A luta pelo título

O título do DN «“Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”» acabou por ficar ele próprio como uma notícia. A sua intenção era a de ser o resumo do principal acontecimento no encontro televisivo entre Sócrates e José Rodrigues dos Santos. Para o autor do cabeçalho, Sócrates tinha-se irritado (i), a sua irritação estava na origem da expressão “Não vinha preparado para isto” (ii), essa expressão revelava que algo de surpreendente se tinha passado (iii), e que nessa alteração à rotina daquele espaço de opinião estava a causa da irritação (iv).

Acontece que o minuto 17 não revela irritação alguma. É precisa e exactamente ao contrário. Quando Sócrates vocaliza o “Não vinha preparado para isto” está a sorrir com exuberante afabilidade e bonomia. E até um calhau da calçada percebe porquê, pois ele ia apenas introduzir informação detalhada que citava de memória. Aliás, o que ali presenciamos é um muito comum recurso retórico em que o orador se apresenta à audiência como tendo uma qualquer fraqueza só para assim reforçar o efeito de poder que se prepara para imediatamente exibir.

O “Não vinha preparado para isto” tem um contexto dialógico unívoco, não se constituindo como um juízo sobre o evento em si nem sobre qualquer atitude ou comportamento do seu interlocutor que lhe merecesse algum protesto. É tão-só uma sentença que, na economia daquela conversa, esgota o seu sentido como interpolação.

Ainda mais notavelmente, em nenhum passo do debate – porque nem sequer uma entrevista aquilo foi – se poderá dizer que Sócrates se “irritou”. Isto é, qualquer um pode dizer que Sócrates se irritou aqui ou ali, ou que está sempre irritado mesmo quando está a dormir, mas um jornalista só o pode publicar se estiver em condições de o demonstrar. Ora, o que ali vemos a Sócrates será, provavelmente, uma das mais suaves prestações televisivas no que à tipologia da sua expressão emocional diz respeito. Fosse lá qual fosse a razão, Sócrates exibiu-se com um perfeito auto-domínio verbal e gestual – o que explica, igualmente, a sua capacidade para deixar o José Rodrigues dos Santos a apanhar bonés.

A escolha da palavra “irritação” também é reveladora, pois é um termo de semântica fluída que se utiliza em actos de agressão dissimulados. Neste caso, associar Sócrates e “irritação” é estar a capitalizar sobre a imagem negativa do “animal feroz” que tem feito as delícias da direita borrada e caluniadora (mas não só…). O que se conclui vendo a peça, todavia, é que quem se irritou foi o jornalista. Irrita-se com o Sócrates por o Sócrates ser o Sócrates.

Enfim, a opção do jornalista mostra como a secção política do DN continua a rivalizar com o CM para o título de anti-socráticos do ano.

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Ver a conversa entre a Fernanda e o Miguel Marujo, e constatar como a argumentação usada para defender o título é pueril.

34 thoughts on “A luta pelo título”

  1. ver o miguel marujo a fazer estas merdas escabrosas é de facto inacreditável. mas um gajo tem de ganhar a vida, não é?

  2. Socrates como PM defendia o consenso, que TUDO faria para cumprir as metas orçamentais, apontava para um austeridade de um defice de 2% em 2013 e chamava caloteiro a quem falava em reestruturar a divida. Isto sao factos.

    O resto é a demagogia e populismo habitual.

    Pelos vistos os xuxas nao gostaram

    Sócrates foi contratado para comentar. Infelizmente, raramente comentou fosse o que fosse.

    Desde o início que confunde comentário político com tempo de antena para o ataque cerrado ao governo e para a propaganda pessoal e de branqueamento do desastre que foi a sua governação. Não há uma vez que ele consiga fazer um comentário sem comparar a actuação do governo actual com a sua: “Quando EU era primeiro-ministro…”, ao que se segue normalmente um rol de mentiras. Merece, portanto, a tal “entrevista”: Ai, estás aqui para falar de TU fizeste? Então vamos lá a isso!”

    Um charlatão que tem a lata de vir dizer que deixou o país em “crescimento económico” merece isto e muito mais! F D P

  3. Pois, ninguém gosta de engolir o próprio vómito, por isso o marujito começa choroso e acaba a esbracejar depois de ultrapassada a educação básica inter pares.

  4. “Desde o início que confunde comentário político com tempo de antena para o ataque cerrado ao governo e para a propaganda pessoal e de branqueamento do desastre que foi a sua governação.”

    Pois, porque isso não pode ser o comentário dele, dar a sua opinião sobre a situação em que o país se encontrou e encontra.

    Para burros como tu a verdade é óbvia: o sócras causou esta merda toda, pelo caminho ainda teve tempo de rebentar com a Espanha, a Itália, a Grécia, a Irlanda e o Chipre. Para criminosos desta natureza não há cá espaços para emitir opinião nem darem a sua interpretação dos factos, é ficarem em casa a ouvir o terço na renascença ou o exílio.

  5. oh bento! querias que o socras fizesse propaganda de um governo eleito numa mentira construída pelo cavacoiso & associados bpn? deves tar a delirar, vai ver a entrevista mais uma vez e reza três abémarias para o orelhas não fazer mais tentativas de seppuku com folhas de arquivo.

  6. Nada de especial, uma brincadeira, sobre a forma como o autor do título argumentou a sua escolha no post da f. no Jugular.

  7. aquaporina, foi por isso mesmo que rotulei de pueril a sua defesa do título. Quando alguém recorre a um dicionário como se fosse uma autoridade absoluta e suficiente para a interpretação textual está só a mostrar que foi encostado às cordas.

  8. A cena foi triste (para a RTP e para o seu assalariado) mas valeu bem para confirmar que Sócrates, de facto não é qualquer um. Claro que, depois disto, a matilha ainda deve ter ficado mais raivosa ainda.

    OJRS a fazer figura de corno (o tipo foi enganado até mais não, e nem lhe valeram as resmas de papéis que lhe meteram nas mãos) e a ir ao tapete de cada vez que abria a boca, foi uma lição que vai ficar na história da comunicação social portuguesa.

  9. É surpreendente como os adeptos do Sócrates se tornaram uma autêntica religião! Não há cá meios termos; ou se é a favor do grande homem, impoluto, que nunca errou e jamais se enganou, ou se é um corno de uma matilha de mal agradecidos, etc.
    Lendo algumas dezenas dos milhares de posts e comentários por essa blogosfera fora, encontra-se os crentes, que acham que o “orelhas” foi ao tapete, é dentologicamente incorrecto, mau jornalista e tal, e os descrentes, que acham que Sócrates foi entalado, saiu com o rabo entre as pernas, etc.
    Agora, objectividade quanto aos factos, népias! Não admira que o país esteja no estado em que está… E não é só culpa do Sócrates e do Passos Coelho; é culpa de uma sucessão de incompetentes e corruptos que nós, os cidadãos, não somos capazes de expulsar da vida pública. É culpa de todos nós, no final de contas.

  10. Graças ao Orelhas o Socras vai roubar audiência ao Martelo.

    Lá que mudar de canal no próximo programa, coisa inimaginável há momentos.

  11. José Couto Nogueira, os factos foram todos lá enumerados, se tirar a mascara de cabedal poerá ouvir bem melhor…….

  12. não vim preparado para isto estava somente a dizer, como disse, que estaria a ir buscar factos à memória e não ao documento-guião que poderia ter preparado para responder a questões. que gentalha.

  13. “Agora, objectividade quanto aos factos, népias!”

    a objectividade dos factos está nas respostas do socras aos arquivos martelados do orelhas. vai rever o vídeo, oh couto! já agora, a repartição das culpas por todos, é outra falácia direitola, eu não andei a gamar no bpn nem em esquemas similares que mandaram a economia portuguesas para o galheiro.

  14. Silva Pereira deixa de comentar com os pseudónimos Ignatz, Maria Abril, Zejotta, Jafonso, Aquaporina e Rural, mas podes tratar o teu ” Querido Lider ” por sócras.

  15. “eu sou pueril e o Valupi é o quê?!”

    oh marujo! ganda resposta, fazias sucesso no infantário aqui do bairro.

  16. @José Couto Nogueira, não é preciso enxofrares-te, pá: a entrevista está online (na RTP, que a dita mandou retirar do YouTube, onde é mais fácil partilhar, tás a ver…) e qualquer um pode tirar as suas próprias conclusões.
    Para alguém que não seja fanático para qqr um dos lados, a conclusão é fácil: a) se houve a alguém a irritar-se não foi o JS; e b) a ideia de que disse que “não vinha preparado” para isto tem um leitura (no contexto da entrevista) totalmente diferente da leitura que o DN (e o CM, na última página da edição de ontem) lhe quiseram dar.
    É mais um daqueles casos de “não deixar que a realidade se interponha entre mim e uma boa história”…

  17. Exactamente, @Olinda! O pior é que há muita gente que só leu a “notícia” e nem sequer viu a “entrevista” e que fica assim com uma visão distorcida do que aconteceu. Que era, evidentemente, o que a secção laranja do DN pretendia. Missão cumprida, pois então!

  18. Ponto prévio: tenho a gravação da entrevista, tirada do site da RTP.
    ignatz: a repartição das culpas por todos, não sei se é uma falácia direitola; estava a referir-me à situação de um ponto de vista filosófico, talvez longe de mais para o facciosismo do camarada, no sentido de “cada povo tem os dirigentes que merece”, no nosso caso ou manhosos, ou incompetentes, ou manhosos e incompetentes. Ninguém andou a gamar no BPN a não ser aquela dúzia, ou duas dúzias que realmente gamou, mas o ter acontecido o caso BPN deve-se aos próprios, à supervisão foleira do BP, aos políticos que o permitiram, aos cidadãos que votaram nesses políticos – é preciso explicar melhor?
    Jorge Xavier: não estou enxofrado, apenas desanimado com a sucessão de disparates que nos levou a este estado; e, vendo a entrevista sem facciosismo, é óbvio que o JS ficou irritado, o que aliás é normal, ele sempre se irritou com muita facilidade, isto independentemente de ter feito bem ou mal (fez umas coisas bem e outras mal, como toda a gente).
    Eu acho que a questão aqui não é se o JS se irritou ou se o JRS cumpriu, muito pouco à vontade por sinal, o guião que lhe deram; a questão realmente interessante é porque é que a direcção da RTP decidiu tomar esta atitude em relação ao JS; se foi para subir as audiências decadentes do programa ou se foi por outras razões… Vocês, que são todos tão perspicazes, me dirão quais poderão ser essas razões.
    Finalmente, quem quiser discutir comigo, que se coloque no mesmo terreno, ou seja, nome explícito, sem se esconder por trás de diminutivos cobardolas.

  19. oh valentão das dúzias! para seres perfeito só te faltou dizer que a culpa so bpn é dos depositantes, se não pusessem lá dinheiro aquilo não tinha acontecido. quanto à gravação da entrevista, guarda-a junto daquela em que marinho pinto deu cabo da matrafona guedes.

  20. Ó José Couto Nogueira, porque é que nós, os cidadãos, não somos capazes de expulsar da vida pública, os corruptos e a sucessão de incompetentes?
    Eu estou a fazer-te a pergunta porque já vi que tens um ponto de vista filosófico e não tens um diminutivo cobardolas.

  21. O povo infantilizado (síndroma de Peter Pan: adultos que se recusam a crescer…) tende a eleger demagogos que prometem quase todo o tipo de facilitismos (aqui no Aspirina é a especialidade diária em fanática histeria).
    O que por sua vez destrói as finanças públicas, gerando o caos económico e social.

    Só um povo mais maduro elegerá políticos competentes, cultos, inteligentes e com estatura moral.

    O Sócras não se encontra, com toda a colossal evidência, entre este grupo. É um pobre parolo convencido de que detêm alguma capacidade providencial e messiânica. PATÉTICO.

  22. quanto ao “couto nogueira” sem diminuitivo: pois, a moral superior alinhada, sem o parecer, com a falta de moral está a dar. Mas este não é o terreno propício, onde poucos vêem como ponto fulcral a irritação do Sócrates (evidente para si, que tem princípios filosóficos e pouco evidente para os restantes). Volto ao mesmo, já que ninguém dos anti-socráticos responde: quanto à evidênca dos conteúdos? Algo contra? Com provas? E com PREPARAÇÂO de dias, desde a “entrevista”? Nada? Népia? Niente? Só apreciações do nervosismo e do carácter? Ora bolas para os princípios doutorais filosóficos. Aos direitolas burgessos, agora deu-lhes para as tiradas pseudo-intelectuais…já repararam? (terreno traiçoeiro porque por pouco familiar para os referidos)

  23. bento,és um rapaz e pior desonesto! vamos recordar.a europa apoiava para portugal uma austeridade inserida no pec 4.a direita mais o pcp e o bloco acharam mau demais e quizeram mais austeridade com o pedido de resgate.depois de fazer esta merda o bloco atraves de francisco louça,em plena campanha e no debate com socrates,pede de imediato a reestruturaçao da divida.isto só merecia a resposta que socrates deu.isto é calote.a europa perante uma proposta dessas limitava-se a responder.”voçes tinham uma soluçao mais favoravel e deitaram-na fora” como tal aguentem.quanto à governaçao de socrates,foi tão má que volvidos 4 anos ganhou outras vez.foi por maioria relativa,é verdade,mas lembro que a 15 dias das eleiçoes o ps estava empatado com o ps.só depois de ninguem de ninguem se disponibilizar em fazer governo com o ps,é que o povo partiu para uma soluçao governativa “estavel” com o cds e psd,para agrado do pcp.quem contestar isto só pode ser um fdp.quanto aos meritos da governaçao maioritaria de socrates o povo disse que gostou nas urnas.depois com a crise financeira a divida chega a 92% do pib e a situaçao tornou-se” insustentavel”.só que agora depois de salarios e reformas roubados estamos com uma divida ainda maior 130% do pib. bento, espero que ganhes juizo,para seres mais honesto nas tuas analises.sócrates foi o melhor pm que abril conheceu,como tal é perfeitamente natural que o defendamos.

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