Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Balada para uma rua a ver o mar

Na calçada portuguesa
A rua foi velha estrada
Oiço o mar de surpresa
O esquilo não dá por nada
Porque os outros animais
Andam na rua ao contrário
Sorriem mais naturais
Na porta do veterinário
Na farmácia entra gente
Com a pressa de garagens
Na rua tudo é diferente
São as pequenas viagens
Na estranha cartografia
Da rua dos meus trabalhos
Passam já ao fim do dia
Os cavalos com chocalhos

Vila do Conde à distância
Árvores com base de areia
O vento tem importância
Num cata-vento de aldeia
Chega som da tempestade
Às janelas desta casa
Um frio na imensidade
Um calor na luz da brasa
Na questão da perspicácia
Um fundo de nevoeiro
Sai gente desta farmácia
Olha logo o céu inteiro
Minha balada é a viola
Não há melhor companhia
E esta rua é uma escola
Chama-se o curso alegria

Vinte linhas 81

A última aguardente do Tio Nascimento

(publicado a pedido das primas Ana, Paula e Margarida)

Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

Vinte Linhas 99

Saudação breve a Ana Carolina

Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas, minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos e fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras finalmente encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tua não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa tu, oh! Ana Carolina não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de alegria. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro do asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.

Um livro por semana 223

«Vida e obra de Raul Brandão» de Guilherme de Castilho

Guilherme de Castilho (1912-1987) estudou as obras de Bergson, Eça de Queirós, António Nobre e Raul Brandão. No caso presente são 536 páginas sobre este «filho e neto de homens do mar» que em 1891 se inscreveu na Escola do Exército «por vontade do pai e para não desgostar a mãe». Cedo concluiu que «quem vivesse cem anos chegava, pelo menos, a major».

Raul Brandão (1867-1930) teve uma profunda ligação à Natureza («Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas.») e ao jornalismo («Trabalhei sempre nos jornais») mas num incidente com anarquistas no Pátio do Salema ouviu estas palavras inesquecíveis: «Se quer ser escritor, fale dos pobres».

Entre jornais e revistas a lista é longa: «Correio da Manhã, O Imparcial, O Dia, Jornal da Manhã, Diário da Tarde, República, O Universal, O Liberal, A Crónica, O Século, Revista Ilustrada, Brasil-Portugal, Revista Nova, Serões, Gente Lusa, Teatro e Letras, Ilustração Moderna, Revista de Hoje, Revista de Portugal, A Águia, Seara Nova, Portucale e Claridade».

Sobre a sua obra afirmou: «Não sou um escritor. Sinto a dor humana, a amargura dos seres, vazo-as em figuras. Eu não sou um literato». Terminamos este convite à leitura citando Guilherme de Castilho: «Se na literatura portuguesa há escritor que tenha nascido sob o signo da indisciplina mental, da impossibilidade temperamental de se integrar em qualquer escola, de aceitar qualquer forma preestabelecida de expressão, esse escritor é, sem dúvida, Raul Brandão».

(Editora: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Capa: Armando Boaventura)

Vinte Linhas 597

Dissertação para um bilhete e memória de um camarada

Comecei a escrever a pensar no bilhete de 4$50 e nas circunstâncias. No ano de 1966 eu ganhava 900 escudos por mês e descontava 18 escudos para o F. de Desemprego mais 9 escudos para o Sindicato e 2$50 para a Caixa de Abono de Família. Pagava 7$50 por cada almoço na cantina do Banco, o que dava 157$50 em certos meses maiores. Este bilhete de comboio fez-me entrar num tempo em que íamos até ao Cais do Sodré e o destino final era Cascais porque, como era mais caro do que Santo Amaro ou Oeiras, ia menos gente. O destino era quase sempre a praia da Rainha.

A meio do texto fico a saber que morreu um jornalista do meu tempo do jornal «Sporting», o Zé Luís Pinto. Lembro-me bem de como me foi útil o seu desenrascanço no final dos jogos. Quando ainda no velho estádio os jogadores não queriam falar, íamos os dois até à garagem, ali bem perto do futebol juvenil. Umas vezes o Edmilson, outras o Pedro Barbosa, outras vezes um outro jogador, lá arrancávamos umas declarações em directo e exclusivo. Tornámo-nos amigos. Como delegado sindical ajudou muita gente a obter carteira profissional e a pôr as quotas em dia no Sindicato dos Jornalistas. Tínhamos um código: quando eu chegava dizia «Ó Penalva do Castelo!» e ele respondia «Ò cromo!». Um dia houve uma madrugadora manifestação de agricultores com porcos à solta no Terreiro do Paço. Pois calhou ao bom do Zé Luís Pinto acordar os secretários de Estado da tutela por causa da confusão criada em Lisboa. Ele trabalhava na agência noticiosa LUSA e no jornal «Sporting», às vezes chegava cheio de sono mas nunca deixou de cumprir. Os jornais no Céu podem contar com ele.

Vinte Linhas 596

Memória de um livro a propósito de uma exposição na Veiga Beirão

Está patente no Palácio Valadares no Largo do Carmo até Junho de 2011 todos os dias das 10 às 18 horas uma exposição intitulada «Educar – Educação para todos» que foca o ensino na I República ou seja, o período entre 1910 e 1925.

A entrada é livre e o interesse é mais que óbvio. Apenas dois aspectos: o livro da minha avó e o poema de Pedro Tamen. Uma das salas apresenta centenas de livros escolares mas não vi o livro de Emílio Achilles Monteverde que em boa hora a minha avó me ofereceu em 1972 e que eu mandei recuperar em Évora quando estava no Conselho Administrativo do Hospital Militar. Embora sem data, o livro é bem antigo: basta ver que ainda havia países como Baden, Baviera, Wurtemberg, Prússia e Saxónia além de que a Suécia e a Noruega estavam juntas no mesmo reino.

Outro aspecto da exposição é o magnífico poema de Pedro Tamen sobre a árvore:

«Cresce e vem do fundo da terra

ou do fundo do tempo.

Sobe para um céu

que afinal não conhecemos.

No intervalo há a vida

e também ela cresce:

nela se encerra

o que somos e temos;

e se desvela o véu.»

Gazeta 223

ESTRADA DE MACADAME – dedicado por JCF em especial a Luís Eme

CCXXIII – «Ficar para tia ou para pentear Santa Catarina»

No tempo da «estrada de macadame» as conversas tinham mais força do que as imagens. Hoje é ao contrário, toda a gente tem máquinas fotográficas e até os telemóveis servem para tirar fotos. No meu tempo de miúdo, saber falar era uma arte. O meu avô de Santa Catarina sabia manter uma conversa. Talvez por ter sido sacristão e ter ouvido muitas histórias aos padres pregadores da Semana Santa (que vinham de fora) ou talvez por ter viajado muito pelo Alentejo entre o Barreiro e Vila Viçosa numa equipa de carpinteiros a fazer o emadeiramento das casas dos guardas das passagens de nível. Ou, talvez ainda, por gosto; nada se faz bem sem ser por gosto.

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Um livro por semana 222

«Espuma dos dias úteis – Talvez diário (1979-2009)» de Cristino Cortes

Cristino Cortes (n. 1953) é conhecido como autor de dez livros de poemas mas a sua obra engloba também quatro livros de prosa e duas antologias. Nestas páginas de memórias «fala de si, dos seus próprios dias de amigo e cultor da Poesia, das experiências, dos pensamentos e factos no corre-corre do tempo» como refere Vítor Wladimiro Ferreira no prefácio. O ponto de partida é a aldeia: «Muito cedo daqui abalei, ou em rigor me levaram, como a Bernardim, em busca de melhores dias – e foi o melhor que fizeram os meus pais». O ponto de chegada é a cidade de Lisboa: «De repente acho-me perante um jardim público, rodeado de casinhas baixas mais ou menos recuperadas, um largo central chamado Rossio (de Palma), equipado com estendais públicos, a ausência de tráfego automóvel e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, alguns fechados». Entre a aldeia e a cidade, surge a Poesia: «Não há aqui lugar para o mesquinho cálculo, o esperto esquema, a meia intenção, a reserva mental. A Poesia é outra coisa» Para conhecer a Literatura ao autor, na Biblioteca Nacional, recorda: «Foi no espólio de Casais Monteiro que li, pela primeira vez, uma carta de João Gaspar Simões». Mas nem tudo são rosas e, na casa da memória, há coisas erradas: «Começo a desconfiar que esta mediocridade, este provincianismo saloio mal disfarçado, nos está na massa do sangue e, se calhar, muito dificilmente poderá ser extirpado». Fica uma nota final afirmativa: «Hoje a individualidade de um povo é sobretudo a língua e a forma suprema e última por que ela se manifesta e transcende é a Poesia.»

(Editora: Papiro, Capa: Graça Rita, Prefácio: Vítor Wladimiro Ferreira)

Balada da Rua da Madalena

(a Margarida Rodrigues e ao Clube de Leitura da Biblioteca Camões)

Na Rua da Madalena
Caminho de mais além
A tarde passou serena
No Poço do Borratém
Se entramos na livraria
À procura dos perigos
Nos contos e na poesia
Aparecem mais amigos
Da Alfândega ao Caldas
S. Cristóvão, Escadinhas
A vida dá umas baldas
No sorriso das vizinhas
Eles moram todos juntos
No bairro e nesta cidade
São comuns os assuntos
E o tempo da liberdade

Na Rua da Madalena
Entre instinto e razão
Uma vida mais pequena
Que sonho em dimensão
E a Escola do Paraíso
Tinha aqui um caminho
Quando cantar é preciso
Ninguém canta sozinho
Nas pedras dos passeios
Na direcção destes passos
Vou à estação de correios
E procuro novos espaços
Na balada a terminar
Restos de melancolia
Nos passos deste lugar
E na luz que fecha o dia

Vinte Linhas 595

Os «Josés» da Ler na lista de 527 nomes em 100 edições

Acaba de sair a Revista Ler nº 100. Folheadas as cem listas de colaboradores (as fichas técnicas) descobrem-se 527 nomes entre directores, jornalistas, críticos, cronistas, ensaístas, ilustradores, fotógrafos, escritores, poetas, cientistas, historiadores, designers, paginadores, editores, administradores, secretárias e responsáveis pela produção, publicidade e assinaturas.

No caso dos Josés são estes os nomes: José Afonso Furtado, José Agostinho Baptista, José Augusto Mourão, José Augusto Seabra, José Campos de Carvalho, José Carlón, José do Carmo Francisco, José Eduardo Agualusa, José Eduardo Rocha, José Fernando Tavares, José Fragateiro, José Guardado Moreira, José Manuel Cortês, José Mário Silva, José Mattoso, José Quitério, José Pinto de Sá, José Ricardo Nunes, José Riço Direitinho, José Saramago, José Sarmento de Matos, José Ribeiro da Fonte, José Teófilo Duarte, José Tolentino Mendonça, José Vegar e José Vieira.

Um aspecto que me emocionou foi a nota da página 46 sobre o livro «Matar a Imagem». Assim: «É raro encontrar uma primeira obra que consiga ao mesmo tempo ser um bom livro policial e um exercício literário de inegáveis qualidades, que prenuncia uma obra interessante e bem escrita. Daí que o facto de o livro de Ana Teresa Pereira ter obtido o Prémio Policial Caminho não seja de estranhar». Assina José Guardado Moreira na Revista Ler nº 9. Eu fiz parte desse júri e reparei logo na qualidade da escrita de Ana Teresa Pereira que até hoje não desiludiu ninguém. E mesmo quando também escreve livros para crianças não baixa a fasquia da qualidade.

Vinte Linhas 594

Então você não sai dali? Aparece lá cada charolês…

Sou um «sem-abrigo informático» e se me perguntarem há quanto tempo escrevo no «aspirinab» não saberia dizer nem explicar. Sei que foi o Fernando Venâncio que me trouxe para o Blog e, mais tarde, tive o apoio da Susana antes de contar com a activa colaboração do Valupi. A todos agradeço pois a todos devo grandes favores e carradas de simpatia activa. Sem eles não estaria aqui hoje.

Vem isto a propósito de duas coisas: descobri o postal da «aspirina» e tive uma conversa sobre o nosso Blog com um amigo que habitualmente nos lê mas não comenta – no Blog. Com a frontalidade dos velhos tempos, esse meu amigo com quem convivi mais de perto nos anos 60 e 70 na Baixa de Lisboa, fez uma afirmação curiosa: «Então você não sai dali? Aparece lá cada charolês…»

Essa expressão foi muito usada por nós nesse tempo ali no perímetro da Baixa Pombalina quando à hora de almoço (das 12h às 14h) dávamos uma volta umas vezes até ao Rossio e outras vezes até ao Terreiro do Paço. Chamávamos a isso «ir voltar o carro». Íamos em grupo rua abaixo, rua acima e quando aparecia uma figura bizarra, estúpida ou implicativa o nosso grupo reagia: «Vai-te embora charolês!»

No caso actual do Blog não saio nem penso em sair – seria colocar-me ao nível dos que tentam desmoralizar-me com patacoadas. Elas são umas pobres palongas; eles são uns tristes pachelgas.

Dito de outra maneira – só aceitaria sair do Blog se tal me fosse sugerido por alguém responsável e esses autores de pachouchadas não são responsáveis coisa nenhuma.

Balada para a Avenida 24 de Julho

Fica à esquerda a fragata
Desejo de quem cobiça
Trazia conserva em lata
E as galeras de cortiça
Há uma torre à direita
Construída de raiz
Para a central perfeita
Dos tempos do P.B.X.
Eléctricos são um mundo
Gente de ganga fardada
Seja Algés ou Dafundo
Volta na Cruz Quebrada
Comboios da Sociedade
Para Cascais ou Oeiras
Tempo da electricidade
Nas carruagens ronceiras

Nas gravatas que apregoa
E na sombra que procura
Está toda a cor de Lisboa
Nos motivos da cintura
Chega hortaliça de Loures
Vem a água de Caneças
Carroças de lavradores
Com barrete nas cabeças
Na vinte e quatro de Julho
Que foi antes o aterro
Há o soturno barulho
Ferro a bater no ferro
Passa um carro atrelado
À espera da campainha
Na viagem ao passado
A saudade vai sozinha

David Mourão-Ferreira tal e qual na Avenida de Berna

Dia vinte e quatro de Fevereiro
Faria hoje oitenta e quatro anos
Memória duma secreta viagem
Seu filho tal e qual o que ele era
No anfiteatro das dissertações
Os mestrados e doutoramentos
Carreiras triunfantes de sucesso

O teatro do Mundo não é no Salitre
Está aqui na sala, livros e discursos
Canções a três vozes pelas mulheres
São romeiros e almocreves a passar
Orações ditas em silêncio numa casa
Como o poema que se cria devagar
Trazer de novo à luz tempo perdido

Fado de Coimbra à viola e à guitarra
Adeus ó vila de Fornos para começar
As Quadras do Aleixo logo a seguir
Homenagem a esta memória em livro
Também a uma memória na caneta
Nas prosas dessas Quatro Estações
Nos versos da ambulância na noite

Isabel trouxe aqui a voz da Terra
No fim os pastéis, bolos, cavacas
Vinho tinto do Dão e de Lafões
Na festa dos que este livro juntou
Voz da terra era também o comboio
Que o poeta nos trazia do Alentejo
Nas vozes dos ceifeiros a madrugar

Um livro por semana 221

«Lisboa – Livro de bordo» de José Cardoso Pires

Livro ideal para trazer Lisboa no bolso, não por acaso o seu subtítulo refere «vozes, olhares, memorações» pois são 77 páginas de memórias de um escritor apaixonado por Lisboa – desde sempre e para sempre. Outro escritor, Fernando Assis Pacheco, escreveu num poema: «Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa» e, já antes, Cecília Meireles tinha advertido que «até o cavalo de D. José vai ficando verde, comido de mar».

Para JCP há na cidade um travo natural que será talvez um resto dos antigos pregões de rua e esse travo, que é a cor da voz, «sente-se no fado que vem do bairro e nas entrelinhas de Alexandre O´ Neill». E continua: «Devia estar também em Cesário Verde que, apesar de raro entre os raros que tiveram a sua Lisboa e um olhar único sobre ela, recebeu como castigo um busto envergonhado num jardim de quatro palmos». Para concluir: «É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Mas, mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracterizam essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.» Para conhecer a cidade não há fórmulas, apenas sugestões, como deixar para trás a Praça das Flores, a árvore-mãe do Príncipe Real, ir ao pavilhão de vidro da Tapada da Ajuda, olhar o rio das traseiras do Limoeiro, atravessar Lisboa no Aqueduto das Águas Livres, ver Marvila ou o Poço do Bispo e, por fim, ir ao Cais do Ginjal para assistir do outro lado do rio «ao descair da luz sobre a cidade». Muitos os caminhos para uma única paixão.

(Editora: Dom Quixote, Capa: Miguel Imbiriba)

Vinte Linhas 593

A voz da Terra de Manhouce na Avenida de Berna

Isabel Silvestre não é apenas a voz «na qual se ouve o marulhar das águas maternas da origem» (Natália Correia) mas também a autora do livro «Memória de um Povo» (Edição Círculo de Leitores) que foi apresentado no passado dia 24-2-2011 no auditório da Universidade Nova. Ana Paula Guimarães deu o pontapé de saída recordando as suas palavras para a primeira edição deste livro de Isabel Silvestre em 1992. Guilhermina Gomes sublinhou que a sua editora é também e principalmente um Círculo de Afectos. David Ferreira apresentou o livro fazendo a curiosa abordagem de um citadino impenitente ao mundo das histórias, romances, quadras, adivinhas, provérbios, pragas, expressões, modos de falar, rezas, contos e lengalengas de Manhouce. Giacometti, Lopes Graça e Armando Leça estudaram o folclore desta terra aberta ao mar e ao céu, entre o litoral e o interior. Terra de passagem para almocreves e romeiros.

Mas como a Festa contém sempre um ponto de excesso, seguiu-se um encontro musical que só acabou às 20h 30m. Com Alexandrino Matos ao piano, Isabel Silvestre apresentou o Grupo de Manhouce com quem cantou e encantou a três vozes: Sandra, Leny, Custódia, Rita, Ana e Maria do Céu. Ouviu-se na Avenida de Berna o timbre da voz da Terra desde o primeiro («Lá vem o Maio») ao último tema que foi «Eito fora».

Seguiu-se um grupo de fados de Coimbra (antigos estudantes) integrando três solistas, duas guitarras e duas violas. Depois de três clássicos («Vila de Fornos», «Senhora partem tão tristes» e «Balada do Aleixo») foi cantado o «Cantar emigrante» de Rosália de Castro e José Nizza. Por fim uma bela guitarrada em variações do Fado Hilário.

Vinte Linhas 592

Todos nascemos benfiquistas mas…

Esta expressão (Todos nascemos benfiquistas mas…) é o título feliz de um livro de Joel Neto e lembrei-me dela ao ler a crónica de José Manuel Delgado sobre o SCP em A BOLA de ontem dia 22-2-2011. A propósito da «crise» do Sporting, este jornalista (foi jogador dos leões mas parece ter esquecido tudo o que lhe ensinaram) escreve na mesma crónica duas «bojardas». A saber: refere um derby em 1907 e diz que o SCP disputa o campeonato nacional desde 1934/35. É tudo mentira. Primeiro: o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 1908 por fusão de um grupo de Belém (1904) e outro grupo de Benfica (1906). É dessa fusão que o emblema abarca a roda da bicicleta e a bola mas em 1907 não houve qualquer derby pois ainda não existia o SLB. Segundo: em 1934/35 disputou-se uma prova experimental e privada na qual os clubes entravam por convite. Não foi um campeonato (nem podia ser) porque o Campeonato de Portugal, em disputa desde 1921 era o único que atribuía o título de campeão em Portugal. A Liga foi apenas uma prova destinada a experimentar um torneio por pontos mas, como é óbvio, nem o vencedor ganhou o título de campeão (exclusivo do Campeonato) nem o último classificado desceu para a segunda divisão (que não existia). O Campeonato Nacional só começou na época de 1938/39 mas o facto de o SLB ter ganho três da quatro Ligas disputadas entre 1934 e 1938 fez com que muitos «historiadores» tentem apagar o Campeonato de Portugal como se nesses anos ele não tivesse sido disputado. No meu tempo nunca me obrigaram a escrever mentiras e julgo que hoje o código se mantém. Fui um felizardo. Todos nascemos benfiquistas mas depois alguns crescem.

Vinte Linhas 591

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As nuvens cor de cinza na manhã de Rute (com desenho de Airton das Neves)

As mãos de Rute, aos poucos, vão desabotoar a neblina da rua em frente como se a manhã fosse uma camisola e os momentos os botões no desenho cinzento do relevo e do clima do lugar.

Há quem lhe chame «capacete» para simplificar mas Rute sabe os nomes de todas as nuvens da manhã de Fevereiro (cirros, cúmulos, estratos) e, além dos nomes, seus nomes de intervalo e seus aspectos de lençol, cinza e couve-flor.

Mais abaixo passa um rio pequeno de águas hoje límpidas com seus peixes e patos; na ponte um grupo de idosos atira devagar pequenos pedaços de pão, logo disputados pelos peixes na água e pelos patos na margem.

Rute organiza na sua mesa de trabalho o deve e o haver, o inventário e o balanço, o passivo e a situação líquida entre cheques, estratos bancários, facturas e papéis diversos. Situação líquida é, afinal, toda a nossa vida pois nascemos na água que rebenta e morremos quando longe da água mais do que onze dias.

As nuvens cor de cinza na manhã de Rute afastam-se aos poucos para os lados do Cabo da Roca. São empurradas pelo vento do Sul, quente e muito capaz de trazer no seu bojo o calor de todos os desertos da África do Norte.

O escritório de Rute é um oásis de calma na pressa sem motivos à vista de quem cruza as ruas entre o mar e o casco velho da cidade. Na despedida a porta que bate é o ponto final dum discurso pleno de harmonia, conforto e calor. Na luz do olhar de Rute a manhã é a camisola de malha de onde apetece não sair para a neblina da rua em frente.

Vinte Linhas 590

Lágrima em forma de letra do Chiado para Angra de Heroísmo

A vida é um mistério. Se fosse um negócio, os amigos do poeta Álamo Oliveira tinham comprado a possibilidade de o Suplemento Cultural do «Diário Insular» se continuar a publicar. Mas não. A vida não é um negócio e o «Vento Norte» acaba em Fevereiro de 2011 com a publicação do nº 450. Para quem, como eu, começou a colaborar ainda no tempo do «Quarto Crescente» do jornal «A União», corria o ano de 1982, é uma pena. Uma tristeza enorme, uma sensação de perda e também uma lamentação.

Porque para mim o jornalismo, mais do que uma ocupação, é uma paixão. Os jornais e as revistas que li e onde escrevi foram a Universidade que não tive. Tal como o cinema, o jornalismo ajudou-me a criar um código de valores, de conhecimentos e de atitudes. A minha leitura do Mundo modificou-se – ficou mais organizada quando o meu estatuto de leitor se dissolveu no estatuto de jornalista. Tive a sorte de ter trabalhado em A BOLA ao lado de Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Vítor Santos, Homero Serpa, Alfredo Farinha, Aurélio Márcio, todos. No «Diário Popular» e no «Ponto» foi recebido por Jacinto Baptista que me sentou ao lado de Baptista-Bastos, Ângelo Granja, César da Silva, Abel Pereira, todos. No «Sporting» trabalhei com Galvão Correia, António Macedo, José Goulão, Hub Teixeira, Artur Agostinho, Fernando Correia, todos.

Quando morre um jornal é um pouco de nós que morre com ele. Muito me custou a morte do «Diário Popular» e do «Ponto». Agora não é um jornal é um Suplemento Cultural mas é uma dor intensa. Assim como uma lágrima em forma de letra saída do Chiado e recebida em Angra do Heroísmo. Mas a vida é um mistério, não um negócio.

Vinte Linhas 589

Muito longa memória para Cliff Bastin (1912-1991)

A vitória do Arsenal contra o Barcelona no dia 16-2-2011 deu-me um gozo suplementar. O Arsenal é o meu clube de Londres – sem esquecer a simpatia pelo Charlton Athletic. Mas a ligação aos campeões de Highbury tem muito a ver com o facto de a minha filha mais velha ter trabalhado na transformação do relvado de Highbury Park em jardim, além de as bancadas terem dado origem a apartamentos. Escolho para ilustrar este júbilo a foto dum campeão, uma figura lendária deste clube. Nascido em Exeter, começou por alinhar no clube da terra mas um dia o lendário treinador Herbert Chapman foi a Watford ver um jogador (Tommy Barnett) acabando por ficar encantado como adversário do dito cujo – ou seja Cliff Bastin. Vencedor de duas taças de Inglaterra (1930, 1936) e de cinco campeonatos (1931, 1933, 1934, 1935 e 1938) o nosso Cliff Bastin alinhou 21 vezes na selecção do seu país e marcou 12 golos. O seu record de 33 golos em 1933 só foi batido em 1997 por Ian Wright.

Quando digo gozo suplementar conjugo o que gosto do Arsenal com o que detesto no Barcelona. Não posso com eles. O ano passado perderam com o Inter em Nau Camp e toca de ligar as máquinas da rega para impedir o adversário de festejar. O esplendor da mesquinhez de quem perdeu um jogo e finge não perceber que há sempre três resultados possíveis quando o árbitro apita para o começo de um encontro de futebol.

Não suporto a sua prosápia, o seu fundamentalismo, a sua cegueira. Por isso mesmo a vitória justa, limpa e límpida do Arsenal por apenas 2-1 em 16-2-2011 vai ficar muito tempo guardada no meu sacrário pessoal de momentos felizes.

Vinte Linhas 588

Memória justificativa para um desenho infantil

Existe no traço deste desenho o reflexo dum olhar de criança. Para Tomás é tudo muito simples. Quem se porta mal é chamado ao director da Escola. O senhor Osborne tem sempre aberta a porta do gabinete. O desenho representa o incidente com um menino e entornar o copo de água nas costas do casaco do Tomás. Tudo se resolveu com um pedido de desculpas. Foi o Mark, podia ser o Jude, o Mike ou o Alexander.

Já com as meninas é diferente. Aparecem de vez em quando duas frente ao Tomás no corredor e despejam num ápice a frase – «Olá, cabeça de banana!». Quando ele vai para responder já elas não estão lá porque desataram a correr. O senhor Osborne nem chega a ter conhecimento destas histórias e ainda bem. Há coisas mais importantes e elas têm apenas quatro anos de idade embora já sejam veteranas nesta Escola porque já no ano lectivo passado frequentaram o jardim infantil.

O marcador azul fica bem na folha de papel pardo. Visto do seu banco preferido depois das aulas, o Rio Quaggy parece azul no seu caminho para o Tamisa. Tomás gosta de comer a maçã ou a banana no mesmo banco (sempre no mesmo banco) enquanto ouve as histórias de florestas, monstros, tigres e leões. Ainda agora argumentou que a parede do quarto onde dormiu na casa do avô tem monstros mas quando lhe disseram para colocar o ursinho a combater os monstros respondeu: «Não percebem que o ursinho é um brinquedo e os monstros são verdadeiros?» No seu caminho diário o Tomás dá passagem ao corvo de Papillons Walk que ocupa o passeio do lado oposto à Escola. E sorri porque não pode deixar de sorrir à gramática feliz deste dia azul. A cor da mala.