não ser da cor. fiz o que podia denunciando o caso. o medico da empresa (com avença) tambem lutou pelo não despedimento,mas nada conseguiu.este caso ainda hoje me atormenta `so para verem em que estado estava agravado pelo isolamento,quando pressionado por mim para responder à carta de despedimento respondia-me desta forma: “vou para policia para a africa do sul”. foi este homem despedido numa grande empresa publica

  6. guida, “violência”, sem dúvida, mas é uma opção que tem o mesmo problema das minhas “molestar” e “maltratar” por ser genérica de mais. É que uma característica do bullying, que “assédio” transmite bem, é a repetição em modo continuado ao longo do tempo.

    “Assédio” e “violência”, pelo facto de serem substantivos de habitual e cómodo uso, ganham às formas verbais eventualmente mais rigorosas e suas variantes substantivas, lá isso é uma evidência.

  7. Valupi, concordo que algumas são demasiado genéricas, mas a mais genérica de todas é “bullying”. Serve para tudo e também por isso não gosto da palavra.

    Na verdade, é como dizes, temos mais de um milhão de palavras, é usá-las conforme a situação. Usar apenas uma é como dizer que alguém foi vítima de um “crime” e não especificar se foi vítima de um roubo, de uma agressão ou de um homicídio. E é comum sermos ainda mais rigorosos, dizemos se foi um assalto à mão armada, ou por esticão, se era só um ou vários assaltantes, etc. E isto faz toda a diferença. Já quando nos dizem que alguém é vítima de bullying, ficamos a saber tudo e a saber nada.

  8. guida, não posso concordar mais. E, ainda por cima, é uma palavra especialmente bárbara para a nossa língua, dado que nem sequer tem qualquer ligação com o latim.

  9. Ola,

    Estamos todos de acordo com a infelicidade do recurso a um estrangeirismo (embora por vezes a incoporação de palavras estrangeiras possa ser um sinal de grande vitalidade de uma lingua, vejam o que acontece com o português do Brasil, mas isso é outro assunto, vasto alias…).

    A outra dificuldade a que vocês aludem esta longe de ser uma minudência.

    A proibição (e mesmo a incriminação) dos comportamentos visados nos casos de assédio (sexual ou no trabalho), assim como potencialmente dos casos de “bullying”, coloca-nos perante um dilema : por um lado, os nossos principios liberais exigem precisão na definição dos comportamentos que a sociedade decide proibir e sancionar, por outro, estamos perante comportamentos que podem assumir variadissimas formas, impossiveis de descrever de forma exaustiva, e que ganham relevância sobretudo pela sua reiteração.

    Exemplifiquemos : uma piada machista de mau gosto é uma piada machista de mau gosto. Uma piada machista de mau gosto todos os dias, aliada a olhares insistentes e equivocos, proferida diante de outros parvalhões que se riem alto e apimentam a coisa com ordinarices, ja pode ser assédio, ainda mais se nos encontrarmos numa situação de subordinação.

    Assim acontece também num grupo de crianças : encolher os ombros ou fazer uma careta uma vez é inocuo. Ja se uma criança, sempre a mesma, é sistematicamente tratada assim por um grupo, que insiste em significar-lhe que ela é desprezada, por ser diferente, o caso pode mudar de figura.

    Como é que podemos resolver o problema ? Que eu veja, ha duas maneiras : 1/ tentar definir a coisa atravês de um catalogo aberto de exemplos (“aquele que marca desprezo em relação ao colega, por exemplo, cuspindo para o chão quando o avista, virando a cara quando o cruza, recusando-se a jogar com ele ao berlinde, negando-lhe um caramelo quando esta a distribui-los a todos os outros, fazendo lhe os cornos de forma grosseira à maneira de um ministro português no parlamento, etc.”, como fazem os juristas anglo-saxonicos ou 2/ arranjar uma definição geral, utilizando muitas vezes palavras antigas com um sentido ligeiramente deturpado (“assédio” por exemplo), mas correndo-se então o risco de permanecer “vago”.

    Nenhuma é completamente satisfatoria. Esta dificuldade pode por vezes ter resultados catastroficos, como aconteceu ha pouco tempo em França onde a norma que incriminava o assédio sexual foi julgada inconstitucional (ou contraria à CEDH), porque o texto, alterado inumeras vezes, tinha chegado a um grau de abstração tal que foi considerado inadmissivel tratando-se de uma lei penal. Este desenvolvimento teve por consequência deitar por terra inumeros processos onde os factos eram por vezes graves e completamente provados.

    No entanto, temos que navegar à mesma. E, se repararmos, embora estes casos sejam de especial melindre, no fundo qualquer norma geral se confronta com o mesmo problema. Quando incriminamos o homicidio, incriminamos o resultado sem descever em todos os pormenores as condutas que podem e devem ser sancionadas (sera com uma faca ? com uma pistola ? existe um crime especifico de envenenamento, mas nos outros casos, não estaremos perante uma norma vaga ?).

    No fundo, o que tentamos capturar pode ser identificado pelo resultado (como no crime de homicidio) : trata-se de um conjunto de comportamentos que, pela sua reiteração, visam claramente negar o outro como um ser digno e impedi-lo de ter relações sociais normais, no trabalho ou na escola, criando deliberadamente uma atmosfera de desestabilização que pode ter repercussões na imagem que ele tem de si e sobre a sua saude.

    Portanto, em resumo : o trabalho é mesmo sobre a lingua. Devemos definir, da maneira mais correcta possivel, sem temer a adaptação de palavras antigas a realidades sociais novas. Um exemplo entre milhões : a palavra “discriminação” tem hoje o mesmo significado do que ha 100 anos ? Claro que não. Isso deve-se, em grande parte, à evolução das normas juridicas (e dos conceitos morais que estão subjacentes).

    Mais uma razão para procurarmos utilizar os nossos recursos linguisticos.

    Boas

  10. no humilhar cabe tudo que mexa na dignidade humana. vejam até o início da palavra: o h mudo como que descaradamente omisso perante o resto. e a fonética do lh, exclusivamente portuguesa, que faz estalar a língua. além de carregar a tal emoção absolutamente negativa. e depois o impacto: criança vítima de humilhação na escola; funcionário da YX instaura acção judicial por humilhação no trabalho. não quero mais nenhuma, está decidido.

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