
Elle_Paul Verhoeven
Amar é urgente, mas o cinema está primeiro. O que é o cinema? Pondo a questão na sua vertente política, até quando vamos suportar que se acabe a escolaridade obrigatória, que se despachem licenciados com supostas licenças, que se tratem por mestres e doutores catrefadas de sabichões de meia-tigela, e que nem uma destas almas penadas saiba distinguir a televisão do cinema, o cinema da chachada?
Verhoeven é um curso de cinema ambulante para os carentes e ainda nem sequer chegou aos trinta filmes nos seus 78 anos de juventude. Os cinco que fez entre 1987 e 1997 deixaram-no aos olhos da enorme maioria como mais um serviçal de Hollywood à procura das banalidades lucrativas: RoboCop, Total Recall, Basic Instinct, Showgirls e Starship Troopers, Peter Weller, Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Michael Douglas, Kyle MacLachlan, Neil Patrick Harris, Denise Richards. Uma década de americanices, certo? Incerto. Depende do entendimento que cada um tenha do que é o cinema americano. Pista: o cinema americano foi criado por estrangeiros.
Peguemos nas extremidades do ciclo, RoboCop e Starship Troopers. Que se passa nesses filmes? Isto é, que histórias estão a ser contadas? Quem tiver 12 anos tem igualmente o direito a resumir o primeiro através da frase “Um polícia que morre e se transforma num robot que luta contra outros robots” e o segundo com a frase “Uma raça de insectos extraterrestres inteligentes quer invadir a Terra e matar-nos a todos”. Quem tiver 21 anos e continuar a usar as mesmas frases mostrará que não percebe patavina de cinema. Para casos similares acima dos 35, não só mostrarão o mesmo grau de ignorância mediática como de caminho revelam que também não pescam nada de literatura, política e semântica. Se dominassem o mínimo dos mínimos a respeito dessas áreas da inteligência humana, saberiam que o RobCop é uma gozação com o fascínio desmiolado pela tecnologia como instrumento de constrangimento social e que o Starship Troopers é uma gozação ainda mais desbragada com as ideologias militaristas e fascizantes.
Nada conheço sobre o contexto que gerou a imagem escolhida para ilustrar esta Cineterapia. Aparenta ser um momento em que o realizador está a dirigir uma actriz, no caso a personagem principal do Elle. Neste filme conta-se a história de uma violação. Mas qual? Aquela com que se inicia a fita? A outra com que se inicia a história dentro da história, a violação nascida da aleatoriedade da existência? Ou as restantes, inumeráveis, violações da confiança relacional e das camadas superficiais da personalidade com que a narrativa se transforma em história?
Michèle Leblanc, a filha de um psicopata, ex-mulher de um falhado, mãe de um fraco, filha que sente vergonha da mãe, sócia de uma amiga cujo marido é seu amante apenas para foder, vizinha de um violador casado por quem se sente atraída, patroa de homens básicos e mercenários, explora comercialmente a violência. O filme diz-nos que ela é uma vítima de violação sexual. E que procura vingar-se do seu violador. O cinema, aquilo que num filme só podia ter sido criado por artistas, conta outra história. A história de uma mulher que se comporta como se não fosse vítima de nada nem de ninguém. Nem vítima dos homens, nem das mulheres, nem de si própria.
A imagem conta essa história. Aquela actriz não é vítima daquele realizador. E o cinema afasta a realidade para deixar passar a verdade. Luz e sombra.