Vinte Linhas 654

Desde 9-9-66 ou afinal 45 anos passaram num instante

«Você vai tirar uma chapa ao Chile!» – foi esta a frase que abriu o meu primeiro dia de trabalho no BPA na Rua do Ouro nº110. Recém-chegado a Lisboa, depois de ter vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, sabia lá eu onde era o Chile, afinal Praça do Chile, onde se tiravam as chapas dos tuberculosos. Sem chapa não se podia trabalhar. Lá fui no eléctrico 24 (Chile-Carmo) na segunda-feira a seguir. Nesse tempo trabalhava-se nos Bancos ao sábado até à uma da tarde. Eu ganhava 900 escudos por mês e pagava 7$50 pelo almoço na cantina da Rua dos Sapateiros. O elevador de S. Justa custava $20, a viagem do Rato ao Carmo era $70 e valia a pena descer das Amoreiras para o Rato para poupar $30. Um jornal custava 1$00 tal como um selo dos CTT. Se recordo os eléctricos desse tempo é porque hoje existem apenas o 12, o 28 e o 15 que já não tem nada a ver – é mais um comboio pequeno a circular em linhas de eléctrico. O meu mundo de 1966 tem desaparecido aos poucos. Os sonhos foram torpedeados, as aspirações foram pisadas, os votos mais puros foram rasgados por trambolhos que se foram chegando à frente e falam em nome de todos nós. Nesse ano a expressão «todos nós» estava na berra por causa da equipa dos «Magriços» que fez gato-sapato dos adversários em Inglaterra e só não ganhou o campeonato porque estava escrito – foi preciso até um golo fantasma para os ingleses ganharem à Alemanha Ocidental. Eu tinha 15 anos e comecei a trabalhar em 1966. Ainda hoje trabalho e desconto, pago os meus impostos. Vou pagar em Setembro quase mil euros de acerto mas todos os meses desconto 135 euros à cabeça do talão de ordenado. Pois é, 45 anos passam num instante. A aguarela de Oleg Basyuk é a saudação aos meus netos Tomás, Lucas e Pedro que merecem um futuro mais feliz, justo e digno.

9 thoughts on “Vinte Linhas 654”

  1. mesmo que te levem metade da reforma ainda ficas a ganhar muito comparado com quem trabalhou toda a vida e ainda tens a lata de vir para aqui gabar-te dos impostos que pagas. tirando esses versos a que chamas poesia, os textos mal amanhados que tentas impingir como literatura premium e as cagadas desportivas em que penetraste, nunca fizeste nada que contribuisse para o pib nacional e que merecesse um sálario, quanto mais uma reforma precoce por actividades duvidosas como calaceiro sindical. só falta publicares a declaração do irs, porque o oleg e os teus netos já foram nomeados testemunhas abonatórias do teu egocentrismo, tadinhos.

  2. É curioso, estava a olhar para esses valores de salário e custo de vida, e são bastante semelhantes aos de hoje, em Euros. Muitos ganham por volta de 900 Euros, um jornal custa 1 Euro, um almoço não anda longe dos 7,50 Euros, etc.

  3. Já agora meu caro Vega9000 lembro que para o Sindicato pagava 9$00 embora só pudesse ser sócio aos 18 anos. Comecei a trabalhar com 15 anos, paguei quotas até aos 18 anos mas só me tornei sócio com 18 anos em 1969. Hoje desconto 6,70 euros para o Sindicato e 6,70 para o Fundo Sindical de Assistência, além de 20,10 euros para o SAMS.

  4. 900 paus por mês nesse tempo não era nada mau, amigo zé. Eu conheci muito chefe de família que ganhava pouco mais que isso, trabalhava todo o dia – que não era o seu caso, tudo trabalho de manusear envelopes e arquivar papéis – e depois chegava a casa e nem sequer uma telefoniazita tinham para ouvir a Rádio Portugal Livre em ondas curtas. E como o Vega o lembrou, a coisa anda ela por ela, com a singela diferença de que a grande maioria dos aprendizes de bancaria dos nossos dias não deve ganhar mais de 500 euros.

    E não se queixe amargamente, você está muito acima daquilo a que a média chegou: é um homem viajado, conheceu gente célebre, goza duma boa reforma, escreveu nalguns pasquins famosos, publicou poesia em vários livros, tem uma família feliz, tratam-lhe dos diabetes e doutras complicações associadas, etc. O que é que você quer? A box of chocolates?

  5. já em 1966 havia jobs for the boys com 15 anos a lamber selos por 900 mil reis ao mês. deve ter sido aí que despertaste para a escrita, produziste as mais belas cartas de crédito, colaboraste em boletins de registo de importação, conhecimentos de embarque e mais tarde especialista em saque à vista.

  6. Gostei do seu texto.

    Também tive de fazer uma micro no Chile (mas sabia onde era) quando, um pouco mais velho do que o JCF, comecei a trabalhar.

    Mas comecei a ganhar um pouco menos: 750$00. Pela idade que tinha, presumo que terá começado no BPA como paquete. O que significa que, na altura, os bancos pagavam melhor do que agora.

    Cumprimentos (e continue com a sua escrita aqui. Quem não gostar que se amole!)

  7. se passaram a correr, Zézinho, por vezes nem te noto o cansaço. e nem cheiras a suor – mas cheiras a paciência: uma bela de uma herança para o Tomás, o Lucas e o Pedro. :-)

    (desejo-te mais 45 de endurance) :-)

  8. Pois é, o tempo voa. Mas aquela de descontar para o Sindicato e não poder ser sócio, essa está atravessada. Além de outra que era descontar para o Fundo de Desemprego e se caísse no desemprego não tinha direito a nada. Obrigado aos 3 amigos e amiga Sinhã pela vossa leitura amável. Assim vale a pena.

  9. Nunca te doa a mão para esta escrita. Aqueles que não gostam e te tentam insultar,
    manda-os chuparem na quinta pata do cavalo.
    Fiz quase o mesmo percurso, mas já não trabalho…
    Também tirei a chapa no Chile, mas foi para outro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.