Ágora agora

A democracia ateniense compreendia um universo sociológico estimado em 400 mil habitantes, dos quais se calcula que só à volta de 40 mil, mais 10 ou menos 10 mil, tivessem poder político – isto é, fossem considerados cidadãos. Para tal, teriam de ser homens atenienses; o que excluía as mulheres, os estrangeiros e seus filhos, e os escravos. Será o equivalente, comparando o incomparável, ao número de eleitores da freguesia de Benfica em Lisboa.

Para além do baixo número de cidadãos, também a cultura era muito mais simples e uniformizada do que a das democracias modernas, com o seu aumento incomensurável de informação e de paradigmas intelectuais e morais. Finalmente, os problemas de gestão nesta escala populacional, nesta tipologia étnica e nesta economia pré-industrial são completamente distintos, porque muito menos complexos, do que aqueles que enfrentamos na contemporaneidade.

Por estas razões, uma das características mais radicais da democracia grega podia funcionar com plena eficácia: o sorteio como método de escolha de alguns governantes. O risco de assimetrias graves no desempenho era baixíssimo, dados os mínimos denominadores comuns quanto aos conhecimentos e aos valores. Em resultado, o conceito de democracia realizava-se de uma forma que para nós se tornou impossível. Na nossa época, dependemos de especialistas para a enorme maioria das funções governativas.

Todavia, atribuímos o direito de voto a todo e qualquer indivíduo que tenha nacionalidade e maioridade reconhecidas. Quer dizer que basta ter 18 anos, mesmo que nem sequer se saiba o que é um parlamento, para ter literalmente voto em matéria de escolha de governantes. Isto é absurdo. Mas não é menos absurdo do que aceitar votos de alguém que pode ter 44 anos e ser um psicopata. Ou ter 81 e estar senil. Na urna, tal como o dinheiro romano das latrinas, os votos não têm cheiro nem autoria. São a expressão abstracta do colectivo concreto, para o melhor e para o pior.

Esta caótica misturada de idades, experiências de vida, estados mentais, ignorâncias, ilusões, esperanças e sabedorias – em cujas mãos depositamos a legitimidade e o destino político da comunidade – precisa de algo mais do que retóricas partidárias e eleitorais: precisa de quem a ame.

22 thoughts on “Ágora agora”

  1. a democracia só funciona em pequenas ou médias comunidades , funcionou perfeitamente na islândia , por exemplo. melhor será mas é voltar às cidades estado. aliás , os tais de especialistas de que falas são só especialistas em tricas e truques que aprendem nas jotas. passo.
    e polis ? cidade , não nação…se fosse suposto referir-se uma big nação era naçãotica ou estaditica , politica é que não :))

  2. Dias atrás perante um grupo de anciãs (oitentas e…) com pleno direito da suas faculdades eleitorais vivendo em área metropolitana e acesso à informação -qual,não sei…
    Ai o Passos e o dos chapeus das feiras fazem um lindo par,aquilo é que é falar…
    Chegado a este ponto e inquirindo se conheciam acerca do que se estava a passar actualmente; como?
    Pessoas responsáveis devem pensar no que fazem ao votar ,assinalei eu, “pois tá bem eu quero é paz………..”
    Está tudo dito.

  3. De facto é estranho que não haja excepções ao direito de voto, que pessoas dependentes de outros para tomar decisões simples no seu dia-a-dia, ou pessoas cujo comportamento levou a que estejam isoladas, por muitos anos, da sociedade mantenham intacto o seu direito a decidirem quem tem melhores condições para nos governar. Ainda é mais estranho se pensarmos que o direito ao voto em associações, clubes e afins, e até nos próprios partidos, implica condições e deveres que não se exigem ao eleitor, em quase todas é necessário preencher vários requisitos entre os quais, por exemplo, ter as quotas em dia. Imagine-se o que seria se um político se lembrasse de propor como condição para exercer o direito de voto ter os impostos em dia. Caía o Carmo e a Trindade. Já para não falar na dose de coragem necessária para lançar a discussão.
    E, apesar de manifestarem alguma preocupação com os valores da abstenção (só no dia das eleições, no dia seguinte já ninguém fala disso), não parecem muito incomodados com a ignorância e o desinteresse pela política, só isso explica que na Escola, onde tanto se investe na formação dos futuros cidadãos, a formação política dos alunos não tenha lugar. A única coisa que ouvem sobre política aos professores são desabafos contra todos os governos, pouco abonatórios para os políticos e a política em geral, que passa facilmente por uma actividade quase marginal, no pior sentido, que só interessa a gente que não interessa. Se se juntar a isto o tratamento que a comunicação social dá ao tema, privilegiando quase sempre a politiquice em vez da discussão séria, estamos conversados. É pena. Mas como tudo evolui, e a democracia não tem sido excepção, talvez num futuro próximo este debate se torne inevitável e os políticos deixem de se preocupar exclusivamente com a quantidade de votos e pensem no que ganharíamos todos com o acréscimo de qualidade dos mesmos.

  4. Ao preço a que as frutas e propinas estão não me admiro nada que um jovem de 18 anos não saiba o que é um parlamento e outros clubes da parla política. E até aceito que consideres isso absurdo, tal o esforço e boa vontade que ponho nesta corrida para te fazer feliz e tornar-te o primeiro cidadão da Grande Lisboa em idade pre-senil a acreditar nas suas próprias opiniões. O chato, tanto para mim como para ti, e para o resto da Nação que não sai à ágora porque pode estar a chover, é que alguns dos cadilhos do xale da responsabilidade nessa situação caiem-te pela região dorsal abaixo e não há meio de reparares nisso. Não foste tu que andaste a ensinar rapazitos enquanto a democracia estava no forno aqui há alguns anos atrás?

    Passando da malta de 18 aos mais velhos da próstata e dos ossos, tavez não fosse má ideia tentar desengarrafar o tráfego, repor este combóio sobre os carris, intimando ou convidando a velha guarda dos senis com capacete e luvas a regressar ao activo. Chamemos a isso o regresso dos polícias senileiros. O dinheiro que não poupariamos com a eliminação de semáforos, não achas?

    E reparo que não pões nenhum problema ao direito de voto das mulheres menstruadas e dos guardas nocturnos . Será que é porque pensas que essa gente vota toda na esquerda? Ná, num gajo do Sporting como tu seria totalmente absurdo. Volta não vai, em defesa permanente da Cidade Ideal com a opinião e sistemas correctos apesar de velha e grega, apareces com a imagem assustadora do psicopata – recurso crucial, acessório de praxe que se encaixa em todas as situações que ameaçam desfechos políticos negativos. Sabes que mais? Até talvez tenhas razão. Nos anos oitenta, nas “democracias evoluídas”, havia, por cada 10 milhões de habitantes, uma média de 10 a 12 mil camas de hospitais permanentemente ocupadas por doentes com neuroses e psicoses. É realmente malta a mais. Ao resto davam-lhes uns comprimidos e mandavam-os voltar dai a umas semanas se o microondas entretanto não explodisse. Não sei como seria nessa altura em Portugal, com tanta gente atrapalhada no afâ das vaquitas gordas que já prometiam em Bruxelas, era bem capaz de os doentes que tínhamos andarem a aperfeiçoar as democracias de bairro para se esquecerem das tontices que lhes residiam nas cabeças.

  5. guida, a diferença entre as várias associações com outras exigências para exercer o direito de voto é que a pertença a essas associações é opcional, enquanto a cidadania é obrigatória. O voto, a nível de escolha dos nossos representantes, deve ser um direito universal sem qualquer tipo de restrição ou condições, excepto essa mesma cidadania. Para o melhor ou o pior, como diz e bem o Valupi, estamos todos juntos nisto.

  6. Vega, dei o exemplo das associações a pensar exactamente nisso, é opcional, ou seja, alguém que, em princípio, tem os mesmos interesses dos restantes associados, mesmo assim tem de cumprir determinadas regras e deveres se quer exercer o seu direito de voto. Mas claro que são coisas diferentes.

    Não percebo muito bem o que queres dizer com ‘a cidadania é obrigatória’, pelo menos neste contexto, já que ninguém é obrigado a votar e muito menos é obrigado a conhecer o que quer que seja relacionado com política para exercer o direito de voto. Ninguém tem de conhecer os programas dos partidos nem assistir a debates ou sequer a conhecer o nome dos candidatos, é só chegar, ou não, o que também merece discussão, e pôr a cruzinha onde muito bem entender. Até pode ser uma pessoa que nem se lembra do que fez no dia anterior, o que também a mim me parece absurdo, e por estarmos todos juntos nisto, pelo menos, merece reflexão.

    Só para dar mais um exemplo, um bocado radical, é verdade, mas será que o autor do massacre na Noruega, alguém que claramente violou as mais elementares regras da vida em sociedade, deve manter incondicionalmente o seu direito de voto?

  7. na minha opinião, guidinha, o único verbo a que tem direito é imprecar. ou, então, viver sem olhos e sem ouvidos e sem língua e sem dedos e sem pila.

  8. Não há interesse em modificar e muito menos elucidar potenciais eleitores – até porque os que têm mantido no poder o lado A e B, do mesmo disco, servem na perfeição.

    A propósito do voto útil : como ser útil, votando em inúteis?

    Não, eles não querem surpresas – faz anos que apelei para que fizessem eleições nos dias dos clássicos – que colocassem mesas de votos nas entradas dos estádios, nas grandes superfícies, às saídas das discotecas, etc., afim de haver uma possível surpresa eleitoral, qual quê

  9. guida, quando falo em cidadania obrigatória significa, mais ou menos, que não te podes excluir da vida publica, embora possas ignorá-la. Quando falo em vida publica, falo no conjunto de regras, direitos, deveres e obrigações aos quais estamos obrigados e não nos podemos excluir (estou, para simplificar, a excluir a emigração). Quaisquer decisão ao nível de estado e dos respectivos orgãos de poder te afecta e te obriga, quer gostes quer não gostes, quer tenhas dela conhecimento quer não. É por isso que não podes alegar “desconhecimento da lei”, para dar o exemplo mais flagrante. Isso é o que distingue a cidadania das vária associações que existem. Dessas, se não concordar, posso-me excluir. Da cidadania não. E isso tem de funcionar para ambos os lados, a cidadania não me pode excluir a mim.
    No que diz respeito ao autor do massacre na Noruega, para mim isto continua a ser válido, porque as leis e sistemas do seu país continuam-se a aplicar a ele, logo não me parece legítimo que seja excluído.

  10. Sinhã, e o que significa imprecar?

    Vega, acho que estamos a falar de coisas diferentes. Não está em causa não respeitar a lei. O que está em causa, nesta discussão, é se todos temos condições para eleger o legislador. Claro que ficando as coisas como estão, toda e qualquer pessoa tem o mesmo direito, mas eu gostaria que pelo menos a discussão sobre se todos temos condições para fazer essa escolha ocorresse.
    E as leis não são imutáveis, podem alterar-se, o que te perguntei em relação ao norueguês é se concordas com a lei existente que lhe confere, a ele e a outros psicopatas, o direito de voto, ou se pelo contrário o assunto merece ser discutido e porventura a lei ser alterada. É que isso de a coisa funcionar para os dois lados e a cidadania não nos poder excluir e ponto final, enfim, tem muito que se lhe diga…

  11. cidadão é um título honroso que se conquista e cidadania, por direito, pressupõe a contrapartida do cumprimento de deveres. ora este estupor está longe de ser um cidadão e de ter direitos e, por isso, resta-lhe a suplica, que só ele poderá ouvir, ao céu do seu inferno. (isso e o resto que já referi. eu ofereço-me, se preciso for, para lhe sacar as carnes que lhe potenciaram os pensamentos e as palavras) :-)

  12. guida, não vejo a questão assim, embora haja democracias bastante mais avançadas onde os reclusos não têm direito a voto. A questão, para mim, é que qualquer cidadão vive numa comunidade que o obriga a regras das quais não se pode escusar, pelo que tem necessariamente que ter em conta a sua opinião. Mesmo se for um psicopata, porque este também está sujeito a elas. Ou então, determinamos que certas pessoas são cidadãos de segunda, a quem a sociedade não confere o direito a exprimir pelo voto a sua opinião. Pode-se abrir excepções para quem não tem auto-suficiência ou consciência do que faz? Pode, mas parece-me um caminho perigoso. Porque eu posso, facilmente, demonstrar que uma qualquer velhota analfabeta numa aldeola perdida não faz a mínima ideia do que está a fazer quando vota, não sabe o que é um deputado, ou um parlamento, e que segue simplesmente as indicações do Presidente da Junta. Vou impedi-la de votar por incapacidade devido a ignorância?

  13. o que o permite adquirir direitos é precisamente o cumprimento dos deveres. como, neste caso, não é o caso, não lhe confiro a menção honrosa de cidadão e muito menos do que é ser e do que é ser humano. mas se lhe chamas cidadão e humano, Vega, chama-me, por favor, a mim, cadela do monte e eu juro-te que faço o pino de alegria. :-)

    e a ignorância, à minha luz, só é uma patologia quando tem por base a inteligência da maldade; a ignorância inocente das tais velhotas que dizes é maravilhosa: votam, ou não, por intuição ou fruição. mas amam os outros e não impedem de votar aqueles que sabem ler e escrever e pensar – são umas verdadeiras amantes da democracia, puras cidadãs e humanas até mais não – ensinam a fazer o pão e as colheitas de verão. viva a sabedoria ignorante! :-)

  14. Vega, não percebo este teu argumento: “qualquer cidadão vive numa comunidade que o obriga a regras das quais não se pode escusar, pelo que tem necessariamente que ter em conta a sua opinião.”
    É que há quem se escuse claramente ao cumprimento das regras, todo o tipo de regras. E o que defendes é que mesmo nessa situação o direito de voto deve manter-se intacto, como se fosse sagrado. Parece-me bastante discutível. O Estado não é Deus que tudo e a todos perdoa…

    Quanto à ignorância, não é preciso ir buscar uma velhota analfabeta lá para trás do Sol posto, o que não falta para aí é gente de todas as idades em todo o lado que não faz a mínima ideia do que está a fazer quando vota em A ou em B, e claro que não defendo que toda essa gente deva ser excluída. Por isso digo lá atrás que devia haver formação política nas escolas, não faz sentido que não haja. Já era um começo para combater tanta ignorância.

  15. guida, não há quem se escuse ao cumprimento de regras, há quem entenda não as cumprir sujeitando-se às consequências, o que é apenas outra maneira de ser abrangido por elas.
    Ninguém pode dizer “esta lei não se aplica a mim”, ou declarar a independência unipessoal (Desconheço se alguém pode rescindir a nacionalidade sem ter outra, mas creio que não).
    Logo, ou vais viver para uma ilha deserta – e mesmo assim sem ninguém saber – ou estás sempre sujeita a viver numa sociedade com determinadas regras e procedimentos.
    Se estas regras são universais e não podes fugir delas, será da mais elementar justiça que o voto seja também universal. Criar restrições ao direito de dar a sua opinião sobre os orgãos competentes para definir essas regras, sendo que está na mesma sujeito a elas, parece-me um contra-senso. Já se a pessoa o exerce ou não, é uma escolha pessoal e resultante da liberdade de cada um. Mas está lá, para usares se quiseres, independentemente de quem sejas, do que sabes, ou do que tenhas feito.
    No que diz respeito à educação para a cidadania e politica, concordo absolutamente. Mas nota que isso será essencial para formar cidadãos que exerçam o seu direito de voto de maneira mais esclarecida e que participem mais activamente, e dessa maneira melhorar a democracia e a cidade. Nunca como condição de exclusão.

  16. sinhã, posso-te chamar o que quiseres, mas no fim do dia o que és é apenas humana e cidadã, com tudo o que isso implica. E já não é pouco. Tudo o resto é construído a partir daí.

    (Olha lá, ando para te perguntar: porque é que lá no teu blog as borboletas estão a atacar a sereia? ;) )

  17. sim, é verdade: eu sou isso tudo e muito mais – ele, que é monstro, é que não. :-)

    (não estão a atacar – estão, as borboletas que são metarfose em ponto de eternidade, a lambê-la, todinha: a sereia deixa de ser como diz a lenda – nem quem a vence é quem canta melhor nem a sua arma mais poderosa é o silêncio. temos, então, a reinvenção – a eternidade no que é efemeridade e a doçura também no que é sensualidade) :-)

  18. Vega, parece-me que estás a brincar com as palavras, usei o verbo escusar, se calhar mal, com o sentido de desobrigar. Há quem se desobrigue de cumprir as regras. Adiante.
    Como dizes, há consequências para quem não cumpre as regras. E não ficaria chocada se uma das consequências para quem comete crimes muito graves, como atentar contra a vida de quem foi eleito democraticamente, como fez o norueguês quando mandou pelos ares edifícios governamentais, muito provavelmente, com o objectivo de matar governantes, fosse ficar impedido de votar. E mais, dadas as circunstâncias, que ficasse mesmo impedido de emitir opinião política. Mas este é um exemplo extremo e eu, sobretudo, gostaria que o assunto, direito de voto, não fosse tabu e que houvesse discussão. Só isso. :)

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