Um livro por semana 240

«Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial»

de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (org.)

Entre memória e resgate – poderia ser o subtítulo deste livro de 646 páginas. Memória como em Carlos Garcia de Castro («Todos se lembram mas poucos recordam») e resgate como em Belmira Besuga – «Escrevo para ligar de novo o que a morte separou». Natércia Freire inscreve a morte na perspectiva da mãe: «São meus filhos. Gerei-os no meu ventre. / Nove meses de esperança, lua a lua. / Grandes barcos os levam, lentamente». Manuel Alegre recorda Fernando Assis Pacheco, camarada de guerra e poesia: «Não me venham dizer que foi enfarte / ou acidente cardiovascular. Eu sei / que foi mina / armadilhada no coração». Fernando Assis Pacheco que tinha avisado: «Há um veneno em mim que me envenena / um rio que não corre, um arrepio, / há um silêncio aflito quando os ombros / se cobrem de suor pesado e frio.»

Para Liberto Cruz os poemas são colectivos mesmo se escritos por cada um: «Pertenço a uma geração que o País perdeu». Em José Correia Tavares é outro o calendário das paredes: «Natal transparente e puro e frágil como os olhos de minha mãe, como as lágrimas de minha mãe, como a recordação de minha mãe». José Bação Leal morreu na guerra depois de gritar: «Ah vazio! Eterno vazio! / Vais-me matando aos poucos / estou farto de não viver / não tarda estarei louco / ou morto sem morrer». Álamo Oliveira, por sua vez, inscreveu o vazio noutro poema: «O soldado não tem memória. Os seus olhos esquecem-se na floresta / e picam-se na inconstância e no aborrecimento. / O soldado nem gosta de pensar na mãe». Em Eduardo Guerra Carneiro a guerra faz-se longe da guerra: «Lá te foste embora, António. De ideias ao ombro, todo vestido de bombazina. De que cor são os lagos da Suíça?» Já os «lusíadas» de Manuel Simões («carregados de anos de silêncio / e cólera mil vezes reprimida / eis-nos enfim saciados do mar») poderiam perguntar como o poema de Fernando Grade: « – E os crimes, meu general? / – Ah, isso foi há muito tempo…Já ninguém se lembra!»

(Editora: Afrontamento, Fotos: Manuel Botelho, Notas biográficas: Luciana Silva e Mónica Silva)

29 thoughts on “Um livro por semana 240”

  1. ” – E os crimes meu general?/- Ah, isso foi há muito tempo… já ninguem se lembra.”

    Pois é caro Francisco. É tambem por isso que todos na mesa e fora dela, lá no colóquio do CES, ante-ontem, falavam dos e sobre os «ex-combatentes» e não sobre combatentes.
    Como disse lá, os militares foram obrigados à guerra e a serem combatentes mas depois que voltaram passaram a ser ex-combatentes: foram combatentes mas depois já não foram.
    A fórmula, penso que nova neste caso especial, parece nem de propósito inventada especialmente para ir ao encontro, precisamente, desse tal “Ah, isso foi há muito tempo…”, num tal ex-tempo de ex-combatentes.
    Não conheço monumentos, memoriais ou murais dedicados a ex-combatentes. O meu pai, combatente de La Lys que se reunia todos 9 de Abril com dezenas de companheiros para comemoração de estarem vivos, sempre os ouvi falar, discursar e contar histórias como combatentes e tratavam-se por combatentes: “quando os combatentes nas trincheiras apanhavam uma ratazana era dia de festa grande”. Ou, “o meu primo Zé da Bárbara Pinta que anda o dia inteiro de uma lado para o outro na estrada com uma saca às costas e jamais pronuncia uma palavra e a quem chamam gaseado, foi combatente de La Lys e foi atacado com gás pelos alemães, foi gaseado na guerra como combatente”.
    E tem imensa piada racional que a guerra, tendo terminado ao mesmo tempo que os combatentes, nunca passou a designar-se por “ex-guerra colonial”.
    Claro, à guerra o seu estatudo de campo fértil “sempre presente” para para heróis e comendas à custa, aos combatentes deve-se tratá-los de ex: aos mortos, feridos e traumatizados da guerra afastá-los, mesmo que seja pelo uso constante de uma semântica que introduz o preconceito de ex-acontecido, de algo que se deu fora da actualidade, há muito e sem importancia, portanto.
    Uma formula, nada inocente, de afastar as reclamações de guerra aos combatentes afectados, de desculpabilizar a guerra e os seus ideólogos, apoiantes e mandatários, enquanto ao mesmo tempo esses mesmos fazedores e mandantes vão mamando os restos do espólio da guerra.

  2. já agora, se não for pedir muito, o currículo de combatente dos colaboradores da tóinologia colonial, o orçamento das festividades e lista dos artistas avençados. resumindo, quanto pagamos e quem recebeu.

    nota: escusas de andar às voltas para nos dizeres que encaixaste lá uma treta da tua autoria a troco de croquetes para o mês inteiro.

  3. Senhor Adolfo Contreiras: tem razão porque a guerra não acabou e a prova disso está neste livro. Mas valeu a pena e honra aos seu organizadores que juntaram as diversas perspectivas poéticas – porque elas existem e não podemos fingir que não sabemos…

  4. Um povo que trava uma guerra sofre consequências indizíveis. Pior quando a perde. Oxalá o tempo que tanto vai apagando nos faça esquecer tanta dor e as suas malditas sequelas. Há passados que a História deveria aquietar. Que não esquecer..

  5. a guerra não acabou e a luta continua. jel & francisco, o falâncio que se cuide.

    “Mas valeu a pena e honra aos seu organizadores”
    uih…uih… óbvio. se perguntares aos combatentes és corrido com pepinos e tomates podres como na feira de santarém, uma espécie de manif e.colica.

  6. «Valeu a pena e honra aos seus organizadores»! Viu o senhor José do Carmo Francisco a longa, minuciosa e dramática reportagem dada na TV (não me recordo o canal), dada há dois dias atrás, sobre os ex-combatentes africanos que se encontram em Portugal? Vieram pedir ao Governo Português auxílio, ou magras pensões. Estão doentes, vivem nos quartéis, morrem de saudades de África, das suas terras, da família. Estão por cá há anos. Alguns, há 11 anos, à espera de uma «esmola»! Se em vez de fazerem antologias poéticas ajudassem a resolver o problema destes homens não seria muito mais meritório? Não é por mais antologia ou menos antologia, que se esquece o passado de guerra e de terror. Mas, primeiro, há que reparar no sofrimento destes e doutros homens!

  7. Ó zeca galhão, a guerra acabou, o que não acabará são as memórias, seu palhaço frangueiro, percebes nada de nada pá, falas em perspectivas poeticas da guerra pá, cala a boca, toinalhão, diz lá onde é que a guerra tem perspectiva poética, pá, não me digas que tiras poesia da bala saída de uma arma, pá, deves achar lindo disparar ao luar e enfiar um balázio num gajo, seu espantalho, és uma sopa azeda pá, és ferrugem da palavra pá, vai apanhar caganitas de cabra seu cara de raíz, bandalho, palhação, cagalhão seco, eu dou-te as perspectivas poéticas, pá,

    ai que lindo vou pra guerra,
    levo arma balas e água
    o ribombar dos canhões,
    faz-me pensar na terra

    digo merda, merda digo
    só merda digo, só merda faço,
    sou o poeta da treta
    sou um granda palhaço

    escolho o livro que digo que escrevo
    pois então, sou vaidoso
    sou um grande autor
    e também um granda ranhoso

    toma pá, a minha perspectiva poética de ti, um classico, pá da próxima faço uma ode à tua hoover, meu camelo.

  8. Ó Senhor Marcos Caldas não me diga que não percebe a diferença entre o livro (antologia) e o problema pessoal dos senhores que estão em Sapadores e em Paço de Arcos… Claro que esta minha nota de leitura é sobre um livro e a expressão «honra» refere-se aos organizadores do livro. Não tente misturar alhos com bugalhos, livros com problemas pessoais.

  9. Só percebo que em vez de gastarem dinheiro em antologias onde se promovem autores, melhor seria gastá-lo ajudando os ex-combatentes. Por exemplo, que o dinheiro obtido com a venda da obra revertê-se para os desgraçados que se encontram há anos à espera que o Governo decida da esmola a que têm direito. É o jogo do empurra. Só quem ouviu e viu o programa de que falei acima. Uma vergonha para todos nós! O livro, caro senhor, é a continuidade de um problema que não se resolve. Mas ajuda aos respectivos poetas, vivos ou mortos, e à editora. Há sempre lucro!

  10. ó sinhã (pirilau sim) , cala a boca, sua pirosa, remete-te à gestão do teu bordel de testículos pá, mas não contes cumigo, pá, ora, ora, pirosona, só fala de bolas, ó pá, compra uma xavina das caldas, fogo.

  11. Pá, o Cristiano Ronaldo «BAPTIZOU HOJE O FILHO»!!! E esta, zézinho?! Vê se mandas uns emails, umas das tuas notas ou das tuas baladas, para os jornais, revistas e canais da Televisão que deram a notícia! Faz valer o teu ponto de vista e corrije, pá, corrije! O Ronaldo, segundo a tua miopia, «NÃO PODE TER BAPTIZADO O FILHO PORQUE NÃO É PADRE»! É assim ou não é, meu? Sempre és muito ridículo com estas tuas bacoradas. Pá, às vezes pareces uma verdadeira anedota. E, verdade, verdadinha, fazes falta para nos fazeres rir, a quem te lè e aos que não te lendo até perguntam: «Então e hoje? Novidades do catarinense do Bairro Alto?» Podes não acreditar mas é esta a verdade. Se não ficas na história da literatura, deixa lá. Ficas na história do humor virtual!

  12. fogo e até já sabes que o diabo tem vagina, minha, ó pazinha, andas por sitios bué da estranhos, pá, fogo, fogo, caldas contigo, pá, caldas contigo, já te tou a imaginare pá com uma camisa longa varmalha, pá, mão na cintura, pá e a boquilha na boca, pá, a largar bafuradas, ó pa, desopila daqui, minha.

  13. :-) sabias que usar muletas, mesmo na escrita, antipassos, é forte sinal de deficiência? :-)

    (acrescenta aí uns saltos bem elegantes e umas garras bem pintadas – vão bem no vermelho do vestido. e do sangue vagina de diabo) :-D

  14. ó pazinha, tu queres é conversa, pá, mas olha se cheiras mal da boca deves cheirar muita mal do «entrem, entrem camaradas, o povo é quem mais ordena», toma juízo, pá, nem a cibelle te safa, fogo, pensas que ninguém tem alicate, cuida-te cuida-te, já te dei muita cunversa, pá, queres é andarilho, daqui não levas nada, pá, vai tomar banho no rio pá, poe umas velas na água e tira de vez esse patchouli, pá.

  15. ó marmela, pá, fica tu com o polvinho para os momentos em que precisas de cócegas, pá.aproveita vai ao mar, e faz um granda cagalhão, ou pede ao teu amigo poeta da treta que te dê uns dele, pá, já que andas a fazer o censo de quem faz caca no mar, ó cagamela, ora, ora.

  16. ó minha sinhora, não tenho tempo pra receber, isto de ter três testiculos dá muito que cussare, portanto fique lá com o polvinho e muitas cocegas no olho traseiro e lobby de entrada, pa.ora, ora.

  17. Encontrei esta página por acaso. Vi que havia lugar a comentários e, tratando-se, neste caso, de algo relacionado com a guerra nas antigas colónias portuguesas, logo me apeteceu deixar aqui um pouco do que penso sobre esses difíceis e infelizes tempos e, (porque não?) algumas palavras sobre o trabalho antológico agora publicado.
    Porém, ao passar os olhos pelas mais ou menos breves “opiniões” já aqui deixadas, logo perdi a vontade de o fazer. Mas não me escuso de dizer algo.
    Os Combatentes (ou ex-combatentes, se se quiser), sejam autores ou não das composições ditas poéticas reunidas na publicação em questão, não tiveram nem têm culpa de terem sido chamados a “dar o corpo ao manifesto” nas longínquas paragens africanas. Não são culpados de terem deitado mão da sua tendência poética para, de forma mais ou menos catártica, poderem sobreviver psicologicamente ante as situações que enfrentaram.
    Por isso, merecem, pelo menos, justificada contenção quanto ao palavreado aqui deixado, certamente por quem nada sabe das realidades por eles vividas nas andanças da sua vida de combatentes.
    Esses homens (e algumas mulheres) não têm culpa de que, 40 ou 50 anos depois, alguém se tenha interessado pelo que escreveram, mas têm direito a não serem (ainda que indirectamente) motivação para tão mau gosto de “opinantes”.
    Ainda bem que desabafaram nas suas prosas e nos seus versos. Ainda bem que, a seu jeito, conseguiram dizer o que de outro modo não lhes seria possível.
    E ainda bem que, agora, alguém se lembrou de recolher essas memórias – penoso “trilho” que o daninho capim não conseguira esconder, permitindo assim que o eventual leitor se conduza a encontros outros, mais ou menos velados, de um passado que deixou marcas…
    … … …
    Não pretendendo meter todos os “comentários” no mesmo “saco”, duas notas mais:
    1 – Não deixo de concordar com o que diz o Sr. Contreiras, e até com parte do que acrescenta o Sr. Caldas.
    2 – Mas, Sr. Caldas, esta antologia (quase todas, aliás) não promove nem se destina a promover autores. Dos autores que a integram, uns já não precisam de promoções. Os outros, porque não fizeram carreira da caneta, de promoções não carecem… Para quê?
    S.O.S.

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