Vinte Linhas 653

Dissertação para uma paisagem junto ao mar

Os ceifeiros partiram ontem à noite depois de terem guardado o cereal nas tulhas do celeiro da quinta e recebido o salário combinado com o feitor. Estamos em Bari: em frente o sossego da luz do Adriático e ao longe adivinha-se um lugar da Croácia. Tudo nos indica que estamos no Sul. Sabemos que na cidade as lojas, as repartições e a Universidade fecham das doze às quatro da tarde porque a África está perto e não se aguenta o calor. Mas são as piçarras na casa onde vive o caseiro que explicam o lugar. Tal como no Alentejo ou na Andaluzia, as piçarras estão presentes nas casas debruçadas sobre o limite da terra.

O quadro organiza-se entre o azul do fundo, duas árvores grandes à direita e à esquerda e quatro árvores azuis a marcarem o limiar da propriedade. Os telhados vermelhos e as janelas deixam pressentir o rumor da vida de todos os dias, o intervalo entre sementeira e colheita, os ranchos que chegam de longe trazidos por manageiros antigos, capazes todos eles ainda hoje de levantarem da terra as cantigas de trabalho que reflectem os rituais da merenda e do cigarro a meio da tarde.

O pintor não inclui barcos de pesca nem de recreio no fundo da paisagem. O mar, o presumido Mar Adriático, é apenas uma referência na geografia organizada deste óleo. É a terra que vale mais, no seu ritual de ciclos a partir das estações do ano, chuva e calor, neblina e secura, nas adegas repletas de tonéis antigos, um vinho branco finíssimo que os fabricantes de espumante não desdenhariam nas suas fábricas na cidade. Os ceifeiros partiram ontem à noite e não ficaram no quadro. A vida pressente-se embora não se desenhe explícita entre a linha azul do mar e o caminho sinuoso até às piçarras da primeira casa grande da quinta.

34 thoughts on “Vinte Linhas 653”

  1. Olhe lá, amigo Zé, não é que o seu deleite com a paisagem oleosa não esteja primorosamente apresentado, mas os vultitos da Croácia são muito menos de “adivinhar” que os de Montenegro ou Albânia, mesmo que à distância de cento e tantos brutíssimos quilómetros, a menos, claro está, que você estivesse a escrever pensando no Bari tono Luís Piçarra. Seja como for, sempre vai daqui com quatro estrelitas pelo colorido da obra e por nos lembrar que o Adriático é muito presumido.

  2. já andava a estranhar não haver publicidade da allarves, este quadro do novi enquanto não for vendido vai servir de ilustração às tuas inspirações bord mer, tanto faz ericeira, bari ou mesmo serra da estrela, como não tem barcos ninguém percebe se aquilo é céu ou mar. já agora, leste mal a ficha técnica, aquela porra é acrílico sobre madeira.

  3. Caro Kalimatanos, a memória que tenho é de as pessoas em 1971 irem de Bari comprar carne mais barata à Jugoslávia nuns «cacilheiros» parecidos com os de Porto Brandão mas num texto destes até pode ser outra coisa. Imagine que o Mar do quadro é o Tirreno e não o Adriático. Até pode ser mas o que conta é o articulado da ficção…

  4. isso já tinhamos percebido, que vale tudo num texto que não vale nada. é tudo martelado, versos, prosa, explicações, interpretaçõs e a cabeça dos leitores. aquela do limiar da propriedade privada é de bradar ao imi, continua, pode ser que pinte uma vaga como avaliador das finanças.

  5. ou eu me engano ou o ‘ilustre’ e sempre admirado jcf confunde ‘piçarras’ com ‘piças raras’. Mas não faz mal tratrando-se do sítio!

  6. A pessoa portadora de um Complexo de Superioridade está tentando compensar sensações de inferioridade que lhe são inerentes. Este termo foi criado pelo psicólogo Alfred Adler, discípulo de Freud, que posteriormente rompe com o mestre, e idealizador da Psicologia Individual. O sujeito que desenvolve este sentimento vê nos outros, julgados por ele como seus subordinados, traços de inferioridade que na verdade pertencem a ele, ou seja, trata-se de um jogo de projeções. Assim, ele tende a marginalizá-los, da mesma forma como também se sente excluído, atribuindo-lhes as mesmas características que lhe são imputadas por outrem. É muito comum estes indivíduos serem vistos como arrogantes e pretensiosos.

    O ser com Complexo de Superioridade não consegue equilibrar em seu íntimo seu potencial e seus limites, considerando-se alguém com valia e aptidão superestimadas. Suas perspectivas sobre si mesmo são extremamente elevadas e ele acredita ter um poder de realização muito maior do que realmente possui. (…).

    Sentindo-se essencialmente inferior, a pessoa tenta parecer superior mais para si mesma do que para os outros. Embora aparente superioridade, ela teme ser socialmente desprezada, sente-se insegura, tem uma baixa auto-estima, mesmo que todos esses sentimentos estejam ocultos no seu inconsciente, mas nem por isso menos intoleráveis para sua mente. (…).

    Assim, é inevitável – complexos de superioridade e inferioridade estão sempre muito próximos e podem tranqüilamente coexistir no mesmo sujeito, por toda a sua existência. Mas como identificar os que trazem em si estes complexos? Às vezes a forma agressiva e presunçosa da pessoa se comportar já indica a presença destes distúrbios, mas em outros casos a presença dos sinais mais freqüentes é tão sutil, que só em momentos extremos de estresse ou ansiedade ela irá revelar explicitamente a presença destes sintomas. Diante do olhar social estas pessoas são, em alguns casos, caridosas, voluntárias em trabalhos beneméritos, preocupadas com o bem do próximo e da comunidade, mas simultaneamente ocultam no seu âmago o sentimento de serem melhores e mais nobres que as outras.

    No momento em que as personas desmoronam, o homem revela-se como realmente é, muitas vezes cobrando por suas ações de generosidade, desvalorizando o esforço de outrem. A pressão das suscetibilidades e melindres é muito forte, assim como é difícil conviver com as críticas, aprender a aceitá-las, digeri-las, e utilizá-las a seu favor. Muitas vezes o Complexo de Superioridade é ativado como um mecanismo de defesa, diante de qualquer ameaça ao seu Ego. Lutar contra um sentimento inconsciente, que não conseguimos olhar de frente, o qual rejeitamos mesmo quando temos um vislumbre dele, é uma tarefa que exige muita firmeza e determinação. É necessário muito domínio de si mesmo para viver com os traços de personalidade opostos em perfeita harmonia e ir além, valorizando os atos dos que nos cercam, seja qual for o contexto.

    Fontes
    http://www.mariuzapregnolato.com.br/

  7. Você de «15E» só tem as trombas, seu grande parvalhão. Vá morrer longe porque está
    mesmo muito enganado – eu sei o que são piçarras. Pág. 271 do Moraes…

  8. Meu caro – se fosse a si que um trambolho lhe viesse dizer que eu não sabia o que são piçarras como é que reagia ao trambolho???

  9. Só te apoias nas enciclopédias e nos dicionários para mostrar a tua cultura, pá! Até acredito que saibas a lista telefónica de cor: nomes, moradas e telefones!

    Gostei da explicação do Complexo de Superioridade. Assenta-te que nem uma luva. Perfeito!

  10. pois, mas eu é que não sei o que são piçarras e fiquei sem saber, vá lá que o contexto das casas dispensa elocubrações de outro jaez, mas na net fui parar a praias. Terá a ver com pátios?

    quanto ao resto: folgo de vê-los de boa saúde, incluindo a promessa de javali, mas sinceramente isto de trocar o zimbro pelo capim santo ainda está em comprovação empírica, inconclusiva aliás.

  11. Se não sabe eu explico – na Beira Baixa e no Alentejo chamam piçarras a umas paredes que ajudam as casas a resistirem melhor à chuva, ao vento e às tempestades. Há um belo texto de Baptista-Bastos assim «Escrevo no balcão da casa de piçarras negra, no último dos meus dias beirões. Despeço-me destas terras poderosas, verdes como esmeraldas: destas terras cerdosas de cardos, de fetos, de raízes, de xistos».

  12. ah, grato! Uma vez eu escrevi sobre a insídia ou a sedução do xisto. Foi uma réplica tardia de um amor antigo, depois deslocado, dos muros e muretes de xisto na região de Nisa, lá por entre as ribeiras afluentes do Tejo tem obras de engenharia romana de lascar. Bom, com tanto x, é xonar.

  13. piçarra
    s. f.
    1. Terra misturada com areia e pedras; cascalho.
    2. Pedra ou pedreira de xisto.

    A língua portuguesa foi buscá-la ao castelhano, que por sua vez a foi buscar ao basco (lapitz-arri). Eis o que diz o dicionário da Real Academia Española

    pizarra.
    1. f. Roca homogénea, de grano muy fino, comúnmente de color negro azulado, opaca, tenaz, y que se divide con facilidad en hojas planas y delgadas. Procede de una arcilla metamorfoseada por las acciones telúricas.
    2. f. Trozo de esta roca, cortado y preparado para tejar y solar.
    3. f. Trozo de pizarra pulimentado, de forma rectangular, usado para escribir o dibujar en él con pizarrín, yeso o lápiz blanco.

    Quando tu dizes que esse é o nome das paredes, só pode ser por extensão, pois o vocábulo corresponde ao nome do material de que elas são feitas.
    Aprende comigo que eu não duro sempre.

  14. oh xico! piaçaba é a técnica que usaste na repintura do acrílico do novi e prá coisa ficar completa só falta a abécula perguntar se é uma versão actual do pixarra.

  15. um dia destes parametrizo a andorinha e boto cá, Sinhã, mas aindaa não sei como tirar o botãozinho. Mas sai bonito, né?

  16. lapitz-arri ali em cima é que gostei, mete lápis no barulho e fica logo indicado o assunto. Olha que está ali um y dobradinho dentro do x, vê melhor, acontece que pau d’ouro é melhor andar exilado, e então é assim,

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