Das dificuldades da futurologia

Esqueça-se por um momento a Europa inventada pela saloiice dos nossos políticos e pense-se um pouco. A Alemanha reunificada, com o seu apêndice austríaco, não tardaria a tornar-se numa grande potência: na única grande potência europeia, ao pé da qual a Inglaterra e a França não pesariam muito. A CEE nascida da multipolaridade do pós-guerra, não resistiria a esse desequilíbrio, o que de resto já transparece nas reticências da Inglaterra ao federalismo. E atrás da CEE iria a NATO, porque o advento de regimes democráticos na Hungria e na Polónia implica, a prazo, a dissolução das alianças militares tradicionais e a retirada do Exército Vermelho para a fronteira russa.

Na liberdade húngara e na liberdade polaca, a URSS vê, por conseguinte, o enfraquecimento da sua segurança e o fantasma da Alemanha remilitarizada; a Inglaterra um novo isolacionismo americano e a redução drástica da sua influência; e os Estados Unidos o recuo da URSS, que erradamente imaginam vantajoso. Mas de positivo só se sabe que a morte anunciada do comunismo na Europa de Leste fez do mundo um lugar altamente perigoso. Obscurecendo esta realidade básica, a superstição democrática contemporânea pode conduzir a desastres sem nome. A estúpida confiança em que vivemos lembra muito o optimismo de um outro fin de siècle, o do século XIX, quando se começava a preparar o apocalipse.

[…]

Já aqui insinuei, na véspera da primeira revolta nacionalista da Geórgia, que o preço da democracia na URSS é a desintegração do império russo e muito provavelmente uma terceira guerra mundial.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 31 de Março de 1989

3 thoughts on “Das dificuldades da futurologia”

  1. o enfraqucimento (estava tão enfraquecido quinté comeu letras)da sua segurança e o fantasma da Alemanha remilitarizada (não vale grande coisa militarmente)

  2. Valupi,
    Outra grande adivinhação do Vasco, o grande “quibanda” do futuro escrevinhador de quibandices nos jornais e todo mudo no Parlamento como deputado, foi aquela sentença proferida aquando da Expo’98.
    Disse o grande ditador de ideias que, no dia a seguir a fechar a Expo a linha do Metro fechava por falta de passageiros: era mais um monstruoso elefante branco. Vê-se, por esta, por essa e por muitas outras, quase todas em que se mete, que o sujeito é mais fiável como ave agoirenta a piar sobre o céu de Portugal para assustar os portugueses.

  3. Tenho tanto jeito quanto o Pulido para ler em bolas de cristal e borras de café. Até lhe posso dar mais umas dicas.

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