Ricardo Costa, de Einstein a Eisenstein

Nada supera, até ao momento em que teclo, o que aconteceu na entrevista dada por Pedro Cruz ao SMACK, publicação digital do Grupo IMPRESA destinada a “um público maioritariamente jovem, um público que procura saber sempre mais, em mobile ou nas redes sociais“. Nada supera esse espectáculo se a intenção for a de vermos à transparência o que está na origem dos crimes cometidos pela SIC ao ter publicado excertos dos interrogatórios na “Operação Marquês”.

Este senhor é subdirector da informação na SIC. Ao longo da entrevista viola o Estatuto e o Código Deontológico dos Jornalistas. E ainda insulta e mente. Sempre a rir, sempre na maior, ufano e frenético.

Dois exemplos de arrebimbomalho:

i)

Pedro CruzA mim pouco me importa com quem é que dorme o José Sócrates, embora isso esteja lá nas escutas.

Menino De zero a dez, quão delicioso foi ouvir essas escutas nos bastidores?

Pedro Cruz Eu não as ouvi, infelizmente ou felizmente...

MeninaJá ouvi dizer que há coisas ainda mais juicy do que aquelas que podemos ver, mas que...

Pedro CruzA seu tempo...

MeninaA seu tempo?! Vamos ver mais?! Vamos ter mais coisas?!

Pedro CruzÉ possível, é possível, é possível!

ii)

Pedro CruzQuando José Sócrates diz «Ai, eu não trato o Ricardo Salgado por tu, nem ele a mim, ele chama-me senhor primeiro-ministro» e cola com «Ó Zé, 'tá bom?». Portanto, é mentira o que ele está a dizer e nós mostramos que é mentira.

No primeiro, vemos três abutres à volta de um cadáver. Está um festim a decorrer. A carne é dilacerada e engolida furiosamente. O subdirector da SIC anuncia que o cadáver tem carne ainda mais saborosa lá para dentro, fundo no corpo inerte. Os dois abutres pequeninos começam logo a salivar e abrem as suas boquinhas para largarem gritos de excitação. Onde? Onde? Onde está essa carne tão tenrinha, tão gulosa? Quero! Quero! Quero! O abutre velho aproveita para ensinar as virtudes da paciência aos filhotes. A seu tempo, diz ele. Estas coisas têm o seu tempo, e a arte de engolir um cadáver passa por guardar o melhor para o fim. Como isso de saber com quem é que o Sócrates dorme, né? Vá, calma. É que tudo é possível quando se é um abutre disfarçado de jornalista, remata o Pedro Cruz perante o olhar embevecido dos dois abutrezinhos.

No segundo, estamos perante uma montagem. Pegaram na passagem do interrogatório onde Sócrates declara que enquanto primeiro-ministro (2005-2011) Ricardo Salgado tratou-o invariavelmente com o formalismo, protocolo e etiqueta inerentes à sua função e colaram-lhe uma escuta de 2014 em que o Ricardo começa por reconhecer que se enganou no número (não queria falar para aquele “Zé”=José). Nada de nada de nadinha de nada do que é dito nessa conversa foge do convencional entre duas pessoas que mostram ter uma relação moldada por uma estima superficial e distante, duas pessoas apanhadas numa situação imprevista, irrelevante e algo constrangedora pois não era suposto o telefonema ter existido. Pedro Cruz, autêntico xerife do jornalismo da SIC, trocou o respeito próprio pela pontaria e crivou de balas o bandido. Sócrates mente porque a SIC assim o decidiu através daquela arte sem a qual não poderíamos desfrutar dos filmes: a montagem.

Dá para esquecer Balsemão e restante administração da IMPRESA, os quais lavariam as mãos dizendo que os seus jornalistas têm absoluta liberdade para exercerem a sua profissão como acharem melhor. E também esquecermos esta ridícula e degradante figura de seu nome Pedro Cruz, posto que não passa de uma peça menor na engrenagem. De quem importa falar é de Ricardo Costa. Depois do que vimos o Expresso fazer com a devolução da sobretaxa nas vésperas das legislativas de 2015, com o número de mortos em Pedrógão, com um inexistente protesto de militares e com um relatório fantasma dito das secretas onde se pretendia abater o ministro da Defesa, é óbvio que estamos perante um Einstein da imprensa, um génio que desenvolveu a sua própria Teoria da Relatividade. Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião? É relativo. Procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem? É relativo. Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência? É muito relativo. Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas através da exploração da sua vulnerabilidade psicológica, emocional ou física, e não recolher imagens e sons com o recurso a meios não autorizados a não ser que se verifique um estado de necessidade para a segurança das pessoas envolvidas e o interesse público o justifique? Ui, isso é bué relativo, foda-se, solta o Ricardo enfastiado com a seita do Estado de direito democrático, essa religião funesta que persegue os jornalistas impolutos na posse da verdade.

Com este último número da publicação dos interrogatórios a Sócrates, arguidos e testemunhas, o Ricardo apresenta-se agora como a mais exuberante reencarnação de Eisenstein, o mestre da montagem em cinema. Aquilo que vemos no exemplo do fragmento das declarações de Sócrates quando interrogado a ser colado a um telefonema sem qualquer ligação legítima com a situação conduzida pelos procuradores é uma perfeita execução da chamada montagem ideológica ou intelectual. Eisenstein descobriu que uma sequência de planos aparentemente díspares resultava numa operação cognitiva que produzia um sentido no espectador que estava ausente das peças tomadas isoladamente. Este filão de automatismos narrativos permitiu elevar o cinema a um estatuto artístico superior, sendo considerado um dos pilares estruturantes da 7ª arte e de toda a ficção audiovisual. A pergunta a fazer é, pois, a seguinte: qual a ideologia que o Ricardo Costa pretende espalhar entre a malta ao fazer uma montagem que inventa uma mentira acerca de dois cidadãos servindo-se dos meios de divulgação que o seu patrão lhe oferece para se ir mascarando de jornalista? A resposta não é bonita, mas desconfio que dava para realizar um filme de terror.

9 thoughts on “Ricardo Costa, de Einstein a Eisenstein”

  1. Quero agradecer à sic e sus muchachos o meu regresso ás origens da informação, RTP.

    P.S.: aturar o pseudo romancista é um mal menor.

  2. Excelente. Faltam na listagem vários atentados cometidos pelo jornal de Ricardo Costa contra a salubridade da vida em sociedade e a confiança de que é feita. Por exemplo, o prolongado e insidioso plano de destruição mediática do BES.

  3. O bannoninho Costa já não tem emenda, agora de quem eu tenho pena é daquele tipo, o irmão, ai como ele se chama…isso, o Toino Costa. Pa, coitado, um gajo serio, tão porreiro pá, que não tem nada a ver com nada e leva por tabela. Acredito que se o Toino tivesse algum poder no Pais acabava com aquilo tudo pá, mas coitado, o que pode ele fazer, é um santo, um manso. Coitado do Toino pá.

  4. José Fausto Sócrates

    Vendeu a alma ao diabo por ambição e vaidade, e pensou que não pagaria o justo tributo…

  5. Ò Manolo: tu nem a alma vendeste! O teu carácter é esse. Assim nasceste,assim vais morrer,mais refinado.

  6. Chevrolet, quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele; empréstimos chorudos em dinheiro vivo, grandes carros, fatos armani, etc. desde quando é que um ordenado de ex-1ºministro paga estas vidas? desde quando é que um amigo é tão amigo que se preste a estes empréstimos. Sem papeis, sem juros,,, eu sai que não é ilegal, mas…. é tóxico, não dá uma vida longa…
    Se o homem tivesse ido para um hotel de ***3 estrelas e alugado um renault megane para levar os filhos à escola, ninguém tinha chegado a saber das malas de dinheiro. Pensavam que eram malas de roupa…

    Mas a vaidade, deus meu…

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