Que tipo de tragédia teria de ocorrer em Portugal para voltarmos a ver os direitolas felizes da vida?
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A nossa notícia do dia
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Calúnia de referência
«Ora, é aqui que é fundamental a memória. É essencial que o país e as pessoas que nele habitam não esqueçam o que são as imparidades, por que razão existiram e quem são os seus responsáveis. Fruto da promiscuidade que assolou durante anos a fio as relações entre os responsáveis políticos e empresariais, nomeadamente do sector bancário, a CGD – assim como bancos portugueses privados – foi o cofre de onde foi desviado dinheiro para crédito malparado, ou seja, que nunca foi possível nem será resgatar. Dinheiro emprestado a “amigos”, numa política de gestão facilitista que é claramente uma gestão de favoritismo e de falta de rigor a que estavam obrigados os seus administradores. E convém não esquecer que, no caso da CGD, há responsáveis com nome próprio, por exemplo Santos Ferreira e Armando Vara.»
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Esta jornalista sabe que Santos Ferreira e Armando Vara são responsáveis pelas “imparidades” da CGD porque eram agentes da “promiscuidade” entre os “responsáveis políticos e empresariais”. E até sabe que a CGD emprestava dinheiro a «”amigos”», fazendo uma gestão “facilitista”, de “favoritismo” e de “falta rigor”. Ficamos assim com a ideia de que a senhora está muito bem informada sobre a CGD. Se não estivesse, não teria a lata de inventar estas causalidades e este descritivo. E, estando tão bem informada, a conclusão é a de que São José Almeida está pronta para ajudar as autoridades a apanhar pelo menos dois bandidos que identifica sem margem para grandes dúvidas. É que elas, as autoridades, ainda não o conseguiram fazer apesar do apoio dedicado, mesmo apaixonado, da “imprensa de referência”.
Eis o que nunca veremos esta caluniadora profissional a fazer:
– Identificar em que ano começaram na CGD a promiscuidade, o facilitismo e o favoritismo.
– Explicar exactamente como é que Santos Ferreira e Armando Vara fizeram o que ela garante que fizeram.
– Parar um minuto para pensar no volume das suas difamações e calúnias num exercício sistemático (o conjunto dos seus textos de opinião) onde nunca vai além do tiro ao alvo, nada demonstrando, nada concretizando.
Vamos lá a saber
Linda
Exactissimamente
Eixo da Chinela
No último Eixo do Mal, ouve-se Clara Ferreira Alves a estabelecer um nexo entre a vida privada de Sócrates, com avultados fluxos de dinheiro pelo próprio descritos como empréstimos, e a “bancarrota” a que ele nos levou na sua douta opinião. Mais à frente, depois de ter sido tratada como crassa ignorante em Economia por Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes, disse que Sócrates passou “muito tempo a tentar fingir, ou a tentar deter, aquilo que era inevitável, e que conduz depois à guerra com Teixeira dos Santos“, e outras enormidades do mesmo calibre desmiolado à mistura com contradições em catadupa, a outrance, sobre o conceito de bancarrota. A suprema ironia que esta triste figura conseguiu provocar resulta de ter estado nos minutos iniciais do programa a fustigar os velhadas políticos, como Marques Mendes e Santana Lopes entre outros, que continuam por aí a comentar cheios de “vícios” em vez de se ir buscar sangue novo. Na petulância displicente com que varria os colegas do comentariado, o chinelo foi-lhe parar ao folclore queirosiano, polvilhado com Camilo, para satisfação do seu vício de épater les bourgessos. Se existisse uma ASAE especializada no âmbito da segurança intelectual e da fiscalização cognitiva, a senhora e o estabelecimento seriam inevitável e pesadamente multados dada a putrefacção dos ingredientes servidos aos clientes.
O Daniel esteve bem ao ensaiar uma crítica dos factores moralistas que explicam as deturpações que enchem o espaço público quando o tema é Sócrates e os idos de Março de 2011. Tudo o que disse a esse respeito é mera banalidade, mas a comunicação social está de tal modo intoxicada pela narrativa dos direitolas que até dá para fazer este tipo de brilharetes. Infelizmente, também a ele o chinelo escorregou para a deturpação, acabando a culpar a vítima. Desmontar a falácia do seu argumento é canja: antes de a Operação Marquês ter sido lançada publicamente passaram-se vários anos em que não se podia ir buscar matérias judiciais e éticas, agora estabelecidas como factos, para a confusão entre as dimensões políticas e económicas da sua governação e a dimensão da sua vida privada. E a que assistimos? Por um lado, desde 2004, a continuadas campanhas de assassinato de carácter. Por outro lado, em 2011, ao triunfo implacável dos traidores que viram na crise económica internacional a oportunidade suprema para alcançarem o poder governativo, triunfo só possível por contarem com a cegueira sectária da esquerda também então traidora do que, e de quem, alegava representar. De ambos os lados da traição, o discurso moralista foi usado caudalosa e obsessivamente. Sócrates, apesar de ter conseguido um acordo de financiamento que evitava o resgate e sua destruição, tinha de cair porque gastava de mais, porque gastava de menos, porque gastava ali em vez de acolá. Se o Daniel se recordar desse Daniel Oliveira de 2011, então a sua memória não o enganará: não era outra coisa senão um moralista.
Pedro Marques Lopes esteve igualmente bem ao apontar aos trafulhas da “bancarrota”. E igualmente nele vimos a chinela do preconceito a encher o ecrã. Ao estabelecer a conexão entre as questões políticas e as pessoas dos políticos, de imediato saltamos para a sua própria e admirável pessoa. Como é que conseguiu ser um público apoiante de Cavaco em 2011 depois do que viu tal pessoa ter feito na “Inventona das Escutas”? Como é que ele foi um público e entusiasmado apoiante de Passos em 2011 ao mesmo tempo que o viu a mentir desenfreadamente, já para não falar no afundanço do País com o chumbo do PEC, cujo exclusivo propósito se esgotava na agenda da oligarquia, do PSD e do próprio Passos? Apesar disso, o Pedro tem o mérito de muito rapidamente ter assumido os seus erros eleitorais, passando a ser uma voz de referência para quem prefere a decência ao ódio.
Luís Pedro Nunes foi a grande surpresa desta edição. Conseguiu falar de Sócrates sem espumar e guardou as chinelas na mochila. O que disse recomenda-se, não havendo lembrança de tal na matéria em causa.
E o Aurélio? É também um chineleiro. Que passa entre as gotas da chuva.
Rio, intuição ou estratégia?
Depois da novidade histórica que consistiu no apoio parlamentar dado pelo PCP e BE a um Governo socialista minoritário, anulando nesse passe de mágica a cultura de sectarismo que tinha feito a lei e a prática desde 1974 na esquerda “pura e verdadeira”, Rui Rio está também a protagonizar uma novidade que poderá igualmente inscrever-se na História. Por agora, ela inscreve-se apenas no tumulto com que a direita decadente reage à sua liderança do PSD.
A direita decadente, aquela direita que apenas procura o poder pelo poder ou que se fanatizou (duas tribos que vivem em natural simbiose), é também decadente por causa do império de que desfruta na comunicação social. De tão mimados estão completamente estragados, sendo um coio de medíocres. E que fazem os medíocres? Procuram as soluções medianas, aquelas que de tão batidas, tão banais, são fáceis e não parecem arriscadas. A competência dos decadentes mede-se pela capacidade de escolherem as melhores soluções para os seus interesses dentro do grupo das piores soluções. Rio apareceu com aquilo que se poderá vir a comprovar como uma das piores estratégias à sua disposição, mas entretanto já podemos reconhecer que ele rompeu com os decadentes ao procurar propostas políticas dentro do grupo das melhores soluções.
Quando, em plena campanha eleitoral para o partido, se lembrou de criticar Joana Marques Vidal e o Ministério Público por causa do deboche do segredo de justiça e da ineficácia de algumas investigações, uma onda de espanto atravessou essa mole que envolve deputados, vedetas do partido, jornalistas e publicistas decadentes. E quando, em coerência com a coragem demonstrada em campanha, foi buscar Elina Fraga para a sua equipa dirigente, isso equivaleu a ter ido meter a cabeça no vespeiro e lá ter ficado de olhos e boca aberta. Não sabemos, ou talvez eu seja o único a não saber, se a escolha de JMV como alvo nasceu de uma intuição, tão-só faro e manha para o escândalo como meio de notoriedade, ou se é plano nascido de crenças ou objectivos, o que faria dessa flamejante bandeira uma estratégia. Sabemos é que os decadentes estão em campanha para fazerem de JMV um trunfo político, aconteça o que acontecer no final do seu mandato. Se for renovado, irão celebrar uma vitória, fazendo dessa anomalia (à luz dos critérios para os últimos PGR) a prova de que a salvação do regime depende de uma certa orientação política no MP, a deles. Se não for renovado, irão igualmente celebrar, ainda mais esfuziantes, pois poderão voltar ao berreiro de estarem cercados pelos socialistas corruptos e o regime ter sido outra vez tomado pelos diabólicos socráticos. Rio não se limitou à demarcação desta sistemática degradação da contenda política e do espaço público, ele assumiu o combate contra ela, o que choca com o posicionamento do partido nos últimos 10 anos. E isto abre espaço para uma fascinante questão: saberá o homem no que se meteu?
Se não souber, terá sido apenas um caso de intuição e soberba, e iremos assistir a correcções de rumo ao longo do tempo, para tudo se desvanecer em nada num futuro próximo. Tem interesse psicológico mas não estimula qualquer reflexão no campo da ciência política. Se souber, se tiver antecipado as consequências e tiver traçado um rumo que implique tal confronto com a subterrânea e criminosa máquina mediática/judicial dos decadentes, então será um inaudito caso de estratégia. Este termo tem vários significados, sendo usualmente tomado como sinónimo de “plano”. No domínio da comunicação comercial, a estratégia passa inevitavelmente por ser um “posicionamento” de uma dada marca. No caso, Rio defronta-se com um posicionamento da direita portuguesa desde 2008 onde a judicialização da política e a politização da Justiça foram a principal arma de arremesso contra o PS. A mancha dos títulos e dos operacionais da opinião na imprensa assim o demonstra. Esta solução foi escolhida por ser a calúnia um modelo de ataque político que acompanha o próprio nascimento da democracia na Grécia. Corresponde a um impulso universal e incontrolável para destruir o adversário destruindo a sua credibilidade e poder de atracção, o seu nome e imagem. Só que a calúnia, podendo aparecer como a melhor solução num dado contexto para certos agentes, tem como limite pertencer ao grupo das piores soluções políticas à disposição das comunidades. Quando tem sucesso, apenas consegue derrubar um opositor, não cria qualquer relação com o acrescento de melhorias para as populações atingidas pela manobra. É uma escolha decadente, portanto. O grupo das melhores soluções políticas não admite calúnias, nem golpadas de qualquer espécie. A disputa política corresponde aqui ao esforço de utilizar a inteligência e a coragem para se vencer os adversários graças à qualidade das propostas e suas promessas de melhoria da vida das populações. O sentimento de comunidade fica integralmente protegido, nunca se tratando os adversários como inimigos. Neste terreno, a retórica bélica, o moralismo hipócrita e a difamação maníaca não se valorizam como características tribunícias; pelo contrário, ficam como a expressão de uma incapacidade, uma menoridade política e cívica. Isto liga-se com o que Rio parece estar a fazer.
A disposição para negociar com o Governo e com o PS, as declarações de apoio a posições institucionais de Portugal e a indiferença com que sofre diários ataques da direita e da classe jornalística por não estar a “fazer oposição” serão uma brilhante estratégia se continuarem e forem levados até ao limite do seu potencial. Ao contrário de Trump que aproveitou a voragem mediática para criar um nevoeiro de guerra favorável à sua imagem e ainda encobridor da imagem de Clinton, aqui neste jardim peninsular a lógica deve ser outra. O berreiro do império mediático dos decadentes poderá ser o vento que enfuna a sua vela. Rio, para ficar na História, não tem de vencer Costa, pois para tal inúmeros factores que não controla contam. Entrará seguramente na História, todavia, se resgatar o PSD, e a direita portuguesa de arrasto, da decadência onde chafurda boçal e violenta. O silêncio que tanto frustra os jornaleiros, os quais vivem de doses diárias e horárias de palha misturada com bosta, e que os decadentes adoram para mostrar as favolas, pode levar a sua marca para uma posição onde cada intervenção sua irá ganhando crescente importância. Importância essa potenciada pela atitude de sentido de Estado e serviço à comunidade que for exibindo. É precisamente o banzé dos decadentes que lhe oferece as condições para deslocar as percepções da sociedade e do eleitorado em direcção ao ponto em que, chegado o processo de escolher um partido que represente a segurança e a prosperidade para sempre ambicionadas, o PSD de Rio possa estar completamente credibilizado. Um partido que honre o seu passado naquilo em que ele foi um fruto de Abril e um instrumento da construção do Portugal onde queremos ser.
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Grande sorte ter descoberto este bacano
Eis algumas das razões que te vão deixar com um desejo indomável de ver o vídeo abaixo:
– O orador, Robert Frank, é alguém que já esteve morto antes de fazer esta palestra.
– Podemos ver um trecho, envolto num efeito sonoro marado que o torna quase insuportável, de uma conversa sua com um talibã da Fox News que vale cada segundo.
– Recorrendo a materiais gráficos primários, o nosso Bob conseguiu criar o argumento mais espectacularmente frisante acerca do que é uma política fiscal ao serviço do bem comum.
– É, ou foi, um praticante amalucado de windsurf.
– É um fã da melhor série televisiva de sempre (desculpa lá esta verdade, “Sopranos”).
– Tem a coragem de colocar a Mona Lisa no seu devido lugar.
– O que ele demonstra acerca da influência da sorte no destino individual é não só iluminativo como epifânico.
– O tempo acelera à medida que fala, fazendo com que termine o paleio parecendo que ainda estávamos só na introdução.
– Podes ligar as legendas automáticas, o que muito ajuda no entendimento e ainda tem o bónus de gerar disparates hilariantes na transcrição.
– A parte das perguntas da assistência é quase tão boa como o resto, e isto quase nunca acontece. Que sorte.
O que é um jornal?
A escolha de Ferreira Fernandes para director do Diário de Notícias é uma surpresa na história recente do título (pelo menos) e, quiçá, para a própria imprensa escrita portuguesa. Tal deve-se ao seu perfil de cronista, cuja marca distintiva se encontra na exaltação humanista dos temas tratados, invariavelmente servidos por um estilo de escrita cuja elegância delicada e eficácia literária não conhece rival na actualidade. Qual será a influência dessa sensibilidade, e dessa ética, nas decisões de carácter editorial que ficarão à sua responsabilidade?
Tenho a vantagem de não saber nada de nadinha de nada acerca da saída de Paulo Baldaia e da escolha do FF pela administração do jornal. Assim, ignoro se a sua posição será apenas decorativa ou se se espera que ele desenhe decisivamente o futuro imediato e de médio prazo de um órgão em graves apuros financeiros e de popularidade. O que sei remete para a minha experiência de leitor distraído e avulso. Consigo definir o tempo de João Marcelino como intriguista e sectário, tendo sido um aliado da subida de Passos ao poder no PSD e nas eleições de 2011. É ver quem eram os jornalistas e comentadores que faziam parte da “brigada laranja” do Marcelino e o que lhes aconteceu depois, isto se não se quiser perder tempo a analisar a forma ostensiva como assumiam editorialmente a sua agenda política. Consigo descrever o tempo de André Macedo como convencional e inconsequente, um falhanço estratégico nascido da errada formulação do problema: a concorrência não era o “Público”; era, e é, o esgoto a céu aberto. E consigo dizer que o tempo do Baldaia começou bem, com o chuto dado ao odiento Alberto Gonçalves, mas que depois patinou na indecisão estratégica de fundo (como agora se soube) e numa decadência opinativa onde a paixão política e sensacionalista, embrulhada na funesta soberba dos árbitros de bancada, tomou conta dos editoriais e quejandos a propósito dos incêndios, de Tancos e de Marcelo. Não faço a menor ideia do que se vai seguir com a dupla FF e Catarina Carvalho, podendo a encomenda ser mesmo a de fazerem a transição de diário para semanário em papel, a tal que o Baldaia não conseguiu (ou quis) realizar por razões que ignoro.
Os jornais em papel foram, até ao aparecimento da Internet, a melhor forma de consumir informação e reflexão quotidianas. A promessa, então cumprida, era a de acrescentar inteligência geral e especializada à inteligência empírica e individual de cada leitor. Até agora, que tenha notado, a crise resultante da ubiquidade e gratuitidade das fontes de informação digitais ainda não foi resolvida por ninguém na imprensa tradicional e profissional. Como em qualquer outra mudança de paradigma, vem o terramoto e suas inúmeras derrocadas e causalidades. Mas depois vem a fase da reconstrução. No campo dos conteúdos televisivos de entretenimento, a fórmula Netxflix aí está a mostrar como novas tecnologias geram novas formas de consumo adentro da mesma necessidade de fruição. Continuamos a querer ver televisão, a mergulhar na ficção, a definir a nossa identidade de acordo com os mundos paralelos da criatividade mediatizada. Para os jornais, a configuração do problema é análoga: continuamos a querer ser mais inteligentes, continuamos à procura de exemplos de liberdade e coragem para escolher e moldarmos o nosso destino.
Que belo, exaltante, desafio.
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Perguntas simples
Marielle Franco, assassinada por ser livre
Carlos Alexandre e o seu quintal
Carlos Alexandre voltou à ribalta a propósito de mais um encobrimento da Justiça, a recusa de afastamento pelo Tribunal da Relação de Lisboa pedido pela defesa de Sócrates, e com as suas declarações sobre Orlando Figueira no tribunal por causa da “Operação Fizz”. Esta pacóvia e tenebrosa pessoa já tem obra publicada que chegue para se declarar um estado de vergonha nacional.
Sobre a recusa de afastamento, e esquecendo os motivos precisos apresentados nesta ocasião, fica a esperança de que um dia alguém faça uma tese de doutoramento numa faculdade de Direito (ou/e de Psicologia, ou/e de História, ou/e de Antropologia) à pala deste espectáculo de vermos um juiz a dar uma entrevista onde ataca um arguido cujo processo está à sua responsabilidade e depois assistirmos a tal conduta, tão imoral quanto ilícita, ser validada pelo Conselho Superior da Magistratura. Quer dizer que a doença não é só nem principalmente de um indivíduo isolado, antes fica indelevelmente como uma disfunção aberrante da própria Justiça como instituição pilar da República – logo, uma disfunção aberrante do regime, posto que a soberania está a ser usada para permitir a violação dos direitos de um cidadão e da própria comunidade.
Sobre as declarações em tribunal a respeito de Orlando Figueira, estamos face a um vendaval de libertinagem. Recordemos: este Figueira é o tal amigo que emprestou, em 2015, dinheiro ao tal juiz que, em 2016, declarava pimpão a um canal de TV não ter amigos que lhe emprestassem dinheiro. Registemos: a situação, por si admitida, é exactamente igual àquela que Sócrates descreve na sua relação com Santos Silva, ao ponto de nos relatos de ambos se apontar para a longevidade das amizades em causa e para o nível de vida desafogado de quem emprestou como razões para justificar os pedidos ou a aceitação dos empréstimos. Com esta diferença, ter um juiz com essa tipologia de promiscuidade com um procurador e a mentir deliberadamente a um órgão de comunicação social no acto mesmo de abandonar a sua imparcialidade sobre um dado arguido à sua responsabilidade judicial é muito mais grave do que qualquer eventual mentira de um político envolvido em processos judiciais.
A libertinagem torna-se feérica ao sabermos que o mesmo Figueira recorreu à mulher do juiz vedeta incensada no esgoto a céu aberto, a qual trabalha nas Finanças, para obter um qualquer favor fiscal, enquanto o currículo do jovem Alexandre ia parar ao amigo Figueira para este lhe encontrar trabalho em Angola, a mesma Angola donde veio dinheiro para o Figueira levantar em Andorra. Mas esta rede de cumplicidades, favores e segredos não consegue beliscar a perfeição moral do orgulho de Mação. Ele desenvolveu uma teoria que se baseia num método infalível: “Almoçávamos juntos muitas vezes. Conheço-o bem.” E quão bem conseguiu Carlos conhecer Orlando após o ver tantas vezes de boca aberta? Bom, que cada um julgue por si: “Quero assegurar ao tribunal que nunca encontrei um traço na personalidade dele que coloque em causa a sua confiabilidade e honradez.” Ou seja, este juiz está munido de uma concepção que relaciona a “personalidade” e seus “traços” com a “confiabilidade” e a “honradez”, e vai para os tribunais apregoar essa insanidade matriz de todos os despotismos. Pior, aplica-a no trabalho diário que lhe foi confiado pelo Estado.
A par da entrevista à SIC, há uma peça deste grotesco simulacro de isenção que expõe o tortuoso labirinto onde a sua perdida integridade se arrasta: O discurso de Carlos Alexandre inspirado no antigo presidente do PS. O tema é “corrupção”. Eis como começa:
«Antes de mais, quero esclarecer quem me escuta sobre a forma como aqui apareci. Há quase um ano, um amigo meu, Rogério Jóia [quadro da PJ], referiu-me ir sugerir o meu nome, para figurar neste painel, aos distintos organizadores. Embora sejamos oriundos das serranias, lá onde 'até as silvas dão rosas', ele da campina de Idanha, eu de Mação, na que era do Pinhal, tentei dissuadi-lo. Disse-lhe, e é o que mantenho, que tem razão a senhora; perdão, têm razão todos os que dizem que sou uma mente simples, um homem 'sem mundo'.
Na altura eu não sabia, não intuía, quem eram as pessoas que vinham apresentar comigo neste evento. Sendo eu um cidadão comum que deve à divina providência a graça de ter chegado até aqui, muito por força e em razão do lugar onde, já há mais de doze anos, exerço funções e ao favor dos média, pensando eu que esse favor dos média, dos tablóides como alguém já disse, só pode ocorrer porque traduzo e postulo as preocupações dos meus co-cidadãos perante o passado e o presente de cada um deles. Eu em mim não sou nada!
Mas enfim. Dizia Francisco Serrano um velho maçanico letrado: 'Quem muito quiser saber corra o mundo ou aprenda a ler!' As minhas condições materiais de existência, conhecidas da generalidade dos interessados porque eu próprio as divulguei e nada oponho a que sejam públicas, não me permitem correr mundo. Vou como Xavier de Maistre 'ali até ao quintal'. E leio, ouço, vejo.»
Que caralho é isto? É uma ameaça genérica embrulhada num autopanegírico. Carlos Alexandre, o justiceiro que vê nos tablóides a prova de estar ao serviço do povo, imita os aviões de combate que lançam flares para despistar eventuais mísseis inimigos enquanto se dedicam ao bombardeamento dos alvos. Ele é o super-juiz que tudo lê, tudo ouve e tudo vê lá na sua saleta do DCIAP, e que depois não se esquece de nadinha, nem as alcunhas da malandragem apanhada no seu quintal escapam.
Saltemos para o fim da charla:
«Minhas Senhoras e meus Senhores. Este pequeno contributo não é auto promocional. Tenho estado sujeito a muita exposição pública, que não fomento.
Tomei boa nota da principiologia e regulamentação, quer a nível de leis atinentes, quer de critérios interpretativos sobre o que disse em espaço público noutras ocasiões. Ao longo da consulta dos livros que referi, encontrei muitas situações e capítulos de vida que parecem ser figurino comum.
Nada do que disse, no meu espírito, nas minhas palavras, pode ser assacado a um caso concreto qualquer que tenha em mãos!»
Não se pense que se trata da manifestação de um primarismo chocante numa figura com a sua função e responsabilidades a conclusão autoreferencial e rasteira do seu discurso. O que aqui temos é antes uma exibição de ironia soberba (mas não de soberba ironia), a qual atravessa todo o discurso e que explica a escolha de Almeida Santos como veículo de colagem do tema da corrupção a Sócrates e ao PS. Carlos Alexandre diverte-se a exibir um poder que declara radicar não na Constituição, não no Estado e não no Soberano mas na “divina providência” e sua “graça”. É por isso que não quer abandonar o combate ao mal que o entusiasma tanto, lá onde lhe dão a conhecer diariamente e com todos os detalhes a podridão dos corruptos da política e da banca (mas só se esta cair em desgraça, atenção, nada de disparates). E ele há tanta porcaria por aí, tanta, que se não fosse a força divina que o anima e guia nada mais teríamos para nos salvar do que o corrupto Estado de direito democrático e sua satânica defesa da liberdade.
O rosto da direita decente, inteligente e vanguardista

Foto: ADRIANO MIRANDA
Tratar com justiça a Justiça
O último Expresso da Meia-Noite foi fértil em informações com proveito público. Eis algumas:
– Que os jornalistas responsáveis pelo programa, presentes em estúdio, promovem entusiasmados o tal slôgane do “acabou a impunidade”, criado por uma ministra da Justiça que o usou para atacar adversários políticos a partir de matérias judiciais, e o qual voltou a ter gasto caudaloso para continuar a usar a Justiça para a luta política tendo Joana Marques Vidal como arma de arremesso contra o PS.
– Que o juiz convidado, acumulando com ser secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, declarou ser-lhe inconcebível que Pinto Monteiro tenha impedido ou condicionado qualquer investigação no Ministério Público dada a sua estrutura e procedimentos.
– Que o mano Costa reagiu como um alarve quando Maria José Morgado lhe disse que ele fez um trabalho jornalístico deturpado no processo Melancia.
– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar o aparecimento dos casos mais mediáticos na Justiça com as alterações legislativas que deram mais poderes à investigação (é ver quem e quando esteve na origem dessas novas leis), não sendo o efeito de um qualquer voluntarismo, ou santidade, de fulano ou beltrana.
– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar a violação do segredo de justiça e o uso da comunicação social como estratégia para influenciar e pressionar magistrados e penas.
– Que Marinho e Pinto foi o único a lembrar os actos suspeitos de Cavaco na sua relação com a SLN como exemplo de duplo critério no Ministério Público quando comparado com a “Operação Marquês”.
– Que Marinho e Pinto foi o único a denunciar a perseguição judicial (ou seja, política) a Sócrates por ter sido detido e preso para ser investigado, não havendo ao tempo qualquer ideia acerca dos actos de eventual corrupção que pudessem estar em causa.
– Que Maria José Morgado é uma figura fascinante, na exacta medida do que diz e do que cala.
Quem sabe, talvez um dia a Justiça consiga ser tratada na imprensa com o rigor e a coragem que merece.
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