Rio, intuição ou estratégia?

Depois da novidade histórica que consistiu no apoio parlamentar dado pelo PCP e BE a um Governo socialista minoritário, anulando nesse passe de mágica a cultura de sectarismo que tinha feito a lei e a prática desde 1974 na esquerda “pura e verdadeira”, Rui Rio está também a protagonizar uma novidade que poderá igualmente inscrever-se na História. Por agora, ela inscreve-se apenas no tumulto com que a direita decadente reage à sua liderança do PSD.

A direita decadente, aquela direita que apenas procura o poder pelo poder ou que se fanatizou (duas tribos que vivem em natural simbiose), é também decadente por causa do império de que desfruta na comunicação social. De tão mimados estão completamente estragados, sendo um coio de medíocres. E que fazem os medíocres? Procuram as soluções medianas, aquelas que de tão batidas, tão banais, são fáceis e não parecem arriscadas. A competência dos decadentes mede-se pela capacidade de escolherem as melhores soluções para os seus interesses dentro do grupo das piores soluções. Rio apareceu com aquilo que se poderá vir a comprovar como uma das piores estratégias à sua disposição, mas entretanto já podemos reconhecer que ele rompeu com os decadentes ao procurar propostas políticas dentro do grupo das melhores soluções.

Quando, em plena campanha eleitoral para o partido, se lembrou de criticar Joana Marques Vidal e o Ministério Público por causa do deboche do segredo de justiça e da ineficácia de algumas investigações, uma onda de espanto atravessou essa mole que envolve deputados, vedetas do partido, jornalistas e publicistas decadentes. E quando, em coerência com a coragem demonstrada em campanha, foi buscar Elina Fraga para a sua equipa dirigente, isso equivaleu a ter ido meter a cabeça no vespeiro e lá ter ficado de olhos e boca aberta. Não sabemos, ou talvez eu seja o único a não saber, se a escolha de JMV como alvo nasceu de uma intuição, tão-só faro e manha para o escândalo como meio de notoriedade, ou se é plano nascido de crenças ou objectivos, o que faria dessa flamejante bandeira uma estratégia. Sabemos é que os decadentes estão em campanha para fazerem de JMV um trunfo político, aconteça o que acontecer no final do seu mandato. Se for renovado, irão celebrar uma vitória, fazendo dessa anomalia (à luz dos critérios para os últimos PGR) a prova de que a salvação do regime depende de uma certa orientação política no MP, a deles. Se não for renovado, irão igualmente celebrar, ainda mais esfuziantes, pois poderão voltar ao berreiro de estarem cercados pelos socialistas corruptos e o regime ter sido outra vez tomado pelos diabólicos socráticos. Rio não se limitou à demarcação desta sistemática degradação da contenda política e do espaço público, ele assumiu o combate contra ela, o que choca com o posicionamento do partido nos últimos 10 anos. E isto abre espaço para uma fascinante questão: saberá o homem no que se meteu?

Se não souber, terá sido apenas um caso de intuição e soberba, e iremos assistir a correcções de rumo ao longo do tempo, para tudo se desvanecer em nada num futuro próximo. Tem interesse psicológico mas não estimula qualquer reflexão no campo da ciência política. Se souber, se tiver antecipado as consequências e tiver traçado um rumo que implique tal confronto com a subterrânea e criminosa máquina mediática/judicial dos decadentes, então será um inaudito caso de estratégia. Este termo tem vários significados, sendo usualmente tomado como sinónimo de “plano”. No domínio da comunicação comercial, a estratégia passa inevitavelmente por ser um “posicionamento” de uma dada marca. No caso, Rio defronta-se com um posicionamento da direita portuguesa desde 2008 onde a judicialização da política e a politização da Justiça foram a principal arma de arremesso contra o PS. A mancha dos títulos e dos operacionais da opinião na imprensa assim o demonstra. Esta solução foi escolhida por ser a calúnia um modelo de ataque político que acompanha o próprio nascimento da democracia na Grécia. Corresponde a um impulso universal e incontrolável para destruir o adversário destruindo a sua credibilidade e poder de atracção, o seu nome e imagem. Só que a calúnia, podendo aparecer como a melhor solução num dado contexto para certos agentes, tem como limite pertencer ao grupo das piores soluções políticas à disposição das comunidades. Quando tem sucesso, apenas consegue derrubar um opositor, não cria qualquer relação com o acrescento de melhorias para as populações atingidas pela manobra. É uma escolha decadente, portanto. O grupo das melhores soluções políticas não admite calúnias, nem golpadas de qualquer espécie. A disputa política corresponde aqui ao esforço de utilizar a inteligência e a coragem para se vencer os adversários graças à qualidade das propostas e suas promessas de melhoria da vida das populações. O sentimento de comunidade fica integralmente protegido, nunca se tratando os adversários como inimigos. Neste terreno, a retórica bélica, o moralismo hipócrita e a difamação maníaca não se valorizam como características tribunícias; pelo contrário, ficam como a expressão de uma incapacidade, uma menoridade política e cívica. Isto liga-se com o que Rio parece estar a fazer.

A disposição para negociar com o Governo e com o PS, as declarações de apoio a posições institucionais de Portugal e a indiferença com que sofre diários ataques da direita e da classe jornalística por não estar a “fazer oposição” serão uma brilhante estratégia se continuarem e forem levados até ao limite do seu potencial. Ao contrário de Trump que aproveitou a voragem mediática para criar um nevoeiro de guerra favorável à sua imagem e ainda encobridor da imagem de Clinton, aqui neste jardim peninsular a lógica deve ser outra. O berreiro do império mediático dos decadentes poderá ser o vento que enfuna a sua vela. Rio, para ficar na História, não tem de vencer Costa, pois para tal inúmeros factores que não controla contam. Entrará seguramente na História, todavia, se resgatar o PSD, e a direita portuguesa de arrasto, da decadência onde chafurda boçal e violenta. O silêncio que tanto frustra os jornaleiros, os quais vivem de doses diárias e horárias de palha misturada com bosta, e que os decadentes adoram para mostrar as favolas, pode levar a sua marca para uma posição onde cada intervenção sua irá ganhando crescente importância. Importância essa potenciada pela atitude de sentido de Estado e serviço à comunidade que for exibindo. É precisamente o banzé dos decadentes que lhe oferece as condições para deslocar as percepções da sociedade e do eleitorado em direcção ao ponto em que, chegado o processo de escolher um partido que represente a segurança e a prosperidade para sempre ambicionadas, o PSD de Rio possa estar completamente credibilizado. Um partido que honre o seu passado naquilo em que ele foi um fruto de Abril e um instrumento da construção do Portugal onde queremos ser.

7 thoughts on “Rio, intuição ou estratégia?”

  1. Ó yo, a grande paixão de Valupi é Rui Rio.

    Ao contrário de Passos, Rio é a favor do segredo de justiça .

  2. Coitado do Passos, antes de ser professor catedrático, não sabia que tinha que descontar para a Seg Social.

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