O que mais importa

A reacção mais natural, normal e, portanto, previsível no confronto com as informações que atribuem a Sócrates um comportamento perdulário e suspeito na sua vida privada é a de repúdio moral. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o acesso a esse conhecimento tivesse sido feito apenas e só através das declarações de Sócrates e de Carlos Santos Silva, sem imputações ou deturpações de terceiros. Teríamos essa reacção, a enorme maioria de nós, mesmo que o indivíduo em causa fosse um ilustre desconhecido. Não é possível contornar tal desvio às convenções sociais que tomamos como circunscritivas das normas da conduta aceitável, aversão que aumenta exponencialmente na relação directa com o estatuto republicano e responsabilidades cívicas da pessoa envolvida. Tratando-se de um responsável partidário e governativo, atinge-se o paroxismo da inevitável condenação moral pois o comportamento suspeito atinge as instituições democráticas e seus representantes. O simples facto de existir uma suspeita legítima de corrupção sobre um ex-primeiro-ministro, haja ou não condenação judicial, já está a fragilizar o regime e a assustar a comunidade. Isto, porém, é lana-caprina face ao que mais importa.

Num outro plano, o da intimidade de Sócrates no seu mundo relacional e afectivo, podemos falar de traição. O seu comportamento, que ele sabia ser imoral (ou que talvez conceba como amoral) e fonte de suspeitas caso detectado pelas autoridades, arriscava envolver terceiros num processo judicial e num ataque mediático. Para quem já tinha sido escutado ilicitamente mesmo sendo chefe de Governo, para quem tinha criado inimigos tão poderosos e diversos, causa perplexidade que aparentasse desconhecer que muito mais facilmente o seria tendo voltado a ser apenas um fulano que andava por aí. E calhando começar a ser escutado, então todos com quem comunicava igualmente ficavam expostos à inevitável devassa que se seguiria. Com estes, tal como com aqueles que publicamente se bateram pela defesa do seu nome e pela decência durante anos, Sócrates não foi leal, nem responsável, nem probo. Isto, porém, é privado, é lá entre eles e com cada um, não é o que mais importa.

Nunca vimos, ou nunca vi, qualquer referência ao valor total da fortuna de Carlos Santos Silva. Só teria os tais 20 ou 30 milhões da tal conta que o Ministério Público considera ser propriedade de Sócrates? Se tem mais dinheiro, quão mais? Por exemplo, se tiver acumulado 300 milhões de euros, ou que sejam 100, qual seria exactamente o problema de andar a gastar 1, 10 ou 20 com quem e como lhe apetecesse? E como o ganhou, só com trafulhices ou a fazer bons negócios? E foi, ou não, amigo de Sócrates ao longo de 40 anos? Que saiba, ainda não se fez um tratado de religião, filosofia ou psicologia onde se considere ser impossível existir um ser humano com a vontade de usufruir da sua riqueza de forma considerada excêntrica pela sociedade que o rodeia. A liberdade tem dessas coisas, tende a chocar quem não pode ou não quer ser livre. Ora, será preciso termos uma Justiça a cometer crimes, e um espaço público emporcalhado de caluniadores, para se investigar a liberdade do Carlos Santos Silva? Eis o que mais importa.

21 thoughts on “O que mais importa”

  1. ya , ya… pondo a coisa nesses termos , ,o que importa é saber porque o zézito é o único contemplado , que se saiba , com a excentricidade do carlos . normalmente os são francisco deitam a massa pela janela , não têm só um alvo.

    ( ou quem sabe eram amantes? pôs -lhe uma casa em paris e tinha-o por conta? , já vi pior)

    larga o éter.

  2. Não percebo esse repúdio moral. Qual é a diferença de pedir dinheiro emprestado a um banco ou a alguém que está disponível para o fazer?

  3. Claro que quem tem 300 milhões acumulados pode gastar à fartazana com quem quiser.
    A questão é que quem dava ordens para gastar era o Sócrates. O tom era de ordem, estava a mandar. Estava a dispor do seu. Isso parecia evidente.

  4. Lucas Galuxo, já falámos sobre esse assunto no passado. O facto de voltares com a mesma questão dá conta da tua incapacidade para entender do que falo. Pista: não falo de empréstimos enquanto empréstimos.
    _

    Eu mesmo., o que te parece evidente deve passar a ser critério para o Ministério Público e tribunais? Saberás tu mais a respeito do dinheiro do Carlos Santos Silva do que o próprio?

  5. Valupi:
    No caso concreto não é a mim que parece evidente. É, será, a um julgador humano e bem formado, com algum saber do mundo da vida. Espero que o julgamento não seja feito por um algoritmo qualquer travestido de pessoa.
    E olha que o dinheiro do Carlos Silva é uma coisa que pode ser diferente do dinheiro da conta que está em nome do Carlos Silva. Eu não sei mais a esse respeito mas o S. é capaz de saber.

  6. Valupi,
    Se não falas de empréstimos enquanto empréstimos falas enquanto o quê?
    Um empréstimo é um empréstimo. Ponto.

  7. Também eu tenho a maior dificuldade em conciliar o pensamento do Valupi nesta matéria. Nomeadamente não percebo como é que ele encaixa o segundo parágrafo no contexto do que escreve no terceiro. Por que raios não poderia um ex-politico comportar-se de forma excêntrica ?!A resposta do Valupi é clara: porque isso poderia ser aproveitado pelos inimigos políticos da facção à qual ele pertencia. Certo. Tanto podia que foi. Mas transformar a má-fé dos oportunistas em culpa moral do excêntrico, é um ressalto lógico que está muito para lá das minhas modestas capacidades. Mais um pouco e chegamos a algo de parecido ao acórdão de certo juiz da nossa praça, que atribuiu a responsabilidade moral de uma alegada violação às supostas vitimas ,por elas terem entrado em trajes excêntricos na “coutada do macho latino”.

  8. Mas que preocupação… o dinheiro não é vosso…não é do estado…não tira o pão da boca a ninguém…as criaturas são unha com carne como já se percebeu…são férias à anos 60…onde está o crime de corrupção ?????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

  9. Mas não se acha que o ex-primeiro ministro José Sócrates já está mais do que castigado, face ao inferno que terá sido a sua vida nestes últimos cinco ou mais anos, pelas faltas que cometeu, das quais continuamos a não saber as que verdadeiramente cometeu ou não?
    Mas não se acha que tem sido este processo (Marquês, não é ?), a actuação do M.P., da comunicação social, etc., que “fragiliza o regime e assusta a comunidade”?

  10. É reprovável pedir dinheiro emprestado? Fico esclarecido. Depois de sair. de um cargo público ficas diminuido para quê? Mais esclarecido fico. Quem tem defensores como os que por aqui vejo ou tem uma força moral que os aniquila ou engrena na obtusidade córnea que os define.

  11. Pessoalmente, estou-me a marimbar para o facto de Sócrates ter pedido dinheiro emprestado a um amigo, e passava bem sem ter sabido disso. Tal como não tenho a mínima curiosidade em saber se Passos Coelho, Paulo Portas e Marcelo Rebelo de Sousa alguma vez pediram dinheiro a amigos, e quanto e quando. Só que essa não é a questão, o que acho ou deixo de achar. A questão não diz respeito apenas à esfera da liberdade e privacidade de Sócrates, portanto.

    Ao pedir dinheiro a uma pessoa que fez negócios com o Estado e com terceiros que também fizeram negócios com o Estado, negócios que se podem relacionar com decisões tomadas pelo Governo, ou Governos, onde Sócrates era primeiro-ministro, tal abre uma questão que transcende a sua privacidade e liberdade: será que estamos perante um caso de corrupção? Esta questão é inevitável, pois não admitiríamos que o Ministério Público, ao tomar conhecimento da situação, fingisse que não percebia o que estava em causa no campo da suspeita. Então, foram as livres decisões de Sócrates na sua privacidade que criaram as condições para que algo como a Operação Marquês pudesse arrancar de forma legítima.

    A investigação a Sócrates é formalmente legítima e necessária. O modo como tal decorreu ainda antes da sua detenção e de lá para cá é que tem sido um vendaval de indecências, violências e crimes nascidos na própria Justiça. Esta dupla dimensão do caso é assim tão difícil de entender? Ou há quem não a queira entender?

  12. Caro Valupi,

    Assino por baixo do que acabas de escrever. Mas convenhamos que não é a mesma coisa que disseste no post.

    Legitimidade do MO para investigar tudo e mais um par de botas, é coisa que não me merece reparos especiais desde que não funcione na base daquela lógica peregrina de que somos todos suspeitos de quzlquer coisa até prova em contrário . O que não convém de todo é que se confunda esse direito a investigar com o atropelo dos direitos dos investigados, seja a que pretexto for.
    Sendo este o cerne da questão, debater questões laterais ( como a conduta moral dos arguidos ) só serve para esconder o essencial: as instituições da Justiça que temos não respeitam o Estado de Direito Constitucional. Ponto.

  13. O facto de Paulo Portas se dedicar aos negócios após sair do Governo,por si só implica que houve com ele à anteriori corrupção? Detesto o Portas,mas prezo mais a minha inteligência. Arre Mundo…Negócios acarretam dinheiro,muitp dinheiro

  14. Eu cá entendo.
    Mas às vezes parece um jogo de nem sim nem sopas não vá o Diabo tecê-las e sempre fica aquela escapatória eu…
    Enquanto a matilha ataca fundo com sopa instantânea e nada de dúvidas.
    O último expresso noturno doente, requentado em deprimente circuito fechado bradou aos Infernos.

  15. Há muito que a presunção de inocência deixou de existir, as fugas selectivas de escutas por parte do MP, seja através de proxys ou do anonimato, municiando partes em conflito, visam precisamente a acusação sem provas. Do futebol a politica o MP e o instigador de um clima social de alarme publico proprio de um estado totalitário.

    Para se ver como clima é condicionador basta espreitar a resposta de FFernandes no DN ao idiota do Público, com espírito mas auto-justificativa em demasia imprópria de um espirito livre. Consequência, ontem o DN na edição digital teve como cacha durante todo o dia um tweet idiota da Ana Gomes. O Tavares venceu.
    Vivemos tempos de Costas, os irmãos, cobardia a rodos, por acçao e omissão.

  16. Sem dúvida todos de COSTAS para a dignidade de informar e fazer política ética.
    Essa ana gomes paladina do arrivismo bacoco confundido com desplante de coragem de pacotilha já não se aguenta.
    O ps guarda em si cada pedaço de asno que até arrepia.

  17. Se querem condenação sem provas,suspeitas sem matéria palpável, denúncias porque se ouviu dizer,
    obrigais-me a dizer o mesmo que o Abade de Jazente dizia sobre a beleza: então em ti cago,Justiça!
    O ferrador do Amor de Perdição,do Camilo, afirma na cena da matança dos dois criados: em Portugal, um diz que viu e dois que ouviram dizer e lá vai um homem dançar,na ponta da corda! Camilo,grande profeta Camilo,já vias o que ia prevalecer duzentos anos depois… que vergonha !!!

  18. Quais os “crimes” que o ex-primeiro ministro José Sócrates, supostamente cometeu, já todos nós sabemos. Eles têm sido repetidos até à exaustão. Mas quais deles estão inequivocamente provados? Crê-se, supõe-se, julga-se, acredita-se, mas não se passa disso, e isso é que exaspera, com razão, os “impolutos” comentadores da nossa praça. Com que cara é que eles ficarão se nada se provar concretamente. E esse é que é o problema, embora, se tal acontecer, a suspeita ficará para sempre, mas a vitimisar todos.

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