Escravos e mansos

Não há registo de revoltas de escravos na Grécia clássica, uma sociedade esclavagista. Como explicação possível, aponta-se para a diversidade étnica dos escravos presentes nas cidades gregas, todos eles estrangeiros. Não só estavam separados pela língua de origem mas ainda por diferenças corporais e culturais segregadoras. Algo parecido poderá reconhecer-se no Portugal do Pedro&Paulo.

Uma larguíssima parte da sociedade portuguesa aderiu sôfrega à fantasia milenar de haver um homem muito mau, diabólico, na origem dos problemas da comunidade. Este grupo reúne pessoas de direita que prezam o individualismo e se estão a marimbar para o vizinho, quanto mais para o Estado social, e pessoas de esquerda que sonham com uma qualquer forma de ditadura onde se possam começar a marimbar para o vizinho. Mas, maioritariamente, este grupo era constituído por uma juliana de fanáticos, broncos e avariados dos cornos. Sejamos claros: ter ido votar em Passos ou Portas em Junho de 2011 só porque não se gramava Sócrates coloca fatalmente essa alma numa qualquer das categorias acima indicadas. Porque era óbvio que quem andava a mentir com a boca toda não estava a preparar coisa boa, e PSD e CDS mentiram quanto e como puderam até às eleições.

Passos merece encómios pelo facto de não ter perdido um segundo após o agarramento do pote. Em modo blitzkrieg (tradução: “além-troika”), as primeiras medidas que tomou puseram radicalmente em causa o que tinha jurado ao eleitorado. Daí para a frente foi sempre a aviar. Sempre a empobrecer o País e sempre a mentir aos cidadãos. Como explicar, então, que a essa sucessão de escabrosas traições ao seu mandato eleitoral, e de degradação da função de estadista, se tenha seguido um crescendo de apatia cívica e irrelevância da oposição? Quando comparamos os protestos contra os Governos de Sócrates com os que se fizeram contra o actual Governo a lição parece ser a de que os portugueses gostam mesmo é daqueles que os maltratam e ainda gozam por cima.

Vários factores parecem contribuir decisivamente para o marasmo. Talvez o mais importante deles seja o que aconteceu ao PS, nas mãos de um cúmplice da estratégia da direita – afinal, análoga à sua para tomar conta do partido. Depois, temos a tragédia da esquerda, um coio de sectários e alucinados que prefere a lamúria impotente a ter de agir para o maior, ou mais urgente, bem comum. Junta-se a iliteracia política que é ainda uma herança do salazarismo, causa principal do absentismo cívico ao centro. Soma-se a fuga de centenas de milhares no auge da sua vitalidade. Acrescenta-se a praga do desemprego e as patologias que gera. E acabamos nos tais fanáticos, broncos e avariados dos cornos a lerem religiosamente o seu Correio da Manhã.

Mudam-se os tempos, muda-se a geografia, mas os escravos continuarão sem se revoltarem caso continuem incapazes de encontrar o que os una. Caso continuem estrangeiros na cidade.

13 thoughts on “Escravos e mansos”

  1. “Quando comparamos os protestos contra os Governos de Sócrates com os que se fizeram contra o actual Governo, a lição parece ser a de que os portugueses gostam mesmo é daqueles que os maltratam e ainda gozam por cima. (…)
    (…)E acabamos nos tais fanáticos, broncos e avariados dos cornos a lerem religiosamente o seu Correio da Manhã.” (ou o seu Avante, acrescento eu…).

    Estas frases assentam como um gorro de malha na cabeça de burro do João Lisbesta, que não há maneira de nos largar a virilha e ir vender a merda da sua latrina para outro lado. Xô melga!

  2. Portugal não já não corre o perigo de acabar, o pessoal já está a reagir novamente à maneira tradicional: a emigrar para os brasis e angola.

    Só o velho-do-restelo é que fica cá, tem boa praia.

  3. Que a apatia, ou até a cobardia, se apoderou do país, é certo. Que se relaciona com os factores referidos por Valupi, concerteza que sim. Mas não podemos cometer o erro de deixar de fora a estratégia de Pedro & Paulo, talvez até mais de Paulo que de Pedro.
    A coisa foi longamente preparada, mesmo antes da chegada de Sócrates ao poder. A Direita atacou em todas as frentes, com a conivência de muitos jornalistas e da maior parte da comunicação social. Quiseram demonstrar que os dirigentes do PS, além de incompetentes e politicamente incapazes, eram também corruptos e moralmente indignos. Instalou-se a perfídia e a perversidade, Lembremo-nos, só a título de exemplo, que em certo momento não havia em Portugal pedófilo que não fosse do PS. Enfim, todos os factores de desgaste serviam para que auto-estima nacional percorresse as ruas da amargura. E mesmo assim, os portugueses votaram em Sócrates, e o ataque continuou da forma que se viu, até que os ditos Pedro & Paulo se sentaram nas cadeiras do poder.
    Milhões de portugueses foram anestesiados ou sentem-se impotentes. Julgo que os grandes responsáveis por este estado de coisas estão na presidência da República, no CDS, no PSD, na comunicação social. E a actual liderança do PS não ajuda a desmascarar coisa nenhuma, é cúmplice, portanto.

  4. o medo apoderou-se dos cumplices da chegada da direita ao poder .onde estão as esperas a governantes marcadas por sms? para aonde foram os manifestantes aos molhos de 300 mil? e as greves? na carris, no metro e na funçao publica? com o fim do governo socrates morreram tambem os bandalhos ao serviço do pcp,que nem o manifesto dos 70 subscreve!

  5. “…na Grécia Clássica, uma sociedade esclavagista”
    Val

    Dito desta maneira parece que a Grécia Clássica, pátria dos maiores sábios da humanidade e mãe da democracia e do maior império de cultura e civilização que houve e há, do qual o mundo antigo e moderno depois assimilou e desenvolveu esse legado universal e único até hoje, incluindo a própria democracia e liberdade, parece dizia, que a Grécia de Péricles praticou o esclavagismo quase cercado de um mundo de não esclavagismo.
    Se eu partir uma pequena pedra de um enorme pedregulho existente posso dizer, depois, que estou perante um pedregulho e uma pedra. Mas antes de dividir o pedregulho posso dizer que existia-existiu um pedregulho e uma pedra?
    Só pela existência algures de um contrário, isto é de uma sociedade não-esclavagista, se poderia apelidar Atenas de esclavagista.
    2500 anos depois “Val” tudo.

    um mundo

  6. jose neves, não há dúvida de que a respeito de calhaus tens algo para dizer, já sobre o que seja uma sociedade esclavagista se calhar tens de ir estudar mais um bocadinho.

  7. Val,
    É precisamente do convívio com as pedras, ou segundo Val “calhaus”, que se conhece toda a nossa História não escrita.
    Esse calhaus dizem mais que todos as aparências de conhecimentos.

  8. jose neves, entendo-te. És um especialista na leitura de calhaus. Daí as tuas manifestas dificuldades quando o tópico versa sobre sociedades esclavagistas.

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