A viagem do David Dinis

«O que o Bloco sabe, como a ala esquerda do PS sabe também, é que o PS tem um trauma por resolver com a sua história. E que esse trauma é a razão maior da aliança sólida que António Costa estabeleceu com o seu ministro das Finanças. Esse trauma é o do pedido de resgate à Comissão Europeia e ao FMI, uma conta que José Sócrates deixou por pagar - e que perdura na maneira como os portugueses olham para o partido.»

David Dinis

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Estamos em 2018 e continua a ser importante martelar a tanga da “bancarrota Sócrates”; será esse, aliás, o programa do Montenegro quando lhe derem uma abébia para brincar aos presidentes do PSD. David Dinis sabe que o resgate foi provocado pelo PSD, CDS, BE e PCP ao chumbarem um programa que o evitaria no imediato, dando tempo para aguentar até à chegada da verdadeira solução. David Dinis sabe que as causas para as dificuldades financeiras de Portugal no começo de 2011 não se encontram nas políticas socráticas, mas sim no sistema financeiro e económico internacional, especialmente no erro crasso da austeridade salvífica e punitiva com que a Europa começou por responder à crise grega no começo de 2010. David Dinis até sabe que Sócrates tentou os possíveis e os impossíveis para livrar o País do que seria inevitavelmente a pior e mais destrutiva das opções então disponíveis. Enfim, David Dinis sabe que a crise das dívidas soberanas foi finalmente estancada em 2012 graças à singular acção do BCE. Não era um problema que se pudesse resolver com populismos, moralismos e mentiras, a matéria bruta das escolhas e decisões de Passos Coelho quanto trocou o bem comum pela gula do seu partido e respectivas clientelas – simetricamente, o sectarismo da esquerda “pura e verdadeira” apenas seria capaz de provocar tragédias e catástrofes calhando ter poder para governar de acordo com a sua retórica naquela conjuntura. Essa aliança negativa de irresponsabilidades quis de olhos abertos afundar Portugal num programa de resgate ideológico entretanto já renegado pelo próprio FMI. David Dinis, pois, compraz-se a escrever para fanáticos e pategos.

Esta postura onde Sócrates permanece como alvo obsessivo ou instrumental para a direita decadente e traidora tem neste sofisticado sonso outra e insidiosa faceta. Tente encontrar-se em publico.pt uma notícia sobre o comunicado que ontem foi enviado por Pedro Delille à imprensa, onde assinala várias irregularidades que persistem passados seis meses no processo onde Sócrates foi acusado pelo MP. A decisão editorial do director do semipasquim, neste como noutros casos similares relacionados com declarações da defesa de Sócrates e do próprio Sócrates, é a de não noticiar. O Expresso tem critério similar, o mesmo no Correio da Manhã. E no Observador, calhando a notícia não permitir difamar ou caluniar Sócrates, sai rapidamente do destaque superior da página e é arquivada numa pasta. Foi o caso. O tratamento dado a Sócrates, para ser discriminatório, não carece do sensacionalismo nem do espaço da opinião onde se fazem linchamentos sistemáticos. A mera selecção do que é noticiado e destacado igualmente reflecte as intencionalidades sub-reptícias da linha editorial.

Esta figura cliché do jornalismo engajado imagina os portugueses a olharem para o PS e a verem a “conta que José Sócrates deixou por pagar”. O tal “trauma”, informa-nos. Não se trata apenas de um desejo que o anima. Será mais o LSD onde encontra alívio e companheiros de viagem.

3 thoughts on “A viagem do David Dinis”

  1. Não é o PS que tem um trauma por resolver com a sua história mas sim é o Dinis que tem um problema de consciência para resolver consigo próprio. A dúvida vai-se avolumando perante o decorrer do tempo e cada caso semelhante que vai surgindo pelo mundo e deixando os povos, igualmente, cada vez mais desconfiados das narrativas apressadas e mentirosas que invertem a realidade e verdade dos acontecimentos.
    Também aqui temos um “juíz” a lutar contra os seus preconceitos que já foram submetidos e ficaram sujeitos às cruéis necessidades da existência. Essa submissão da independência face às necessidades pessoais da vida ficou desde logo patente quando ainda nem estava concluído o resgate e já Dinis escrevia oportunisticamente os “Resgatados” como seu curriculum enviado aos ddt.
    Pois, também este “juíz” desde logo tomou partido pela servidão em detrimento da liberdade e agora, quanto mais o povo está alerta e desconfia da ligeireza dos argumentos, mais precisa de martelar a sua opinião avulso para se auto-convencer e apaziguar a consciência.
    Coitado, andou vendendo ao Zé o sacrifício e imolação de Sócrates como catarse do gigantismo corrupto do cavaquismo e seus alunos e os tempos vão desmascarando tal ficção.
    O calculismo e oportunismo deste tipo de gente cega-os e ficam entregues à visão única dos seus interesses imediatos contra a história.
    São gente irremediavelmente perdida que não vale nada.

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