Vinte Linhas 555

A lengalenga da intervenção estrangeira é a mesma; só mudam as datas

No livro «A escola do paraíso» de José Rodrigues Miguéis a página 172 regista o desabafo de uma senhora (Leonor de Mendanha e Serrano) sobre a intervenção estrangeira nestes termos: «Que desgraça, que grande desgraça! Nem quero ver ninguém… Esta nação está amaldiçoada! Maçons, carbonários e aquele assassino do João Franco! Sua majestade a rainha… e agora o Dom Manuel, coitadinho, uma criança a governar esta piolheira… Que vai ser disto, que vai ser de todos nós? E que fazem os ingleses? Porque é que esses traficantes não mandam cá dois cruzadores para arrasar isto, meter esta choldra nos eixos, fuzilar a canalha? Porquê? Isto só vai com uma intervenção estrangeira!»

Até pelo nome se percebe de que lado está a senhora que diz isto em 1908, no rescaldo do regicídio. Quando se refere a João Franco chama-lhe «o Judas, o culpado, o Xuão» e diz que «foi ele que os entregou indefesos à canalha». Claro que a dita «canalha» também podia ter voz e queixar-se do analfabetismo, da miséria, do não desenvolvimento industrial e comercial, da falta de comunicações dentro do país e do país para o estrangeiro, da mediocridade reinante. Seria outro romance escrito por outra pessoa, do outro lado da barricada. Mas o mais curioso é a repetição do discurso a apelar à intervenção estrangeira. Passados cem anos a lengalenga repete-se, tal como foi expressa em 1908. E já tinha sido antes, noutras situações. O livro tem muitos pontos de interesse mas este apelo à intervenção de fora é mais um deles.

Hoje como ontem há quem o repita.

5 thoughts on “Vinte Linhas 555”

  1. Os livros do José Rodrigues Miguéis, talvez por transmitirem uma percepção muito profunda da sociedade portuguesa e não só, apresentam-se intemporais. É possível detectar esta intemporalidade em muitas outras obras do mesmo.
    Veja-se, por exemplo o debate descrito como tendo ocorrido no Parlamento Belga em 1936, sobre segurança e insegurança e a relação estabelecida pela direita com a emigração dos europeus do sul. Em “Uma aventura Inquietante”.
    Faz lembrar o debate sobre segurança entre o DR. Portas e o Governo em que as culpas são atribuídas aos emigrantes africanos.

  2. «Além de mostrar o funcionamento do mundo editorial português na década de 60, esta correspondência vale pelo retrato nítido que nos dá de dois artistas com trajectórias inversas: um escritor então no auge da fama (Miguéis) e entretanto esquecido; outro ainda por revelar (Saramago), mas já no interior da crisálida de que haveria de sair, uns anos mais tarde, o romancista destinado a ser o primeiro Nobel da língua portuguesa.»

    in: http://bibliotecariodebabel.com/criticas/o-editor-para-raios/ [José Mário Silva]

    As palavras acima referem-se a este livro:
    «Correspondência 1959-1971
    Autores: José Saramago e José Rodrigues Miguéis
    Editora: Caminho
    N.º de páginas: 316
    ISBN: 978-972-21-2112-5
    Ano de publicação: 2010» [acima citado]

    O interessante é que o jovem analista literário permite-se comparar um escritor como Rodrigues Miguéis com um aventador de frases sem pontuação mas com intenção (política) como Saramago.
    Acho, no entanto, interessante que defina Miguéis como escritor e classifique Saramago como romancista, este último foi de facto não um romancista mas um romanceador da realidade que o rodeava, desculpando uns criminosos… culpando alguns inocentes.

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