Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 469

Raul Brandão – aprende-se sempre com a História

Raul Brandão (1867-1930) não foi, nem nunca pretendeu ser, um historiador mas a verdade é que sem o seu livro «Vida e morte de Gomes Freire» não seria possível entender o estertor da monarquia absoluta em 1817. É nesse ano que Gomes Freire de Andrade (1757-1817) é enforcado e queimado em São Julião da Barra, sendo as cinzas lançadas ao mar. Mais tarde (1853) o governador da Praça de São Julião da Barra manda levantar um monumento em memória de Gomes Freire.

Relendo o livro «Vida e morte de Gomes Freire» com prefácio de Victor de Sá parei na página 111. Vejamos: «Vem então à tona, como sempre, a denúncia. Cartas anónimas para o intendente, cartas anónimas para D. Miguel Forjaz; mais cartas de gente que quer prestar serviços, mais papéis de gente que quer desfazer-se dum inimigo. É a vaza, é o costume secular, é a infâmia que sobe do fundo do charco e tolda tudo, suja tudo. Umas são reles, outras simplesmente ridículas. Um anónimo escreve que um Pedro Ferreira Mouro, morador defronte do Pátio das Vacas (Belém) «o combocou para ele com outros da sua fação combocase os meus amigos para fazer um lebantamento que nada lhes havia de faltar». Mouro não tinha nada em casa em Dezembro de 1816 morando na rua dos Cozinheiros e agora tem a casa bem movilhada, já puxa por peças». É «um fiel vassalo e portuguez verdadeiro» – a anónimo. Trata-se de uma carta anónima metida na caixa dos requerimentos de Francisco Leite, no Largo de S. Tomé em 29-5-1817.

Tudo isto que se passou em 1817 se repete melancolicamente quase duzentos anos depois: cartas anónimas, denúncias, infâmias, o lodo erigido como altar.

Vinte Linhas 468

Açores – Massa cevada não é massa sovada

Antigamente usava-se uma expressão curiosa nas Filarmónicas rurais da Estremadura de onde sou natural quando alguém se queria referir a um músico fracalhote: «Este só toca trompa e é de ouvido; não lê a pauta!»

«Tocar de ouvido» era apanhar assim «umas coisas no ar» e, como também se diz de alguém que lê mal os dossiers – «pela rama».

Tenho lido ultimamente coisas erradas que me parecem nascer da ideia de que se pode escrever «de ouvido». Tal como havia alguns músicos a tocar «de ouvido».

Vamos ao assunto: a Revista VIVER, editada pela Associação ADRACES (Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro – Sul) com sede em Vila Velha de Ródão, publica um artigo sobre o culto popular do Espírito Santo nos Açores. O artigo em causa, assinado por Maria Eduarda Rosa, contém o seguinte parágrafo: «Cinco Mordomas dos Rosais de São Jorge levaram cinco meses a criar 120 bandeiras de tecidos diferentes para enfeitar este carro de bois que levou o pão do Espírito Santo (Massa Cevada) para o Império, em local bem próximo».

Ora bem… É óbvio que massa cevada não é o mesmo que massa sovada. Basta ver a definição do dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Assim: «massa sovada – espécie de pão doce com ovos». Está na página 1002 do dito cujo dicionário.

O som de massa cevada (coisa que não existe) até é parecido com massa sovada (que eu comi em 1989 e cujo sabor não esqueço) mas coisas destas não devem acontecer. Sem esquecer que São Jorge é o nome de uma Ilha e Rosais o nome de uma freguesia.

Vinte Linhas 467

Abelaira na Wikipedia – quem foi o «artista» que fez aquilo?

Ouvi dizer: «Procura Abelaira na Wikipedia. Vais ter uma péssima surpresa!». E foi. Na biografia não há o til em Ançã nem o nascimento – 1926. Duas vezes na mesma frase usam a expressão «participou activamente» para mais à frente explicarem que se estreou «como autor de romances» com «o romance A cidade das flores». Grave é a afirmação de que, depois da década de 30, «passou a utilizar a ironia» ele que nasceu em 1926 e tinha 4 anos em 1930 publicando o primeiro livro em 1959. Depois não explicam que o júri da Sociedade Portuguesa de Escritores, que em 1965 premiou Luandino Vieira, integrava, além de Abelaira, Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca, Gaspar Simões e Pinheiro Torres. Mas falta dizer que Abelaira foi presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores, que foi colaborador de O Jornal, que o nome completo do Jornal de Letras é também de Artes e Ideias, que Abelaira é autor de textos teatrais como A palavra é de oiro, O nariz de Cleópatra e Anfitrião, outra vez além do livro de contos Ode quase marítima de 1978. O seu livro Enseada amena ganhou em 1966 o Prémio de Romance da Imprensa Cultural. Mas o ponto máximo do delírio é quando referem personagens com «aversão à política de esquerda» e «contra o Plano Marshall». Ora bolas! Então se para Caeiro da Mata «o meu país não precisa de ajuda financeira externa» e para Costa Leite (Lumbrales) «não interessa ao país enfileirar no número dos famintos do dólar» como pode este artista dizer que as personagens de Abelaira (1959) combatem o Plano americano quando essa ajuda só existiu até 1951 e se ficou em 54 milhões de dólares para créditos documentários do trigo da FNPT. Ora bolas!

Vinte Linhas 465

Assim não, senhora Ministra Dulce Pássaro

O gabinete da Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território acaba de publicar o seu Despacho nº 5185/2010 que começa por reconhecer uma evidência: «O rio Tejo é o maior rio nacional e um dos mais importantes da Península Ibérica.» Até aqui tudo bem. O Despacho cria um grupo de trabalho para a elaboração de uma proposta de plano estratégico de intervenção de requalificação e valorização do Tejo e nomeia três engenheiros – Pinto Leite, Manuel Lacerda e Ana Lopes. Até aqui tudo bem. Mas onde se borra a pintura é na constituição de uma comissão de acompanhamento: além de diversos técnicos cuja competência não está em causa, nomeiam-se representantes dos seguintes municípios: Abrantes, Alenquer, Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Constância, Golegã, Salvaterra de Magos, Santarém, Vila Franca de Xira e Vila Nova da Barquinha. Além destes 14 municípios não percebo qual a razão que levou o gabinete da senhora ministra a ignorar outros que também estão à beira do Tejo e á beira de afluentes importantes (e poluidores) do Tejo: Tomar, Torres Novas, Alcanena, Entroncamento, Vila Velha de Ródão, Mação, Alcochete, Barreiro, Montijo Moita, Almada e outros haverá. Estou a escrever sem recurso a livros. Poderia evitar-se esta confusão deixando os municípios de fora. Ficavam apenas os técnicos do Instituto da Água, do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade, os técnicos da CCDRA e CCDRLVT além do técnico do NERSANT mas escolher só 14 municípios ligados ao Tejo deixando de fora outros tantos não parece boa política. Anexo capa do primeiro livro que fala dos Avieiros em 1940 com o conto de 1938 – «A Leandra».

Museu da Cidade

Apenas duas palavras (ou quase) para avisar que está perto do final a exposição sobre figuras populares de Lisboa no Museu da Cidade, no Campo Grande. Já só podem visitar a dita exposição nos dias 30 e 31 de Março mas vale a pena. Personagens como a Madre Paula, o pai Paulino, a madame Villaret, as manas Perliquitetes, o galego Mateo Agustin, o Luciano das Ratas, a preta Fernanda, a peixeira Ilda Fernandes, a leiteira Albertina de Jesus e o arquitecto Victor Palla são algumas das figuras de Lisboa presentes nesta exposição. Vale a pena, só faltam dois dias.

Vinte Linhas 466

Maria Farandouri – memória de um poema

A propósito da Grécia lembrei-me da Maria Farandouri. Em 1981 dediquei-lhe um poema no meu livro «Inicias» e ontem passei uma hora a ouvir no Youtube as suas canções cuja memória ainda guardo: Pote, pote, pote, To palio roloi, Ligo akoma, Pios ti zoi mou, O kaimos, Menexedenia ta vouna, Z, To Yelasto pedi, O Antonis e Asma Asmaton. Canções quase todas com música de Mikis Theodorakis, ligando de modo mágico o som da sirtaki à sua poderosa voz de contralto.

O poema é este:

Desculpe que lhe diga mas gosto mais do disco

Não digo que não me emocione profundamente

Quando a vejo num palco a enfrentar a multidão

Mas o disco tem um som mais cuidadoso e belo

Você coxeia ligeiramente talvez devido às sevícias

Embora a sua palavra nada transmita dessa situação

Como se fosse possível esconder a longa noite

Por detrás da frescura da sua bela voz

Nesse tempo você não usava óculos como hoje

Na prisão em Zatouna você percorria o perímetro da lágrima

Hoje tenho comigo a dupla emoção de a ver

Pedindo-lhe desculpa por não saber escrever grego.

Vinte Linhas 464

António Carmo na Galeria Diário de Notícias

Foi ontem inaugurada a exposição de António Carmo (n.1949) intitulada «Percursos». A Galeria Diário de Notícias (Avenida da Liberdade 266 – Lisboa) que já foi Livraria e que tem as paredes decoradas com trabalhos de Almada Negreiros, recebe desta vez vinte peças (entre obras a cores e a preto e branco) deste pintor lisboeta com quadros expostos em vários países: Alemanha, Austrália, Brasil, Bélgica, Bulgária, Canadá, Checoslováquia, Cabo Verde, EUA, Espanha, Guiné-Bissau, Holanda, Inglaterra, Japão, Luxemburgo, Macau, Marrocos, Suécia, Suíça, URSS e Venezuela.

Um dos aspectos curiosos desta mostra diz respeito ao facto de algumas peças homenagearem o traço definidor, a marca indiscutível de pintores hoje clássicos como Gauguin, Magritte, Rubens, Velásquez, Miro e Matisse. Todos os quadros desta série apresentam o título de «No atelier com…»

Pessoalmente fiquei fascinado por ter encontrado nos desenhos a tinta-da-china da série «Leitura e Leituras» o António Carmo que todas as semanas recebia em 1982 das nãos de Jacinto Baptista textos de diversos autores e depois os ilustrava em casa, ali no Bairro Alto. Não havia telemóveis nem «mails» mas as pessoas contactavam entre si e as coisas prosseguiam. Esta série a preto e branco, estas cinco peças, recordam-me esses tempos de 1982 quando um jornal chamado «O Ponto» saía às quintas-feiras ali na Rua da Rosa. Quero recomendar a todos uma ida ali ao Diário de Notícias e envio um dos desenhos da série a preto e branco. Para quem ainda não conhece os frescos de Almada Negreiros a ida ao D. N. acaba por se tornar um dois em um com António Carmo.

Perícia

Manobrava o automóvel com perícia

Como num filme uma nave espacial

No Marquês havia o carro da polícia

Não evitou que ela chegasse triunfal

À Braamcamp que devorou com rapidez

A olhar o Largo do Rato em confusão

Sexta-feira, fim-de-semana, fim do mês

Mais dinheiro nos motores de combustão

Antes já passou sem vislumbre de medo

Na tão caótica Avenida Duque de Loulé

Sobre os comandos actuam sem segredo

As mãos e o hábil toque no pedal, do pé

Partiu veloz na direcção das Amoreiras

Atenta a manobras tão perto da loucura

Eu vi ao fim destas duras sextas-feiras

Apenas a perícia salva piloto e viatura

Belém – Porto Brandão

Nas pequenas viagens pode haver a saudade das grandes rotas.

Sombras, soldados, frades, caravelas perdidas, um império.

Ao fim da tarde jovens de calções enchem o barco, trazem ruidosos leitores de cassetes, quase não falam, beijam-se para que todos saibam.

Transportam o sal do mar e vão chegar a casa muito tarde.

Alguém cuidará do jantar. Há, pelo menos essa certeza.

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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental» (1987)

Fotografia de António Brito

Vinte Linhas 463

Rute – dissertação breve sobre o teu nome

O teu nome hebreu ilumina dois sentidos: quer dizer «a amiga» mas, por metáfora, significa «a acumulada de bens». É um nome cheio de beleza. Rute.

Na Bíblia, o livro com o teu nome revela uma sociedade agrícola: entre sementeiras e colheitas, entre servas e ceifeiros, entre bilhas de água e paveias de cevada.

Rute, a Rute da Bíblia, entra no campo de Booz e vai recolher espigas atrás dos ceifeiros. Ela é a respigadora. Ao fim do dia debulha as espigas e junta quase um efá de cevada. Um efá são 30 litros. Nesse tempo não havia alqueires.

Booz era rico, tinha terras e servos. Quando disse ao supervisor para deixarem Rute respigar à vontade sabia que na cidade de Belém a tinham na conta de mulher de valor. Rute era estrangeira, veio do planalto a oriente do Mar Morto com sua sogra Noemi («minha doçura») que queria ser Mara («amargura») pelas lágrimas derramadas entre os campos de Moab e as muralhas de Belém, no regresso. Rute, a moabita, é a sombra de uma história: sendo uma estranha passa a elemento-chave na genealogia de David. Rute torna-se então semelhante a Raquel e a Lia, duas paredes da Casa de Israel.

Porque Rute foi a avó feliz do rei David, o filho de Jessé, filho do seu filho Obed. Rute nunca desistiu de respigar. Perdido o primeiro marido, não parou nas lágrimas e decidiu descer à eira de Booz: tomou um longo banho, perfumou-se e escolheu os seus melhores vestidos. Há no teu nome o peso duma história e a força de um exemplo: quando respigas recibos e facturas, notas de crédito e balancetes, é como se segurasses nas tuas mãos um efá de cevada na eira de Booz a caminho da tua casa na cidade de Belém.

Vinte Linhas 462

Dia Mundial da Poesia e depois?

Acabo de ser convidado para um evento poético na Ericeira e recebo do Brasil o livro «O que poesia?» organizado pelo poeta Edson Cruz e editado pela Confraria do Vento e pela Calibán. 45 Poetas responderem neste livro à pergunta «O que é poesia?».Uma pergunta, quanto mais ingénua e simples, mais difícil de responder. Aqui há tempos na nota de leitura de um livro de José Mário Silva recordei uma frase de Camilo Castelo Branco: «A poesia não tem presente; ou é esperança ou saudade». Descobrem-se aqui ideias novas quando parece que tudo já foi dito. Bárbara Lia (n.1955) por exemplo afirma: «A poesia é universal mas cada poeta é único». Já Cláudio Daniel (n.1962) lembra Jorge Luís Borges («a poesia vem da poesia») para apelar à leitura incessante e define a poesia como a «deslocação entre perplexidade e descoberta, incerteza e encantamento». Para Cláudio Willer (n.1940) «a poesia é uma aventura, um modo de expressar a imaginação e de expressar a paixão. Uma operação sobre a linguagem. Uma experiência de liberdade e também de possessão.» Para concluir as palavras de Nicolau Saião (n.1946): «A poesia nada tem a ver com a literatura, essa que os aproveitadores ou os simples falsários erguem (como se ergue um bloco de apartamentos) e que depois habitam com todas as vantagens que em geral esse tipo de gente artilha. A poesia pode ser, e muitas vezes é, uma maldição ou uma incursão no mistério ou uma aventura no mal ou uma naturalidade doméstica… Mas nunca um sujeito de literatura como infelizmente certa gente medíocre ou primária mas altamente colocada sectorialmente no país que melhor conheço (Portugal) pretende incutir nas gentes.» E continua…

Um livro por semana 176

«A torre» de Baltazar de Matos Caeiro

A Torre de Matos é uma torre de atalaia militar anterior à nossa nacionalidade. O seu nome deriva dos extensos matos que a rodeavam e desde o século XIV passou da família Matos para a família Pinto até aos nossos dias. Nela situou Eça de Queirós a acção de «A Ilustre Casa de Ramires» em homenagem ao filho de Ramiro II de Leão, D, Alboazar Ramires. No último quartel do século X era esta a vida na região da Torre: «as fronteiras mudavam constantemente, flutuando a bel-prazer de belicosos reis cristãos, arrogantes condes, sanguíneos emires e ambiciosos califas, levando a combates renhidos com destruição de aldeias, inutilização de colheitas, destruição dos campos. Sucediam-se, assim, os fossados e as cavalgadas dos fronteiros para sul e as algaras muçulmanas que de rompante iam até ao curso do Douro».

A paixão infeliz do cristão Tedon pela moura Ardínia, filha do alcaide Alboacém de Lamego, acabou com a morte de ambos, executada por quem não aceitava as ligações entre mouros e cristãos: «Há muitos interessados para que as coisas corram mal entre os dois povos e se mantenha a guerra». Entre as diversas lutas e aventuras à volta desta Torre, cujo brasão vai terminar em Castelo de Vide, bem longe do Douro, só uma coisa fica imutável: «A vida na época era essencialmente pensada para a guerra e passada na guerra, quer pelo medo relativo que todos e principalmente os grandes senhores sentiam uns pelos outros, cujos limites eram frequentemente desrespeitados, quer pelo chamamento às Cruzadas contra os infiéis, fosse na própria terra, fosse na Terra Santa».

(Editora: Plátano, Prefácio: João Malta, Capa, design e paginação: José Maria Pires)

Vinte Linhas 461

Alexandre Herculano no bicentenário do seu nascimento

Alexandre Herculano (1810-1877) foi uma figura de escritor que sempre me fascinou. A biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa tem uma sua bibliografia seleccionada em mostra patente ao público até ao dia 31-3-2010 entre as 10 e as 13 e das 14 à 17 horas no seu edifício ali mesmo ao lado do Coliseu dos Recreios.

Um dos meus mestres no jornalismo – Jacinto Baptista – dedicou muito do seu estudo à obra de Alexandre Herculano nomeadamente à faceta de Herculano jornalista. Citava de cor uma frase de Raul Brandão sobre o labor de Herculano na História: «a seriedade, a obstinação, o amor à terra, ao azeite e ao pão…»

Mais tarde, jornalista na redacção de O MIRANTE em Santarém, li com prazer um trabalho muito completo de Jorge Custódio sobre Herculano agricultor e sobre os seus trabalhos para apurar a fabricação do azeite de modo a que ele deixasse de ser apenas elemento de iluminação nas candeias das cozinhas das nossas casas portuguesas.

Há nesta mostra da Sociedade de Geografia diversos livros com muito interesse para quem queria descobrir algo mais sobre Herculano. São seus autores: Cândido Beirante, Luciano Cordeiro, António Enes, David Lopes, Bulhão Pato, Carlos Portugal Ribeiro e Rebelo da Silva, entre outros. Há também obras colectivas.

A biblioteca tem outros livros disponíveis sobre Herculano, nomeadamente dos seguintes autores: Fortunato de Almeida, Pinheiro Chagas, Teófilo Braga, António Barata, Anselmo de Andrade, Alfredo Pimenta e Vitorino Nemésio.

Vale a pena ir visitar a exposição de Herculano à biblioteca da Sociedade de Geografia.

Um livro por semana 174

«Sabores de África» de Conceição Santos

A Gastronomia tem muito a ver com a Literatura – ambas nascem de uma alquimia. Não por acaso a Revista Ler nº 89 deste Março de 2010 dedica um espaço significativo a textos, memórias e ideias de Maria de Lourdes Modesto, Alfredo Saramago, Marguerite Duras, Fialho de Almeida, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Bento dos Santos, Brillat-Savarin, José Quitério e Francisco José Viegas – entre outros.

O que este livro nos dá em 126 páginas de receitas e 2 de vocabulário é uma grande viagem à cozinha tradicional de Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Vejamos, como exemplo, um prato de peixe, o Polvo à São Tomé: «para 4 pessoas juntar 1 polvo fresco, 250 g. de cebola, 250 g. de tomate maduro, 1 pitada de vinagre, ½ chávena de óleo de palma, louro, picante q.b. e sal q.b.; depois leve ao lume o óleo de palma, a cebola e o tomate picados, a folha de louro, o picante e o polvo amanhado e cortado aos bocados. Deixe cozer em lume brando e vá mexendo de vez em quando para não se pegar. Se necessário vá juntando um pouco de água da cozedura do polvo. Depois de cozido adicione o vinagre. Deixe ferver com a vasilha tapada, para apurar. Rectifique os temperos. Sirva com papas de mandioca ou com arroz branco».

A partir deste apetitoso exemplo é só partir à descoberta dos outros pratos. Bom apetite!

(Edição: Porto Editora, Capa: Hugo Andrade, Fotos: Mário Santos, Imagem Capa: Masterfile Portugal)

Vinte Linhas 460

Fotografias de Joe Fernandes na Fabula Urbis

Até ao dia 31 de Março podem ser vistas na Fábula Urbis (Rua Augusto Rosa 27) uma livraria atrás da Sé de Lisboa as 21 fotografias sobre a cidade de Lisboa deste fotógrafo com vínculos a Portugal e à Inglaterra.

Ao longo do tempo Joe Fernandes viajou por e fotografou em vários países: Irlanda França, Bélgica, Itália, Espanha, Noruega, Polónia, Roménia, Bulgária, Chile e Índia.

Estudou técnica de fotografia na Universidade de Brighton e estes 21 trabalhos são apenas uma pequena amostra do seu material acumulado ao longo dos anos.

Neste conjunto percebe-se que o seu olhar se demorou em pormenores de uma Lisboa que parece estar a desaparecer. Mas resiste com teimosia ao cilindro normalizador.

Por exemplo há três fotografias de mulheres a lavarem a roupa em tanques públicos. O excelente bacalhau da Islândia da Manteigaria Silva na Rua D. Antão de Almada 1-C ao Rossio, surge com algum destaque. O velho Animatógrafo do Rossio também faz parte da recolha em exposição. Outras fotografias contemplam as drogarias, as padarias, as frutarias, as casas de carimbos, as capelistas que ainda vendem estampilhas postais, os bolos, os vinhos finos, as conservas em lata, as leitarias e as floristas.

É todo um mundo que ainda resiste aos avanços das novas tecnologias, lojas onde ainda existe o contacto humano e humanizado, onde a velocidade das máquinas e a técnica impessoal das pessoas não ganharam espaço nem ganharão nos próximos tempos.

Para mais pormenores o contacto na Internet da Livraria é www.fabula-urbis.pt e o mail é o seguinte fabula-urbis arroba fabula-urbis.pt

Balada da casa de Ermelinda

Casa que é um museu
Baixo-relevo, escultura
O jantar aconteceu
Numa mesa de ternura
Pinacoteca no armário
Brasil, Tailândia, China
Com Tomás no calendário
Toda a paixão é rotina
Na biblioteca diferente
Um sentido profundo
Livros, Extremo Oriente
Outra visão do Mundo
Veio o vinho de Azeitão
Para festejar iguarias
Entre o queijo e o pão
Não é em todos os dias
Na cabeceira da mesa
No centro da liturgia
Avó Mam sem surpresa
Num ritual da alegria
Entre copos e talheres
Toalha nova estreada
Voz de cinco mulheres
Fez a minha voz calada
Casa à prova de bulício
Bem perto do Regueirão
Os Anjos fogem do vício
Entre o passeio e a pensão
Onde Indianos, Chineses
Fecham tarde o estaminé
Já há poucos portugueses
Junto à porta dum café
Casa do Mundo, alegria
Trazida pelo teu olhar
Se começou em Leiria
Não diz onde vai parar
Trouxe um antigo postal
Terreiro do Paço, parada
O coração de Portugal
Respira sem dar por nada

Um livro por semana 175

«Fragmentária mente» de Manuel Barata

Neste seu terceiro livro de poemas Manuel Barata (n. 1952) não se afasta das linhas dos anteriores volumes de 2003 (Quadras quase populares) e de 2005 (Fragmentos com poesia). Junta Natureza e Cultura. No poema Junho recorda a terra onde nasceu: «Nas manhãs de Junho / Quando o sol tudo doirava / A nossa casa era também / A sombra da oliveira / Do outro lado da rua». Mas em vez da mãe pode ser a avó: «Muito erecta em seu balcão / De cores tristes vestida / Cantava toda a manhã».

Noutros poemas surgem citações e leituras de autores tão diversos como Jorge Luís Borges, António Machado, Paul Éluard, Manuel da Fonseca, Ferreira de Castro, Gil Vicente, Bernardo Santareno, Cesário Verde, Adília Lopes, José Gomes Ferreira, Herberto Hélder, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Bocage, Miguel Torga, José Antunes Ribeiro, António Nobre, António Osório e D. Dinis.

Enquanto lê a poesia culta o autor sente o fascínio da quadra popular: «A tristeza de uma vida / Pode ficar registada / Numa quadra comovida / Quatro versos, quase nada».

No entanto a sua escrita contém e articula uma revolta proclamada com todas as letras: «Pertenço a uma geração / Que tudo deu à pátria / E da pátria só agravos recebeu. / Nasci sob a pata e a bota / Do déspota de Santa Comba; / A Angola fui parar / Longe da pátria e dos meus; / e lutei pela democracia / E por uma pátria fraterna. / Rapazes de cueiros dizem agora / Que gozo de muitos privilégios. / E eu digo (lhes) livremente: / A puta que os pariu! / A puta que os pariu!»

(Edição: Edições Alecrim, Capa: Hugo Feio)

Vinte Linhas 458

A pedrinha no cais ou Dissertação para o esplendor de uma voz de mulher

Da Semana da Cultura Açoriana retive o Café Concerto de Zeca Medeiros, os «25 anos de Música Original nos Açores» com Rafael Fraga e a Orquestra Regional Lira Açoriana dirigida por António Melo com as violas da terra de Ricardo Melo e Rafael Carvalho e a voz de Ana Isabel Medeiros. Num concerto que se iniciou na massa sonora de Steven Reineke com «A Montanha dos Dragões», a voz de Ana Isabel Medeiros trouxe ao palco do Teatro São Luís toda a força da Terra. Mais do que Terra, a força do Mundo. Um Mundo de contrastes, entre matizes de verde, estradas desenhadas a compasso, lagoas com silêncio em vez de água, animais pacientes e vagarosos na sua indústria de ser, a alegria das festas e do encontro, a música das procissões nas ruas das freguesias e das cidades, as grandes orações que não precisam de palavras.

Naquele fim de tarde em Lisboa, a voz de Ana revelou, para todos nós, um volume intenso, um timbre diferente, uma altura inesperada, um som redondo e feliz a misturar os rumores da terra aos ventos do céu. E a luz do Sol a fecundar as searas ao lado da noite escura que traz a chuva no Inverno de cada dia. Entre a massa sonora da orquestra e a pontuação sentimental das duas violas da terra, a voz de Ana trouxe, ao fim da tarde de Lisboa, um arquipélago de sons, uma tempestade de clamores, uma capela onde cada sílaba da oração é desenhada pela respiração da voz na gramática das canções. Ficou uma pedrinha no cais. Um sinal. O palco do São Luís foi um santuário onde os peregrinos foram felizes porque uma canção, tal como uma oração, pode ligar de novo dois universos separados pela morte, pelo tempo e pelas emboscadas do esquecimento.

Vinte Linhas 459

Futebol – em 2010 a pensar em 1966

Uma das vantagens que retirei do convívio regular com alguns antigos jogadores de futebol foi ter apreendido uma outra versão das coisas do futebol. Entre 1988 e 2006 convivi de perto no Sporting Clube de Portugal com Pedro Gomes, Mário Lino, Fernando Mendes, Hilário, Carvalho, Vítor Damas, Osvaldo Silva, Jesus Correia, Travassos, Vasques, Aurélio Pereira e Rui Palhares. No Benfica convivi com Rui Rodrigues, Bastos Lopes, Chalana, Jaime Graça, Toni, José Henriques, Bento, Humberto Coelho, Néné e António Carraça. Entre outros. Elas sabiam e sabem as coisas que, por norma, não aparecem nas páginas dos jornais. Por exemplo o caso do Campeonato do Mundo de 1966. Para quem sabe e lá esteve, tudo aquilo foi possível porque nesse ano de 1966 o campeão nacional foi o Sporting Clube de Portugal e o vencedor da Taça de Portugal foi o Sporting de Braga. Isso conduziu a uma situação em que os jogadores do Benfica estivessem mais descontraídos nesse Verão de 1966. O ataque da selecção nacional era o ataque do Benfica – José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. Em termos mentais eles estavam melhor do que os outros jogadores que disputaram palmo a palmo tanto o campeonato nacional desse ano como a Taça de Portugal. Em 1966 eu tinha 15 anos e vibrei com as reportagens dos jornais. Inesquecíveis as crónicas de Carlos Pinhão em Manchester e em Londres. Vibrei com a carreira da equipa portuguesa em 1966 mas só muito mais tarde percebi a verdadeira razão pela qual tudo foi possível. Num ano de Mundial vale a pena lembrar esta memória de quem sabe do assunto porque andou lá dentro das quatro linhas.