g point

De facto é estranho que não haja excepções ao direito de voto, que pessoas dependentes de outros para tomar decisões simples no seu dia-a-dia, ou pessoas cujo comportamento levou a que estejam isoladas, por muitos anos, da sociedade mantenham intacto o seu direito a decidirem quem tem melhores condições para nos governar. Ainda é mais estranho se pensarmos que o direito ao voto em associações, clubes e afins, e até nos próprios partidos, implica condições e deveres que não se exigem ao eleitor, em quase todas é necessário preencher vários requisitos entre os quais, por exemplo, ter as quotas em dia. Imagine-se o que seria se um político se lembrasse de propor como condição para exercer o direito de voto ter os impostos em dia. Caía o Carmo e a Trindade. Já para não falar na dose de coragem necessária para lançar a discussão.

E, apesar de manifestarem alguma preocupação com os valores da abstenção (só no dia das eleições, no dia seguinte já ninguém fala disso), não parecem muito incomodados com a ignorância e o desinteresse pela política, só isso explica que na Escola, onde tanto se investe na formação dos futuros cidadãos, a formação política dos alunos não tenha lugar. A única coisa que ouvem sobre política aos professores são desabafos contra todos os governos, pouco abonatórios para os políticos e a política em geral, que passa facilmente por uma actividade quase marginal, no pior sentido, que só interessa a gente que não interessa. Se se juntar a isto o tratamento que a comunicação social dá ao tema, privilegiando quase sempre a politiquice em vez da discussão séria, estamos conversados. É pena. Mas como tudo evolui, e a democracia não tem sido excepção, talvez num futuro próximo este debate se torne inevitável e os políticos deixem de se preocupar exclusivamente com a quantidade de votos e pensem no que ganharíamos todos com o acréscimo de qualidade dos mesmos.
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Oferta da nossa amiga guida

15 thoughts on “g point”

  1. Aproveito para esclarecer que esta questão, que não vejo tratada em lado algum por não passar pela cabeça de ninguém propor limitações ao direito de voto, remete para a responsabilidade do Estado na promoção da qualidade da democracia. Obviamente, o Estado muito faz e tudo garante, ao ser um Estado de direito, mas sabemos que falha no essencial: a escola não forma cidadãos. Há uma situação generalizada de iliteracia política depois de 12 anos de escolaridade, o que nos devia envergonhar, ou, no mínimo, incomodar – e é melhor não falarmos dos estudantes universitários… Ao lembrarmos as estatísticas que nos falam de um país com níveis de educação e formação ainda baixíssimos por causa da herança de pobreza que herdamos e não erradicámos, pobreza material e intelectual, temos um quadro que convoca a atenção, e a acção, de quem pretende viver na melhor sociedade possível.

    Isto de viver o melhor possível será sempre um projecto inacabado, mas pode ser também um projecto começado. Num certo sentido, estar disposto a começar é a essência mesma do que se pretende para nós e para os outros à nossa volta, estejam lá a que distância estiverem.

  2. Era suposto que as “jotas” fossem escolas de consciencializaçâo política, quase como que aprendizagem “extra-curricular”, Mas, na verdade, é de lá que, quase sempre, procede o que de pior aparece na “politica”.
    São o equivalente das clacs desportivas. E o desporto quem não gosta dele!
    O post da Guida é um abanão. Mesmo que seja pouco sentido, vale sempre a pena.

  3. Guida, isso que propões – os limites ao direito de voto – é uma impossibilidade em democracia. Se todos estão sujeitos à lei, todos podem votar. Exceptuam-se os casos extremos de incapacidade mental, que, penso, já estão previstos na lei.
    O que há a fazer, sim, é dignificar a actividade política começando por ensinar os seus rudimentos desde muito cedo na escola, onde, próximo da maioridade dos alunos, essa matéria deveria ser aprofundada. Eventualmente, a abordagem a seguir, quanto a mim obrigatoriamente neutra e de incentivo à participação, não deveria descurar os próprios professores.
    Não vai ser este governo a fazer qualquer revolução nesse campo, como sabemos. A ignorância convém-lhes. Já no tempo do Salazar, quando nem eleições havia, a repressão a par da ignorância da população era a base da manutenção do regime.

  4. Um postinho de sub-merda clínico-diagnóstica de tempestades sociais que só merece resposta porque revela com extrema nobreza e bravura a “ignorância” contra a qual a autora se insurge. Ainda gostaria de saber o que é que esta menina, e por acompanhamento solidário o doutor Valupi que inventou o estado de espírito que evolve desta gasosa carbónica, tomam por “literacia política”. Que bicho será esse? Pensará esta gajada que saber ler e escrever em política é suficiente para capacitar quem quer que seja a separar o fundamental das borras?

    Aqui há uns tempos ainda pensava que esta moça tinha dois neurónios na parte que interessa. Constato sem alegria que são três.

  5. Chegou a Penélope: 4 neurónios, pela grande citação da “impossibilidade democrática”. Em tempo de guerra podíamos chamar a isto resistência com direito a medalha no fim das hoistilidades. Mas no fim perde a vantagem de um neurónio quando postula que não é este governo que vai educar as criancinhas, como se aos socialistas e ao resto da grande armada de partidos ronceiros não tivesse sido dada a oportunidade para educá-las. Pelo meio mete qualquer coisa própria de psicóloga no desemprego que me faz acreditar que a palavra de ordem do Dia Político já não é mais a educação sexual aos putos e putas de cinco e seis anitos (no estilo, o caralho tem cabeça, caule e raiz e vagina não é de facto a mesma coisa que vulva), mas sim as boas maneiras de se ir às urnas.

    Haja vergonha.

  6. Já expus as minhas objecções à restrição do direito de voto na outra caixa de comentários, mas encantado de continuar a discussão aqui.
    Por isso, se não concordo com a primeira parte deste post, concordo em absoluto com a segunda. Mas noto que é um caminho que tem de ir em ambas as direcções – se é desejável que os cidadãos se abram e se interessem pela politica, é também essencial que esta faça o caminho inverso e se abra também, de maneira mais transparente e simples, aos cidadãos que por ela se querem interessar ou participar. Diminuir as distâncias entre eleitos e eleitores é também crucial para que, sentindo que podem fazer a diferença e que alguém os ouve, os cidadãos se mostrem mais interessados. Se a politica for vista como uma actividade fechada a elites partidárias, não há aulas de cidadania que valham.
    No fundo, o que se pede é isto. Mas notem a origem da história da lei. Isso é que é importante.

  7. Chessplayer,

    O Pera Manca largo de certeza ou, melhor, nem lhe chego a tocar, porque preciso desse dinheiro para comprar dois pares de sapatos, duas camisas, três pares de cuecas de perna longa, pure cotton mas não de designer como as que afagam, acredito, os traseiríssimos do Passos e do Sócrates.

  8. O problema não irá resolver-se se a sociedade ficar à espera dos partidos. Claro que eles poderão mudar, no sentido que o Vega9000 refere, mas é muito arriscado deixar na mão dos partidos a responsabilidade pela qualidade da democracia. Repare-se que não existe um único partido, que eu saiba, com um programa de educação cívica para a literacia política. Todos eles ou estão ocupados com a governação, ou com a disputa pelo poder, ou a sonharem poderem imitar aqueles partidos que assim se ocupam. Até um novíssimo partido que tinha, à partida, todas as condições para ser relevante nestas matérias, o MEP, se revelou um cópia irrelevante do convencionalismo que marca a nossa – mas não só a nossa – democracia.

    Terão de ser alguns cidadãos apaixonados pela política enquanto dimensão identitária, inevitavelmente poucos por serem raros os que têm tal consciência, a juntarem as suas forças intelectuais e volitivas. Se tal acontecer, o mais difícil estará alcançado.

  9. KALI…
    o melhor que posso fazer é,
    passa por aqui, (bem pertinho da praia da marinha),
    e a gente manda uma abaixo.
    dá pra perceber que €€€€ não passam por ai,
    olha, mais vale um prazer na (nesta) vida, ke tres €€€

  10. Valupi, mais uma vez, estiveste disposto a começar uma interessantíssima conversa. Ainda por cima daquelas muito, muito raras. :)

    Penélope, o que faço não é propor, é mais manifestar a minha estranheza. E embora não esteja ainda convencida, porque onde há lei também costuma haver castigo, aceito que seja uma impossibilidade, desde que não seja a impossibilidade de debater o assunto.
    Seja como for, é muito interessante verificar a reacção que a mera hipótese suscita. Até fico com a sensação que para muitos criminosos talvez fosse um castigo maior perder o direito de voto do que levar com mais uns aninhos de pena…

    Vega, embora a nossa conversa tenha incidido mais sobre a primeira, eu também concordo mais com a segunda parte do meu comentário. :)

    V. KALIMATANOS, contaste mal. Quer-me parecer que para a parte que te interessa não tenho um único neurónio motivado. :)

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