Boa reflexão, mas

Nuno Garoupa continua a produzir inteligência política na análise que faz da conjuntura partidária na direita – Estado da direita (II): a guerra civil no PSD – mas parece-me falho de imaginação quanto ao destino político de Rui Rio. Por um lado, alinha na sobrevalorização eleitoral da cultura do ódio que preenche o império mediático da direita, talvez por afinidade afectiva. As capas do CM, a legião de caluniadores profissionais e as caixas de comentários do Observador podem até ser urnas da racionalidade e da decência mas não do voto soberano como se comprova por outros indicadores bem mais fiáveis. Por outro lado, a continuação de Rio na chefia do PSD não implica uma completamente improvável vitória nas próximas legislativas, até se admitindo que mesmo com uma maioria absoluta do PS em 2019 possa haver condições para Rio chegar às legislativas de 2023.

O que introduz absoluta incerteza nas previsões acerca das conjunturas futuras é a absoluta novidade da conjuntura presente. Caso Passos Coelho tivesse continuado a liderar o PSD, ou algum seu avatar, saberíamos com o que contar até às eleições: as cassetes de serem os sucessos do actual Governo da exclusiva responsabilidade do Governo anterior, de terem impedido o genial Passos de produzir dez ou cem vezes melhores resultados económicos do que os malandros dos socialistas, e de ser necessário boicotar o Executivo de Costa por todos os meios possíveis, legais ou nem por isso. Parece uma estratégia estúpida, mas tem uma lógica militar que a sustenta: esta direita decadente possui, de facto, um arsenal de ódio à sua disposição – o qual até envolve poderosos agentes na Justiça capazes de inauditas e ousadas golpadas (como foi o “Face Oculta”). Logo, só conseguem pensar dentro da logística que tanto sucesso provou ter de 2008 a 2015.

Rio é, no essencial, uma incógnita. Todavia, já deu suficientes sinais de poder romper com os decadentes. Se for por aí, irá ao encontro da maior transformação na sociologia partidária desde o 25 de Abril: o apoio da esquerda sectária ao PS. Este acontecimento ainda não nos permite ver quais são as suas consequências, dada a proximidade no tempo e a ocultação dos seus processos, mas os jornaleiros fazem-nos diariamente doridos relatórios acerca dos seus efeitos imediatos. Os editoriais da imprensa e demais veículos opinativos, na sua inutilidade política, servem como focus group do que está em causa, a dificuldade de prever o futuro num sistema partidário onde o sectarismo da esquerda desaparece. Não é só o actual apoio parlamentar que se inscreve como novidade histórica, será com maior potencialidade de criação de uma nova cultura política em Portugal o que estará a acontecer nos grupos de trabalho entre o PS e seus parceiros orçamentais e legislativos. Os frutos da invenção da paz na esquerda são evidentes e espectaculares, e têm vários e bem repartidos autores. Daí a perplexidade, cinismo e azia com que uma comunicação social dominada pela preguiça intelectual e pela miséria cívica lida com o fenómeno. Esta energia que perpassa ainda sem reconhecimento mediático pela sociedade não é inimiga de Rio; pelo contrário, pode ser o tigre que ele nasceu para cavalgar.

Há boas razões para imaginar que não faria nada mal ao País um novo ciclo de governação construtiva e ainda mais democrática do que estes dois anos e meio têm sido. Será Rio capaz de levar o PSD para o bem comum? Se for, uma coisa é certa: será difícil perder o partido para os decadentes.

2 thoughts on “Boa reflexão, mas”

  1. sim ,uma boa reflexão , mas curta. devias explanar mais sobre o milagre da geringonça e o sectarismo da esquerda comparando com a naturalidade das alianças à direita :) :)
    sempre me intrigaram a s infinitas discussões no 5dias sobre quem interpretava melhor o tio marx , como se aquilo viesse escrito em parábolas , hieróglifos ou assim. e como todo mundo cascava no miguel serras pereira , a minha alma gemea política ou kind of :)

  2. ó Valupi não te esqueças que a yo é aquela miúda púdica que tudo desinterpreta. a miúda adora-te, vê-se nestes episódios em que mais ninguém te aquece ou arrefece, ela arde em paixão (só espero que não seja aquele infinito período dos 5dias que nunca me deixaram intrigado), afirmo até que tú és o seu Salvador…. Sobral um génio a quem já ouvi interpretar de MAX, “A mula da cooperativa” e ainda vai gerar-se entre vós aquela parábola em que ele diz com toda a naturalidade, não me refiro à naturalidade com que alguns(as) hipócritas dizem irrevogável, falo daquele episódio em que ele em sentido figurado agradece as palmas com um excelente e muito poético peido. Experimenta Valupi dar-lhe um e verás que até as entranhas te revolve com um botão de rosa como só ela sabe confecionar. A minha intuição diz-me que vão ter gémeos mas com almas separadas.

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