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Arquivo da Categoria: Valupi
O vice-rei dos sonsos é o sultão dos pândegos
Soltam-se hilariantes gargalhadas na leitura desta notícia:
Passos “espantado” com jornal que mandou calar Sócrates
A latósia do fulano não conhece limites. Fulano que em 2010 promovia o seguinte sintoma de “democracia“:
«Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?
Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas acções.»
Ou seja, caso tivesse meio bosão de coerência, já tinha ido entregar-se à bófia há seis meses. Em vez disso, cavalgou a onda populista contra os políticos e explorou as consequências económicas e sociais das crises internacionais de forma cínica e traidora, cujo epílogo foi o chumbo do PEC IV e a torrente de mentiras com que embrulhou esse golpe fatal no País.
E fulano que na campanha para as legislativas de 2011 estava rodeado dos seguintes cultores do “aprofundamento da nossa democracia e de respeito pela liberdade“: Ferreira Leite, que pediu que expulsassem Sócrates da política mesmo que perdesse as eleições de modo a poder ficar descansada, Catroga, que comparou o então primeiro-ministro e secretário-geral do PS a Hitler, Morais Sarmento, que o comparou a Saddam, Luís Arnaut, que o comparou ao Drácula, e Relvas, que avisou os filhos de Sócrates, e parentes em geral, para a vantagem em passarem a negar qualquer tipo de relação sanguínea com aquele monstro. Passos ouviu, calou e gozou o prato. Era o tempo em que o insulto se devia sobrepor à racionalidade. Ou melhor, era o tempo em que a racionalidade impelia ao insulto. O tempo do regabofe e das malabarices, como mais tarde viria a carimbar com a sua classe invulgar.
Porém, em matéria de gargalhadas à conta do laranjal a melhor piada está noutra notícia:
Qual é a estratégia do PSD? É fingir que não tem estratégia
A indigência política, quando as suas consequências apenas afectam quem nos trata como gado para abate, é a mais alta forma de comédia.
Castelhano, a língua de Camões
O Fernando Venâncio honrou-nos com a sua presença durante dois anos, de 2006 a 2008. E em boa parte a sobrevivência deste blogue a ele se deve, pois ficou por cá aquando da grande debandada da maior parte dos fundadores e autores ocorrida em meados de 2006, ainda não se tinha sequer completado um ano de existência. Também por ele vieram aqui escrever Daniel de Sá, Jorge Carvalheira, José do Carmo Francisco e Soledade Martinho Costa, cada um marcando fases e aspectos desta coisa bizarra e periclitante chamada blogue colectivo.
As diferentes metamorfoses ocorridas sob a égide Aspirina B ao longo de 10 anos dão a ver, para quem delas tiver memória, conteúdos e estilos estupendamente diversos. Seres de raças diferentes calhando serem postos lado a lado. O resultado de este ser um barco à deriva, feliz da vida por não ter um mapa a impedir as surpresas da cósmica sorte. O destino distante ou próximo, todavia, será ir ao fundo, como convém num conto de aventuras.
Pois o nosso Fernando reapareceu na ribalta mediática graças a uma investigação que ficará para a História: O português como língua de Camões é um mito
Abençoada iconoclastia do desassombro.
Nunca te cales, Público
Em 2007, Juan Carlos perguntou a Hugo Chávez: “Porque não te calas?”. Hoje, perguntamos o mesmo a Sócrates, com um asterisco: porque não limita a intervenção na esfera pública ao seu caso judicial? Ganhávamos todos. Os seus fiéis seguidores (que não o viam neste papel artificial e desacreditado), os seus arqui-inimigos (que não ganhavam munições para o atacar) e sobretudo todos os portugueses que, simplesmente, gostavam que Sócrates aceitasse que este não é o momento para fazer de conta que o Sócrates de hoje é o Sócrates de ontem. Isto não é condenar antes de tempo. Nem é exigir uma auto-reclusão, como se um arguido tivesse de se auto-congelar no tempo. Isto é pedir bom senso. Nestas entrevistas aparentemente banais, não há nada de banal. E todos notamos.
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Este editorial é uma peça deliciosa da imprensa portuguesa. Começa por não se saber do que é que se está a falar. A autoria agarra-se aos termos “cerimónia”, “pudor” e “bom senso” como se eles fossem critérios objectivos, unívocos, consensuais, assumindo a lógica moralista como legitimação para o ataque. O único resultado de tal recurso é a evidência de estarmos perante um clássico exercício ad hominem. Não se discutem as ideias verbalizadas por Sócrates, apela-se é ao seu silenciamento político com o supino topete de se convocarem “todos os portugueses” para fazerem coro na pateada.
Depois, temos a tipologia do editorial, que neste jornal não aparece assinado pelo escriba. Esta é a opção que prefiro, e será imbecil ver nisso qualquer anonimato. Na verdade, quem assina os editoriais não assinados é o próprio Público. Compare-se com os exemplos do DN e do Expresso, por exemplo. No primeiro caso, o editorial confunde-se com o estatuto dos restantes artigos de opinião, não passando de um formato ao serviço do destaque individual e abdicando de ser uma tomada de posição colectiva do corpo redactorial, da direcção ou da instituição. No segundo caso, os editoriais deram lugar ao editorialista. As opiniões do Ricardo Costa, antes, e do Pedro Santos Guerreiro, antes e agora, são omnipresentes, diárias, cultivando-se um vedetismo que se acredita ser um produto. Recorrem ao carimbo “editorial” geralmente para trato de questões institucionais ou para eventos extraordinários (refiro-me às edições digitais). No Público reina a velha e salubre escola de conferir ao jornal um papel que transcende a soma das suas partes e que reclama um papel político como órgão de imprensa. Para o que aqui nos interessa, tal leva a um divertido jogo ou uma amistosa caçada a respeito da descoberta de quem possa ter teclado o disparatado texto em causa calhando não ter sido Bárbara Reis. Aceitam-se palpites.
Por fim, é delicioso verificar que há quem consiga, no topo do que se considera “jornalismo de qualidade”, vir botar faladura sobre Sócrates como se ele não fosse, desde 2004, o mais importante político no activo, seja como governante, ex-governante e alvo sistemático da maior campanha de assassinato de carácter que alguma vez aconteceu em Portugal. Quando PSD, CDS, um primeiro-ministro, seus ministros, seus secretários de Estado e a turbamulta que os acompanha na vozearia passaram anos a trazerem diariamente o nome de Sócrates, ou a sua memória, para o combate político, o Público também os mandou calar? E quando ainda o fazem e farão, agora na oposição, o Público manda-os calar? Quando vários órgãos de comunicação social fazem de Sócrates o seu tema principal e o perseguem obsessivamente, a si e a qualquer um da sua esfera de relações políticas ou privadas assim tenham oportunidade para isso, o Público já os mandou ou tenciona mandar calar? Como é que o Público chegou à conclusão de que os portugueses todos, todinhos, preferem não conhecer as opiniões de Sócrates a respeito de assuntos da actualidade política e social? Acaso lá pelo Público ainda não se deram conta do que está em causa quando a Justiça portuguesa comete crimes sucessivos para alimentar a perseguição mediática e política a Sócrates e, por extensão, ao PS? Não estaria na altura de o Público pedir o contrário, que finalmente alguém com autoridade erga a voz contra o que tem acontecido na “Operação Marquês” em matéria de conluio criminoso entre agentes de Justiça e jornalistas, e que vai ficar impune? Será o Estado de direito, para o Público, menos importante do que os humores matinais ou nocturnos de quem resolveu escrevinhar aquela cagada?
Quando Michael Jackson apresentou Prince ao James Brown
Excelente notícia
Aos amigos de Costa
A embrulhada de amizade com assuntos do Estado que Costa se lembrou de inventar recorrendo a Diogo Lacerda Machado é apenas mais uma peça de um retrato de surpreendente sobranceria e disfuncionalidade. A questão tem a beleza do que é simples: calhando ter ocorrido algo similar sendo Passos o primeiro-ministro e Costa secretário-geral do PS, o próprio Costa estaria a criticar, ou a mandar criticar, ou a não impedir que os seus tenentes criticassem, tão grosseira violação de regras básicas da responsabilização governamental. O episódio só se agravou com o estilo meio estouvado, ou então infantilóide, como se justificou publicamente quando foi obrigado a estabelecer um vínculo contratual entre o Estado e o seu amigo.
Esta surpreendente sobranceria e disfuncionalidade começou a tornar-se incontornável aquando da campanha contra Seguro, mas aí ainda não estava claro estarmos perante um padrão. Padrão que já tinha tido a primeira exposição pública no episódio do avanço e recuo contra Seguro. Foi no período eleitoral para as legislativas, e na campanha de merda que desenvolveu, que ficou plenamente iluminada a raiz da sua incompetência como líder a esse nível máximo – e a raiz estava na soberba de quem tinha sempre vencido sem esforço até então. De facto, Costa foi ao longo de décadas visto como inevitável futuro líder do PS e, por consequência, de um Governo. O seu trajecto está pejado de relevantes cargos políticos, incluindo o muito importante posto de presidente da Câmara de Lisboa. O seu carisma aparece marcado por uma propalada superior capacidade para estabelecer acordos com adversários e partes conflituantes, algo que a existência deste Governo e os primeiros meses do Executivo comprovam unanimemente. Só que tais predicados não esgotam as exigências do que seja uma liderança admirável.
Logo, não é por falta de experiência política que Costa comete erros de principiante. Terá de ser por outra razão, algo que pede a influência de bons amigos para o ajudar a resolver essa pecha que arrisca causar prejuízos a muita gente.
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Nem ordem nem progresso
Canal do Panamá
O Expresso tem nas bancas uma parangona muito bem esgalhada onde junta Sócrates e Ricardo Salgado debaixo da suspeita escarlate de estar por semanas, ou dias, ou até horas, a apresentação das tais provas da corrupção socrática que há tantos anos se procuram e tardam a encontrar mesmo depois de já terem espiado e devassado esse demónio ao longo de 12 anos seguidos. Será desta? Poderá um consórcio internacional de jornalistas de investigação deixar escapar por entre os dedos super-criminosos do calibre dos mancomunados Sócrates e Salgado? Para nosso bem, para que a nossa fé na civilização não impluda, esperemos que não.
Imaginando que é desta, haverá sempre um estupendo ganho ao se apanharem os bandidos. No caso, o ganho também seria político e cultural, pois o choque de tal revelação teria consequências imprevisíveis no sistema político e na relação dos cidadãos com o regime. Ter o Pedro Santos Guerreiro a optar pela via sensacionalista poderá significar que a probabilidade de tal desfecho esteja agora muito mais elevada.
Porém, contudo, no entanto, sem provas não há sequer uma nova informação. O dinheiro que terceiros enviam uns para os outros nada nos diz sobre a relação de Sócrates com esse dinheiro, seja na origem ou no seu destino último, para fins da elaboração de uma acusação judicial. Portanto, no quadro da manutenção do status quo, teremos que até um dos últimos bastiões da chamada “imprensa de referência” já não ambiciona mais do que ser um afluente do esgoto a céu aberto.
Exactissimamente
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Cristalino
Para Sócrates, o MP, com esta operação, está a colocar-se "sob suspeita de ter feito uma detenção e uma prisão politicamente motivadas".
"Neste caso, não há propriamente um processo para descobrir um crime. O que há é um alvo e a investigação não é a um crime mas a um alvo. É uma perseguição a alguém", afirmou.
Admitiu que houve "abusos" por parte do MP noutros processos, mas sublinhou que "nunca houve tantos abusos ao mesmo tempo" como no Processo Marquês.
"Houve abusos em todo o lado (...). Verdadeiramente, quem está hoje sob suspeita é o MP", disse ainda.
Sócrates acusa Ministério Público de não cumprir os prazos legais na Operação Marquês
Vamos lá a saber
O estranho caso de um partido emocionalmente desvairado
O PS tem passado por episódios de suicídio mediático que espantam dado o perfil e experiência dos envolvidos. Nos casos de Ricardo Rodrigues e o gravador fanado a jornalistas, do Manuel Pinho e dos corninhos na Assembleia da República, e agora do João Soares e o que se lembrou de teclar no Facebook às 6 da matina, estamos no reino da parvoeira e do absurdo. Só a sempre imprevisível, e para sempre misteriosa, natureza humana consegue explicar a estupidez dessas ocorrências. Também Costa está metido neste grupo, sendo ainda mais grave o que já mostrou de si na relação com os jornalistas. Mais grave por se ter repetido em diferentes situações e por causa das suas tão maiores responsabilidades como candidato a primeiro-ministro. E ainda Sócrates terá de ser incluído pois, e das duas uma, ou se provará que cometeu crimes ou se provará que arriscou à maluca poder vir a gerar a tempestade mediática que os seus inimigos iriam lançar na primeira oportunidade; a qual muito influenciou os resultados eleitorais de 2015, para já.
Só que esses episódios, com diferentes contextualizações políticas conforme as figuras e circunstâncias, são do domínio psicológico na sua origem e dinâmica, não do político. Também podem, nalguns casos devem, gerar considerações de índole ética, deontológica e moral. Mas não política no sentido ideológico, partidário ou governativo – apenas no sentido cívico. Quem extravasar para fazer o seu aproveitamento no “combate político” está somente a chafurdar na chicana. Impulso a que só os bravos resistem, escusado será lembrar.
Quero, contudo, assinalar que o texto do João Soares onde oferece bofetadas configura, para mim, uma real ameaça à integridade física dos visados. Ameaça que poderá ter sido efémera, rapidamente substituída por um consolo catártico após ter sido verbalizada e publicada. E ameaça que pode ter um quadro psicológico de perturbação e sofrimento na sua génese, mas ameaça. É esse o sentido do texto, onde até justifica para a audiência por que razão ainda não consumou o intento. Pelo que não estamos no domínio metafórico, como alguns figurões da nossa opinião profissional têm vindo a dizer. Infelizmente, o João Soares precisou de se imaginar a agredir alguém ao estalo para ir buscar um pouco, muito pouco, de amor-próprio.
Serviço público
A minha razão para que João Soares seja demitido
Não pelas ameaças de agressões físicas – pois tal parece-me matéria, em simultâneo, para a Polícia e a medicina mental – mas por reiteradamente escrever “bolsar” pensando que está a transmitir o conceito de “bolçar”.
Isso, à frente de um qualquer outro ministério excluindo o da Educação, não justificaria demissão. À frente da Cultura, sim. Sob pena de o exemplo continuar a bolsar, levando outros a bolçar o erro.
Exactissimamente
Os novos pides
O Governo Sombra é um programa de comentário político que utiliza o humor como dispositivo retórico. É também um programa de grande sucesso, onde o humor serve para institucionalizar as posições expressadas como se fossem críticas isentas, deliberações do bom povo na sua pureza risonha e sem mistura de políticos e coisas torpes que tais. A escolha dos protagonistas, porém, define a agenda política em causa, sendo o PS o alvo preferido, sistémico, dos ataques de todos. Pedro Mexia representa uma direita condescendente e difusa, João Miguel Tavares representa uma direita populista e bronca, e o Ricardo Araújo Pereira representa uma esquerda inconsequente e cínica. Obviamente, Sócrates reina supremo como agregador e estimulante da actuação frente aos microfones e às câmaras. Se alguém anotar quantas vezes se fala de Sócrates chegará à conclusão de que é esse o tema favorito ao longo dos anos, tanto pelo número das ocorrências como pelo entusiasmo, incluindo o entusiasmo do Carlos Vaz Marques. O poder de influência desta fórmula, em especial ou exclusivamente pela presença da coqueluche fedorenta, é enorme.
No programa de 20 de Março, tal como fez num texto na Visão, o Ricardo resolveu usar as escutas a Sócrates para gozar com ele, com Santos Silva, com um dos filhos de Sócrates e com o próprio conceito da presunção de inocência. Vejamos o trajecto do seu pensamento registado em vídeo:
– Começa por dizer, a propósito das escutas a Lula e Dilma, que nas suas (dele) comunicações telefónicas pessoais não há qualquer matéria do foro criminal. Parece uma referência inocente, neutra, mas com ela está a justificar o uso das escutas de forma ilegal desde que se suspeite de actos criminosos por parte dos escutados. É uma posição que também Passos Coelho assumiu, em 2012, quando disse que tinha “todo o prazer e todo o gosto” em que certas escutas onde aparecia a falar fossem reveladas. Parece a defesa da transparência absoluta, mas na prática trata-se de um insidioso ataque à privacidade e aos direitos de personalidade de terceiros. Esta posição do sr. Araújo, revelada en passant, é levada ao paroxismo poucos minutos depois ao fazer a sua rábula sobre as escutas a Sócrates.
– A rábula é antecedida por uma introdução, onde recorre a Sousa Tavares para justificar a exploração de qualquer escuta divulgada ilegalmente e sem carência de qualquer limite ético para o seu livre uso. Logo, não está sozinho no critério, está apenas a repetir o que outros, e até mais velhos, fazem ou fizeram, ou onde supostamente terão dito qualquer coisa do género.
– De seguida, protesta contra a imprensa portuguesa por apenas o Correio da Manhã estar a fazer com as escutas o que ele se prepara para fazer também dentro de segundos. Só um CM parece-lhe pouco, curto. O Ricardo gostaria de estar mais bem acompanhado, mas que se lixe. Antes com o CM do que perder a oportunidade, pensa e pratica este herói da cidadania à portuguesa.
– Por fim, veio a rábula. É um exercício banal de sarcasmo e deturpação no que toca ao diálogo entre Sócrates e Santos Silva, e é um exercício indecoroso de calúnia na parte em que achincalha o filho de Sócrates.
– Do princípio ao fim, mostra que a presunção de inocência não faz qualquer sentido perante o que ele, o CM e a restante população já concluíram a partir das escutas publicadas.
Nunca ninguém irá perguntar ao Ricardo por que razão não gozou com outras pessoas apanhadas nas escutas. Uma vez que as ouviu todas, qual o motivo para não ter aproveitado outros diálogos tão ou ainda mais caricaturáveis e igualmente pasto para a celebração televisiva da culpabilidade do monstro? Essa sua selectividade, do ponto de vista humorístico, causa perplexidade. Pelo que a melhor explicação deve estar noutro lado, o político. Por razões políticas, o Ricardo permite-se escolher quem deve ser levado à fogueira do seu espectáculo, sendo ele o juiz da presunção de inocência dos cidadãos envolvidos em processos judiciais. A sua difamação é selectiva, quiçá por calculismo, quiçá por misericórdia, quiçá por aleatoriedade. Em troca, recebe dinheiro, no caso da Visão e da TVI. E ainda inscreve o seu nome na História da sociologia jurídica em Portugal, ao se constituir como assistente oficioso do processo com a finalidade de contribuir para a acusação, julgamento e condenação de Sócrates e do seu bando de facínoras.
Creio que a TVI pode ter aqui um filão. O capital humorístico das escutas, mesmo que os protagonistas sejam ilustres desconhecidos, e de preferência quando as escutas são publicadas ilegalmente mas ficando à disposição dos cómicos e dos pulhas do regime segundo a tese atribuída pelo nosso herói ao Miguel Sousa Tavares, é infindável. Tanta piada que poderá ser feita, despertando gargalhadas homéricas na assistência e no Carlos Vaz Marques (não necessariamente por esta ordem) em cada caso judicial, haja ou não acusação. Corrupção, burlas, violações em grupo, violência doméstica, abuso de menores, assassinatos, uma caverna de Ali Babá para os justiceiros que ganham a vida nessa vida. Mas nem só com escutas poderá ser feito este novo programa. O Ricardo, apenas tendo de gastar migalhas do seu genial talento, será capaz de aproveitar qualquer violação da privacidade para nos levar às lágrimas. Pode ser um papel pardo cheio de nódoas de azeite com um coração e um zé bastos desenhados, ou uma fotografia de infância mais sugestiva, ou até umas cuequitas com o mapa de África evacuado que a bófia tenha levado como indício de alguma porcaria e que os seus amigos no CM lhe tenham feito chegar a casa para análise mais detalhada.
A única figura pública que me lembro de ter mostrado uma visceral repulsa pelo uso de escutas foi João Soares. Uma única num país onde muitos já nem sequer sabem o que foi a PIDE. Esta violência de se explorarem mediática e politicamente pedaços descontextualizados da privacidade de cidadãos que nem sequer foram acusados, quanto mais condenados fosse pelo que fosse, define quem a faz. Define a comunidade que somos, dominada por estes poderes fácticos. Num certo sentido, estamos perante um organismo muito mais opressor do que aquele da antiga polícia política. Agora, os novos pides são comediantes profissionais.