Nuno Melo é um populista que se dedica ao seu trabalho com zelo e entusiasmo. Para ele, está em causa despachar serviço e chegar a tempo ao jantar, o resto é folclore e paisagem. Estamos perante um político que faz na cidade o que os advogados fazem nos tribunais: maximizam os ganhos dos seus clientes sem qualquer consideração pelas perdas que daí resultarem para terceiros. Por exemplo, quando Nuno Melo diz, na cara de Zorrinho, que os 6 anos de governação de Sócrates foram piores do que as governações de Vasco Gonçalves, Marcelo Caetano e Salazar (pelo menos), ele tem a certeza de que a sua ofensa a milhões de portugueses, e sem que castigo algum lhe caia em cima, pode ser usada para o seu ganho imediato: achincalhar o infeliz que está à sua frente, o qual comeu e calou. A técnica em que é perito consiste em começar por largar o insulto mais soez, a demagogia mais obscena e/ou a mentira mais crassa e depois continuar a falar de outros assuntos num registo convencional. Dessa forma, pretende que o interlocutor só responda à parte final da sua intervenção e que insultos e deturpações fiquem gravados na memória da audiência. Insultos e deturpações que não geram sequer uma manifestação de protesto ou um exercício de refutação; logo, quem calou consentiu. Nuno Melo pertence ao grupo que domina a actual direita portuguesa, um grupo de homens e algumas mulheres que respiram o mais feroz cinismo e para quem a política nada mais é do que a luta pelo poder sem olhar a meios para o alcançar. Daí, quando estão na oposição, ficarem tão excitados e paranóicos com os adversários que pintam à sua imagem e semelhança – os quais, portanto, terão de ser uns bandidos do pior.
Porque Nuno Melo voltou a disparar sobre Vítor Constâncio, uma espectacular operação de encobrimento das responsabilidades no BPN que é feita à vista de todos e sem que alguém na sociedade portuguesa tenha vergonha na cara e confronte os escroques, e porque Sócrates continua a estar na berlinda pelas razões mais esdrúxulas, até porque o próprio também gosta deste circo, recupero um debate que ocorreu em Fevereiro e onde o Galamba mostra como se deve tratar um crápula: dizendo-lhe, com a frontalidade de quem se sente, o que se pensa dele.
Debate completo aqui.

