Cada vez mais sintonizado com os seus colegas de direita, Ricardo Araújo Pereira dá repetidamente espectáculos decadentes no painel das sextas à noite da TVI24. Não só tem um discurso enrodilhado, do qual acaba por se extrair muito pouco, normalmente uma ideia mínima e apenas centrada na extracção de uma gargalhada fácil do público e no excessivo respeito pelos seus colegas, como também em temas como Passos Coelho ou José Sócrates (este uma constante, se não o motivo, do programa, perdão, da pândega) consegue ultrapassar largamente o que seria expectável do seu colega Tavares, no primeiro caso pouco vendo para apontar de negativo, apenas sussurrando umas palavrinhas em que se consegue entender “mandar pessoas emigrar” e pouco mais, como se Pedro Passos no governo não fosse um manancial de incompetências, mentiras, erros crassos, políticos ou de previsão, cenas caricatas, afrontas e brejeirices, e, no segundo, indo muito além do que o João Miguel poderia dizer de acusatório. Fazendo-o até parecer moderado.
Pois no último programa, Ricardo resolveu trazer à baila uma entrevista dada, esta semana, por Sócrates a dois jovens jornalistas de um site independente chamado “É apenas fumaça“.
Para fazer humor, apresentou uma montagem em que o entrevistado repete até ao enjoo a palavra “barragens”. Cómico, não acham?
Devo dizer que, apesar da montagem de efeito fácil, Ricardo tem razão quando diz que o tema das barragens ocupou demasiado tempo da entrevista e, honra lhe seja, teve o cuidado de referir que a culpa até nem foi do Sócrates, porque os rapazes estavam mesmo interessados em insistir naquele tema. Mas, portanto, em vez de se ficar por aí – ou seja, na opção bastante questionável dos entrevistadores pelo tratamento exaustivo e excessivo da matéria energética – resolve fazer uma gracinha como se Sócrates ali tivesse ido com a obsessão das barragens (eventualmente para evitar outros temas, o que não foi o caso, pois, no fim, ele até se declarou surpreendido pelo fim abrupto do interrogatório). Ora, o que irritou o Ricardo neste particular irritou qualquer pessoa que estivesse a ouvir. Também eu pensei, a páginas tantas, que já largavam aquele tema, o qual ocupa mais de meia hora em quase duas. Ora, precisamente por isso, não é de admirar que o entrevistado às tantas expluda e comece a atacar os jornalistas acusando-os de defenderem a inacção em matéria energética. Estas explosões foram, claro está, outro tema de gozo do Ricardo. Sim, a aparente cólera de Sócrates em relação aos pobres desgraçados foi algo deslocada e aconteceu algumas vezes. Mas, mais adiante, Sócrates tem o cuidado de lhes dizer que não são eles os visados directamente, mas que aquelas posições estúpidas estão ali a representar uma visão que ele rejeita liminarmente. Claro que esta referência não ajudaria à gracinha pretendida do Ricardo e é simplesmente ignorada.
A referência ao local da entrevista, que lembra ao Ricardo, se não me engano, uma arrecadação, visa também denegrir o entrevistado, pretendendo transmitir a ideia de que a Sócrates já pouco mais resta para comunicar com o público do que entrevistas em vãos de escada. Embora, note-se o paradoxo, os entrevistadores tenham sido muito elogiados pela sua coragem e preparação e até contrastados com os entrevistadores clássicos das televisões. Mas enfim, em vão de escada ou não, o Ricardo lá foi ver. Não precisava, de facto, se o objectivo era gozar com o local e a forma. E efectivamente não é certo que o Ricardo tenha ouvido sequer alguma coisa do que lá foi dito. O que foi pena.
Quanto à entrevista propriamente dita, que se propunha, nas palavras dos próprios autores, “questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes, dar voz aos representados“, houve, de facto, a preocupação de esmiuçar certas decisões governativas, e foi, para mim, óbvio que Sócrates, com maior ou menor impaciência, acabou por esclarecer bem o que estava em causa nos diversos temas. No fim, foi também impossível não achar que faltavam perguntas. Possivelmente, os entrevistadores não tinham por objectivo esmiuçar a operação Marquês ou as relações de Sócrates com o BES ou outros temas mais quentes surgidos já depois de afastado do poder, focando-se mais nas decisões governativas. Infelizmente, porém, faltaram ou foram apenas aflorados inúmeros temas, como as estradas, as PPP, os chamados “projectos megalómanos”, as condições do resgate, etc., que ficarão talvez para uma próxima. Muito provavelmente a pedido do Ricardo. Para fazer dali uma gracinha. O Tavares esteve estranhamente reservado nesta matéria. Será porque o compincha RAP já dissera tudo o que poderia fazer rir, porque as respostas de Sócrates o calaram ou ainda porque só reagiria se os rapazes tivessem enveredado pela operação Marquês, a prova provada de que o homem é um vigarista?
O Governo Sombra conta ainda com Pedro Mexia, que também consegue ver imensas qualidades em Pedro Passos. Painel mais plural não há.
