Método altamente científico no Ministério da Educação

Se bem me lembro, as ideias de Nuno Crato para a educação, antes de ser ministro, assentavam em três pilares: fazer implodir o Ministério da Educação, ou seja, eliminar (ou seria substituir?) a maior parte dos seus funcionários, reduzindo-lhes a influência perniciosa (sendo verdade que o PCP tomou de assalto despudoradamente este ministério depois do 25 de Abril), rever de alto a baixo os programas de ensino e impor maior rigor na avaliação dos alunos.

Para já, o que me é dado observar é um ministro aos zigue-zagues, que traçou como estratégia inicial a conquista das boas graças dos sindicatos, convencido de que havia que ultrapassar esse “obstáculo”, mostrando-se demasiado temente e receoso da contestação, com isso aparentando ter perdido o Norte, acreditando nós que o tinha. Se exceptuarmos, como medidas tomadas, o aumento de horas lectivas para o português e a matemática e a reintrodução de mais alguns exames, o que se vê é a ausência de qualquer referência a conteúdos programáticos e o esquecimento total do aumento de rigor.

Na avaliação dos docentes, matéria por excelência (na cabeça do ministro) para vencer o dito obstáculo sindical, tem sido grande a desorientação. Se, há duas semanas, ficavam de fora os docentes dos escalões mais elevados, medida muito contestada por oportunista, hoje lê-se que afinal vão ser avaliados. Tratar-se-á de uma reviravolta que teve em conta as críticas, denotando grande insegurança e falta de rumo, ou de uma manobra estudada?

Aguardo com expectativa os desenvolvimentos. O anúncio da exclusão da avaliação de um terço dos docentes e as subsequentes críticas podem ter servido para permitir a alguns virem para os jornais e televisões dizer que não, não concordam com facilitismos, e que sim, gostariam imenso de ser avaliados… O que é meio caminho andado para a ausência de contestação.

Seja como for, com a excessiva reverência aos sindicatos, anda-se a perder tempo na educação e a não consolidar, ou mesmo a desbaratar, o muito que já foi feito, quando os resultados das recentes eleições poderiam servir de âncora a medidas positivas, como a continuidade de uma avaliação séria dos docentes e uma maior autonomia das escolas. Ora, esta opção de Crato surpreende, porque, se há coisa para que os resultados eleitorais têm servido é, aliás, para o governo acelerar todo um rol de medidas, essas sim gravosas, altamente contestáveis ou simplesmente erradas.

9 thoughts on “Método altamente científico no Ministério da Educação”

  1. Penélope, julgo que o último link não está correcto.
    Sobre o resto, infelizmente para os mais novos, este é mais um excelente e certeiro post.

  2. Há trinta e muitos anos que o Ministério da Educação é rotativamente dirigido por PS e PSD que para lá têm levado os seus boys, mas sabemos agora pelo Valupi que “a maior parte dos seus funcionários”, são ainda do tempo em que “o PCP tomou de assalto despudoradamente este ministério depois do 25 de Abril”. Oh senhor, mesmo que o “assalto” fosse como o pinta a esmagadora maioria desse pessoal, 40 anos depois, já teria morrido ou estaria reformada há uma data de anos.
    Vá lá desta vez safou-se, nem sei como, o BE, mas não deve perder pela demora, fica para os comentários da claque.

  3. Nuno: o último link está correcto. Todos os indicadores irão piorar, infelizmente.

    Dédé: Fui mesmo eu, o Valupi está inocente, desta vez…

  4. Estamos todos a perder tempo com um assunto que já vinha arrumado da anterior legislatura, tal como a reorganização do mapa escolar.

    Vamos acabar com uma solução parecida com a anterior, com direito a quotas e avaliação integral de toda a classe. Mais auto-avaliação, menos auto-avaliação, será isto.

    Entretanto, extraordinário mesmo é o tempo que o ministério dedica aos sindicatos de professores e à classe em geral. É pena não dedicar um décimo desse tempo à melhoria do ensino.

  5. só os tolos acreditam que com um governo deste tipo na Educação haverá melhorias (valorização docente ou discente)…educação + psd = desgraça total (esta equação nem o Crato a dissolve)…de memória refiro JDPinheiro/CSantos e MFLeite (lindo lindo…a rever)…quer o pcp quer o psd sempre controlaram o «aparelho corporativo»…é certo que perderam o ensino superior (tornou-se +- superior)…mas no básico e no secundário dominam impondo a lógica da clientela…os primeiros através da eterno MNogueira «uma espécie de sindicalista» (daqui não saio por mais 30 anos…velha táctica bolchevique) os segundos após as benesses do ex-cavaco as profs da primária adoram-no (ex porque ele agora é todo poupanças)… não interessa nada o facto de NCrato ser um tipo intelectualmente sério e tal e tal…ele não percebe nada da coisa e julga que aquilo vai lá com blabla pedagógico tipo um livrinho para compreender a filosofia da inequação do 3º grau e tal e tal…quando descobrir que daquele pote só sai vespa e marimbondo vai tentar bazar a mil e passar o resto da vidinha a escrevinhar livrinhos de como a implosão era mesmo a coisa certa mas falhou e tal e tal…

  6. Crato recuou na questão da isenção de avaliação nos escalões mais altos porque os juristas lhe disseram que não podia criar uma situação discriminatória para os profs que continuariam a ser avaliados. Qualquer professor avaliado poderia processar o ministério por discriminação e qualquer juiz do tribunal administrativo lhe daria razão.

    O Crato e o governo do Coelho estão a navegar à vista e a fazer asneiras em série. A táctica deles todos é lançarem bocas em circulação e esperarem pelas reacções para decidirem o que fazem.

  7. No ensino superior, quando é que um professor catedrático é avaliado? na carreira militar quando é que um general é avaliado? os juristas já se pronunciaram sobre o assunto? Tanta ignorância!!

  8. Os mais novos, neste novo projecto, vão ser avaliados todos os anos. Os dois últimos escalões só serão avaliados quando transitarem de escalão. Resumindo e concluindo: os professores do nono escalão nunca serão avaliados.
    Obrigado sindicatos!!
    Os escalões mais baixos serão avaliados todos os anos. Que tal esta? não será discriminação? onde estarão os tais juristas? e os sindicatos? irão protelar ainda mais a ADD?

  9. Andresilva: as provas por que os professores catedráticos têm de passar até chegarem ao topo têm alguma correspondência com o percurso de um professor do ensino básico e secundário? A sua comparação parece-me bastante descabida.
    O mesmo vale para os generais…

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