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Ricardo Costa, de Einstein a Eisenstein

Nada supera, até ao momento em que teclo, o que aconteceu na entrevista dada por Pedro Cruz ao SMACK, publicação digital do Grupo IMPRESA destinada a “um público maioritariamente jovem, um público que procura saber sempre mais, em mobile ou nas redes sociais“. Nada supera esse espectáculo se a intenção for a de vermos à transparência o que está na origem dos crimes cometidos pela SIC ao ter publicado excertos dos interrogatórios na “Operação Marquês”.

Este senhor é subdirector da informação na SIC. Ao longo da entrevista viola o Estatuto e o Código Deontológico dos Jornalistas. E ainda insulta e mente. Sempre a rir, sempre na maior, ufano e frenético.

Dois exemplos de arrebimbomalho:

i)

Pedro CruzA mim pouco me importa com quem é que dorme o José Sócrates, embora isso esteja lá nas escutas.

Menino De zero a dez, quão delicioso foi ouvir essas escutas nos bastidores?

Pedro Cruz Eu não as ouvi, infelizmente ou felizmente...

MeninaJá ouvi dizer que há coisas ainda mais juicy do que aquelas que podemos ver, mas que...

Pedro CruzA seu tempo...

MeninaA seu tempo?! Vamos ver mais?! Vamos ter mais coisas?!

Pedro CruzÉ possível, é possível, é possível!

ii)

Pedro CruzQuando José Sócrates diz «Ai, eu não trato o Ricardo Salgado por tu, nem ele a mim, ele chama-me senhor primeiro-ministro» e cola com «Ó Zé, 'tá bom?». Portanto, é mentira o que ele está a dizer e nós mostramos que é mentira.

No primeiro, vemos três abutres à volta de um cadáver. Está um festim a decorrer. A carne é dilacerada e engolida furiosamente. O subdirector da SIC anuncia que o cadáver tem carne ainda mais saborosa lá para dentro, fundo no corpo inerte. Os dois abutres pequeninos começam logo a salivar e abrem as suas boquinhas para largarem gritos de excitação. Onde? Onde? Onde está essa carne tão tenrinha, tão gulosa? Quero! Quero! Quero! O abutre velho aproveita para ensinar as virtudes da paciência aos filhotes. A seu tempo, diz ele. Estas coisas têm o seu tempo, e a arte de engolir um cadáver passa por guardar o melhor para o fim. Como isso de saber com quem é que o Sócrates dorme, né? Vá, calma. É que tudo é possível quando se é um abutre disfarçado de jornalista, remata o Pedro Cruz perante o olhar embevecido dos dois abutrezinhos.

No segundo, estamos perante uma montagem. Pegaram na passagem do interrogatório onde Sócrates declara que enquanto primeiro-ministro (2005-2011) Ricardo Salgado tratou-o invariavelmente com o formalismo, protocolo e etiqueta inerentes à sua função e colaram-lhe uma escuta de 2014 em que o Ricardo começa por reconhecer que se enganou no número (não queria falar para aquele “Zé”=José). Nada de nada de nadinha de nada do que é dito nessa conversa foge do convencional entre duas pessoas que mostram ter uma relação moldada por uma estima superficial e distante, duas pessoas apanhadas numa situação imprevista, irrelevante e algo constrangedora pois não era suposto o telefonema ter existido. Pedro Cruz, autêntico xerife do jornalismo da SIC, trocou o respeito próprio pela pontaria e crivou de balas o bandido. Sócrates mente porque a SIC assim o decidiu através daquela arte sem a qual não poderíamos desfrutar dos filmes: a montagem.

Dá para esquecer Balsemão e restante administração da IMPRESA, os quais lavariam as mãos dizendo que os seus jornalistas têm absoluta liberdade para exercerem a sua profissão como acharem melhor. E também esquecermos esta ridícula e degradante figura de seu nome Pedro Cruz, posto que não passa de uma peça menor na engrenagem. De quem importa falar é de Ricardo Costa. Depois do que vimos o Expresso fazer com a devolução da sobretaxa nas vésperas das legislativas de 2015, com o número de mortos em Pedrógão, com um inexistente protesto de militares e com um relatório fantasma dito das secretas onde se pretendia abater o ministro da Defesa, é óbvio que estamos perante um Einstein da imprensa, um génio que desenvolveu a sua própria Teoria da Relatividade. Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião? É relativo. Procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem? É relativo. Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência? É muito relativo. Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas através da exploração da sua vulnerabilidade psicológica, emocional ou física, e não recolher imagens e sons com o recurso a meios não autorizados a não ser que se verifique um estado de necessidade para a segurança das pessoas envolvidas e o interesse público o justifique? Ui, isso é bué relativo, foda-se, solta o Ricardo enfastiado com a seita do Estado de direito democrático, essa religião funesta que persegue os jornalistas impolutos na posse da verdade.

Com este último número da publicação dos interrogatórios a Sócrates, arguidos e testemunhas, o Ricardo apresenta-se agora como a mais exuberante reencarnação de Eisenstein, o mestre da montagem em cinema. Aquilo que vemos no exemplo do fragmento das declarações de Sócrates quando interrogado a ser colado a um telefonema sem qualquer ligação legítima com a situação conduzida pelos procuradores é uma perfeita execução da chamada montagem ideológica ou intelectual. Eisenstein descobriu que uma sequência de planos aparentemente díspares resultava numa operação cognitiva que produzia um sentido no espectador que estava ausente das peças tomadas isoladamente. Este filão de automatismos narrativos permitiu elevar o cinema a um estatuto artístico superior, sendo considerado um dos pilares estruturantes da 7ª arte e de toda a ficção audiovisual. A pergunta a fazer é, pois, a seguinte: qual a ideologia que o Ricardo Costa pretende espalhar entre a malta ao fazer uma montagem que inventa uma mentira acerca de dois cidadãos servindo-se dos meios de divulgação que o seu patrão lhe oferece para se ir mascarando de jornalista? A resposta não é bonita, mas desconfio que dava para realizar um filme de terror.

Revolution through evolution

Men willing to punish more than women to get ahead
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Multidisciplinary study provides new insights about French Revolution
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Digital addiction increases loneliness, anxiety and depression
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Face recognition technology that works in the dark
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‘Marriage diversity’ a must-have for rock bands to businesses
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Music intensifies effects of anti-hypertensive medication
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Volunteering 2 hours per week reduces loneliness in widowed older adults
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O que mais importa

A reacção mais natural, normal e, portanto, previsível no confronto com as informações que atribuem a Sócrates um comportamento perdulário e suspeito na sua vida privada é a de repúdio moral. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o acesso a esse conhecimento tivesse sido feito apenas e só através das declarações de Sócrates e de Carlos Santos Silva, sem imputações ou deturpações de terceiros. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o indivíduo em causa fosse um ilustre desconhecido. Não é possível contornar tal desvio às convenções sociais que tomamos como circunscritivas das normas da conduta aceitável, aversão que aumenta exponencialmente na relação directa com o estatuto republicano e responsabilidades cívicas da pessoa envolvida. Tratando-se de um responsável partidário e governativo, atinge-se o paroxismo da inevitável condenação moral pois o comportamento suspeito atinge as instituições democráticas e seus representantes. O simples facto de existir uma suspeita legítima de corrupção sobre um ex-primeiro-ministro, haja ou não condenação judicial, já está a fragilizar o regime e a assustar a comunidade. Isto, porém, é lana-caprina face ao que mais importa.

Num outro plano, o da intimidade de Sócrates no seu mundo relacional e afectivo, podemos falar de traição. O seu comportamento, que ele sabia ser imoral (ou que talvez conceba como amoral) e fonte de suspeitas caso detectado pelas autoridades, arriscava envolver terceiros num processo judicial e num ataque mediático. Para quem já tinha sido escutado ilicitamente mesmo sendo chefe de Governo, para quem tinha criado inimigos tão poderosos e diversos, causa perplexidade que aparentasse desconhecer que muito mais facilmente o seria tendo voltado a ser apenas um fulano que andava por aí. E calhando começar a ser escutado, então todos com quem comunicava igualmente ficavam expostos à inevitável devassa que se seguiria. Com estes, tal como com aqueles que publicamente se bateram pela defesa do seu nome e pela decência durante anos, Sócrates não foi leal, nem responsável, nem probo. Isto, porém, é privado, é lá entre eles e com cada um, não é o que mais importa.

Nunca vimos, ou nunca vi, qualquer referência ao valor total da fortuna de Carlos Santos Silva. Só teria os tais 20 ou 30 milhões da tal conta que o Ministério Público considera ser propriedade de Sócrates? Se tem mais dinheiro, quão mais? Por exemplo, se tiver acumulado 300 milhões de euros, ou que sejam 100, qual seria exactamente o problema de andar a gastar 1, 10 ou 20 com quem e como lhe apetecesse? E como o ganhou, só com trafulhices ou a fazer bons negócios? E foi, ou não, amigo de Sócrates ao longo de 40 anos? Que saiba, ainda não se fez um tratado de religião, filosofia ou psicologia onde se considere ser impossível existir um ser humano com a vontade de usufruir da sua riqueza de forma considerada excêntrica pela sociedade que o rodeia. A liberdade tem dessas coisas, tende a chocar quem não pode ou não quer ser livre. Ora, será preciso termos uma Justiça a cometer crimes, e um espaço público emporcalhado de caluniadores, para se investigar a liberdade do Carlos Santos Silva? Eis o que mais importa.

Exactissimamente

«Os media funcionam hoje como distribuidores de poder relativamente aos quais deixaram de ser adequadas as formas tradicionais de crítica (sobretudo aquelas que faziam a crítica dos meios de comunicação de massa). Daqui decorre que aquilo a que chamamos hoje democracia está longe de ter o mesmo sentido que o conceito tinha nos antigos tratados de teoria política. E, de maneira concomitante, a crítica aos media também já não pode seguir as mesmas vias de análise. Questões como as da mentira e massificação deixaram completamente de ser pertinentes. O que importa agora analisar é uma complexa estrutura cujo poder está disseminado ou não se situa no lugar onde parece situar-se.»


A política por outros meios

Quem não se sente

A exibição pela SIC, com som e imagem, de alguns dos interrogatórios feitos a Sócrates – os quais apareciam como excertos mutilados do seu contexto e sequência – deu origem a uma fascinante experiência cognitiva e social. Independentemente da licitude, moralidade e intenções dos seus responsáveis editoriais, o resultado seguramente imprevisto do voyeurismo mede-se pelo alarme e confusão provocados nos broncos, nos fanáticos e nos pulhas. O pânico foi tal que se chegou a acusar a SIC de estar a fazer um favor a Sócrates. Que aconteceu?

Aconteceu algo que broncos, fanáticos e pulhas não controlavam, por ser antropológico: o que viam deixava-os com a convicção de que Sócrates era inocente. Aqueles traços caricaturais que durante anos serviram para o seu assassinato de carácter, isso de ser pintado como arrogante e irascível, estavam agora a servir como informação, como sinal, de ter razão. Ter razão para protestar, para se indignar e até para se enfurecer ao ponto de perder a cabeça e insultar as autoridades. Aquele homem que falava sem se rebaixar com os seus interrogadores não parecia ter nada a esconder, nada de que se envergonhar. Pior, aquele homem desafiava os acusadores a provarem as suspeitas, coisa que não vimos nos vídeos seleccionados. Esta imagem não é conciliável com a do Sócrates desvairadamente criminoso que não poderá escapar da choça dada a montanha de provas. Dissonância cognitiva instalada, a única solução era matar o mensageiro. A SIC, que sempre fez um jornalismo sectário e que tem participado activamente na caça a Sócrates, tinha vindo em socorro do engenheiro. É assim o pensamento mágico, faz magia.

As cadeias estão cheias de inocentes, reza a frase feita que alude à frequência com que os condenados continuam a reclamar a sua inocência. Também sabemos que é possível enganar os polígrafos. Um criminoso poderá parecer perfeitamente convincente no papel encobridor que escolher representar perante terceiros, a história policial e judicial está cheia de exemplos de todos os tempos e feitios. É o instinto de sobrevivência. Logo, para se apurarem os factos em causa nas acusações a Sócrates, a sua emotividade e linguagem corporal, a sua atitude e argumentação, a sua voz e as reacções dos advogados, tudo isso é irrelevante para responder à pergunta: se foi corrompido, onde aconteceu e como aconteceu? Aparentemente, e nisso o “Face Oculta” e o modo como se condenou Vara serve de exemplo, poderá não ser necessário à Justiça portuguesa responder a essa pergunta para despachar uma condenação por “prova indirecta”. Tomando a Cofina como representante do Ministério Público de Joana Marques Vidal e Rosário Teixeira, a que se junta o juiz Carlos Alexandre, então uma das conclusões da exploração mediática da “Operação Marquês”, assim como da elaboração da acusação, é a de que não há realmente qualquer prova de corrupção. Dito de outro modo, seis meses depois de ter sido lançada a acusação, com dezenas, centenas ou milhares de pessoas a estarem a ler ou já terem lido esse colosso judicial, ainda não foi publicada qualquer prova (Bataglia não prova, apenas indicia, apresenta uma versão que continua a carecer de prova).

Sócrates é vítima de criminosos no Ministério Público e na comunicação social. A sua exaltação, que não é falha de carácter mas traço de personalidade, também vai aí buscar ímpeto e gana. O que vimos nos fragmentos das entrevistas confirma o que saía no esgoto a céu aberto logo no dia a seguir aos interrogatórios. O MP nada mais tinha na mão do que os envios de dinheiro para Sócrates por Carlos Santos Silva. Estes são factos. Porém, os mesmos não atestam a sua inocência ou culpabilidade. Ele poderá, no campo das possibilidades, vir a ser condenado sem margem para dúvidas. À mesma, nesse desfecho, terá sido vítima de criminosos no Ministério Público e na comunicação social. Ontem, pela primeira vez para muitos, foi possível sentir empatia pelo cidadão e pela pessoa que resiste isolada no mais odioso processo de ataque político de que há memória viva. Não sei se a SIC vai transmitir os interrogatórios de mais alguém, se até começará a transmitir execuções de condenados à morte em directo ou diferido. Sei que escreveram direito por linhas muito tortas.

Marcelo, que tal pedires desculpa ao Governo?

De acordo com o que a Judiciária tinha divulgado logo no rescaldo do incêndio, a TVI fez uma investigação jornalística onde registou e exibiu indícios, se é que não são provas, de se ter destruído o Pinhal de Leiria por acção criminosa de madeireiros, responsáveis por grandes empresas e também de fábricas que compram e vendem madeira: O Pinhal de Leiria estava armadilhado para arder. Foi para o ar na sexta-feira, dia 13.

Passado o fim-de-semana, eis o que se constata:

– Nove mil hectares do Pinhal de Leiria, correspondendo a 85% da área total, poderem ter desaparecido por causa do negócio da madeira parece que é um assunto que não aquece nem arrefece a opinião pública.

– O dano patrimonial, económico, social, ecológico, paisagístico e turístico que está aqui em causa não chega para inflamar a opinião publicada. Se ainda estivéssemos a falar sobre a propriedade de um apartamento em Paris e o custo de refeições e toaletes de um certo fulano, isso, pois sim, seria causa para a comoção nacional e a fúria punitiva da comunicação social. Pinheiros chamuscados ao serviço do lindo ideal do mercado libérrimo e sua mão invisível, não. Caguemos nisso.

– O aproveitamento político dos incêndios por parte da direita portuguesa, grupo onde se destaca o Presidente da República pelo cinismo e violência com que explorou a situação, não irá queimar ninguém. O espectáculo de miséria moral de vermos os mortos a serem usados como carne para canhão ficará como sedimento no espaço público e na comunidade.

A imagem acima tornou-se no ícone mundial dos últimos incêndios em Portugal. Serviu para ilustrar incontáveis catilinárias sobre a fragilidade e falência do Estado, sobre a incompetência e irresponsabilidade dos governantes, sobre tudo e mais alguma coisa passível de ser usada como bode expiatório e alvo para o ódio e soberba dos publicistas. Agora, caso se confirmem os indícios em investigação na Judiciária, de que a TVI faz um resumo e quiçá complementa, ficamos com uma pergunta para fazer a Marcelo: “Já percebeste o que aconteceu em Portugal a 17 de Outubro de 2017?”

Revolution through evolution

Is the ‘Queen Bee’ phenomenon a myth?
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Student class engagement soars when they use personal data to learn
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Sitting is bad for your brain – not just your metabolism or heart
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Vaccination apathy fueled by decades of misinformation
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Scientists Decry Lack of Science in `Forensic Science’
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Pasta can be part of a healthy diet without packing on the pounds
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Seven-year follow-up shows lasting cognitive gains from meditation
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Muito obrigado, Leonídio

Muito obrigado, Leonídio Paulo Ferreira, por esta lição: Vem aí a Quinta Guerra Mundial?

Desconhecia por completo ter existido uma Batalha dos Guararapes, e ofereço-me para trabalhar à borla (ou quase, também não vamos ser precipitados) na criação do argumento para a maior produção cinéfila (ou netflíxica) luso-brasileira da História onde se recrie e reinvente esse festival de heroísmos.

É favor escrever para este pardieiro indicando a morada, o dia e a hora de arranque do projecto.

A viagem do David Dinis

«O que o Bloco sabe, como a ala esquerda do PS sabe também, é que o PS tem um trauma por resolver com a sua história. E que esse trauma é a razão maior da aliança sólida que António Costa estabeleceu com o seu ministro das Finanças. Esse trauma é o do pedido de resgate à Comissão Europeia e ao FMI, uma conta que José Sócrates deixou por pagar - e que perdura na maneira como os portugueses olham para o partido.»

David Dinis

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Estamos em 2018 e continua a ser importante martelar a tanga da “bancarrota Sócrates”; será esse, aliás, o programa do Montenegro quando lhe derem uma abébia para brincar aos presidentes do PSD. David Dinis sabe que o resgate foi provocado pelo PSD, CDS, BE e PCP ao chumbarem um programa que o evitaria no imediato, dando tempo para aguentar até à chegada da verdadeira solução. David Dinis sabe que as causas para as dificuldades financeiras de Portugal no começo de 2011 não se encontram nas políticas socráticas, mas sim no sistema financeiro e económico internacional, especialmente no erro crasso da austeridade salvífica e punitiva com que a Europa começou por responder à crise grega no começo de 2010. David Dinis até sabe que Sócrates tentou os possíveis e os impossíveis para livrar o País do que seria inevitavelmente a pior e mais destrutiva das opções então disponíveis. Enfim, David Dinis sabe que a crise das dívidas soberanas foi finalmente estancada em 2012 graças à singular acção do BCE. Não era um problema que se pudesse resolver com populismos, moralismos e mentiras, a matéria bruta das escolhas e decisões de Passos Coelho quanto trocou o bem comum pela gula do seu partido e respectivas clientelas – simetricamente, o sectarismo da esquerda “pura e verdadeira” apenas seria capaz de provocar tragédias e catástrofes calhando ter poder para governar de acordo com a sua retórica naquela conjuntura. Essa aliança negativa de irresponsabilidades quis de olhos abertos afundar Portugal num programa de resgate ideológico entretanto já renegado pelo próprio FMI. David Dinis, pois, compraz-se a escrever para fanáticos e pategos.

Esta postura onde Sócrates permanece como alvo obsessivo ou instrumental para a direita decadente e traidora tem neste sofisticado sonso outra e insidiosa faceta. Tente encontrar-se em publico.pt uma notícia sobre o comunicado que ontem foi enviado por Pedro Delille à imprensa, onde assinala várias irregularidades que persistem passados seis meses no processo onde Sócrates foi acusado pelo MP. A decisão editorial do director do semipasquim, neste como noutros casos similares relacionados com declarações da defesa de Sócrates e do próprio Sócrates, é a de não noticiar. O Expresso tem critério similar, o mesmo no Correio da Manhã. E no Observador, calhando a notícia não permitir difamar ou caluniar Sócrates, sai rapidamente do destaque superior da página e é arquivada numa pasta. Foi o caso. O tratamento dado a Sócrates, para ser discriminatório, não carece do sensacionalismo nem do espaço da opinião onde se fazem linchamentos sistemáticos. A mera selecção do que é noticiado e destacado igualmente reflecte as intencionalidades sub-reptícias da linha editorial.

Esta figura cliché do jornalismo engajado imagina os portugueses a olharem para o PS e a verem a “conta que José Sócrates deixou por pagar”. O tal “trauma”, informa-nos. Não se trata apenas de um desejo que o anima. Será mais o LSD onde encontra alívio e companheiros de viagem.

Quero contratar este caramelo para o Aspirina

O Eduardo Cunha e Sérgio Cabral Filho nunca foram figuras de topo e por figuras de topo digo dirigentes máximos, daqueles que suportam às costas um partido e que são bandeira de um movimento. Nenhum deles representa para a direita o mesmo que o Lula representa para a esquerda.
Agora adaptando a famosa rábula do Marcelo. O Aécio? Podia ter um tratamento igual. Mas não. Não é que não pudesse. Mas não. Podiam o Aécio e o Alckmin ser sujeitos a uma investigação e julgamento a jato, como foi o Lula, já que sobre eles recaem suspeitas que fazem o caso do apartamento parecer uma bagatela? Podia. Mas não. Podia a justiça decapitar o PSDB e mesmo o PMDB como fez com o PT, ao mais alto nível (impeachment da Dilma (justiça e congresso), Dirceu, e Lula?) Podia, mas não. A dinâmica prejudica a direita? Podia. Mas não.
Mas vamos considerar o argumento puramente lógico, para não sermos contaminados pela politica. Vamos imaginar que somos analistas. Se a politização da justiça significa, por definição, que a justiça tomou partido, não é lógico que tomemos nós partido pelos injustiçados? No caso, o que muitos dizem é que existe uma campanha judicial contra o Lula. Se tomamos isto como certo, é então o Lula que devemos defender e não os seus adversários favorecidos. Porque iria eu, que acho que de facto a justiça se politizou nesse sentido, fazer proclamações ecuménicas sobre a justiça, se considero que o outro lado não tem razões de queixa?
E ainda temos o aspecto prático, que dificulta a vida a qualquer analista. Portanto, certo, vamos globalizar a coisa, saindo fora do Brasil. Não é difícil fazer uma crónica metendo o Lula e o Sarkozy. No caso de alguém na Nigéria se sentir injustiçado, editamos e adicionamos o da Nigéria, certo. Mas vamos chegar a um ponto em que teremos de fazer isto como modo de vida remunerado. Desculpa, mas esta é a única forma de se ter legitimidade “certa”, em vez de legitimidade “errada”, sujeita a tristes figuras, como dizes.


caramelo

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Enquanto se espera pelo desfecho das (inexistentes) negociações, pode ser lido amiúde na sua residência artística: Ouriquense

Verde

O campo está coberto por um oceano de verde. Verde verdão, verdura, verdade. Viço, volume, vastidão. Em seis meses passámos do cenário marroquino para a paisagem irlandesa. É aproveitar agora, mergulhar enquanto dura esta eternidade vegetal feita de água e luz. Memória perfumada, extasiante, do nascimento da vida.

Exactissimamente

O que está em causa no processo Lula?

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Nota

Não aprecio o estilo e os resultados da prosa opinativa do Manuel Carvalho. Parece-me um exemplo típico da inutilidade soberba que preenche a enorme maioria dos espaços de comentário na comunicação social, onde os articulistas nada mais pretendem do que chafurdarem nos seus preconceitos e gostos embrulhados numa retórica básica e inflamatória. Daí a grata surpresa de vê-lo num exercício onde ajuda os seus leitores a identificarem o valor supremo que está em causa na prisão de Lula. Esse valor aparece descrito no último parágrafo do texto através de várias facetas – “Justiça”, “julgamento imparcial”, “direitos humanos”, “lei”, “liberdade”, “Estado de direito” – todas elas remetendo para os pilares da civilização onde queremos viver. Pilares erguidos ao longo de milénios e com o sangue e o sofrimento de incontáveis milhões de que não reza a História.

Dá-se o caso de este jornalista ter como colegas no semipasquim retintos profissionais da calúnia. Seja por fanatismo, deboche ou venalidade, esses seus colegas não perdem uma oportunidade para dispararem sobre quem apareça a defender o Estado de direito naqueles casos em que estão a desfrutar dos autos-de-fé da sua predilecção. É por causa deste risco inerente a quem clame pela liberdade, o de invariavelmente ser acusado de estar a defender o alvo do ódio dos sicários ou da turbamulta, que costumam ser muito poucos a fazê-lo. Quem usa a calúnia como arma de arremesso conta com processos cognitivos e sociais automáticos que têm sido explorados em todos os tempos e lugares. Nesse estado de linchamento, aquele que ofereça o mínimo obstáculo à satisfação da pulsão assassina é visto como cúmplice do “culpado”. Daí o espectáculo de vermos saírem textos que apagam todos os abusos e crimes de que Lula e outros foram alvo por agentes da Justiça só para os caluniadores profissionais poderem celebrar o triunfo da sua prisão, da sua derrota, da sua morte simbólica. Parece apenas um fenómeno que se esgota na expressão de subjectividades encardidas, mas vai muito mais longe e é muito mais grave. A lógica da calúnia é precisamente aquela contra a qual os modelos do republicanismo e do liberalismo se construíram. A lógica da calúnia é a da tirania da vontade particular, onde os mais poderosos obrigam os mais fracos a subjugarem-se e a serem espoliados sem qualquer possibilidade de defesa. Inversamente, os conceitos de república e de democracia liberal instituem a lógica da lei, onde os mais poderosos e os mais fracos se equivalem em direitos e dignidade cívica. Na civilização onde queremos viver, a liberdade não é a capacidade de fugir à Justiça ou perverter as leis. A civilização onde queremos viver tem na Lei democrática o fundamento e garantia da liberdade.

Ora, o que o Manuel Carvalho assinou sobre o caso da prisão de Lula poderia ter igualmente assinado – mutatis mutandis – sobre a prisão de Sócrates. Os dois casos são análogos quanto à ausência de provas, abusos da Justiça e ambiente justiceiro no Ministério Público e no DCIAP que culminam numa prisão política. As razões invocadas para a prisão do ex-primeiro-ministro, à luz do que o processo e a acusação revelaram, eram não só exageradas como ilícitas. De uma ilicitude validada pelo próprio sistema de Justiça ao recusar provimento aos recursos exaustivamente apresentados pela defesa de Sócrates, mas inquestionavelmente ilícitos. Isto é, se havia razões indiscutíveis para investigar os fluxos de dinheiro e demais bens à disposição de Sócrates, tal não obrigava a que a medida de coação tivesse de ser a prisão em cela. Mais, tal nem sequer obrigava a que a data para a detenção tivesse sido aquela, uma data com óbvias conexões ao processo eleitoral então em curso. Porém, jamais este valente do sr. Carvalho estabeleceu esses nexos em nome dos valores que agora, e muito bem, lhe guiaram os dedos pelo teclado.

Talvez precise de reler umas cem vezes a sua última e moralizante frase: “Em questões fundamentais como a liberdade ou as garantias de um estado de direito, o melhor mesmo é despir a camisola da ideologia e defender a sua universalidade e constância.

Revolution through evolution

Self-rating mental health as ‘good’ predicts positive future mental health
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Music lessons improve children’s cognitive skills and academic performance
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We’ll pay more for unhealthy foods we crave, neuroscience research finds
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Poor grades tied to class times that don’t match our biological clocks
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Why it doesn’t pay to be just nice – you also need to be intelligent
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Older adults grow just as many new brain cells as young people
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Get moving to get happier, study finds
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3 de Abril a feriado nacional

Está na altura de acabar com a hipocrisia dos feriados. Não se trata de reduzir o seu número, credo, mas de actualizá-los, fazer aquilo que ingleses e franceses (desde que cultos, mas nem é preciso muito) chamam de aggiornamento. Ora, quantos portugueses estão em condições de sequer começar a explicar o que está em causa num feriado como o do Corpo de Deus, ou o da Assunção de Nossa Senhora ou o da Imaculada Conceição? Sejamos um bocadinho mais precisos: quantos dos que se dizem católicos conseguiriam justificar histórica e/ou doutrinariamente a lógica de existirem como datas a merecer o estatuto de celebrações nacionais capazes de interromperem a batalha da produção?

Pois. Então, façamos um referendo, ou um sorteio entregue à Serenella Andrade, para trocarmos dois desse trio de antanho pelo feriado proposto pelo Éderzito, a 11 de Julho, e pelo recente fenómeno de vermos um golo acrobático a ser transformado em orgulho pátrio, como se constata pelo êxtase que tomou conta da comunicação social com falta de assunto. Continua tudo a pertencer à esfera da religião, só mudam as potestades e seus milagres.

Contra os pulhas marchar, marchar

Para além de se rirem à gargalhada do Código Deontológico dos Jornalistas e do Estatuto do Jornalista, para além de terem uma actividade criminosa regular ao serviço de uma agenda política, para além de se conceberem como uma organização paralela ao Estado de direito, a comercialização da pornografia e a redução das mulheres a objectos e animais sexuais é parte principal do sucesso do Correio da Manhã, tanto na versão em papel como no cabo. Eis um exemplo da passada quarta-feira:

Temos uma jovem fêmea em fato de banho a propósito de ser actriz algures. Temos uma senhora em roupa interior a propósito do Trump. Temos três rabos de três fêmeas adolescentes a propósito da Páscoa e do Algarve. Temos uma manchete sobre os “viagras” a propósito não se sabe do quê. E ainda temos, no canto superior direito, a promessa de se mostrar a namorada nua de um ou uma (não sei porque não consumi o artigo) jovem de Aveiro. Uma capa que é foda.

Este é o líder da imprensa escrita em Portugal, e da informação no cabo, uma fonte que irradia para o espaço público uma cultura machista e abusiva tão ao gosto “popular”. Os números validam os seus critérios, é o mercado a funcionar. A única moral que respeitam é a das audiências mais desqualificadas e pulsionais, como vimos no caso do vídeo publicado no ano passado sobre um episódio de bebedeira num autocarro com estudantes no Porto. Enfim, qual é o mal de deixar as senhoras exibirem as suas mamas e cus, se elas não se queixam e até agradecem a atenção? Qual é o mal de ilustrar a paisagem de uma praia com juvenis e graciosos traseiros de umas incautas raparigas? E qual é o mal, ó deuses, de chamar para a 1ª página o belo gesto do tal jovem de Aveiro que resolveu partilhar com o mundo a sua admiração pela anatomia da namorada? Estamos a falar de Aveiro, raios, não de uma terreola qualquer perdida no Baixo Alentejo.

Estranhamente, a Cofina, a entidade responsável por este tremendo sucesso comercial que fica como ex-líbris da sociedade que somos, não é alvo de qualquer agressividade pelas entidades e personalidades dedicadas e empenhadas na luta pela dignificação da condição feminina e pela igualdade de direitos entre os sexos. Os políticos, mesmo os valentões dos esquerdolas que não perdem uma oportunidade para sovarem os imperialistas e reaccionários que os cercam, calam-se quando se trata da Cofina. A criminosa e degradante Cofina. E se esse silêncio se regista na esquerda pura e verdadeira, na direita e na indústria da calúnia há viscerais louvores ao que se passa no esgoto a céu aberto. Se o tema da conversa for poderes fácticos, a Cofina será um dos mais poderosos em Portugal tal a rede de influências e dependências que montou. Até o actual primeiro-ministro e o actual presidente da câmara de Lisboa, dois dos melhores políticos no activo, já por lá andaram a contribuir para aquela miséria.

O texto do Octávio Ribeiro onde trata o Gélson como um escravo fugido da plantação de açúcar é o espelho cristalino da axiologia que está em causa no que só aparentemente é díspar, a violação dos códigos deontológicos e a violação da condição humana. Que este esgoto a céu aberto tenha a protecção das forças onde depositamos a nossa confiança cívica e política, social e cultural, é uma prova do subdesenvolvimento estrutural que nos diminui a liberdade. Que fique calado quem quiser ser cúmplice destes pulhas.

Boa reflexão, mas

Nuno Garoupa continua a produzir inteligência política na análise que faz da conjuntura partidária na direita – Estado da direita (II): a guerra civil no PSD – mas parece-me falho de imaginação quanto ao destino político de Rui Rio. Por um lado, alinha na sobrevalorização eleitoral da cultura do ódio que preenche o império mediático da direita, talvez por afinidade afectiva. As capas do CM, a legião de caluniadores profissionais e as caixas de comentários do Observador podem até ser urnas da racionalidade e da decência mas não do voto soberano como se comprova por outros indicadores bem mais fiáveis. Por outro lado, a continuação de Rio na chefia do PSD não implica uma completamente improvável vitória nas próximas legislativas, até se admitindo que mesmo com uma maioria absoluta do PS em 2019 possa haver condições para Rio chegar às legislativas de 2023.

O que introduz absoluta incerteza nas previsões acerca das conjunturas futuras é a absoluta novidade da conjuntura presente. Caso Passos Coelho tivesse continuado a liderar o PSD, ou algum seu avatar, saberíamos com o que contar até às eleições: as cassetes de serem os sucessos do actual Governo da exclusiva responsabilidade do Governo anterior, de terem impedido o genial Passos de produzir dez ou cem vezes melhores resultados económicos do que os malandros dos socialistas, e de ser necessário boicotar o Executivo de Costa por todos os meios possíveis, legais ou nem por isso. Parece uma estratégia estúpida, mas tem uma lógica militar que a sustenta: esta direita decadente possui, de facto, um arsenal de ódio à sua disposição – o qual até envolve poderosos agentes na Justiça capazes de inauditas e ousadas golpadas (como foi o “Face Oculta”). Logo, só conseguem pensar dentro da logística que tanto sucesso provou ter de 2008 a 2015.

Rio é, no essencial, uma incógnita. Todavia, já deu suficientes sinais de poder romper com os decadentes. Se for por aí, irá ao encontro da maior transformação na sociologia partidária desde o 25 de Abril: o apoio da esquerda sectária ao PS. Este acontecimento ainda não nos permite ver quais são as suas consequências, dada a proximidade no tempo e a ocultação dos seus processos, mas os jornaleiros fazem-nos diariamente doridos relatórios acerca dos seus efeitos imediatos. Os editoriais da imprensa e demais veículos opinativos, na sua inutilidade política, servem como focus group do que está em causa, a dificuldade de prever o futuro num sistema partidário onde o sectarismo da esquerda desaparece. Não é só o actual apoio parlamentar que se inscreve como novidade histórica, será com maior potencialidade de criação de uma nova cultura política em Portugal o que estará a acontecer nos grupos de trabalho entre o PS e seus parceiros orçamentais e legislativos. Os frutos da invenção da paz na esquerda são evidentes e espectaculares, e têm vários e bem repartidos autores. Daí a perplexidade, cinismo e azia com que uma comunicação social dominada pela preguiça intelectual e pela miséria cívica lida com o fenómeno. Esta energia que perpassa ainda sem reconhecimento mediático pela sociedade não é inimiga de Rio; pelo contrário, pode ser o tigre que ele nasceu para cavalgar.

Há boas razões para imaginar que não faria nada mal ao País um novo ciclo de governação construtiva e ainda mais democrática do que estes dois anos e meio têm sido. Será Rio capaz de levar o PSD para o bem comum? Se for, uma coisa é certa: será difícil perder o partido para os decadentes.