Vinte Linhas 624

No Montijo ou dissertação para a primeira classe de Outubro de 1958

O fotógrafo vinha de Setúbal e o postal trazia impresso a palavra «Gevaert». Talvez por ser bom material é que chegou em bom estado a 2011. Já passaram 52 anos e a fotografia não desenha as três filas na sala de aula: os bons, os assim-assim e os burros. Aqui na porta da escola somos todos meninos. Cada rosto, seu porte, seu tempo e seu registo a preto e branco, sugere uma dissertação mais longa. Talvez uma balada. Tantos anos depois que memórias ligam os rostos aos nomes? Vou tacteando no escuro das recordações: o Ribeiradio, o Moita, o Artichicolate, o Joãozinho da Pastelaria.

E aquele rapaz que usava um cordel em vez de cinto para segurar as calças? Não retenho o nome. Há nestes olhares uma dupla inscrição: presença e interrogação. Por um lado eles dizem «estamos aqui». Por outro lado perguntam «que mundo é este?».

Nesse mesmo ano de 1958 terão prendido os membros de um conjunto musical («Lua azul») e levaram para Caxias todos os empregados de um fabrico de rolhas de cortiça na Rua Sacadura Cabral. Tudo isso por causa das eleições para presidente da República e do apoio dessa gente ao general Humberto Delgado.

Volto ao registo mecânico da fotografia e pergunto: quem será o menino que, junto à porta, não olhou a objectiva porque não se apercebeu da luz do magnésio? Quem será?

Entre sombras e presságios, entre guerras e emigrações, entre mistérios e negócios, entre lágrimas e sorrisos, que será feito destes meninos de Outubro de 1958? E de mim, que será feito de mim, apenas mais um que tirou o retrato à porta da Escola Primária lá para os lados do Tribunal em construção? Por onde andam os nosso sonhos?

9 thoughts on “Vinte Linhas 624”

  1. Sim eu estou na primeira fila. Não esqueças que era Outubro de 1958 e havia vidas complicadas. Aquele menino que não tinha cinto mas usava um cordel…

  2. os bons estão de bibe, os assim-assim de cinto e os burros de cordel, como se pode apreciar no registo mecânico de um postal em bom material gevaert. oh manganésio! desta vez não há nenhum ministro ou mesmo um belarmino no meio daqueles ranhoso/famélicos da primária do tontijo?

  3. No outro post esqueceste-te dde dar razão ao gajo que te pôs debaixo das fuças um argumento filológico de um português depois de tu insinuares que só no brasil é que o verbo achar tem o significado de considerar.
    Mas tu és um bácoro que nem sabes quem foi o Professor José Neves Henriques, um portuguesíssimo Mestre de muitos Mestres. Como não frequentava as tuas pocilgas nem comia dos mesmos fardos de palha que tu, finges que não existe.
    Vai comer comer sabonetes às colheradas e lubrificar o estômago com champô.

  4. e já agora de cú para o ar, no camões, a peidar bolas de sabão numa espécie de referência geodésica da poesia contemporânea pós maria-cavaco.

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