Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 244

«1961 – O ano horrível de Salazar» de António Luís Marinho

A partir de textos da RTP (Telejornal) e de recortes de imprensa (Diário Popular, Avante!, Flama e Século Ilustrado), António Luís Marinho organiza, de Janeiro a Dezembro, a memória do ano de 1961 em Portugal.

Neste ano aconteceu de tudo um pouco: guerra em Angola, invasão de Goa, Damão e Diu, golpe de Botelho Moniz, assalto ao navio Santa Maria, desvio de um avião da TAP por Palma Inácio e golpe militar em Beja com morte de Filipe da Fonseca, subsecretário de Estado do Exército.

O Mundo mudava mas Salazar em Portugal tudo fazia para que a Sociedade ficasse na mesma. Em África tornaram-se independentes entre 1960 e 1961 muitos países, entre eles: Camarões, Togo, Senegal, Madagáscar, Somália, Congo (belga), Benim, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, Congo (francês), Gabão, Mali, Nigéria, Mauritânia e Serra Leoa.

O Benfica venceu em 1961 a Taça dos Campeões Europeus (3-2 ao Barcelona) com esta equipa: Costa Pereira. Mário João, Neto, Germano, Ângelo, Cruz, José Augusto, Águas, Santana, Coluna e Cavém. Os jornais de época não puderam dar a notícia de José

Dias Coelho, o escultor assassinado pela PIDE em 1961 numa rua de Alcântara mas José Afonso viria a lembrar mais tarde em «A morte saiu à rua num dia assim».

O autor do livro não se limita a percorrer textos da TV e dos jornais no ano de 1961. Cita Miguel Torga mas de modo insólito, absurdo e inesperado os seus textos aparecem alterados pelo chamado acordo ortográfico: «atua» e «tática» são duas pérolas. Por fim uma citação de Ruy Belo que dá o toque do tempo e do lugar: «É triste ir pela vida como quem / regressa e entrar humildemente por engano / pela morte dentro.»

(Editora: Temas e Debates / Círculo de Leitores, Foto: Martim Dornelas)

Vinte Linhas 631

Ai as nossas Gazetas, ao que isto chegou…

Não é preciso ser muito velho para perceber que as notícias são uma coisa e o barulho feito à sua volta é outra coisa bem diferente.

Há tempos na TV um pobre «pivot» disse que os bancários já estão integrados na Segurança Social mas errou ao não dizer «bancários no activo» porque estas duas palavras marcam a diferença entre a verdade e a mentira. Foi um erro crasso.

Há dias na TV uma pobre «pivot» disse por engano a Fernando Ruas (Associação Nacional de Municípios) que em Lisboa a questão das freguesias já está resolvida quando deveria ter dito que existe um projecto para alterar as freguesias da cidade. Nada mais. Projecto é projecto, não é facto consumado.

Agora aparece na TV esta notícia das receitas médicas fraudulentas mas pagas pelo Ministério da Saúde. Ou seja, a tal palavra – reembolsadas.

São muitos milhões de euros mas as notícias referem apenas médicos e doentes em vez de explicarem que ganha com a falcatrua: as farmácias que vendem e os laboratórios que produzem os medicamentos.

Trata-se (segundo me parece) de uma estratégia para desviar as atenções pois de facto não interessa nada saber se o médico é velho ou novo ou se morreu. Muito menos saber se o doente está vivo ou morto. Isso é folclore noticioso. Importante é saber quem arrecada o lucro da miserável impostura: as farmácias e os laboratórios. Os que vendem e os que produzem os medicamentos.

A maneira como a notícia está desenhada cheira a esturro, tudo aquilo é suspeito.

Um livro por semana 243

«Lugares de passagem» de José Brás

José Brás (n. 1943) recebeu em 1986 com «Vindimas no capim» o prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Neste livro recente são muito diversos os lugares das histórias: «Soeiro-Cunhado, Vila Franca, Montreal, Guiné, Lisboa, New York, Rio de Janeiro, Montemor». O ponto de partida é o lugar onde o narrador descobriu o Mundo: «Terra de vinhas foi aquela onde nasci. Aldeia de homens nados do amor que se faz entre gente e cepas. Aldeia de mulheres-terra. Estremadura-Ribatejo. O pulo sobre a colina. Sobre a barreira. Sobre barreiras. Entre a Vila, Vila Franca e a paveia da seara, tem o Tejo. O Tejo. O rio que se faz de rios. De rios de gente; de rios de suor de gente; o rio que se faz de gente de luta. Alves Redol, varino, avieiro, campino, ceifeiro, ratinho, gaibéu, valador, monda-dôr, pesca-dôr de ser, de ter. De ser e não ter, Vila, rio, rede, pão… Soeiro! Mais rio. Mais terra. E fábrica e povo e fome e luta e grades».

Entre a guerra e a morte há o amor: «Passaste a ser meu homem de verdade todos os dias e quando marido visitou, encontrou-me doente porque pediste ao doutor remédio que fingisse eu tomar». Mas o Mundo não é pequeno: «Percebi então que mundo não era assim pequeno como morança de tabanca, como lavra de mancarra, como estrada de Buba, como caminho de batelão para o Bissau, teu mundo era maior que diferença entre tropa branca e tropa guerrilheira, maior que Lisboa, maior que mar de navio para Lisboa e era isso que te trazia tão de raiva contra morte de brancos e de pretos, contra os dias abafados, contra as fomes que vias no povo da tabanca, nos pratos pequenos dos soldados no quartel do Quebo e nas suas mesas de aldeia portuguesa». Na memória interminável da guerra, hoje como ontem, ficam «contando os dias para voltar ao puto».

(Edição: Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Prefácio: António Loja)

Vinte Linhas 630

Para ver «Quem vai à guerra» só mesmo indo ao cinema

O filme «Quem vai à guerra» de Marta Pessoa estreou a 16-6-2011 em Aveiro (Fórum Aveiro), no Porto (Mar Shoping) e em Lisboa (City Classic Alvalade) ali à Avenida de Roma. Já foi mais fácil para mim falar de filmes: as minhas primeiras idas a uma tipografia foram na União Gráfica (ali a Santa Marta) para revisão de provas dos programas do Cine Clube Católico de Lisboa. Nesse tempo eu era assinante do magazine trimensal «Sight & Sound» de Londres e também da revista da Federação Francesa dos Cine Clubes de Paris que todos os anos mudava de nome: «Cinema 70», «Cinema 71», assim por diante.

Este documentário de Marta Pessoa começa por se organizar num discurso apenas feminino. Coerente do primeiro ao último minuto, não há cedências e tudo se intercala no depoimento das diversas mulheres. Noivas, mães, viúvas, irmãs, esposas, madrinhas de guerra, enfermeiras – há, no seu discurso e nas suas memórias, a amargura de quem sofreu muito nos bastidores da guerra e nunca teve quem revelasse o seu espanto, os seus fantasmas e as suas lágrimas.

A sua revolta também. Num dos depoimentos se revela a fala revoltada de uma mãe: «este não é o meu filho, este é outro!». O chamado «stress» de guerra só muitos anos depois passou a ser tomado a sério; o pânico perante os foguetes das festas populares e perante as portas a fechar, só agora começa a ser bem percebido.

Não é fácil ser espectador deste espantoso documentário de Marta Pessoa. Nele nenhum fotograma se perde, nenhum som se desperdiça, nenhum olhar se deixa distrair.

Um livro por semana 242

«O Reverendo Cura Simão Henriques» de Joaquim do Nascimento

O Marquês de Pombal lançou em 1758 um inquérito a todos os Párocos (ou curas, vigários, reitores, priores e abades) com 60 perguntas abarcando desde qual o bispado e comarca da povoação ao número de vizinhos, desde os frutos da terra à sua feira ou ao seu correio. Sem esquecer os rios e serras do lugar. Pelos Pereiros respondeu ao Marquês o Reverendo Cura Simão Henriques. Joaquim do Nascimento transcreve o original e faz, em forma de comentário, uma ponte entre o passado e o presente. Vejamos como: «Em Junho de 1758, os Pereiros tinha 77 vizinhos, isto é, 77 fogos, como se diria em linguagem actual, e os seus habitantes eram 203, 11 deles de menor idade, o que dá uma média ligeiramente superior a 2,6 habitantes por fogo». (…) o povo dos Pereiros já tinha a configuração urbana actual, como pode deduzir-se da afirmação de que a igreja ficava no centro da povoação, como hoje ainda acontece». (…) «a gente dos Pereiros vivia do que produzia nos terrenos já então cultivados, principalmente centeio e trigo e, em menor quantidade, azeite e vinho, algumas castanhas colhidas nos castanheiros que por ali abundavam e, pelo que refere o Cura, já podemos ver como era frugal o passadio dos nossos conterrâneos». (…) «Eu tenho uma explicação complexa para o desaparecimento dos castanheiros que atribuo directamente ao aumento de produção do vinho fino, vá lá, do vinho do Porto, depois da criação em 1756, da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, também chamada Real Companhia Velha. Este aumento exponencial da produção do vinho trouxe com ele a procura de novas terras para plantar vinha mas também a necessidade de fazer novas vasilhas, pipas, tonéis e cubas». O volume transcreve na íntegra as respostas do Cura dos Pereiros e convida os leitores a descobrirem outros documentos que revelem novos aspectos da história do lugar.

(Editora: Padrões Culturais, Foto: Ana Paula Nascimento, Capa: Mário Andrade)

Vinte Linhas 629

A Revista Ler, o nosso Blog e as lições da vida

Perante a nomeação do Francisco José Viegas para Secretário de Estado da Cultura muita gente me pergunta se vou continuar a colaborar na Revista Ler. Não sei nem faço ideia. Tudo depende de vários factores. Comecei a colaborar na Revista Ler por um acaso feliz: David Mourão Ferreira enganou-se em 1988 e enviou para mim o seu livro dedicado a Francisco José Viegas e vice-versa – enviou o meu ao Francisco. Rectificado o engano fiquei colaborador da Revista Ler até hoje mas não me angustia muito o futuro. Tenho dado sempre o meu melhor em todos os aspectos; às vezes mesmo em férias acabo por descobrir algo com interesse e escrevo.

Tenho aprendido muito nos jornais onde escrevi (Diário Popular, A BOLA, O Mirante, Record, O Ponto & Etc) e o mesmo se passa com as revistas. No caso do Blog «aspirinab» esta decisão de deixar de responder a provocações também resulta de uma aprendizagem. Percebi que se respondesse aos reles, cabrões e miseráveis provocadores ficava ao seu nível dando-lhe a importância que eles não possuem. Nem nunca virão a possuir.

Quando o meu amigo Tó em Leiria me disse «quando é que sai? Aquilo aparece lá cada charolês!» estava a perspectivar apenas um dos ângulos possíveis. De facto eles são piores que charoleses mas nós não podemos tomar muito a sério o que eles vomitam no ecran. Quando algumas pessoas comentam directamente para o meu «mail» porque o ambiente está irrespirável (para essas pessoas) eu tomei a atitude certa – fechei a torneira aos imbecis. Mais uma lição de vida.

Um livro por semana 241

«Tempo com espectador» de Manuel G. Simões

Manuel G. Simões (n.1933) reúne neste livro recente um conjunto de ensaios de literatura portuguesa – também o subtítulo na capa deste volume de 186 páginas. Tendo sido professor em Bari e em Veneza (1971-2003), muitos destes estudos foram antes publicados em revistas italianas e actas de congressos. Contemplam autores e temas que vão da Idade Média ao século XX. O mesmo é dizer Lopo de Almeida, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Padre António Vieira, Eça de Queirós, Matias Aires, José Rodrigues Miguéis e José Saramago. Sobre «Levantado do chão» escreve Manuel G. Simões: «o leitor não pode deixar de notar que o romance constitui um repositório de expressões populares, de idiomatismos, de frases feitas de sabedoria popular, da gíria e sobretudo de provérbios, isto é, de elementos que caracterizam substancialmente a cultura popular. A simples reapropriação das formas da cultura popular pode, por conseguinte, justificar-se de acordo com a lógica discursiva que veicula a ideologia dos actantes, como, por exemplo: «pôr o pé em ramos verde» (p. 104), «Adeus mundo cada vez pior» (p. 341), «Cada um sabe de si e Deus de todos» (p. 37), «quem procura sempre alcança» (p. 78), «Vão-se os anéis e fiquem os dedos» (p. 305) mas, os provérbios reutilizados na íntegra, correspondem ao ponto de vista do narrador, aparecendo seguidos por comentário que os recodifica sobretudo através da conotação irónica. Apenas alguns exemplos: «juntou-se a fome com a vontade de comer» (p. 58), «quem sai aos seus não desgenera» (p. 67) ou «se queres conhecer o teu corpo abre o teu porco» (g. 145).

(Editora: Edições Colibri – Fernando Mão de Ferro)

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

Um livro por semana 240

«Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial»

de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (org.)

Entre memória e resgate – poderia ser o subtítulo deste livro de 646 páginas. Memória como em Carlos Garcia de Castro («Todos se lembram mas poucos recordam») e resgate como em Belmira Besuga – «Escrevo para ligar de novo o que a morte separou». Natércia Freire inscreve a morte na perspectiva da mãe: «São meus filhos. Gerei-os no meu ventre. / Nove meses de esperança, lua a lua. / Grandes barcos os levam, lentamente». Manuel Alegre recorda Fernando Assis Pacheco, camarada de guerra e poesia: «Não me venham dizer que foi enfarte / ou acidente cardiovascular. Eu sei / que foi mina / armadilhada no coração». Fernando Assis Pacheco que tinha avisado: «Há um veneno em mim que me envenena / um rio que não corre, um arrepio, / há um silêncio aflito quando os ombros / se cobrem de suor pesado e frio.»

Para Liberto Cruz os poemas são colectivos mesmo se escritos por cada um: «Pertenço a uma geração que o País perdeu». Em José Correia Tavares é outro o calendário das paredes: «Natal transparente e puro e frágil como os olhos de minha mãe, como as lágrimas de minha mãe, como a recordação de minha mãe». José Bação Leal morreu na guerra depois de gritar: «Ah vazio! Eterno vazio! / Vais-me matando aos poucos / estou farto de não viver / não tarda estarei louco / ou morto sem morrer». Álamo Oliveira, por sua vez, inscreveu o vazio noutro poema: «O soldado não tem memória. Os seus olhos esquecem-se na floresta / e picam-se na inconstância e no aborrecimento. / O soldado nem gosta de pensar na mãe». Em Eduardo Guerra Carneiro a guerra faz-se longe da guerra: «Lá te foste embora, António. De ideias ao ombro, todo vestido de bombazina. De que cor são os lagos da Suíça?» Já os «lusíadas» de Manuel Simões («carregados de anos de silêncio / e cólera mil vezes reprimida / eis-nos enfim saciados do mar») poderiam perguntar como o poema de Fernando Grade: « – E os crimes, meu general? / – Ah, isso foi há muito tempo…Já ninguém se lembra!»

(Editora: Afrontamento, Fotos: Manuel Botelho, Notas biográficas: Luciana Silva e Mónica Silva)

Vinte Linhas 628

Em 1990 a bagageira do C15 era a casinha do cão

Uma tarde destas, lá para cima de Marvão, depois da casa do moinho, o teu inesperado sorriso com 94 anos de memórias. A porta da casa aberta era um anúncio de vida, de movimento, de gente a sorrir lá dentro.

Tivemos em 1990 umas férias dentro do espaço do seu anexo. De manhã vinha o padeiro a buzinar e a sua irmã trazia o mais fresco leite do estábulo para a menina Marta. Uma vez por outra trazia os ovos amarelos para os melhores bolos de iogurte.

Tenho memórias das lancheiras (alguns operários diziam marmitas) que ficavam a aquecer no seu forno de lenha, gigante e silencioso. Era em Lisboa. No intervalo do almoço as oficinas eram o esplendor do silêncio.

Foi em 1990 porque (eu sei) a Marta tina cinco anos e chamava casinha do cão à bagageira do C15. Íamos para a praia de São Lourenço a trinta à hora e ninguém pensava em cintos de segurança. Mas pensava em segurança e por isso ia devagarinho. Havia no asfalto sempre lugar para estacionar, hoje é diferente.

Em 1990 os seus beijos pareciam não ter fim. Aquelas despedidas, a amizade, a emoção, era tudo como se a Ericeira fosse muito longe e nunca mais a gente se pensasse em ver de novo. Estamos em 2011 mas é como se fosse outra vez 1990, o ano em que a Marta tinha cinco anos e levava para a casinha do cão o Pedro e a Teresa.

Sobejava pouca gente para ir nos lugares normais do C15 da porta da sua casa à praia de São Lourenço. Hoje o seu sorriso inesperado resgatou a tristeza trazida pela neblina do lado de Torres Vedras. E a casa do moinho tem cada ano mais uma árvore.

Vinte Linhas 627

Aspirinab ou o incêndio da Câmara Municipal de Lisboa

Na noite das eleições tocou-me em especial uma «pergunta» dirigida a José Sócrates por uma «repórter» mais ou menos no género – «encara a perspectiva de ser alvo de novos processo judiciais?». Tenho carteira profissional (e que não tivesse…) mas considero esta «pergunta» uma miserável, insultuosa e obscena provocação para além de não me rever neste tipo de «valores» humanos.

Lembrei-me logo da «pergunta», feita por um repórter de TV, ao presidente no momento em que o edifício da Câmara Municipal de Lisboa ainda estava a arder, sobre a sua quantificação dos prejuízos. O «pobre diabo» queria talvez fazer a pergunta que mais ninguém tinha ainda feito mas com as chamas a saírem pelo telhado dos Paços do Concelho foi muito desastrado – isto para não dizer alucinado.

No mesmo jornal (Diário de Notícias de 11-6-2011) descubro duas pérolas da modernidade em jornalismo. Uma é a notícia do baptizado da filha de um jogador com este título (sic) «João Moutinho baptiza a filha Lara». Eu conheço bem o João Moutinho pois trabalhei no Sporting desde 1988 a 2006 e acompanhei a sua carreira desde os Iniciados em 2000/2001 até à equipa «A». Sei bem que ele não é presbítero nem sequer diácono – logo não pode baptizar ninguém.

No artigo sobre o presidente eleito do Peru – Ollanta Humala – há duas curiosidades. Uma é escrever-se que a sua mulher é (sic) prima da sua mãe. Mais correcto seria escrever sua prima em segundo grau… A segunda é chamar Álvaro Vargas Llosa a Mário Vargas Llosa, prémio Nobel da Literatura. É preciso tomar uma «aspirina».

Vinte Linhas 626

Algumas sugestões culturais + o Acordo Ortográfico

Perto de seis mil pessoas já viram a exposição «Aljube – a voz das vítimas» no edifício célebre pelos «curros» – minúsculos compartimentos onde os presos políticos do regime fascista eram fechados e de onde saíam apenas para ir à retrete, almoçar e jantar. Uma espantosa lição de História, no «espírito do lugar» e entradas grátis. O Aljube fica ao lado da Sé de Lisboa. No próximo dia 16 às 17 horas Luís Farinha participará no debate sobre «Tribunais Políticos». No dia 18 Diana Andringa projecta e comenta o filme «Tarrafal – memórias do campo da morte lenta».

Entretanto no Fórum do Picoas-Plaza na Rua Tomás Ribeiro nº 65 (entrada também pela Rua Viriato nº 13) em Lisboa vai ter lugar em 14 e 15 de Junho o Colóquio/Debate «Os filhos da Guerra Colonial: pós-memória e representações» organizado pelo «CES» da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Haverá projecção de fotografias, debates, uma peça de teatro, vários documentários e no final o lançamento da «Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial» da Editora Afrontamento.

Por último recordo as oportunas palavras de Vítor Manuel de Aguiar e Silva à Revista Ler: «O chamado acordo ortográfico é um amontoado de incoerências e confusões. A unidade profunda da língua portuguesa só marginalmente tem a ver com a ortografia. Em 1911, houve a ilusão de que a reforma ortográfica – que era necessária, diga-se – acabaria com o analfabetismo; agora há a ilusão de que o acordo ortográfico preserva a unidade da língua. Em ambos os casos, como a História demonstrou e como a História há-de comprovar, apenas ilusões…»

Um livro por semana 239

«História da vida privada em Portugal – A época contemporânea» – Direcção de José Mattoso e Coordenação de Irene Vaquinhas

O objectivo deste terceiro volume é reconstruir a história da vida privada em Portugal entre 1820 e 1950. O livro parte de duas perguntas: «Como captar o silêncio, o íntimo, as nuances dos afectos, o que não se diz e permanece oculto? Como aceder aos monólogos interiores; às orações, aos medos, aos desejos e aos sonhos de vida futura?». De Benjamin Constant a Jean-Claude Kaufmann, os vários autores coincidem num ponto: «a vida privada emerge na segunda metade do século XVIII no momento em que despontam os sistemas políticos democráticos que definem uma nova categoria de cidadãos». Em 190 havia no Continente e nas Ilhas apenas 9,6% de casas com casa de banho, 24,2% com electricidade, 17,9% com água e 16,2% com esgoto de rede pública. Por outro lado entre 1944 e 1950 houve 48.709 casamentos em Lisboa e apenas 12.643 novas casas. É neste pano de fundo que se joga o intervalo entre conflito e bem-estar: do fado de Marceneiro («A mulher só vai a soco / Pois doutra forma faz pouco / Dum homem que ela não tema / E um bom murro nos queixos / É inda o melhor sistema / Para a fazer entrar nos eixos») ao louvor da conversação por Castilho – «é para tantos o seu único teatro, a sua única filarmónica, a sua única literatura».

E também o intervalo entre doença e felicidade: a tuberculose («De noite acordei e lembrei-me de todos os Natais e, sem querer, vieram-me as lágrimas aos olhos») e as férias nas Caldas da Rainha: «não tinham as instalações luxuosas de Baden-Baden ou Wiesbaden mas a povoação tinha algumas vantagens: uma estadia mais descontraída e informal, uma alimentação simples, saudável e barata, uma população simpática e afável». Também o intervalo entre pão («para Júlio Dinis, D. João da Câmara ou Raul Brandão o pão dos pobres é sempre o pão negro») e vinho: «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses». Sem esquecer os três tipos de casais lusitanos do fim do século XIX: «varão – manda ele e ela não; varela – manda ele e manda ela; varunca – manda ela e ele… nunca».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Design: Leonor Antunes)

Um livro por semana 238

«O livro do sapateiro» de Pedro Tamen

Pedro Tamen (n. 1934) publica poesia desde 1956 («Poema para todos os dias») e a sua obra está editada em diversos países: Itália, França, Hungria, Bulgária, Inglaterra, Espanha e Brasil. Num tempo que exige juventude, eficácia e rapidez o sapateiro (como o poeta) vive contra a corrente: seus valores são a sabedoria, a paciência e a lentidão. Organizado em 49 fragmentos (7×7) vejamos o poema nº 7: «Meia sola é meia sola. / Será por isso que a cola / me cheira tanto a vinagre? / Mas meia sola é milagre. / E eis o que ninguém sabe: / que neste cantinho cabe / na penumbra da oficina / na casca do caracol / esta pequena aspirina / que é a largueza do sol».

O ponto de partida é o lugar: «Sentado no curto escabelo que me deram / espreito aqui da cave pela janela alta / as pessoas que passam.»

O caminho é o erro e o engano: «Incham-me os olhos: / não chorei o bastante / os caminhos barrados / os dias que vivi por estes dedos / martelados por engano e erro / anos a fio / noites confundidas / com a cave onde trabalha / o coração real».

O resultado é a moral da história: «Não sai de mim afinal / outra coisa além do jeito / com que modelo e aceito / o que resulta do sal / com que tempero a natura / que em minha mão se acoitou. / Ela me faz o que sou / e ao fazer-me a faço impura. / Deste bico do sapato / bebo eu a vida inteira: / aqui fechado reato / caminhos de que ribeira / montes e flores onde exacto / encontro a minha maneira».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte)

Vinte Linhas 625

Dissertação para a geografia de um rosto

Chegaste à grande cidade onde domina a civilização do barro mas trazias a memória plena de uma civilização de granito: vindimas nas encostas da pedra, canções, comboios a vapor, vinho fino, a espuma branca de rios a caminho do Douro, seus afluentes apressados e velozes.

Obscuro geógrafo, adepto desta ciência de observação, eu procuro descobrir, descrever, e interpretar o relevo e o clima do teu rosto. São paisagens, contornos, transições e contrastes. A vegetação é o teu cabelo que recebe, na esquina da esplanada, as carícias do vento.

O teu olhar é um produto directo da superfície da Terra. Há nele uma mistura inesperada: lado a lado a pré-história e a civilização actual. Ou seja: litorais povoados, montanhas de gelo perpétuo, desertos de areia, florestas tropicais. E cidades, cidades feitas de caixotes cinzentos e raros jardins.

A tua pele, batida pela brisa de Lisboa, apresenta sinais de erosão. É o juntar de dois mundos: natureza e civilização, mundo vegetal e mundo animal. Sem esquecer o outro mundo que não se vê mas apenas se pressente: o mundo das caravanas, seu comércio e seu convívio. As fronteiras, as viagens e as feiras francas.

O poema, este poema, é o mapa possível depois de olhar o teu rosto e o teu perfil. A tua expressão humana na paisagem é também uma espécie de geografia.

Caminhas no teu ritmo sincopado pela longa rua das montras e dos eléctricos. Assim habitas a terra na agricultura minuciosa dos minutos.

Vinte Linhas 624

No Montijo ou dissertação para a primeira classe de Outubro de 1958

O fotógrafo vinha de Setúbal e o postal trazia impresso a palavra «Gevaert». Talvez por ser bom material é que chegou em bom estado a 2011. Já passaram 52 anos e a fotografia não desenha as três filas na sala de aula: os bons, os assim-assim e os burros. Aqui na porta da escola somos todos meninos. Cada rosto, seu porte, seu tempo e seu registo a preto e branco, sugere uma dissertação mais longa. Talvez uma balada. Tantos anos depois que memórias ligam os rostos aos nomes? Vou tacteando no escuro das recordações: o Ribeiradio, o Moita, o Artichicolate, o Joãozinho da Pastelaria.

E aquele rapaz que usava um cordel em vez de cinto para segurar as calças? Não retenho o nome. Há nestes olhares uma dupla inscrição: presença e interrogação. Por um lado eles dizem «estamos aqui». Por outro lado perguntam «que mundo é este?».

Nesse mesmo ano de 1958 terão prendido os membros de um conjunto musical («Lua azul») e levaram para Caxias todos os empregados de um fabrico de rolhas de cortiça na Rua Sacadura Cabral. Tudo isso por causa das eleições para presidente da República e do apoio dessa gente ao general Humberto Delgado.

Volto ao registo mecânico da fotografia e pergunto: quem será o menino que, junto à porta, não olhou a objectiva porque não se apercebeu da luz do magnésio? Quem será?

Entre sombras e presságios, entre guerras e emigrações, entre mistérios e negócios, entre lágrimas e sorrisos, que será feito destes meninos de Outubro de 1958? E de mim, que será feito de mim, apenas mais um que tirou o retrato à porta da Escola Primária lá para os lados do Tribunal em construção? Por onde andam os nosso sonhos?

Vinte Linhas 623

Alguém sabe do livro «Lembranças sobre a felicidade de Portugal»?

Este texto é um apelo a todos os leitores do Blog e às suas hiperligações pessoais – ou seja amigos, familiares e conhecidos.

Gostava que alguém me dissesse onde posso encontrar o livro «Lembranças sobre a felicidade de Portugal» da autoria de José António da Silva Rebelo que nasceu em 1779 (Santa Catarina) e morreu em 1846 (Almagreira).

O meu interesse pelo livro é puramente pessoal: gostava de conhecer o livro publicado em 1828 por um conterrâneo meu. Sei que o senhor foi administrador da Casa Pia de Lisboa e, mais tarde, Bispo de Bragança e Miranda.

A minha terra tem mais escritores como Faustino do Rego e Manuel de Moraes mas o primeiro publicou em 1525 e o segundo em 1735. Estão mais longe e os livros também. Agora o século XIX foi, podemos dizer, anteontem.

Durante muitos anos passei a correr debaixo do seu retrato a óleo na sacristia da igreja matriz de Santa Catarina, a caminho da casa da minha avó onde havia brasas para colocar no turíbulo. Eu era o menino que levava na mão a naveta do incenso nas procissões da padroeira, debaixo do pálio que nos defendia do sol de trovoada ou da chuva de molha-tolos. Era outro o tempo.

Foi preciso saber algo mais sobre o Bispo da minha terra para poder hoje aspirar a conhecer o seu livro datado de 1828. Esse livro chama-se «Lembranças sobre a felicidade de Portugal» e eu peço a ajuda de todos os leitores para o localizar.

Por favor ajudem-me a encontrar este livro do meu conterrâneo. É um favor. Fico desde já muito agradecido a todos.

Um livro por semana 237

«Nos trilhos da Pedagogia» de Joaquim Carreira Tapadinhas

A partir dos 50 anos da Escola Industrial e Comercial do Montijo (hoje Escola Jorge Peixinho) o autor revisita a história da educação no concelho e, como indica o subtítulo do livro, a época abrangida vai de 1772 a 2008. São quatro os segmentos temporais do trabalho: 1772-1910 (do Marquês de Pombal à Monarquia), 1910-1926 (República), 1926-1974 (Ditadura Militar e Estado Novo) e 1974-2008 (do 25 de Abril a 2008).

Em 1772 as primeiras escolas públicas criadas pelo Marquês de Pombal nesta zona (Aldeia Galega, Canha e Alcochete) eram pagas pelo Subsídio Literário – 1 real por cada canada de vinho. As dificuldades são óbvias neste período: em 1909 uma acta da vereação do município refere que «a instrução oficial é deficientíssima e a percentagem de analfabetos é pavorosa e formidável».

Com a República, numa terra já com dez mil habitantes, surgem algumas alterações e no final do ano lectivo de 1910 -1911 os exames do 2º grau já puderam ser realizados na sede do concelho. Em 1926 uma das primeiras medidas do Governo é extinguir as escolas primárias superiores passando a escolaridade obrigatória para três classes. O «Livro único» dizia: «Na família o chefe é o Pai, na escola o chefe é o Mestre; no Estado o chefe é o governo». Apoiado pelos presidentes dos municípios de Alcochete e da Moita, José da Silva Leite pede ao ministro da Educação Nacional a criação da Escola Comercial e Industrial do Montijo que nasce em 1957. De 6 professores, 3 administrativos e 4 auxiliares no início, tem hoje 168 professores, 2 psicólogas, 14 administrativos e 39 auxiliares. De 106 alunos em 1957 passou para 1633 em 2008.

Fecho este livro indispensável ao conhecimento da história do Montijo com uma nota comovida: a minha escola de 1957 a 1960 está na página 255 deste livro.

(Edição: Câmara Municipal do Montijo, Capa: Eduardo Martins, Prefácio: Luís Graça, Nota: Maria Amélia Antunes, Comentário: António Castel-Branco)

Um livro por semana 236

«Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa» de Inácio Rebelo de Andrade

No seu 16º título Inácio Rebelo de Andrade (n.1935) retoma um tema anterior: «Quando o Huambo era Nova Lisboa» de 1998. São 81 fotos comentadas com a cronologia e o glossário.

A partir da memória do clima («Não há céu como o do Huambo: tão azul, tão luminoso, tão belo!») alcança o fundador da cidade em 1912: «Norton de Matos, visionário, criava uma cidade no meio do mato, criticado pela imprensa da época pelo arrojo e pela insensatez».

Havia as ruas («A Avenida 5 de Outubro era a Avenida do Colete porque começou com casas de um só lado») e o caminho de ferro: «A locomotiva entrava ruidosamente na estação, novelos densos de fumo a sair pela chaminé, a composição chiando nos carris».

Havia os colégios como o Alexandre Herculano («Era da dona Laura Pepe e do senhor Leite, ambos usando a pedagogia da época – palmatoadas nas mãos por eros no ditado e nas contas») e havia o bispo D. Daniel Junqueira: «Ouvi-lo pregar era um regalo, mesmo quando se repetia; vê-lo gesticular era um espectáculo, mesmo quando se enganava».

Havia o tempo da rádio com Fernando Curado Ribeiro («Aqui Rádio Clube do Huambo, uma voz Portuguesa em África») e o tempo dos velhos que sabiam muito como Sapalo Camunda: «Que idade tens? – Eu está quase século».

Sem esquecer os escritores como Ernesto Lara Filho («Jornalista brilhante e poeta maior, esbanjou o seu talento pela imprensa angolana da época») ou como Alexandre Dáskalos que escreveu sobre o contrato: «Cuidado com o branco / que anda por lá…/ Não sejas roubado / cuidado, cuidado!»

(Editora: Colibri, Capa: Francisco G. Amorim, Revisão: Maria Villanova)

A flor no meio dos tarrafes

Não se via Titina, a rapariga mais bela
Com o seu corpo colado aos tarrafes

(São os tarrafes umas plantas gigantes
Bom esconderijo para guerrilheiros)

Nasceu em 45 como Ernestina Silá
Foi morta em 73 mas já como Titina

Presságio triste, depressão profunda
No rio Farim, rio da vida e da morte

Virou-se a canoa na ida para o funeral
Titina ficou para trás, foi ela a última
Veio o tiro súbito da lancha portuguesa
Tiro que se podia dispensar nesse dia

Amílcar Cabral tinha sido assassinado
As canoas do Farim iam cheias de gente
Nas corvetas podem ter percebido logo
Que nesse dia não valia a pena disparar

Morto o corpo de Titina, fica a lenda

Hoje nos lugares discretos da Guiné
Uma flor não fugiu, canta e continua
No rio Farim, algures entre os tarrafes