«Finalmente, o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte, seja da negociação sindical, seja da negociação governamental, para se poderem abrir novas portas. Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio. Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.»
Louçã, 2020
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«Rejeitar o PEC IV é o princípio da saída da crise.»
Louçã, 2011
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Louçã explicou que o BE esteve em negociações com o Governo como se também fosse Governo – Negociar como um sindicato ou como um governo? Num exercício displicente e desbocado, postula que agora – no meio de uma pandemia – é a melhor altura para fragilizar um Governo de esquerda, o qual vai mesmo tomar decisões que afectam a saúde e segurança de milhões de pessoas tenha o apoio parlamentar que tiver. Há que pôr um pauzinho na engrenagem em nome de um Governo fictício de uma outra esquerda que só existe na cobiça alucinada do Anacleto e restantes irresponsáveis do BE que optaram por saltar para fora do barco. Irresponsáveis porque mostraram que não se importam nada de acrescentar dificuldades às que já existem apenas para poderem exibir as imaculadas mãos sem mancha de pecado.
A forma como Louçã termina o texto, parágrafo citado acima, é um monumento à sua hipocrisia, ao seu cinismo e à sua megalomania. Repare-se:
– “o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte” – Estamos no reino da abstracção, o Governo aparece como entidade solitária que esgota o seu sentido e consequências no confronto com outras forças políticas opositoras e rivais. A tese é a dos negociadores implacáveis, que fez a história do capitalismo: apertar mais com eles quando eles estiverem mais fracos.
– “para se poderem abrir novas portas” – Por que razão temos de abrir novas portas? Só por serem novas? E se as novas portas forem piores do que as portas já oleadas e moldadas pelo uso? Esta lógica de o novo ser melhor do que aquilo que seja corrente, sem se mostrar porquê ou se é viável, só satisfaz o proprietário ou vendedor das tais novas portas publicitadas.
– “Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio.” – O Governo procurou o acordo com o BE até ao último minuto da última hora, fazendo sucessivas concessões. E o BE recusou porque se acha na posse de um poder absoluto por atribuição cósmica, o poder de se substituir ao Governo em nome dos cálculos eleitorais de curto prazo. A denúncia do “risco para si próprio” fica como projecção e auto-profecia.
– “Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.” – Louçã aguentou cinco anos de convergência parlamentar da esquerda e declara estar enfastiado, precisa de uma mudança de cenário para se voltar a sentir animado, sonhador. Esses falsos socialistas que se deixem de peneiras e ilusões, o poder não é a sua exibição. O poder que é poder, explica este marechal às tropas na parada e à assistência, consiste antes nisto que o BE acaba de fazer: deixar um Governo minoritário ainda mais fragilizado, a sangrar, à beira de ser apanhado pelas feras. Para Louçã, é simples e luminoso: já Chega!
Isto de um partido com 19 deputados se conceber como um Governo, e assim legitimar o boicote ao interesse dos que alega representar, merece ficar inscrito na memória dos eleitores. E igualmente merece uma curta reflexão. De facto, inquestionavelmente, incontornavelmente, evidentemente, as democracias directas só são viáveis em sociedades que não excedam pouquíssimos milhares, ou se calhar só centenas, de indivíduos em condições de participar em assembleias deliberativas. A civilização resolveu esse problema adaptando o ideal original para modelos de representação da soberania popular cada vez mais complexos à medida que aumentava a complexidade demográfica, económica, tecnológica e cultural das sociedades onde o liberalismo político cresceu em formato constitucional. Contudo, opta-se pela democracia em vez de outros sistemas para que haja Governos livremente eleitos, não para que haja Governos livremente impedidos de governar sem outra alternativa no quadro parlamentar. O argumento do BE, que Louçã assume sem vergonha ou aparente consciência da sua gravidade, levaria à impossibilidade de qualquer Governo minoritário chegar alguma vez a acordo com qualquer força política. E, a ser assim, as tiranias passariam a ser opções políticas mais inteligentes por uma mera questão de sobrevivência colectiva.
O BE não pretende esperar por uma vitória nas eleições para formar Governo, até porque ela poderá chegar só depois da morte térmica do Universo, aproveita-se antes da oportunidade oferecida pela fraqueza do actual Executivo para o tentar. A intenção golpista tem aqui um nome: parasitismo.