Um livro por semana 221

«Lisboa – Livro de bordo» de José Cardoso Pires

Livro ideal para trazer Lisboa no bolso, não por acaso o seu subtítulo refere «vozes, olhares, memorações» pois são 77 páginas de memórias de um escritor apaixonado por Lisboa – desde sempre e para sempre. Outro escritor, Fernando Assis Pacheco, escreveu num poema: «Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa» e, já antes, Cecília Meireles tinha advertido que «até o cavalo de D. José vai ficando verde, comido de mar».

Para JCP há na cidade um travo natural que será talvez um resto dos antigos pregões de rua e esse travo, que é a cor da voz, «sente-se no fado que vem do bairro e nas entrelinhas de Alexandre O´ Neill». E continua: «Devia estar também em Cesário Verde que, apesar de raro entre os raros que tiveram a sua Lisboa e um olhar único sobre ela, recebeu como castigo um busto envergonhado num jardim de quatro palmos». Para concluir: «É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Mas, mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracterizam essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.» Para conhecer a cidade não há fórmulas, apenas sugestões, como deixar para trás a Praça das Flores, a árvore-mãe do Príncipe Real, ir ao pavilhão de vidro da Tapada da Ajuda, olhar o rio das traseiras do Limoeiro, atravessar Lisboa no Aqueduto das Águas Livres, ver Marvila ou o Poço do Bispo e, por fim, ir ao Cais do Ginjal para assistir do outro lado do rio «ao descair da luz sobre a cidade». Muitos os caminhos para uma única paixão.

(Editora: Dom Quixote, Capa: Miguel Imbiriba)

5 thoughts on “Um livro por semana 221”

  1. Não é «pires» mas José Cardoso Pires. «respeito» é uma coisa que tu nem imaginas o que seja – não podes invocar.

  2. Pois Sinhã, não será bairrista mas poesia não é teologia. Quando o poeta diz «Se fosse Deus» não está a afirmar que Deus existe. Aliás para certos autores dizer «Deus existe» ou «Deus não existe» vai dar ao mesmo – para esses autores «só Ele deve falar».

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