Coisas que não se aprendem num manual da BBC

Comentador a entrevistar jornalistaVocê sabe quanto é que nós crescemos em 2010? Qual foi o crescimento económico em 2010, esqueceu-se de ver isso nos seus arquivos?

Jornalista que passou a noite a decorar os manuais de formação da BBC, tendo como funesto resultado não vir preparado para ser entrevistadoNão, não tenho todos os números na cabeça…

Ex-primeiro-ministro que aparenta ter todos os números na cabeçaNão, pois é, foi só buscar alguns. Vou-lhe recordar: crescemos 1,9.

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Uma das características que conferiu originalidade ao confronto entre José Rodrigues dos Santos e Sócrates está na absoluta ausência de animosidade persecutória por parte do jornalista. Aquilo que vimos e vemos em figuras como Manuela Moura Guedes, Mário Crespo, José Gomes Ferreira, Judite Sousa e Ricardo Costa, os exemplos mais notáveis da perversão do estatuto jornalístico ao serviço de uma expressão pessoal soberba, facciosa e/ou patológica, não aparece no exercício do JRS. Ele exibe-se concentrado na estrita formalidade do seu inquérito. As perguntas, para mais, foram todas legítimas e regidas pelo mesmo padrão. Pegou-se numa citação de Sócrates, deu-se-lhe uma interpretação contextual possível entre as várias disponíveis – no caso, os referentes contextualizadores são os que PSD e CDS defendem, mas tal não constitui uma falha evidente na deontologia do jornalista pois poderá ser um determinismo cognitivo – e pediram-se explicações. Simples. Útil?

A originalidade do acontecimento televisivo continuou com a amplificação da surpresa de se ter mudado o formato. O que era suposto ser um espaço de comentário tinha sido transformado numa arena onde havia um combate de vida ou de morte pela credibilidade da palavra de Sócrates. E parecia que o “entrevistado” tinha sido apanhado completamente desprevenido. O título do DN «“Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”» foi construído precisamente para instituir e reforçar essa ideia. Só que ainda havia mais surpresas a caminho, e elas vieram pela mão do próprio JRS: RESPOSTA DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS. Este texto é literalmente magnífico, tanto pela riqueza de informações que contém como pela argumentação aduzida na defesa do episódio.

No plano informativo, saber que JRS almoçou com Sócrates e, nessa ocasião, lhe anunciou ir à procura de contradições entre o que verbalizou no passado e o que verbaliza no presente é decisivo para se compreender parte do espectáculo. Por um lado, essas duas pessoas terão uma qualquer relação onde existe alguma modalidade de respeito, consideração, civilidade. Conseguem comer juntas à mesma mesa, caramba. Uma avisa a outra do que lhe pretende fazer. A outra aceita galhardamente expor-se ao tirocínio. Tudo isto entre dois croquetes e uma fatia de pão de rala. Eis um dado que não valida a hipótese da armadilha, pelo menos nesse sentido canalha em que JRS e RTP teriam ocultado de Sócrates a intenção concretizada no passado domingo. Contudo, é um facto que Sócrates se mostrou surpreendido com a intensidade e severidade do confronto. Isso ficou patente quando, ao terem acabado de falar da austeridade e indo tratar a seguir do tema do corte nas pensões, Sócrates teve um momento de pura ingenuidade onde libertou o desabafo “Mas foi uma boa disputa…” (ou outra palavra equivalente, pois o som não permite ter certezas quanto ao vocábulo usado). Para ele, a parte do confronto estaria acabada e poderia dedicar-se no resto do tempo apenas a opinar sobre a actualidade. Ora, não era esse o plano de JRS que imediatamente, e recorrendo à insinuação manhosa, continuou a disparar sobre o alvo à sua frente. Neste bloco, a táctica já não consistia tanto na recuperação de afirmações mas mais na alusão a decisões e circunstâncias passadas, invariavelmente reproduzindo a retórica da direita no ataque ao Estado social. Sócrates teve outra vez de arregaçar as mangas e partir para a porrada. Venceu por KO técnico quando provou a JRS que ele nem sequer conseguia entender o que citava a respeito de uma discussão entre Sócrates e Louçã.

No plano argumentativo, a Fernanda já elaborou sobre o essencial: romancing the interview: a teoria da entrevista como mascarada e do jornalista como agente provocador, por josé rodrigues dos santos. Trata-se de uma demonstração magistral da inanidade, ou então pura hipocrisia, da tese que defende ser a “isenção” do jornalista o equivalente a termos esse jornalista a representar uma facção política opositora ao político que calhe entrevistar e com quem queira exercer a “isenção”. Obviamente, tal raciocínio pressupõe um maniqueísmo onde para cada posição política associada a cada político haveria o seu exacto simétrico à disposição da vocação psitacista do jornalista. Isso é um absurdo que nem merece discussão, apenas servindo para esconder a arbitrariedade da agenda secreta do jornalista, o qual, na lógica de JRS, escolherá a parte que pretende representar dentre a diversidade da pluralidade e expressão democráticas. Porque é que vimos JRS a reproduzir a retórica do PSD e CDS e não a do PCP e BE, partidos de esquerda que por igual se adequam ao ataque a Sócrates? Temos, pois, de agradecer penhoradamente ao JRS ter-se exposto a tamanho ridículo para que assim se recolha a lição por escrito da fragilidade intelectual e volubilidade deontológica da elite jornalística portuguesa.

Acontece que o texto de JRS também inclui passagens de inquestionável relevância e a-propósito. Como esta:

7. Como todas as figuras polémicas, José Sócrates é amado por uns e odiado por outros. É normal com as figuras públicas, passa-se com ele e passa-se comigo e com toda a gente que aparece em público. Mas o que se está a passar com ele é que muita gente fala mal nas costas e ninguém pelos vistos se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente. Fui educado fora de Portugal e há coisas que me escapam sobre o país, mas dizem-me que é um traço normal da cultura portuguesa: falar mal pelas costas e calar quando se está diante da pessoa. Acho isso, devo dizer, lamentável. Quando alguém é muito atacado, devemos colocar-lhe frontalmente as questões para que ele tenha o direito de as esclarecer e assim defender-se. Foi o que foi feito na conversa com José Sócrates. As questões que muita gente coloca pelas costas foram-lhe apresentadas directamente e ele defendeu-se e esclareceu-as. Se o fez bem ou mal, cabe ao juízo dos espectadores.

É a verdade do caso Sócrates, enquanto figura que continua a ser usada como narcótico, manobra de diversão e arma de arremesso pela direita perante a cumplicidade e passividade da esquerda. Para que a diabolização se mantenha eficaz, é necessário evitar qualquer forma de esclarecimento e reflexão acerca das matérias pelas quais o homem é perseguido. O método Correio da Manhã precisa de um caldo de difamações e calúnias sempre em ebulição para que a receita funcione uma, outra e mil vezes. E, com ela, está-se igualmente a levar a cabo o desmantelamento do Estado social e a perversão do ideal de Abril por troca com uma alteração das relações de poder no âmbito dos direitos sociais e laborais a favor do patronato e em detrimento do papel do Estado. Repare-se como esta estratégia é vertical e transversal ao aparelho oligárquico, arregimentando a Presidência, o Governo, a maioria parlamentar e a comunicação social alaranjada. Sócrates, que foi um colossal adversário desses poderes fácticos, despertou um ódio cuja dimensão só se explica pela dimensão da ameaça sentida pela oligarquia.

JRS, mostrando ser capaz de se relacionar em óptimas condições com o princípio de realidade e com a objectividade quando por escrito, não cumpriu o que apregoa dever ser a obrigação de um jornalista que calhe apanhar Sócrates pela frente. Focar-se nas contradições lexicais é primário de mais para a missão cuja bandeira içou a posteriori. Ou este jornalista-escritor não pesca nada de semântica nem dos actos da fala ou será um pândego que gozou o prato na TV e foi a correr sentar-se frente ao computador para repetir a dose. Porque a ter cumprido com a missão, no passado domingo Sócrates teria sido confrontado com o que realmente dizem dele nas suas costas: que é corrupto, paneleiro, louco, violento, tirano. JRS teria curiosidade pela sua ligação à máfia russa, perguntaria pelos envelopes castanhos do Freeport, indagaria pelo tal curso tirado ao domingo por fax, mostraria interesse em saber quanto é que cada PPP permite sacar a cada ministro e quais os melhores offshores para guardar a massa. E por aí fora, num assomo heróico só possível a quem foi educado fora de Portugal.

Como explicar que não o tenha feito? Talvez pela mesma razão que levou JRS a não se interrogar sobre esse facto estranhíssimo que regista de peito cheio: “ninguém pelos vistos se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente“. E não há manual da BBC, já escrito ou por escrever, que valha ao jornalista que se isenta de pensar.

15 thoughts on “Coisas que não se aprendem num manual da BBC”

  1. sinceramente acho que este texto brilhante em nada se adequa a RJS nem à referida entrevista. nem sequer me parece que JS se tenha sentido, de alguma forma, ferido. talvez surpreso e estimulado. até porque por ser da casa não tem de ser bajulado e o jornalismo pega em factos. nunca me esqueço que JS foi o melhor até hoje. mas também não esqueço que nem tudo o que disse ou fez foi bom, também trouxe males e quem negar está a mentir.

    já a Fernanda, que nunca foi nem é nem será isenta quando o assunto é JS, mais uma vez sacou do seu armanço e usou o facto de ser uma jornalista e, portanto, uma figura semi-pública, para mais uma vez fazer metajornalismo político na blogosfera política viciada e lobbyficada. e ter pegado na questão do sexo nas violações, esse pormenor mesmo vasculhado para ser ponta a pegar, deu-me riso por ser ridículo no contexto.

  2. “mas também não esqueço que nem tudo o que disse ou fez foi bom, também trouxe males e quem negar está a mentir.”

    queres exemplificar os malefícios e as asneiras ou é conversa para impressionar otários.

  3. Portas: “Excluídos do RSI tinham mais de 100 mil euros no banco”

    http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3783640

    O acesso à prestação RSI está dependente do valor do património mobiliário e do valor dos bens móveis sujeitos a registo, do requerente e do seu agregado familiar. Cada um deles não pode ser superior a 60 vezes o valor do Indexante de apoios sociais. (€ 25.153,20).

  4. Entretanto Durão Barroso foi “entrevistado”; e quanto eu gostaria que ele fosse confrontado com “aquilo que dele falam mal, pelas costas”, e que “ninguém, pelos vistos, se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente”. Pode apontar, José Rodrigues dos Santos: questione Durão Barrsos sobre os submarinos, sobre o abandono do Governo e fuga para Bruxelas, sobre por que razão pôde deixar Santana Lopes sentado “na cadeira de Salazar”…

    Apesar de ter tratado de uma entrevista deveras cozinhada, tão preparada de antemão que mais parecia um comentário (uma fraude jornalística, pois) Barroso consegue, ainda assim, cometer duas monumentais gafes:

    1ª) Denegriu-se a si próprio e ao seu partido, ao falar mal de duas escolhas do seu PSD; uma delas, Manuela F. Leite dele próprio, outra; Bagão Félix, do sucessor por si escolhido, Santana Lopes.

    2ª) Mentiu sobre a “reestruturação da dívida”. De facto, o presente governo até já realizou uma pequena operação de reestruturação da dívida, no passado mês de Dezembro, que consistiu no adiamento de maturidades… Essa operação foi recebida calmamente pelos mercados financeiros. Mais operações dessas ir-se-ão realizar; até porque, sendo a dívida insustentável, a única forma de os ratings sairem do lixo é a mesma tornar-se sustentável.

  5. jrs cagão :
    “Como todas as figuras polémicas, José Sócrates é amado por uns e odiado por outros. É normal com as figuras públicas, passa-se com ele e passa-se comigo e com toda a gente que aparece em público”

    Sublinhar: “passa-se com ele e passa-se comigo”

    jrs hipócrita, medroso, merdoso:
    “Quando alguém é muito atacado, devemos colocar-lhe frontalmente as questões para que ele tenha o direito de as esclarecer e assim defender-se”.

    Sublinhar: “devemos colocar-lhe frontalmente as questões”.

    Nota: o cagão jrs não colocou “frontalmente” as questões quentes, inventadas e sempre reinventadas pelo «cm», que o Valupi salienta porque o próprio jrs não acredita nelas e, como tal, sabendo que são mentiras evidentes e como tal fáceis de desmontar, teve medo, medo mesmo de tremer de se meter por esse caminho. Pois, neste caso, a malha que levaria pela canalhice seria mesmo a de um animal feroz despedaçando a presa.
    Então preferiu, na sua condição respeitável de “escritor e homem público” amado e odiado, carregar “o seu arquivo” maduro, sacar das contradições socráticas, dispará-las à queima-roupa e matar ou ferir de morte o lendário malfeitor Sócrates.
    Tal como nos platónicos diálogos socráticos é Sócrates quem fere de morte os sofistas retóricos também aqui quem foi ferido de morte foi o sofista-fretista jrs. E como o outro, Sócrates apenas se serviu de argumentação fundamentada plena de inteligência e racionalidade.

  6. Há um discurso deveras interessante quando se fala de JS. A afirmação de que nem tudo o que fez foi perfeito, deve colocá-lo no pedestal dos deuses, pois mesmo esses não conseguem a unanimidade. Mas, o mais engraçado é que quando se interrogam os seus detratores sobre os malefícios que ele terá cometido, estes geralmente negam-se a fazê-lo ou sacam da cassete que a direita retrógrada ou a esquerda – quer a conservadora, quer a caviar – debitam.
    Sendo JS apenas um mortal, com todas as virtudes e defeitos inerentes, não sei porque é que deve ser mais penalizado do que todos os outros que o antecederam, para não falar no que lhe sucedeu, que torna impossível qualquer comparação de tão traquino que é.
    Se JS não tivesse afrontado certos intocáveis, talvez ainda hoje estivesse no poder, Belém estaria tranquilo, os críticos andariam ocupados com a tacharia, os economistas andariam a discutir as virtudes do euro, os jornalistas glorificariam o grande líder, os juízes e magistrados continuariam silenciosos, os professores andariam felizes, os grandes merceeiros engordariam mais, os banqueiros empanturrar-se-iam muito mais, a classe média continuaria a empenhar-se alegremente viajando e comprando bens até mais não poder, os funcionários públicos andariam felizes e até acredito que o Seguro bateria palmas a tanta felicidade.

  7. eu nunca cá venho para comungar uma fé – venho sempre apreciar massa crítica. não me esqueço é que também a tenho e nem sequer me deixo embalar por rótulos ou discursos em massa. aqui a isenta sou eu. essa é que é essa. :-)

  8. receita de macarronada crítica para gourmets literários que se levantam às 8 da matina para-ver-se-falam-de-mim e não se deixam embalar por encantadores de esparguete.

    “a minha curiosidade natural, quero com isto dizer que não foi intencional, fez-me ver a pila do meu pai durante a consulta. gargalhei e eles não gostaram: esgar reprovador do meu pai e outro demolidor da médica. segurei o riso, claro, sem poder explicar de onde vinha. e vinha de a pila ser tal e qual uma tripa de porco enfarinhada. (…) mas hoje não sei como segurar o riso, concluindo, vou fazer rojões para o almoço. rojões com a tripa enfarinhada.”

    (receita completa no site da mânfia, traje aconselhado para visita: escafandro)

  9. oh das tripas! atão foste assobiar pró lado para o poste de cima e deixas aqui os fãs a salivar pela argamassa crítica.

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