Já não restam dúvidas: a prática, de tão repetida, merece ser considerada uma estratégia. Sempre que algum embaraço, dificuldade ou comunicação importante surge ultimamente em Portugal, o primeiro-ministro encontra-se no estrangeiro.
Neste momento em que está a ser oficialmente anunciada pelo responsável das Finanças da ilha, e pelo próprio Jardim, uma dívida escondida de 5,6 mil milhões, o triplo, portanto, do que fora declarado há dias, Passos voou para Nova Iorque, Gaspar para Washington, Portas idem e Aguiar para a Polónia. Não temos, portanto, hipótese de lhes fazer qualquer pergunta (esqueçam Vítor Gonçalves, que parece que lhes foi na peugada agarrado ao microfone). Que conveniente!
Mas é pena, porque eu, por exemplo, gostaria de saber o seguinte: “Esta dívida descomunal não afecta as metas do défice? Se não, porquê? Se sim, como vão resolver o problema?”
Esta brilhante, mafiosamente solidária, família PSD que nos governa, governa a ilha e preside à República não hesitaria, porém, em mandar um pelotão de fuzilamento a Paris, tivesse o buraco sido descoberto no continente. Não que não tivessem procurado. Não que não tivessem insinuado. Não que não tivessem espumado.
Mas um buraco destes na Madeira é, como dizer? É nada! Nada de especial. Nada que o amor da família não resolva.
No meio disto tudo, quem me parece mais surpreendentemente pulha acaba por ser Vítor Gaspar. Um independente, lembre-se. Percebe-se mal que um personagem daqueles, com aquela voz pausada de académico sério, vindo do BCE, penso, pactue com estes pantomineiros que, conhecendo a situação da Madeira pelo menos há meses, tudo fizeram para que Jardim, mais polémica, menos tontaria, mais ocultação, menos revelação, chegasse a Setembro em condições de ser reeleito. Pior: tudo indica que Gaspar conhecia o guião desde o início, desde o primeiro acto, o tal que intitularam de Desvio Colossal.