O Presidente Cavaco Silva nunca usou o cravo. E agora se percebe porquê. Porque antes do 25 de Abril foi salazarista. Embora tanto deva ao regime que resultou da Revolução dos Cravos. Mas só agora se compreende e a dois anos do fim do seu mandato e protetor de um Governo, que em boa parte pensa como ele, a verdade vem ao de cima. Como sempre.
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Até muito recentemente, teria sido impossível ver um ex-Presidente da República a criticar o Presidente da República. Que eu saiba, mas corrijam-me se estiver enganado, nunca António de Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes e Jorge Sampaio o fizeram. Mesmo no caso de Soares, e tão próximo como 2009, não vimos nenhuma reacção sua à “Inventona de Belém”, suprema ocasião para verbalizar o que achasse por bem verbalizar face ao maior escândalo ocorrido na Presidência e, num certo e democrático sentido, no regime.
Nos últimos dois anos, pelo menos, Soares tem aparecido num crescendo de ataques à outrance contra Cavaco. A citação acima corresponde a um zénite depois do qual não se imagina o que mais se poderá ir buscar antes de se chegar a acusações do foro criminal. Eis que um ex-Presidente da República, que ficará na História como um dos principais responsáveis pela instauração da democracia em Portugal, carimba o Presidente da República, e também o Governo, como “salazarista“.
Ainda antes de se discutir a justiça da adjectivação – aliás, sem carência de lá chegar – importa questionar: que significa a palavra? Seja lá o que for adentro das suas potencialidades semânticas, o denominador comum a qualquer dos seus usos terá de remeter sempre para um quadro em que o poder político limite e anule drasticamente as liberdades próprias de um Estado de direito democrático e onde se exerça perseguição política. Assim, catalogar alguém como salazarista corresponde a um dos piores insultos que se podem fazer a quem se considere democrata. Esse insulto será tão mais agravado quão maior for o estatuto de democrata daquele que o profere. Não é a mesma coisa ser chamado de salazarista por um comuna que, no fundo, odeia a liberdade quando exercida fora da sede do partido ou pelo “pai da democracia portuguesa”.
Para medir o extraordinário deste episódio, basta vasculhar a propaganda e discursos do PCP à procura da associação que Soares acaba de fazer. A confiar na Internet, o máximo a que se chegou foi a “ruralismo salazarista“, o que não é carne nem peixe, mais batata e em puré. Aliás, o PCP adora o papel de guarda-florestal das instituições da República a que a direita igualmente adora reduzir a agremiação dos ultraconservadores vermelhos, pelo que jamais se permitiria esses ultrajes soaristas à “figura” do Presidente da República. Mangas revolucionárias arregaçadas dentro do casaco, mas gravatinha sempre colocadinha para colaborar na moralização sistémica.
Então, temos que um ex-Presidente da República já se sente à vontade para escrever num jornal que considera ser o Presidente da República um representante do salazarismo. Será esta originalidade mediática suficiente para declararmos inaugurado o pós-25 de Abril? Não. O que nos garante termos atravessado o Rubicão em direcção um novo período na História de Portugal encontra-se nos efeitos que as palavras de Soares tiveram: nenhuns. Nada de nada de nadinha de nada aconteceu, ou vai acontecer, em consequência de uma das pessoas mais importantes do regime ter dito da outra pessoa mais importante do regime que esta defende os valores contra os quais se fez o 25 de Abril.
Minhas senhoras e meus senhores, democratas e salazaristas, bem-vindos a um tempo em que o 25 de Abril só parece ter um homem de 89 anos para o defender.