Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 167

«Os putos – contos escolhidos» de Altino do Tojal

Altino do Tojal (n.1939) publicou em 1964 o livro de contos «Sardinhas e lua» que, a partir de 1973, mudou o título para «Os putos». Esta é a 30ª edição com 38 contos escolhidos entre os 145 da edição de 2001 da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

O primeiro conto lê a infância: «Os crepúsculos eram negros, mas as manhãs… Enquanto a minha tia afligia os infelizes diabitos à sua mercê, entre quatro paredes sombrias forradas de velhos mapas rasgados, eu vadiava longe, na luminosidade mágica do dia, as mãos atrás das costas, as aletas do nariz palpitando a cada aragem resinosa, a guedelha tombada para os olhos como a crina dos póneis, gloriosamente sujo».

O último lê a idade madura: «Além de velho, feio, azedo e doente, sou pobre. E tenho livros publicados, pois tenho, o que não me libertou da pobreza. Vê-se que nunca lidaste com editores. Publicam-me os livros, mas quanto a pagar… Editores, editores…»

No intervalo surge a memória do avô: «Meu avô gozava de prestígio, porque em novo apertara pessoalmente a mão do presidente Bernardino Machado – um verdadeiro democrata. Recebia regularmente do Brasil uns jornais onde regularmente se dizia mal de Salazar e costumava levá-los para o café, depois do almoço, a fim de ler trechos perigosos aos confrades». Como pano de fundo geral, a solidão: «Penso que continuei a respirar os ares deste mundo porque a minha imensa solidão era afinal um firmamento povoado de boas histórias à espera de serem contadas. Expressar através da palavra escrita, com a máxima beleza e a mais pura limpidez, aquela tensão criativa permanente, cujo excesso de luz interior punha clarões nos meus olhos e me fazia andar pelas ruas como um sonâmbulo, eis verdadeiramente o que me mantinha vivo.»

Altino do Tojal: uma escrita de recorte clássico num autor moderno.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Isabel Ferreira)

Vinte Linhas 446

Os três meninos brincam com as canas da praia

Estamos no último dia de Janeiro. As ondas do mar na Foz do Lizandro rasgaram por fim a enorme duna de areia que separava as águas verdes e paradas do rio das outras águas azuis e agitadas do Oceano Atlântico.

Uma colecção de fatos de borracha seca ao sol no parapeito de um dos bares da praia enquanto um inglês lê um livro à porta da sua roulotte sentado numa cadeira de lona e completamente descalço, no usufruto completo e feliz do sol de Portugal.

As ondas da maré-alta trouxeram canas secas ao areal quase deserto. Na gramática da Natureza é possível (é mesmo provável) que estas canas tenham sido atiradas ao mar pela ligação rasgada na areia pelo furor das ondas. Entre as bicas escaldadas e os jornais do fim-de-semana, entre as conversas vagarosas e os telemóveis sossegados, três crianças brincam na praia à nossa frente com as canas.

Cada uma pega em duas canas. Parecem cavaleiros da Távola Redonda à procura do Rei Artur. É inevitável. Recordo de imediato o meu neto Thomas Francisco em Greenwich à beira do Tamisa a brincar com as suas canas. Em Outubro perguntei-lhe se ele estava a observar pássaros; ele respondeu que queria era brincar com os paus – como ele chama às canas na margem do rio Tamisa. Mais à esquerda dois rapazes com pranchas de surf cruzam o caminho dos três meninos. São dois tês gigantes no meio do círculo irregular dos meninos com as suas canas. Na ortografia da tarde, os tês do surf na cabeça dos jovens radicais são iguais aos tês das canas levantadas no ar dos três meninos que brincam na praia do Lizandro. É o esplendor do Sol.

Fala de Carlos Pato a Alves Redol 60 anos depois

Não morri. Sei que vai sair um pequeno livro

com os meus três contos por si guardados.

Em Vila Franca pouca gente sabe do assunto

mas em breve esse livro de contos vai esgotar.

Continuo nas histórias breves que escrevi

e no seu pequeno prefácio onde me recorda.

Sou o Bairro, sou a Charneca, sou a Lezíria

e os sonhos dos meus dois filhos por sonhar.

Não morri. Continuo no olhar dos meus filhos

Clara bebé e João Carlos que não cheguei a ver.

No olhar e nos sonhos por mim transmitidos

entre o rio de Santa Sofia e o Largo do Serrado.

Ainda hoje, tantos anos depois, sobeja azeite

no aroma intenso que se espalha pelas ruas.

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Palavras

(de um tema de Valle-Inclan in La Lámpara Maravilhosa)

As palavras são humildes como a vida

Na Primavera, carro de mato, carrada

Futuro estrume da caruma distribuída

Dos currais aos passadiços da entrada

Na gramática da lavoura e da colheita

As palavras são a semente e o animal

Crescem na terra. são máquina perfeita

No Inverno, na salgadeira plena de sal

As palavras são humildes como a vida

Dobradiças dum celeiro hoje fechado

Já o pão não vem da fornada aquecida

Chega em carros de noite a todo o lado

Hoje a palavra mais triste e a mais pura

Andam perdidas na notícia em alta voz

No telemóvel, mensagens de amargura

Que se apagam no ecran de todos nós

Vinte Linhas 445

Para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido

A comissão disciplinar da FIFA decidiu não punir o jogador francês Thierry Henry pelo lance em que, por duas vezes, ajeitou a bola com a mão para a servir a um colega, Gallas de seu nome, que rubricou o 1-1. Com este golo duas vezes ilegal, a equipa de futebol da República da Irlanda foi afastada do Mundial de 2010 na África do Sul. Não deixa de ser repugnante que a decisão tenha por base um argumento falacioso: «nenhum texto jurídico suporta uma sanção». Para além da péssima tradução – «support» não é o mesmo que «suporte» mas sim «apoio ou base» – a grande verdade ninguém da FIFA a afirma: foi o árbitro que não escreveu no relatório aquilo que se passou de facto e que milhões de pessoas viram em todo o Mundo.

Há muitos anos, no clássico Good Companions, Priestley explicou a razão pela qual o público inglês adora o futebol. A razão, segundo ele, é esta: «O futebol reúne arte e conflito, duas fortes motivações humanas desde que o Mundo é Mundo». O presidente da Federação Francesa de Futebol ficou feliz com a frase da FIFA («não se trata de uma ofensa grave») e até já se saiu, ingénuo e parvo, com um desejo («Só espero que seja o fim da história») mas a verdade é que, se para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido, para milhões de amantes do futebol em tudo o mundo ele nunca vai ser perdoado. Tal como, 43 anos depois, ninguém perdoou ao árbitro suíço e ao fiscal de linha soviético que sancionaram um golo fantasma na decisiva Inglaterra-Alemanha Ocidental de 1966. Thierry Henry também não vai ser perdoado no coração de todos os que amam o futebol. Pode a FIFA fazer o que quiser em nome do Direito; a Justiça já foi feita.

Um livro por semana 166

«A luz fraterna» – poesia reunida – de António Osório

António Osório tanto cita dois trabalhadores rurais que lhe oferecem um copo («um vinho transparente e ácido, vinho dos pobres, o da poesia») como abre poemas com epígrafes de Camões, Quevedo, Dante, Octávio Paz, Jorge Luís Borges, Vivaldi, Mozart ou dos mestres pintores: «Impossível confessar todas as influências. E no entanto um poeta é filho de si mesmo». A luz fraterna do título pode ser a raiz de toda a Poesia.

Entre a Natureza e a Cultura, a sua escrita proclama um princípio: «Pela vida fora a poesia pode chegar a ser tão indispensável como o colostro, quando se nasce». A vida é um lugar povoado por homens, animais («Gato não sofre, existe. / Para o sol, ratos / militante das suas unhas. / Crente no seu motor / de ronronar / em que se embala / vigilante») e pela Pintura: «Van Gogh queria algo / tão consolador como a música.»

O poeta pode ser o vedor («Porque vê emanações, / veias da terra. / Porque tem nas mãos / uma haste de oliveira. / Porque procura encontrar / água dentro de si. / Porque levanta uma laje / e deixa uma janela») mas pode ser também o calceteiro: «Escrevem nas ruas: / juntam / cuidadosamente / palavras. / Pegam-lhes / sílaba a sílaba / escolhem, unem / completam/ tocam / ao de leve por cima / e continuam.»

Com o animal há a matança: «Alegria do massacre familiar / da oferta aos vizinhos. E o resto na salgadeira / túmulo que as mulheres / abrem para a boca dos filhos». Mas só o poeta pode relatar essa festa: «Armazenar sofrimento. / Distribuí-lo depois / límpido».

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: óleo de Miguel Ângelo Lupi, Foto: Luísa Ferreira)

Balada para Carlos Paredes

Na mais teimosa vontade
Entre as cordas e os dedos
Nasce um rumor na cidade
A empurrar velhos medos
Era o mundo a duas cores
Dentro dumas fotografias
Meia dúzia de senhores
Confiscavam nossos dias
Se para uns era a SACOR
E bons empregos escassos
Para outros era a MABOR
E o pior para nossos braços
A guitarra é uma bandeira
Que juntou esta multidão
Entre o Rossio e a Ribeira
A água azul dum camião
De autocarro muitas vezes
Entre Benfica e Sete Rios
A música dos portugueses
Não precisava dos fios
Nem rádio nem televisão
Davam a exacta medida
O esplendor duma paixão
Mais forte do que a vida
Os sons desta melodia
Resistem a toda a usura
Se os oiço hoje em dia
Envolvidos em ternura
A força da qualidade
Bateu um acorde triste
Na luz da posteridade
Carlos Paredes resiste

Um livro por semana 165

«Sermões de Santo António» – Padre António Vieira

O padre António Vieira (1608-1697) pregou sermões de 1633 a 1696 e, ao longo desses 63 anos, sempre se deixou fascinar pela forte personalidade de Santo António – desde as suas qualidades de pregador aos seus conhecimentos teológicos.

O presente volume inclui dez sermões; um deles é o célebre sermão aos peixes: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comerem os grandes, bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.» Mais à frente fala aos peixes do estado da Justiça: «Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador e, ainda não está sentenciado, já está comido.» E conclui: «São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca não o comem os corvos senão depois de executado e morto; o que anda em juízo, ainda não está executado e já está comido».

(Editora: Portugália, Organização, apresentação e fotos: António de Abreu Freire)

Igreja de São Roque

*

As asnas são feitas de carvalho das Ardenas
E julgo-me dentro de um navio ao contrário
O som dum coro entra pelas frestas pequenas
Saio daqui fascinado à procura do dicionário
Mais de quatrocentos anos resistiu a estrutura
Desde tremores de terra às invasões francesas
Lá em baixo no largo o trânsito é uma loucura
A meio da tarde com buzinas e luzes já acesas
Uma vez por ano abrem as portas do passado
Forte sensação de respirar a memória da vida
Entre o lado da madeira todo bem aparelhado
E o som da música de Bach em ensaio repetida
Ficar aqui para sempre no forro de uma igreja
Horas perdidas junto ao tempo, dia após dia
Monteverdi e Bach são cantata que se festeja
Na beleza das vozes neste tempo de harmonia

Um livro por semana 164

«Lisboa em 1870» de Gonzalo Calvo Ascensio

Com o subtítulo de «Costumes, literatura e artes do vizinho reino», este livro do jornalista espanhol (director de El Democrata) corresponde à memória da sua estadia em Lisboa até 1872 quando era secretário da embaixada de Espanha antes de ser eleito deputado às Cortes em Madrid.

Sobre a Justiça escreve: «Aqui a estatística criminal é pequena, o roubo, o furto, a trapaça, podem dar-se em repetidos casos, o assassinato quase nunca; aqui a navalha não se emprega como arma de combate. Portugal é a primeira nação que aboliu a pena de morte após um período de 28 anos em que ela já não se aplicava.»

Sobre a Imprensa adianta: «A imprensa é livre, pode manifestar toda a espécie de opiniões, debater os mais graves problemas políticos, opor sistemas a sistemas e ideias a ideias, controverter teorias e no entanto não se ocupa de outra coisa senão de trazer para a rena da discussão as diferentes personalidades que entre si disputam o poder».

O autor vê assim em 1870 a luta política em Portugal: «A luta política está hoje reduzida à das ambições pessoais; não há partidos com bandeira nem agrupamentos políticos com lemas bem definidos nem programas que preencham uma aspiração racional ou científica: não há mais do que a personalidade do duque de Saldanha oposta à do duque de Loulé, ou a do bispo de Viseu à do conde de Ávila».

(Editora: Frenesi, Tradução: Jorge Pires, Capa: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 444

O terramoto do Haiti tem réplicas em San Sebastián

O truculento bispo de San Sebastián, monsenhor José Ignacio Munilla (n.1961) está nas bocas do Mundo depois das suas infelizes declarações sobre os mortos do Haiti: «es mas grave la situación espiritual de España que la tragédia que viven los haitianos».

Dito de outra maneira: «nuestra concepción materialista de la vida».

Considerado pela imprensa espanhola em geral como «reaccionário, conservador e antinacionalista» o ex-bispo de Palencia foi contestado por um abaixo-assinado de 131 presbíteros locais (Guipuzcoa) e é considerado praticante de um catecismo «obsoleto» embora se reclame defensor do catecismo de 1992 ou seja do Concílio Vaticano II.

Nada tem a ver com o seu antecessor Juan Maria Uriarte mas pede aos jornalistas que não lhe façam perguntas sobre o passado da diocese. Perante o ruído à volta das suas palavras inesperadas sobre o Haiti recua e, além de dizer como dizem todos, que foi mal interpretado, torna-se, de súbito, humilde: «Yo tampoco soy el obispo ideal».

Mas, ao cabo e ao resto, afinal, do mal, o menos; a Caritas de Guipuzcoa (que depende da diocese) enviou para o Haiti uma ajuda de 100.000 euros. A festa de São Sebastião a 20 de Janeiro pode aumentar essa ajuda aos sinistrados. Boa resposta foi a de um missionário local: «Es verdad que hay grandes males en el mundo, pero no es oportuno compararlos ahora com una tragédia tan enorme y dolorosa».

Depois de um terramoto verdadeiro no Haiti surge um terramoto de palavras no País Basco. Embora nascido em 1961 parece que este controverso prelado basco parou no tempo em que os jornais chegavam no dia seguinte.

Um livro por semana diferente

As palavras em jogo - 30 entrevistas e uma memória - josé do carmo francisco

«As palavras em jogo» de José do Carmo Francisco

Está quase a chegar às livrarias este livro de 220 páginas que recupera do pó do relativo esquecimento 30 entrevistas e 1 memória, lembrando deste modo 30 anos de jornalismo. No universo multifacetado dos entrevistados há um abrangente olhar sobre o Desporto e a Sociedade: Álvaro Cunhal, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, António Roquete, Carlos Mendes, Clara Pinto Correia, Daniel Sampaio, David Mourão-Ferreira, Dinis Machado, E.M. Melo e Castro, Eduardo Guerra Carneiro, Eduardo Nery, Fausto, Francisco dos Santos, Francisco José Viegas, Helena Marques, Joaquim Pessoa, José Duarte, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, José Nuno Martins, José Quitério, Lídia Jorge, Luís Filipe Maçarico, Mário Jorge, Matos Maia, Mia Couto, Nicolau Saião, Rita Ferro, Romeu Correia e Urbano Tavares Rodrigues.

As entrevistas e a memória de Francisco dos Santos (1878-1930), o primeiro português a jogar em Itália, foram publicadas entre 1992 e 1996 na Revista BOLA MAGAZINE que entretanto cessou publicação. Algumas delas foram mais sintéticas devido à falta de espaço mas todas apresentam o interesse do depoimento das diversas figuras públicas sobre a sua relação com o Desporto. Apenas dois aspectos: primeiro – algumas delas trazem anexos em verso e em prosa do entrevistado que muito enriquecem o conteúdo final; segundo – a partir destes textos é possível organizar um perfil do futebol em Portugal no século XX desde a memória de Francisco dos Santos em Roma na primeira década ao Eusébio da década de setenta aqui recordado por José Duarte passando pelo Mário Jorge dos anos oitenta e sem esquecer António Roquete que jogou nas década de vinte e de trinta além de Francisco José Viegas que recorda Madjer e Dinis Machado que lembra nomes dos anos 40, 50 e 60 como Araújo, Passos, Jesus Correia, Arsénio, Vasques, Travassos, Germano, Matateu, Jaime Graça, Hernâni, Águas, Humberto Coelho, Ian Rush, Yazalde, Carlos Gomes, Azevedo, Bento, Banks, Yashine, um nunca acabar de homens, de memórias e de mitos. Sem esquecer as motos de Eduardo Guerra Carneiro e as bicicletas de Lídia Jorge.

Um livro por semana 163

Outono Antonio Salvado Kousei Takenaka

«Outono» de António Salvado

António Salvado (n. 1936, Castelo Branco) é autor de 40 títulos de poesia e membro honorário da Associação Cultural Takenaka-Basho de Pintores, Poetas e Amigos do Japão.

O seu mais recente livro de 103 páginas integra poemas seus traduzidos por A. P. Alencart (castelhano) e An Oshiro (japonês) sendo cada poema acompanhado em página par por desenhos de Kousei Takenaka (n. 1950, Ishikawa).

O ponto de partida é o Outono («Outono. Como restam / ainda nesta árvore / as verdes ilusões?») e o ponto de chegada é a Morte: «A única ambição / consistiu em doar-se / (lê-se no epitáfio)».

No intervalo entre Outono e Morte fica um princípio para a Vida: «Entrego-te o segredo: / nunca o teu coração / trema perante a dor.»

Todo o percurso dessa Vida se revela oscilando entre Natureza («Há papoilas e espigas nos teus olhos: / o reflexo da breve pequenez / do silêncio da terra quando gera») e a Cultura que tanto pode ser a Escrita («São páginas e páginas / que tu foste escrevendo. / Porém pouco disseste») como pode ser a Música: «Cavos sons: os adufes / repercutem angústias? / meigos aprazimentos?»

(Editorial Verbum e Trilce Ediciones, Fotos: Jesus Formigo e Jacqueline Alencar)

Olhar o monte

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.
Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

Vinte Linhas 443

Luís Freitas Lobo – uma monstruosa mistificação

Autor de «Os magos do Futebol» (Bertrand Editora) Luís Freitas Lobo escreve a páginas 214 deste livro: «Peyroteo foi o grande goleador da década de 40. Nascido em Humpata, em Angola, no ano de 1918, chegou ao Sporting em 1937, com 19 anos, ainda no tempo do Campeonato da Liga, o último.»

A mistificação monstruosa está nisto: nunca houve Campeonato da Liga. As Ligas foram torneios privados, experimentais e particulares disputados entre 1934 e 1938 nos domingos deixados livres pela disputa do Campeonato de Portugal. Esse sim, esse é que atribuía o título de Campeão de Portugal. Explicando melhor: privados porque se entrava por convite. A Académica ficou duas vezes em último (1934/35 e 1935/36) mas foi convidada para os torneios seguintes. Depois experimentais porque se tratou de uma experiência nova em Portugal: um torneio em que eram atribuídos pontos por vitória ou empate. A tradição desde 1921 era os jogos serem a eliminar começando em 32 avos de final até à final. Tal aconteceu desde 1921 até 1938. Por fim particulares porque nada tinham de oficiais: as equipas entravam por convite da organização e as datas eram designadas nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal.

Acontece que os jornalistas do Benfica aproveitaram o facto de o Benfica ter vencido 3 desses 4 torneios para fingirem que não houve Campeonato de Portugal nesses anos e adicionarem assim mais três campeonatos à lista. Freitas Lobo, com aquele ar doutoral e enciclopédico não podia entrar nisto. Nesta monstruosa mistificação. Mas entrou. Tentei contactá-lo através do jornal A BOLA desde 3-11-2009 mas nada respondeu.

Um livro por semana 162

Cartas a Deus Phillipe Capelle

«Cartas a Deus» de Philippe Capelle

Com o subtítulo de «As mais belas orações cristãs» o volume reúne 207 orações com autores diversos desde São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Teilhard de Chardin, Lutero ou Calvino aos inesperados Shakespeare, Senghor, Beaudelaire, Dante, Verlaine, Rilke, Saint-Exupery, Kierkegaard, Miguel Ângelo ou Dostoiweski.

A oração é tão antiga como a relação do Homem com Deus; já o Evangelho de S. Marcos refere: «Tudo quanto pedirdes, orando, crede que o recebereis». O poeta Mário Cesariny considerava este um dos maiores poemas da Humanidade: «Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, / Vida, doçura, esperança nossa, salve! / A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. / Eis, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. / E, depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre. / Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!».

A mais bela, mais que oração programa de vida, será esta: «Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz. / Onde houver ódio que eu leve o amor. / Onde houver ofensa que eu leve o perdão. / Onde houver discórdia que eu leve a união. / Onde houver erro quer eu leve a verdade. / Onde houver a dúvida que eu leve a fé. / Onde houver desespero que eu leve a esperança. / Onde houver trevas que eu leve a luz. / Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. / Senhor, que eu não procure tanto consolar quanto ser consolado / ser compreendido quanto ser amado. / Pois é dando que se recebe, / esquecendo-se que se encontra, / perdoando que se é perdoado, / morrendo que se vive para a vida eterna.»

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Rochinha Digo, Tradução: António Maia da Rocha)