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A sangria do Estado de direito

Na SIC, José Gomes Ferreira foi chamado para comentar o anúncio de que Sócrates vai processar o Estado português. Ou talvez o José Gomes Ferreira tenha decidido usar a SIC para comentar o anúncio de que Sócrates vai processar o Estado português. Em qualquer dos casos, e só há dois, podemos perguntar: porquê o Zé?; o que é que o habilita a comentar um assunto estritamente judicial?; sendo um suposto especialista em assuntos económicos, porquê vir dar palpites sobre complexas questões jurídicas?; o Direito passou a ser um ramo da Economia e ainda não fomos avisados?

Ouvindo o Zé a falar sobre o assunto, fica claro qual a lógica de ser ele a representar a posição do canal. Não se trata, pois, de difundir uma visão que contribua para um melhor entendimento público do que se passa algures na realidade, quer-se é aproveitar a oportunidade para difundir uma certa interpretação dessa mesma realidade. Nessa interpretação, o Zé veio repetir a sua cassete: Sócrates é o maior criminoso da História de Portugal, Alves dos Reis incluído, e não tem qualquer hipótese de escapar à guilhotina.

O aspecto mais interessante deste episódio, todavia, acontece logo no início e é da responsabilidade de Pedro Mourinho, aparentemente um jornalista a trabalhar como jornalista:

É legítima a queixa do antigo primeiro-ministro, e da forma como o fez, ou há aqui uma tentativa óbvia, também, de condicionar o Ministério Público?

Estamos perante uma matriosca de falácias:

– Por que razão, ou em que plano, não haveria de ser legítima a queixa anunciada, para mais tendo em conta que os factos e argumentos que a justificam são do conhecimento público e estão sustentados no Código Penal?
– Que tem a forma como tal processo foi anunciado (numa conferência de imprensa) a ver com qualquer aspecto da sua legitimidade?
– Como é que esse anúncio de uma acção legal pode pressionar o Ministério Público seja no que for?
– Pressionar o Ministério Público em que sentido, para fazer ou não fazer o quê?
– Quem é que no Ministério Público é pressionável por existirem cidadãos a tentarem obter na Justiça o reconhecimento do que julgam ser os seus direitos?
– O jornalista sabe de outros casos similares, em que o Ministério Público tenha sido pressionado por algum arguido?
– O jornalista considera que as conferências de imprensa são instrumentos genéricos de pressão sobre o Ministério Público?

Para além de ter servido uma pergunta que não passava de pretexto para um dos seus chefes despejar o seu balde de calúnias, Pedro Mourinho fez algo que temos constatado noutros jornalistas televisivos, dessa e de outras estações, que calhem estar na emissão quando há desenvolvimentos no Processo Marquês por via de declarações e acções de Sócrates. Eles fazem questão de introduzir elementos opinativos a respeito das “segundas intenções”, sempre pejorativas e contaminadas pelo contexto criminal, de qualquer coisa que Sócrates diga ou faça. Eles exibem-se não só verbalmente mas também corporalmente para os espectadores, zelando para que fique claro que partilham da opinião popular: estamos perante um criminoso e tudo o que ele diga e faça, mesmo que nos pareça correcto e justo, não passa de uma artimanha diabólica.

O fascinante desta questão, para lá da indecência e decadência reinantes, é a expressão por jornalistas na chamada “imprensa de referência” de uma ideia de profunda corrupção nos pilares do Estado, onde até os super-heróis Rosário Teixeira e Carlos Alexandre de alguma forma poderiam ficar tolhidos na sua acção e pensamento porque um fulano caído em desgraça esteve uma hora a falar em frente de jornalistas numa sala de hotel. Absurdo, certo? Nesse caso, a restante e solitária explicação é a de que faz todo o sentido – isto é, a diabolização de Sócrates continua a fazer todo o sentido, no início como no fim, até à última gota que for possível extrair.

Malhas que a Impresa tece

Após a entrevista a João Araújo, a SIC Notícias colocou no ar Ricardo Costa e José Gomes Ferreira para a comentarem sob a batuta da Clara de Sousa. O mano Costa é o director-geral de informação do grupo Impresa, cargo que acumula com a autoconvicção de ser o cromo com mais neurónios em toda a comunicação social portuguesa e arredores. José Gomes Ferreira é um dos mais notáveis profissionais da calúnia actualmente em actividade. Clara de Sousa é Clara de Sousa, provavelmente uma vítima.

O Zé aproveitou a ocasião para declarar, sem qualquer contraditório, o seguinte:

– As notícias que referem alegados indícios de corrupção efectuada por Ricardo Salgado e Sócrates criaram na sociedade uma divisão (leia-se: duas metades) entre aqueles que acham que se está a perseguir Sócrates por razões políticas e os outros que não dão importância especial ao caso. Pergunta: há mais alguém a alucinar desta maneira no Hemisfério Norte ou estamos perante um caso isolado e, portanto, não significativo?

– Os indícios de foro judicial podem ser verdadeiros ou falsos, fortes ou fracos. No caso de os indícios serem verdadeiros e fortes, então passam automaticamente ao estatuto de provas e devem gerar as reacções condenatórias adequadas por parte da população e quem a representa mediaticamente. Pergunta: o Zé é mesmo o que aparenta ser ou há um Zé secreto que anda a escrever uma biografia onde explica que tudo isto se deve a um trauma de infância por causa de um brinquedo roubado e ao infortúnio de não ter nascido rico?

– A partir dos indícios relativos à suposta corrupção que gerou o suposto envio de 17 milhões de euros de uma pessoa para outra passando por uma terceira, é obrigatório concluir que há um período onde essa tenha sido a prática generalizada. Exemplos desse despautério que chegaram ao conhecimento do Zé: “o interromper de uma OPA que tinha sido feita a partir do Norte, de uma família de empresários que estavam fora desta maneira de fazer negócios“; “depois uma venda de uma Vivo“; “depois uma compra de uma Oi“; “um primeiro-ministro que lançou o maior número de contratos do Estado, com tantos milhares de milhões de euros de valor, em rodovias, em saúde, em escolas, por aí fora, se não houve honorabilidade neste caso o que será dos outros“; “só me lembro de coisas como a aprovação dos RERT“; “lembro-me de coisas como a atribuição de concessões de barragens aos grandes operadores“. Pergunta: as centenas, se não forem milhares, de indivíduos envolvidos num qualquer grau de responsabilidade e conhecimento interno nesses casos aludidos pelo Zé, entre membros do Governo, funcionários do Estado, equipas dos privados, mais advogados e escritórios de advogados, também sacaram a sua parte na roubalheira ou Sócrates e Salgado trataram do assunto a mielas e por telepatia, não demorando muito até que esses dois génios do crime bazem do país para irem gozar as centenas de milhões (cálculo rasteiro) que estão à sua espera ninguém sabe onde apesar de a bófia já ter vasculhado tudo e mais alguma coisa nas suas contas, computadores, telemóveis e papelada e ainda nas contas, computadores, telemóveis e papelada de amigos e familiares?

– Não há interesse no Parlamento pela criação legal da delação premiada (que o Zé quer que se passe a chamar “colaboração premiada”, et pour cause + c’est tout un programme), porque isso iria permitir descobrir mais crimes e mais criminosos do tal período em que a corrupção apareceu em Portugal pela primeira e última vez. Pergunta: o Zé não seria capaz de nos informar com mais detalhe acerca daqueles que no PSD, CDS, BE e PCP querem proteger os ladrões do PS?

Este vendaval de insinuações, difamações e retintas calúnias em modo sonso e aldrabão, sensacionalista e hipócrita, cínico e manipulador, teve da parte do mano Costa o mais eloquente apoio através do silêncio. Só que apoiar o Zé era curto para esta vedeta da “imprensa de referência”, pelo que fez questão de nos dizer outras duas coisitas: (i) que não tinha medo de Carlos Alexandre e de Rosário Teixeira como tantos outros (mas quem?), tinha era “respeito” (o tipo de respeito, ficamos a imaginar, que um bacano de prancha de surf debaixo do braço igualmente sente ao contemplar as ondas da Nazaré durante uns minutos antes de voltar para o carro sem sequer ter molhado os pezinhos), e que (ii) era desta que Sócrates ia ser apanhado, pois graças ao último depoimento do Bataglia já dava para entalar o cabrão. Ou seja, o mano Costa falou como se tivesse tido acesso às declarações prestadas às autoridades e à restante documentação coligida, acrescentado-lhe uma avaliação de perito em direito penal. Percebe-se o entusiasmo, pois no Expresso e na SIC há uma campanha em curso para reclamar os louros da captura da besta via “Panama Papers”, no que rivalizam com o esgoto a céu aberto para o título de órgão oficial da judicialização da política portuguesa.

Em relação ao sórdido espectáculo, tenho só uma curiosidade: haverá alguém a estudar academicamente esta época da comunicação social e o regime de poderes fácticos que defende e promove?

Revolution through evolution

Research Finds Link Between Immigration Coverage, Partisan Identity
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Political affiliation can predict how people will react to false information about threats
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To lose weight, and keep it off, be prepared to navigate interpersonal challenges
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Study Reveals Substantial Evidence of Holographic Universe
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Founding Fathers Used Fake News, Racial Fear-Mongering to Unite Colonies During American Revolution, New Book Reveals
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Polling is still best predictor of election outcomes, study suggests

Só sábios éramos bué

Nós — e quando digo “nós” refiro-me a jornalistas, analistas, colunistas, historiadores — estamos a gastar tempo de mais a caricaturá-lo e tempo de menos a compreendê-lo.


Caluniador pago pelo Público

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A clássica anedota académica tem no João Miguel Tavares a sua mais recente personificação in vivo. Este profissional das “polémicas” semanais com os alvos da sua sanha anti-esquerdolas (há quem lhe dê conversa, é o que temos e o que somos) considera-se parte de um colectivo, uma corporação, que junta jornalistas, analistas, historiadores e colunistas. Jornalistas e colunistas, enfim, passa com um bocejo porque a enorme maioria dos jornalistas portugueses o que ambiciona mesmo é verter sobre as ocas cabeças do povoléu as suas preciosas opiniões em vez de reportar factos o mais relevante e factualmente possível. Analistas e colunistas, a coisa começa a cheirar muito mal. O que será um analista para o nosso magnífico colunista? Alguém que analisa cenas com ou sem sangue, certamente, mas de acordo com que objecto de análise, metodologia e corpo teórico? Enigma que ele não irá resolver por falta de tempo, está demasiado ocupado a lutar contra a diabólica corrupção socrática. Historiadores e colunistas, eis a parolice no seu esplendor, com o caga-sentenças a equiparar-se ao cientista porque acha que a actividade de ambos se reduz exactamente ao mesmo: dizer uns disparates que lhes passem pelo bestunto e ser espertalhão o suficiente para conseguir que alguém pague por eles.

A mediocridade intelectual do JMT não o impede de ser um colunista de sucesso, daqueles que chegam à televisão e tudo, antes parece ser condição sine qua non. Estudos, discursos um bocadinho mais elaborados, estudos, procura de módica objectividade, estudos, respeito pela honra alheia, e estudos, estas características só tornam mais improvável a agilidade mental para despachar os simplismos caricaturais e sectários com que mostra serviço. Daí a satisfação exibida por este penduricalho de uma indústria que esvai de inteligência o espaço público. É tão fácil imaginar-se par dos jornalistas, analistas e historiadores. E poderia ter continuado, pois igualmente os políticos, os investigadores, os juízes, os médicos e quase todos os mecânicos automóveis o que fazem não passa do que o JMT igualmente poderia fazer se lhe pagassem: abrir a boca e falar, mexer os dedinhos e escrever.

Ele tem razão. E a culpa não é dele.

João Araújo exemplar

Nesta entrevista, constate-se como Clara de Sousa faz todas, mas todas, as perguntas de acordo com a lógica de que está a falar com alguém que partilha com ela, e com aqueles cujas posições representa na sua actividade profissional, o conhecimento de que Sócrates cometeu crimes de corrupção. Quanto a irregularidades, e até ilegalidades, do Ministério Público, a sua atenção é nula. O único tópico de interesse, a sua única motivação, é a intriga a partir de suspeitas caluniosas e ao serviço de adensar a intriga inicial. Perante a fúria perversa do interrogatório, João Araújo reage como se estivesse na sala de uma turma da 4ª classe (sim, já não existe) a explicar os fundamentos dos direitos e garantias dos cidadãos num Estado de direito democrático.

Há espaço para isto, e pior, na comunicação social tomada como mercado. E só se expõe nestes números quem quiser, mas não lhe chamem jornalismo. Chamem-lhe o que é, decadência ao serviço do lucro e/ou de agendas políticas.

Arendt para os tempos que correm

Totalitarianism

Totalitarianism begins in contempt for what you have. The second step is the notion: “Things must change — no matter how, Anything is better than what we have.” Totalitarian rulers organize this kind of mass sentiment, and by organizing it articulate it, and by articulating it make the people somehow love it. They were told before, thou shalt not kill; and they didn’t kill. Now they are told, thou shalt kill; and although they think it’s very difficult to kill, they do it because it’s now part of the code of behavior. They learn whom to kill and how to kill and how to do it together. This is the much talked about Gleichschaltung — the coordination process. You are coordinated not with the powers that be, but with your neighbor — coordinated with the majority. But instead of communicating with the other you are now glued to him. And you feel of course marvelous. Totalitarianism appeals to the very dangerous emotional needs of people who live in complete isolation and in fear of one another.

Evil

When I wrote my Eichmann in Jerusalem one of my main intentions was to destroy the legend of the greatness of evil, of the demonic force, to take away from people the admiration they have for the great evildoers like Richard III.

I found in Brecht the following remark:

The great political criminals must be exposed and exposed especially to laughter. They are not great political criminals, but people who permitted great political crimes, which is something entirely different. The failure of his enterprises does not indicate that Hitler was an idiot.

Now, that Hitler was an idiot was of course a prejudice of the whole opposition to Hitler prior to his seizure of power and therefore a great many books tried then to justify him and to make him a great man. So, Brecht says, “The fact that he failed did not indicate that Hitler was an idiot and the extent of his enterprises does not make him a great man.” It is neither the one nor the other: this whole category of greatness has no application.

“If the ruling classes,” he goes on, “permit a small crook to become a great crook, he is not entitled to a privileged position in our view of history. That is, the fact that he becomes a great crook and that what he does has great consequences does not add to his stature.” And generally speaking he then says in these very abrupt remarks: “One may say that tragedy deals with the sufferings of mankind in a less serious way than comedy.” This of course is a shocking statement; I think that at the same time it is entirely true. What is really necessary is, if you want to keep your integrity under these circumstances, then you can do it only if you remember your old way of looking at such things and say: “No matter what he does and if he killed ten million people, he is still a clown.”


Hannah Arendt made the comments in 1974 during an interview with the French writer Roger Errera

Revolution through evolution

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Antidote for Partisanship? In Science, Curiosity Seems to Work
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Positive social support from a spouse could have negative consequences, new research shows
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Psychological ‘vaccine’ could help immunize public against ‘fake news’ on climate change, study suggests
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Online media use shows strong genetic influence
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Imprensa e borregos

Não existir imprensa em Portugal é suspeita que acompanha a minha maturidade intelectual e cívica. Existem jornais e jornalistas, existe comunicação social profissional, existem até excelentes profissionais do jornalismo que nele fizeram e fazem uma carreira de vida ao serviço de um ideal admirável. Mas a existência de uma imprensa que assuma o estatuto de “quarto poder”, e seja qual for a sua configuração conceptual, isso não encontro.

A memória do Cavaquistão, mas já antes as histórias de abusos de poder que corriam a propósito do IX Governo Constitucional de Soares, expunham uma imprensa incapaz de servir como contra-poder sem agenda ideológica, partidária ou comercial. O projecto Independente e o subsequente destino político de Paulo Portas fica como lapidar ironia e monumento à tese. Com os Governos de Sócrates, e o paroxismo da violência com que foram (e ainda são!) combatidos pela oligarquia, tal percepção cristalizou-se numa certeza todos os dias comprovada. O branqueamento das mentiras e promessas impossíveis de realizar de Passos no chumbo do PEC IV e na campanha de 2011 ficam igualmente como uma vertiginosa tomada de consciência da miséria da imprensa portuguesa. Pura e simplesmente, os jornalistas portugueses enquanto classe são cúmplices, por actos e omissões, da decadência política que se alimenta de uma cultura da calúnia moldada pela indústria da mesma.

Exemplo paradigmático, o que recentemente envolveu Campos e Cunha, Vara, Sócrates, Teixeira dos Santos e Vítor Martins. Cunha foi repetir numa comissão de inquérito parlamentar, onde mentir é crime, o que anda a dizer pelas vielas desde 2008, pelo menos. Que Sócrates queria que ele metesse Santos Ferreira e Vara a mandar na CGD. Provas? Népias, é só a palavra dele e um facto: Santos Ferreira e Vara foram mesmo para a administração da CGD no 1ª Governo de Sócrates.

Esta questão não se limita a ser uma bulha cortesã entre egos hipertrofiados. Para a direita partidária e mediática, a gestão política da CGD por Sócrates e Teixeira dos Santos é uma das fontes preferidas para fazerem contínua baixa política e explorarem teorias da conspiração e calúnias. Na sua versão mais divulgada, Sócrates teria um plano para substituir a oligarquia, aquela que manda no país desde 1928, por si próprio e um grupo de facínoras. Começavam precisamente pela CGD, onde iriam buscar o dinheiro para se abarbatarem com o BCP e a TVI, metendo também a PT no bolso. A teoria não chega a precisar o que faria Sócrates com o BES e o BPI, mas é provável que o Ricardo aceitasse ser compincha na roubalheira. Depois, com isso tudo na mão, os diabólicos socráticos conseguiriam ficar no poder por mil anos graças à adquirida capacidade para silenciar a Moura Guedes e o Crespo. Este o sumário executivo do discurso que tem sido espalhado por tudo o que é comunicação social vai para 10 anos, ou até já os passou. Grande cachola a destes bacanos, portanto, ao terem montado uma super operação para espiarem um primeiro-ministro em funções e depois não o terem apanhado a dar ordens a Vara para fazer isto e aquilo na CGD, apenas registaram conversa de merda, e de merdas, entre dois amigos.

Campos e Cunha, ao tocar esta cassete, está a falar de algo da maior importância. Ele sugere, dado contexto e o subtexto e o pretexto, que Sócrates e Teixeira dos Santos, mais Santos Ferreira e Vara, cometeram ou deixaram que se cometessem crimes gigantescos. Os dirigentes e deputados do PSD e CDS, desde os tempos de Ferreira Leite e Portas, idem idem, aspas aspas. A sugestão-afirmação de que o PS foi usado por bandidos a partir de 2005 para se concretizar um plano de completa subversão das funções do Estado é um tópico recorrente não só em período eleitoral mas inclusive fora dele. Pode-se mesmo reconhecer que terão sido poucos os dias nestes 10 anos sem que tenha aparecido alguém ligado à direita portuguesa (e até Junho de 2011, também ligado à esquerda) a declarar que havia crimes colossais ocorridos à vista de todos e que, pelos vistos, ninguém queria investigar. A detenção e prisão de Sócrates veio dar algum sossego a este mar de gente. Realmente, é isso exactamente que se tem investigado, todas as alíneas da teoria da conspiração que a direita criou e divulga; ou seja, pela primeira vez em Portugal há ex-governantes que estão a ser investigados judicialmente por terem tomado certas decisões estritamente políticas – como ter uma certa política económica e financeira, uma certa concepção do papel do Estado e dos seus veículos, uma certa intenção na escolha de certas figuras para certos cargos. Gargalhada lateral, se Campos e Cunha chegou a ministro foi porque um dos bandidos o escolheu, o mesmo que meteu no Banco de Portugal Carlos Costa, entre outras curiosidades.

Ora, a nossa magnífica direita poderá ter toda a razão, sei lá eu. Temos é de esperar mais um bocadinho, ou quiçá mais um bocadão, para a poeira assentar e descobrirmos o que afinal foi descoberto. Até lá, um pulha continuará a ser um pulha. No caso do Campos e Cunha, aconteceu-lhe ver-se desmentido de imediato por Sócrates, Vara, Teixeira dos Santos e Vítor Martins, pelo menos. E essa é uma situação onde a haver imprensa em Portugal poderíamos estar agora a usufruir dos seus serviços. Porque uma imprensa que se respeitasse a si própria defenderia as instituições da República e o Estado de direito, reservando ainda uns minutos para respeitar a inteligência colectiva e o mero bom senso. Numa CGD cheia de quadros superiores ligados umbilicalmente aos principais partidos, seria possível um qualquer Governo influenciar o banco para servir planos criminosos de ataque aos pilares da oligarquia? Poder talvez pudesse porque tudo é imaginável, mas sem rasto seria impossível. E com rasto, tal seria fatalmente suicidário. Explicar isto a crianças a partir dos 12 anos é fácil, não o fazer com os adultos expõe método.

Quando a comunicação social não só não denuncia a desonestidade de uma direita decadente como é, na sua maior e principal parte, cúmplice activa da sua estratégia de degradação do debate político para o substituir por um moralismo maniqueísta e persecutório, então, no mínimo, podemos dizer que o que passa por imprensa em Portugal alimenta o esvaziamento de inteligência que afasta tantos da política e, consequentemente, da tomada de consciência e defesa dos seus direitos. É que não somos nós, arraia-miúda, que estamos a forçar PSD, CDS e suas máquinas opinativas a lançarem o caudal de suspeições contra Sócrates, PS e genericamente quem esteve no Governo, ou pelo Governo foi nomeado, entre 2005 e 2011, o qual é uma constante dos discursos e destaques mediáticos. É porque se retiram vantagens, à direita e à esquerda, dessa estratégia.

Num país onde não existe imprensa, o número de borregos aproxima-se muito do número de habitantes.

Eduardo Dâmaso, o nosso herói contra o populismo

A mulher do mais forte candidato da direita francesa às presidenciais, François Fillon, recebeu 600 mil como assessora mas nunca meteu os pés no Parlamento. Antes da mulher de Fillon, os franceses pagaram a família secreta de Miterrand, as amantes e as negociatas de Chirac, os escândalos africanos dos amigos de Giscard. Para quem se queixa do populismo judicial e mediático - só quando tribunais e jornais destapam os escândalos do poder -, convém lembrar que a essência do populismo está na política e nos seus atores. São os seus pecados, que as elites tendem a minimizar, que transportam o ovo da serpente. E ela está a nascer por todo o lado.

A origem do populismo

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Solução do Dâmaso para acabar com o populismo: limpar os “pecados” dos políticos através da grande aliança jornaleiros-justiceiros. Quais políticos? Os que os jornaleiros-justiceiros escolherem. Por agora, os “pecados” têm estado a ser “destapados” no PS, esse covil de ladrões. Mas as coisas poderão mudar noutras circunstâncias, pois é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma, como observou um génio.

O que o Dâmaso e equipa defendem, divulgam e praticam consiste na ideia de que a Constituição, o Estado de direito, as autoridades judiciais e policiais e ainda os partidos com representação parlamentar, não passa esta mixórdia de um gigantesco logro ao serviço sistémico da corrupção nascida dos “pecados” da classe política. Logo, o combate contra este império do mal faz-se individualmente e sem qualquer respeito pela Lei (a qual, óbvio, foi criada pelos criminosos para se protegerem). Daí a exaltação panegírica de certos procuradores (de certo) e de certos juízes (de certo), juntamente com a debochada auto-elegia diária onde o esgoto a céu aberto se declara o paladino do bom e puro povo sedento de justiça e fogueiras.

Até agora, este número do Dâmaso está a ser um sucesso esmagador.

Faria de Oliveira, perigoso socrático

Na audição esta terça-feira em sede de comissão de inquérito no Parlamento à Caixa Geral de Depósitos, o antigo presidente do banco Fernando Faria de Oliveira recusou que a instituição bancária sob a sua alçada tenha concedido créditos especiais por favores. “Não houve uma situação de concessão de crédito que não tenha seguido todas as normas e procedimentos. Não me lembro de um único caso”, referiu em resposta ao deputado do PS João Paulo Correia. Quando questionado pelo deputado se havia "créditos de favor", respondeu: "Enquanto presidente da Caixa não sei o que é um crédito de favor."

[...]

A intervenção inicial do ex-líder da CGD foi uma autêntica aula de gestão bancária, defendendo alguns princípios, nomeadamente ao nível da concessão de crédito. “Uma decisão de crédito comporta risco – só não se corre risco, se não se der crédito”, disse. Na avaliação que faz, Faria de Oliveira encontra um culpado principal: “ A culpa foi da estagnação económica (...) nada tem um impacto tão forte como a forte crise económica, [que provocou] uma taxa de incumprimento hoje oito vezes superiores às de 2008”. “A banca reflecte sempre o estado da economia.”

[...]

O deputado do CDS João Almeida questionou ainda Faria de Oliveira sobre o crédito específico de Vale de Lobo. O gestor recusou responder ao caso concreto de Vale de Lobo, mas falou em termos gerais de um caso hipotético de um empreendimento "estrela" na área do turismo que tinha sucesso. "Surge uma crise significativa." "Foi isto que levou a que situações destas tenham acontecido. Aquilo que gera verdadeiramente as imparidades é a evolução da economia e o impacto que isso tem no funcionamento de um sector de actividade", declarou.


Faria de Oliveira nega ter concedido “créditos de favor”

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