Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 208

«História, Cultura e Desenvolvimento numa Cidade Insular» de Carlos Lobão

O subtítulo («A Horta entre 1853 e 1883») tem uma justificação imediata: em 1853 abre o Liceu da Horta e em 1883 surge o jornal «O Açoriano». Carlos Lobão não procurou apenas a vida dos notáveis locais – Manuel Joaquim Dias, José Garcia do Amaral, Manuel Zerbone, Florêncio Terra, Manuel Garcia Monteiro e Padre Manuel José de Ávila – mas também fez a aproximação a um conjunto de associações: o Teatro União Faialense, a Filarmónica dos Artistas, a Sociedade Amor da Pátria, o Asilo da Infância Desvalida e os jornais O Incentivo e O Faialense. É no entendimento entre os vultos locais e as diversas associações culturais, recreativas e filantrópicas que se combatem os problemas da maior cidade pequena do Mundo: o isolamento, os transportes, a pobreza, as crises cíclicas na agricultura, a mendicidade, as crianças abandonadas e em perigo, o medo do recrutamento, a emigração.

Cidade aberta ao Mundo («Praticamente todos os países têm aqui cônsules») recebe a ajuda semanal de Mr. Dabney: «Deparei com cerca de setenta mulheres pobres sentadas em frente do escritório do cônsul americano, cada uma recebia um subsídio semanal». O jornal O Açoriano em 1883 escreve com desassombro: «Uma pessoa que chegue aqui de fora pela primeira vez, há-de fazer de nós uma ideia pior do que a que merecemos».

Nas 300 páginas do livro que se lê como um romance porque é também uma narrativa, a investigação circula entre a amnésia do excesso e a amnésia da ausência mas sempre numa certeza: para repetir o que já se sabe não vale a pena o estudo da História.

(Edição: Núcleo Cultural da Horta, Prefácio: Carlos Cordeiro, Apoios: Direcção Geral da Cultura e Davide Marcos)

Vinte Linhas 50

Uma baleia azul na minha mesa

A mulher-menina que nasceu na Ilha Azul acendeu o primeiro cigarro não reparando sequer no aviso inscrito no maço – «Fumar mata». O jantar era uma festa e a ementa, não podendo incluir nem alcatra nem alfenim, foi mesmo assim, uma delícia começando com um rolo de carne com espinafres e acabando num fresquíssimo cheese cake. A nuvem de fumo circulava entre nós e criava um espaço de sonho num lugar convencional, um restaurante do Bairro Alto em Lisboa. Era como se de repente estivéssemos num filme e aquele fumo fosse afinal o fumo dos grandes vapores que nos anos cinquenta demandavam a Horta («a mais bela pequena cidade do Mundo» – como diz o poeta) para carregar carvão e adquirir demais aprestos marítimos necessário à navegação do alto mar. A mulher-menina que nasceu na Ilha Azul acendeu o segundo cigarro desprezando de novo os avisos prudentes do maço de tabaco: «Deixar de fumar reduz os riscos de doenças cardiovasculares e pulmonares mortais». E mais; colocou entre nós uma baleia azul que circula entre os pratos, os telemóveis desligados e os talheres. A baleia viaja num isqueiro onde surgem 14 letras – Peter Café Sport. A mulher-menina que nasceu na Ilha Azul acendeu o terceiro cigarro e rejeitou os elogios sobre a sua forma física (não envelhece nem engorda) recorrendo a um conceito inesperado: «Ai eu, por trás Liceu, pela frente Museu!». Não estamos de acordo e a baleia azul, do isqueiro do Peter Café Sport, também não. E o bilhete de identidade, se pudesse falar também não. E o cigarro com mãos ternura que tabaco, também não. Porque esta mulher-menina continua, afinal, no Liceu da Ilha Azul de onde nunca saiu.

Vinte Linhas 556

Proença-a-Nova – Para acabar de vez com a Cultura ou quase

A fotografia de Armindo Alves dá uma ideia aproximada do esplendor da beleza da praia fluvial do Malhadal. Fica no concelho de Proença-a-Nova, no centro do País, à beira do IC8, no intervalo entre a A23 e a A1. São duas horas de viagem tanto de Lisboa como do Porto. O Grupo Folclórico e Etnográfico dos Montes da Senhora veio no dia 25-11-2010 a Lisboa divulgar a sua música e as suas danças mas também a sua gastronomia: trouxeram filhós, laranjas, limões e medronhos mas também jeropiga, ginja e licores diversos. Até aqui tudo bem mas depois daqui tudo mal. O anúncio na Net referia o Cais do Sodré como ponto de encontro e local de exibição do Grupo Folclórico e Etnográfico. Começaram as bolandas: do Cais do Sodré para a Alameda e da Alameda para São Sebastião. Mas logo por azar (seria?) foram colocados no lado da estação que dá para a linha vermelha mas não no cruzamento com a linha azul. Assim só ouviram a música e só provaram os acepipes da Beira Baixa os passageiros que entraram do lado oposto à linha azul – que por acaso dá para o Bairro Azul. Com o estoicismo que lhes é peculiar, os dançarinos, os músicos e os cantores lá aguentaram a trapalhada e as bolandas. Quem resiste ao calor tórrido do Verão e ao gelo abaixo de zero do Inverno, entre pinheiros e pedras, numa paisagem agreste, também aguenta as baldrocas de uma organização a Metro que mais parece a centímetro. Claro que a ver e a sentir estiveram os que puderam estar, os telemóveis não pararam mas poderia ter sido uma festa. No sentido de intervalo colorido num quotidiano cinzento e sempre igual. Parece que há cada vez mais gente a querer acabar de vez com a Cultura. A Metro.

Um livro por semana 207

Inácio Rebelo de Andrade (n. 1935) assinou em 1998 o livro «Quando o Huambo era Nova Lisboa». Este volume recente inclui uma série de 82 fotos de Angola, 82 memórias comentadas e, num certo sentido, continua o livro anterior. Há nestas 190 páginas não apenas a paisagem mas também o povoamento.

De um lado a geografia da terra: «Não há sol como o de Angola: amarelão, redondão, gordão, faiscante sobre a terra e sobre o mar, que aquece o corpo e conforta a alma. Quem teve o privilégio de ver esse sol um dia não o esquecerá jamais».

Do outro lado a história: «Era o costume: numa terra onde os negros predominavam, os brancos é que davam nome às ruas, às avenidas, aos largos, não importa a que lugar público homenageando com isso os patrícios importantes do Puto. Havia assim a Rua Serpa Pinto, a Avenida António Barroso, o Largo Maria da Fonte, etc., etc.».

No intervalo entre paisagem e povoamento fica a viagem que o próprio livro constitui: «Naquele tempo as estradas de Angola eram de terra batida e havia rios sem pontes entre as margens. Chegava-se lá, podia ter-se a sorte de a jangada estar já à espera – e era então meter aí a viatura, imobilizá-la com a caixa de velocidades e o travão de mão, caçar-lhe bem as rodas e iniciar a travessia».

(Edições Colibri, Capa: Francisco Amorim, Revisão: Maria Villanova)

Balada para uma tarde cinzenta

Lisboa, chave do Mundo
Em teus olhos fotografado
Barco a perder-se no fundo
Onde o mar fica a teu lado

Na memória da carreira
Com destino para Goa
Uma canção derradeira
Na despedida a Lisboa

Se levanto a minha voz
E a junto à tua paisagem
Não sei de milhas ou nós
Mas quero ir na viagem

Nesta cinza prolongada
Entre Lisboa e Cacilhas
Memórias de quase nada
Barcos e nomes de ilhas

Na tarde que não existe
Fora da folha e da escrita
O tempo fica assim triste
Lisboa está sempre bonita

Lisboa, chave do Mundo
Porto de me sentir seguro
Foto que dura um segundo
Entre o passado e o futuro

Entre a cidade e a memória
Entre sons quase perdidos
No teu olhar leio a História
E percebo os seus sentidos

No meio do nevoeiro
Digo-te adeus por sinais
Passavas no Limoeiro
Já chegaste aos Olivais

Vinte Linhas 555

A lengalenga da intervenção estrangeira é a mesma; só mudam as datas

No livro «A escola do paraíso» de José Rodrigues Miguéis a página 172 regista o desabafo de uma senhora (Leonor de Mendanha e Serrano) sobre a intervenção estrangeira nestes termos: «Que desgraça, que grande desgraça! Nem quero ver ninguém… Esta nação está amaldiçoada! Maçons, carbonários e aquele assassino do João Franco! Sua majestade a rainha… e agora o Dom Manuel, coitadinho, uma criança a governar esta piolheira… Que vai ser disto, que vai ser de todos nós? E que fazem os ingleses? Porque é que esses traficantes não mandam cá dois cruzadores para arrasar isto, meter esta choldra nos eixos, fuzilar a canalha? Porquê? Isto só vai com uma intervenção estrangeira!»

Até pelo nome se percebe de que lado está a senhora que diz isto em 1908, no rescaldo do regicídio. Quando se refere a João Franco chama-lhe «o Judas, o culpado, o Xuão» e diz que «foi ele que os entregou indefesos à canalha». Claro que a dita «canalha» também podia ter voz e queixar-se do analfabetismo, da miséria, do não desenvolvimento industrial e comercial, da falta de comunicações dentro do país e do país para o estrangeiro, da mediocridade reinante. Seria outro romance escrito por outra pessoa, do outro lado da barricada. Mas o mais curioso é a repetição do discurso a apelar à intervenção estrangeira. Passados cem anos a lengalenga repete-se, tal como foi expressa em 1908. E já tinha sido antes, noutras situações. O livro tem muitos pontos de interesse mas este apelo à intervenção de fora é mais um deles.

Hoje como ontem há quem o repita.

Um livro por semana 206

«Percurso de um sonhador» de João Luís Pereira Maurício

O padre Fernando Maurício (1928-1963) foi um sonhador que morreu muito novo num acidente rodoviário com apenas 35 anos. Nasceu na Benedita; seu pai foi João Maurício natural de Santa Catarina e sua mãe Isabel Bernardina, natural da Ribafria. Conheceram-se na apanha da azeitona em Turquel. Ordenado sacerdote na Sé de Lisboa em 29-6-1952, festejou a Missa Nova em 13-7-1952 na Benedita. Foi amigo do padre Felicidade Alves com quem teve longas conversas sobre a Igreja em Portugal. Esteve na capital italiana entre 1953 e 1955 enviado pelo cardeal Cerejeira apesar de Salazar advertir «os padres que vão a Roma voltam de lá com uma vontade louca de mexer na política». Visitou vários países: Alemanha, Inglaterra, Áustria, Espanha e França.

Em 2-2-1962 fixou-se em Alcácer do Sal no santuário do Senhor dos Mártires onde, com o seu Instituto Regnum Dei constatou que era preciso «retomar a ideia de missão» pois «a Igreja perdera a classe operária». A experiência durou até 1970 e sobre ela afirmou o padre António Marcelino: «É possível questionar as ideias do Pe. Fernando Maurício mas não é possível pôr em causa o seu grande amor à Igreja».

Precursor de alguns aspectos do Vaticano II, tinha a ideia de ver os alunos dos seminários, findos os cursos, colocados como auxiliares dos párocos em sistema rotativo, primeiro em Lisboa, depois numa vila e, por fim, no meio rural. Só após esse estágio tomariam a decisão de serem ordenados».

Mas não teve tempo. Morreu quando ia buscar flores para uma celebração eucarística.

(Edição do Autor, Capa: Maria Augusta Sousa, Notas de contracapa: D. Serafim Ferreira e Silva, D. António Marcelino, Dr. Almerindo Lessa)

Um livro por semana 205

«Henrique Mota – Atleta, Treinador, Dirigente e Escritor Almadense»

A chamada história local está na ordem do dia pois cada vez mais as comunidades percebem ter o direito ao conhecimento da sua história. No caso de Henrique Mota (1920-2001), trata-se de recuperar a memória do atleta, treinador, dirigente e autor dos quatro volumes da série «Desportistas Almadenses», dos «Contos Desportivos», das memórias «Memorando» e «Personalidades Cacilhenses» além de «Ginásio do Sul – 75 anos de glória». A sua obra tornou-se uma indispensável enciclopédia desportiva do concelho de Almada porque, segundo Romeu Correia, «sem este curioso e oportuno trabalho corríamos o risco de não sabermos no futuro o que foi a prática desportiva em Almada e até as modalidades praticadas por alguns dos seus mais destacados atletas».

Nascido em Mafra mas radicado em Almada, Henrique Mota, a par do atletismo, também jogou futebol, rugby e voleibol no Ginásio Clube do Sul onde se tornou presidente da Direcção em 1949 com apenas 28 anos de idade. Em 1994 foi um dos fundadores da SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada. Completam o livro os contos premiados no concurso literário Henrique Mota, dos autores Cláudia Guerreiro Martins, José Luís Tavares, Luís Alves Milheiro, Artur Vaz, Henrique Costa Mota, Jorge Gomes Fernandes, Jorge Moreira da Silva e José Nogueira Pardal.

(Edição: SCALA, Apoio: C. M. Almada/Ginásio Clube do Sul, Coordenação: Luís Alves Milheiro, Prefácio: Fernando Barão, Revisão: Diamantino Lourenço)

Vinte Linhas 554

Conversa de autocarro ou «isto anda tudo ligado» de Eduardo Guerra Carneiro

Venho agora da Rua do Salitre, fui marcar uma consulta para o meu cunhado nos Diabéticos mas só para o fim de Fevereiro do ano que vem. A minha sobrinha, a que está à espera de bebé para Abril, soube hoje que é outro rapaz. Tá conformada, gostava que fosse uma menina mas a ecografia não admite dúvidas. Pronto, que venha perfeitinho, é o importante. Quando nasceu a minha sobrinha mais nova em 1985 a senhora da cama ao lado da minha cunhada passou a noite a suspirar pelo menino, metia dó, parecia drogada e foi a minha cunhada que lhe deu de mamar algumas vezes. A filha dessa senhora, muito querida, aí com uns oito anos, dizia que a menina tinha três mães: a mãe do Céu, a mãe e a senhora da cama ao lado. Mas veja lá a minha cunhada andava desorientada com umas saloias que a enganaram. Vieram com falinhas mansas, exigiram a Internet em casa, ela gastou algum dinheiro com isso e foram-se embora sem pagar a factura. Agora está lá a box às moscas. Abalaram porque receberam uma bolsa de estudo mas não avisaram que estavam à espera. Se fosse assim não deviam ter insistido com a Internet. Isto é uma maneira de falar. Aquilo é gente com dinheiro mas elas recebem bolsa de estudo; portanto penso eu que o dinheiro que falta para os Diabéticos é o mesmo que está a mais nas bolsas de estudo das saloias. Saloias somos nós, vizinha. Agora ela já está a bordar fraldas e babetes em azul. Distrai-se mas não se esquece. Isto anda tudo ligado – dizia o poeta que morava aqui ao Príncipe Real. O Orçamento Geral do Estado é o mesmo. Já a minha sobrinha mais nova tinha um colega com bolsa de estudo que era o único a usar automóvel. Isto é uma maneira de falar.

Vinte Linhas 553

Memórias de Irene Lisboa em Arruda dos Vinhos

No sábado passado fui a Arruda dos Vinhos integrado no Grupo da Associação Cultural Aldraba. Recebidos por Paulo Câmara, o homem da cultura no Município local, tivemos nele um cicerone qualificado na visita à Igreja Matriz. Mostrou tudo além do portal manuelino e lembrou a mão em falta (da imagem da padroeira) que foi para a Índia com um dos governadores-gerais, natural destas terras. Seguiu-se um passeio pelas ruas estreitas do centro urbano, escolas, casas, lagares de azeite desactivados, muros e pedras envelhecidas, silenciosas e anónimas. Depois fomos à Biblioteca Municipal de Arruda e almoçámos muito bem no restaurante Nazareth. Muito boa comida e excelente cenário. Seguiu-se a visita à Adega Cooperativa de Arruda onde provámos um magnífico vinha abafado. Mas no regresso a Lisboa pela nova auto-estrada vim sempre a pensar no livro «Esta cidade!» de Irene Lisboa, autora nascida no concelho de Arruda no ano de 1892. Há a edição moderna da Presença mas tenho à mão as palavras da página 35 desta edição de 1942: «Neste meio tempo veio ao mundo o terceiro neto da Adelina. A mãe tinha estado tão mal do último desmancho que teve medo e deixou ir para a frente esta barriga. Foi um rapaz e o pai que já tinha duas raparigas ficou todo contente. Quando a Adelina foi a minha casa deu-me parte destes casos e disse-me que o genro queria agora receber a sua Isilda; como ele era desvorciada…e que depois iam à terra. Parece que os bimbos dão lá muita importância a estas coisas! E acrescentou: a mim serviu-me de muito ser arrecebida… Fiquei com uma filha nos braços e um tostão na gaveta da cozinha. Nunca mais me hei-de esquecer! Nem mais um real».

Vinte Linhas 552

Rouslam Botiev no Palácio da Independência até 30 de Novembro

O cavaleiro da Mongólia voltou. Nasceu em 5-5-1963, estudou filologia, escultura e pintura em Rostov e S. Petersburg mas vive em Portugal desde 2002. Habituei-me a vê-lo aos domingos de manhã com os seus pequenos desenhos em aguarela debaixo da sombra do elevador de Santa Justa. Mais tarde passou para a basílica dos Mártires. Quando chovia tapava os trabalhos com sacos de plástico. Aprendi a vê-lo e a respeitá-lo. Não por acaso a nossa saudação passou a ser «Bom dia Portugal!», título de um dos seus quadros quando olhava Lisboa do comboio da ponte.

Hoje é com alguma emoção que percorro o espaço povoado pelas suas 21 aguarelas no Palácio da Independência, ali ao Rossio. Abre a exposição com quatro figuras de religiosos: dois monges (Beneditino e de Cister) e dois frades (Dominicano e Franciscano). Segue-se uma viagem de Norte a Sul pela paisagem religiosa portuguesa: Tibães, Felgueiras, Coimbra, Tomar, Fátima, Alcobaça, Batalha, Mafra, Lisboa, Évora. O mesmo é dizer um outro olhar sobre monumentos e casas consagradas que, de tanto por elas passarmos, quase cristalizaram numa imagem desbotada. Rouslam Botiev dá-lhe nova luz, novos aspectos, reais embora inesperados. Seja a Cartuxa de Évora ou seja o convento de Mafra, sejam as ruínas do Carmo ou seja a Igreja de Santa Cruz em Coimbra. Seja ainda o Convento de Cristo ou o Mosteiro de Alcobaça. Mesmo as paisagens mais familiares como, por exemplo, o Colégio do Espírito Santo, actual Universidade de Évora, surgem sempre numa perspectiva inovadora e diferente. Fica a sugestão de convite (não percam!) e uma saudação ao pintor («Bom dia Portugal!).

Um livro por semana 204

«A escola do paraíso» de José Rodrigues Miguéis

O ponto de partida é a nostalgia: «Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia». O ponto de chegada é a «Escola do Paraíso», ela-mesma mas também a metáfora do Mundo e da Vida: «Por extraordinário que pareça, o Paraíso existe e está ao nosso alcance: ao cimo da Calçada, quase no encontro de três ruas, mas recolhido e ausente». O autor constrói um mundo à parte, um intervalo entre sonho e realidade, entre família e cidade, entre Galiza e Lisboa: «Lisboa, para aqueles imigrantes, era a vida nocturna e subterrânea, o trabalho forçado, a mina; e a Galiza, o mundo azul e verde da esperança e redenção, da abastança e repouso. A conversa arrastou-se sobre os eternos temas – capitais, juros, conversões, câmbios, ágios, inscrições, vacas, pinheiros, lameiros, canastros, contas em papelinhos inverosímeis, amarrotados…» De vez em quando a narrativa pergunta («Como é que o tempo passa tão depressa?»), volta a perguntar («Como é possível a gente viver e depois esquecer assim tudo?») para, no fim, concluir: «Entre o sonho e a realidade quotidiana não existe laço algum». Entre a paisagem e o povoamento, o autor escolhe: «No meio disto tudo, o que realmente nos interessa são as pessoas». À porta do Coliseu, afirma: «Há no Circo, como no Amor, uma tristeza de impossível.» No ponto alto da metáfora, a despedida: «Que tristeza a duma escola abandonada! Os meninos foram-se todos embora. E o Paraíso vai ficando para trás, no cimo da Calçada empinada, cabo da memória para sempre dobrado e oculto».

(Editora: Estúdios Cor, Capa: Manuel Correia)

Vinte Linhas 551

Dissertação para um momento no Campo dos Mártires da Pátria

Os miúdos de 1980 continuam no escorrega e nos baloiços. O trânsito mudou, os números dos autocarros são outros mas o grupo de miúdos da creche do Hospital Miguel Bombarda não se alterou. Continuam a brincar com a mesma persistência de um pedreiro, de um carpinteiro, de um electricista. Para eles brincar é um trabalho, um ofício, um destino. Procuro o teu olhar mas não estás neste preciso momento. Foste beber água num instante ao outro lado do parque mas ficou a Emília a tomar conta dos meninos todos. Cheguei no eléctrico que vem do Cais do Sodré e passa na Rua Rodrigo da Fonseca; percebi logo que não estavas.

Tal como em 1973, procurava nas linhas do teu olhar a força do sol e o iodo das praias do Oeste, o perfume das maçãs e o peso do mosto das vindimas recentes. Estamos em Setembro, no tempo das colheitas e das ofertas no santuário da Senhora do Monte. Durante a noite a tua mãe continua a fazer luvas e passa-montanhas, a loja da Rua do Ouro não pára com as encomendas. Os teus sobrinhos estão todos na fotografia da eira, a meio caminho entre o santuário e o rio. Entre as orações e as águas. No intervalo feliz do tempo suspenso à volta dos tios que não páram de sorrir.

Os miúdos de 1980, com o Gamito à frente, continuam no escorrega e nos baloiços. O teu olhar ilumina este lado do jardim do Campo dos Mártires da Pátria. Ao fundo as ambulâncias choram as urgências das vidas em perigo. Aos poucos deixam de se ouvir, lá para os lados do Marquês de Pombal, perdidos no trânsito da cidade. Tu continuas. Nunca saíste deste momento entre crianças no jardim do Campo dos Mártires da Pátria.

Vinte Linhas 280

O quarto de João Garcia

O quarto de João Garcia fica aqui no primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa, a mesma rua onde nasceu Camilo Castelo Branco. Escrevo e digo fica porque embora João Garcia já não viva naqueles metros quadrados nem já espere cartas de Margarida ao domingo (naquele tempo havia correio ao domingo…) a verdade é que está tudo na mesma como quando Vitorino Nemésio por aqui passou entre 1919 e 1921, entre a vida militar nas Janelas Verdes e as reportagens no jornal A Pátria. A capelista da Rua da Rosa nº 200 que entra no romance «Mau tempo no canal» na página em que se recorda a criadita que deixou molhar o jornal quando veio da capelista, pois a capelista também continua. Hoje já não vende só jornais, figurinos, cadernos, agulhas e carrinhos de linha mas relógios, bonecos, perfumes, brinquedos, bilhetes-postais e CDs. Isto além de ter uma máquina de fotocópias. Mudou de dono por trespasse e hoje tem ao balcão um simpático senhor indiano que regista as lotarias, as raspadinhas e o euro milhões. Os gatos do tempo de João Garcia, quando o jovem militar açoriano subia do Rossio cheio de cafés onde os boatos escaldavam tanto como a bica, os gatos deram lugar aos cães. O peixe frito que João Garcia via sempre nas portas da Rua da Atalaia desapareceu para sempre.

À noite, quando regresso a casa pelo Elevador da Glória e entro no Bairro Alto por aquele lado, olho sempre para o primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa. Então se está nevoeiro e choveu de mansinho ou se ouvi nesse dia um CD de Hélio Beirão com músicas da viola da terra, fico com a quase certeza que João Garcia continua ali no seu quarto à espera de uma carta de Margarida.

Um livro por semana 203

«Contos da sétima esfera» de Mário de Carvalho

Esta é a terceira edição do primeiro livro (1981) do autor do muito premiado «Um Deus passeando pela brisa da tarde». O que torna o conjunto mais especial, além do português sólido, escorreito e fascinante de Mário de Carvalho são as ilustrações de António Jorge Gonçalves, no seu traço inconfundível, sublinhando alguns aspectos da narrativa, numa espécie de contraponto a azul.

O título geral surge no conto «O emprego» quando um homem conta a sua história a outros dois: «Aqui, um belo dia, veio-me a ideia de criar uma nova religião. Os tempos eram de grande incerteza e desespero e bem me parecia que as pessoas estavam precisadas disso. Assim, considerei que a natureza de Deus era séptima: o espírito, a alma e o mane, o pai e o filho, o cordeiro e a pomba. Com isto, fui pregar para os parques da cidade. Demonstrei com passagens de escrituras inventadas e de livros secretos que os eleitos seriam os mais próximos da compreensão da natureza de Deus e que havia sete graus de expiação, extensos e dolorosos, mas nenhum deles irremediável ou definitivo. Comprei com as esmolas que me deram uma tenda e bancadas desmontáveis. Em pouco, tinha o suficiente para pagar discípulos e sacerdotes. Multidões procuravam-me. Não tardei a construir um pequeno templo, de tijolos vidrados de azul, e a inventar orações novas, implorando à natureza única e séptima de Deus e às sete legiões de arcanjos das sete cores».

O fim e a moral da história só lendo o livro. Mas vale a pena.

(Editora: Caminho, Ilustrações: António Jorge Gonçalves, Foto: José Carlos Aleixo)

Vinte Linhas 550

Uma memória das «Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Quando morre um poeta (só no registo civil) há quem escreva palavras de circunstância, há quem apareça no funeral para ser visto, há quem se remeta ao silêncio. Neste breve espaço quero recordar Mário Machado Fraião, hoje (10-11-2010) sepultado na sua amada Costa do Sol e, lembrando as suas conversas ao telefone todos os domingos, perceber que esses telefonemas me vão fazer muita falta. A minha ligação ao «Quarto Crescente» e ao «Vento Norte» desde 1982 fazia de mim, aos seus olhos, um açoriano honorífico.

Continuar a lerVinte Linhas 550

Um livro por semana 202

«O crime em 21 lições – Antologia do conto policial inglês e americano»

Fernando Fausto de Almeida seleccionou e prefaciou este conjunto de 21 contos policiais traduzidos por Luís Varela Pinto. Os 19 autores são os seguintes: Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, G.K. Chesterton, Jacques Futrelle, Frederick Irving Anderson, Thomas Burke, Roy Vickers, Agatha Christie, Anthony Berkeley, Dashiel Hammet, Cornell Woolrich, Helen McCloy, Carter Dickson, Roald Dahl, Stanley Ellin, P.D. James, ED Mcbaine, Edward D. Hock e Ruth Rendel.

Esta escolha é coincidente com a opinião de Jorge Luís Borges, autor de La muerte y la brújula, que em 1979 afirmou: «Esqueceu-se a origem intelectual da narrativa policial. Esta ainda se mantém na Inglaterra onde ainda se escrevem romances muito tranquilos». Como convite à leitura fica um excerto de Borrego para o jantar de Roald Dahl (1916-1990). Mary Maloney esperava o marido mas não esperava a anúncio de um divórcio estando ela grávida de seis meses: Eu sei que não é uma boa altura para te estar a contar isto mas é que eu simplesmente não tinha outro remédio. Claro que te vou dar dinheiro e tratar de tudo para que fiques bem. Mas acho que não será preciso fazer muito barulho sobre isto. Espero bem que não. Não seria bom para o meu trabalho. Mary bateu com a perna de borrego na cabeça do polícia que achava uma vergonha continuar a andar todo o dia a pé depois de ter atingido uma categoria superior. Foi o mesmo que bater-lhe na cabeça com um taco de aço.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 549

Rui, Ricardo e Isabel – três casos exemplares no Reino Unido

Rui Pinheiro é o jovem young conductor in association da Bournemouth Symphony Orchestra. Com sede em Poole, fundada em 1893, a BSO é dirigida por Kiril Karabatis e dá uma média de 150 concertos por ano, actuando regularmente na BBC e no Royal Albert Hall. Já foi dirigida por artistas famosos como Edward Elgar, Gustav Holst, Stravinsky, Rachmaninov e William Walton além de ter actuado em países como os EUA, a República Checa e a Áustria. Rui Pinheiro é português, da região de Coimbra.

Ricardo Afonso é cabeça de cartaz no Dominion Theatre em Londres com o espectáculo musical «We will rock you». O actor, bailarino e cantor português chegou ao famoso teatro de Tottenham Court Road em 2005 interpretando «Galileo», personagem que, ao lado de «Scaramouche», «Pop», «Killer Queen» e «Khashoggi», forma o quinteto-chave desta história passada no futuro onde uma empresa (Globalsoft) quer banir a música ao vivo da Terra. Este musical estreou em 14 de Maio de 2002 e já bateu todos os records deste Teatro. Ricardo Afonso compôs em Portugal as canções da série «Super Pai».

Isabel Matias é a Head of production da Pride Magazine, o que significa ser um dos elementos de destaque na Revista ao lado dos três editores e do gestor de publicidade. A Revista na qual Isabel Matias tem o cargo de produtora executiva principal publica-se em Londres e tem como público-alvo as mulheres de cor. Os temas tratados nas suas páginas são a moda, a beleza, a saúde, a música, a TV, o teatro, o cinema, a alimentação ou seja, numa síntese, a vida moderna. A Pride Magazine pode ser lida na Internet e o contacto para assinatura é o seguinte: «subscriptionsridemagazine.com».

Vinte Linhas 548

As «iluminações» de Jorge Valdivia Carrasco

Dürer, Rafael, Botticelli, Vermeer e Jan van Eyck são alguns dos pintores flamengos e italianos «iluminados» pelo pintor peruano Jorge Valdivia Carrasco na sua exposição patente na Rua da Misericórdia, 30 (ao Chiado) em Lisboa.

Reminiscências, divertimentos, homenagens – qualquer destas possíveis definições se pode enquadrar nesta apropriação feita por Jorge Valdivia Carrasco no século XXI das imagens e das visões dos pintores dos séculos XVI e XVII.

Com exposições individuais e mostras colectivas em muitos e diversos países (Peru, Porto Rico, Itália, Alemanha, Portugal e EUA) este artista peruano, por assim dizer, tira do museu e traz para as paredes da galeria de arte uma memória de linguagens pictóricas antigas às quais acrescenta o seu próprio contributo: aves, peixes, répteis e insectos em diálogo directo e íntimo com as mulheres que tecem, como Penélope, os fios da malha contra o esquecimento.

Esta imagem anexa ao texto surge como um quase perfeito exemplo de ligação entre Natureza e Cultura: enquanto a mulher se defronta com um quadro na parede onde um oceano lhe sugere todas as viagens, um pássaro vivo desce pela parede ao lado do quadro e vai cantar para essa mesma mulher.

Esta dupla inscrição (Natureza e Cultura) é a chave possível para esta homenagem à arte do passado pela arte do presente. Não sabemos que mais prezar: por um lado o rigor da homenagem aos mestres dos séculos passados e aos seus modelos pictóricos, por outro lado a fantasia sem limites que o ajuda a transgredir o legado ancestral dos antigos.

Vinte Linhas 547

NANI – do golo rápido à paciência infinita

Deve-se à persistência de João Couto o facto de Luís Carlos Cunha ter permanecido na Academia Sporting durante largos meses. Só podia treinar mas não jogava porque não tinha os documentos em ordem. Durante os meses de espera, Nani viu jogos ao meu lado na Tribuna de Imprensa, acompanhado pelo grupo que eu apelidava de Nação Crioula – Zezinando, Celestino, Yannick Djaló, Fábio Paim. Muitas vezes lhe pedi ajuda para saber o autor de um golo no meio das «molhadas» nos pontapés de canto. Uma das suas memoráveis «jogatanas» já como júnior foi na Amadora. Nani, fez «gato-sapato» da defesa da casa e marcou vários golos. Ao meu lado assistiu embevecido ao jogo o seu irmão mais velho. No entretanto da espera, Nani fez uma viagem aos Estados Unidos a convite do Núcleo Sportinguista de Danbury. Com o apoio de João Couto, treinador no Sporting e professor na Amadora, Nani venceu a batalha contra a desconfiança de muitos e contra o desdém de alguns. Este golo recente que abalou a Inglaterra desportiva não me surpreendeu. O meu genro contou-me o caso deste modo: a) um jogador pensou ter sofrido falta para grande penalidade b) pegou na bola com a mão para a colocar na marca c) o guarda-redes adversário resolveu colocá-la para marcar uma falta que julgava ter sido assinalada ao avançado d) como o árbitro não interrompeu o jogo, o avançado chutou para a baliza deserta Percebi logo que tinha sido o Nani. Errou o árbitro, errou o auxiliar, errou o guarda-redes; só o Nani não errou. Quem passa aqueles meses em infinita paciência pode resolver situações numa fracção de segundo. Não me surpreendeu. João Couto também não deve ter estranhado.