Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 255

«A Monarquia do Norte» de Rocha Martins

Esta obra em dois volumes corresponde à reedição actual do trabalho do jornalista Rocha Martins (1879-1952) que era vivo ao tempo dos acontecimentos e entrevistou alguns dos protagonistas duma época em que se tentou de novo estabelecer a Monarquia em Portugal. Em 19 de Janeiro de 1919, um grupo de militares e civis, chefiados por Henrique Paiva Couceiro, proclamou a República no Porto. Paiva Couceiro estava contra as atitudes internacionalistas dos Governos da I República e avançou com um grupo de conservadores, ex-republicanos e monárquicos para uma acção que definiu como patriótica e nacionalista. O rei D. Manuel II nunca sancionou nem incentivou essa revolta. Esse foi um dos factores que contribuíram para a derrota de Paiva Couceiro e, a prazo, para a ascensão ao poder do Partido Democrático.

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Balada triste do Bairro Alto

Meu Bairro, terra queimada
Campo de batalha perdida
Minha lágrima tão isolada
A quem não respeita a vida

Viver era uma aventura
Hoje o medo é distribuído
Sacos cheios de amargura
Passam, não deixam ruído

São Bombeiros Sapadores
Câmara, Junta e E.M.E.L.
Que se curvam os senhores
Para nos darem taças de fel

Quando os dísticos trocados
Veio a E.M.E.L. ao lugar
E fomos todos burlados
Passar não é estacionar

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Um livro por semana 254

«Domínio público» de Paulo Castilho

O ponto de partida deste livro de Paulo Castilho (n. 1944) é a ideia de se criar uma Fundação com o património de uma família: «uns irresponsáveis a nadar em dinheiro mas precisavam de mais para os esquemas do Eduardinho, os disparates da Sofia, as manias da Filomena, a casa no Mar da Palha». Uma Fundação em Portugal tem que entrar na regra de ouro: «tudo se resolve pelo processo de não se resolver». As pessoas contactadas para a Fundação viveram no passado («ninguém acreditava no Estado Novo tirando meia dúzia de fanáticos») e chegaram ao presente: «Hoje toda a moral é pública, só existe o que se exibe».

A Fundação começa a ser pensada a partir da ideia de defender a língua Portuguesa e os escritores cujos livros não estão disponíveis porque ninguém os publica: «Gaspar Simões, Casais Monteiro, Branquinho da Fonseca, Marmelo e Silva, Alberto Serpa, Saul Dias, Carlos Malheiro Dias, Miguéis, Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Namora, Redol». Mais tarde se percebe que a Fundação não é possível: «a língua hoje está na televisão, nos SMS, no Twitter. Sound bites. Os livros são irrelevantes, são para a elite e a elite é irrelevante». O escritor Falcão escreve no seu Blog: «No tempo do Salazar eram os areópagos internacionais, nestes tempos de calote fixamo-nos nas agências de rating. Reina a falta de rigor, o mais ou menos, o aproximadamente, o tanto faz». E conclui: «As pessoas queixam-se do IVA e do IRS mas há em Portugal um imposto bem mais sinistro, o imposto da espera».

Esta é também uma história de palavras. Seja o neopalavreado («positivo, proactivo, transparente, aprofundado, empenhado e sustentável») seja o jantar onde um ministro distribui palavras e expressões como «alavancar, arregaçar as mangas, determinação e sucesso». Sem esquecer uma homenagem a Eça de Queirós com os protagonistas a passearem pelo Largo Camões, Rua da Misericórdia, São Pedro de Alcântara, D. Pedro V, Príncipe Real, Rua da Escola Politécnica. Tudo porque um encontro privado no Connecticut pode passar ao domínio público em Lisboa.

(Editora: Dom Quixote, Capa: Rui Garrido sobre imagem de Julião Sarmento)

Vinte Linhas 670

Dissertação para uma missa de sétimo dia

Na passada quinta-feira, dia 29 de Setembro pelas 18h 30m, atravessei o Largo do Chiado a caminho da igreja de São Paulo com um som de concertina nos ouvidos. Era a música de um filme e eu ainda não acreditava na tua morte, Rui.

A missa de sétimo dia foi marcada para uma igreja onde a tua gente, do lado do teu pai, tem muitas das suas raízes. O teu pai viveu ali. A tua avó tinha um lugar no mercado da Ribeira onde vendia mariscos. O sorriso não tinha preço.

No fim do ritual da liturgia a celebrar São Miguel, dia da festa das colheitas e dos pagamentos dos rendeiros, na festa da abundância, a única coisa abundante era a angústia no olhar de cada um de nós. No fim formou-se um grupo informal mas coeso de gente do BPA: o Esteves, o Dinis, eu, a Ana Matilde, a Paulinha; ainda e sempre Paulinha.

De repente já não estava à porta de igreja de São Paulo mas sim no número 110 da Rua do Ouro num dia qualquer de 1969. Todos estamos a sorrir para a objectiva à porta do BPA, alguns são apenas memória e afecto (o Pinho, o Gonçalves da Silva, o Rui Carlos) outros seguiram caminhos de não saber, outros estão em direcções desconhecidas no mapa da vida. As três meninas cresceram e já estão à espera da reforma. Todos estamos velhos, meu querido Rui. Até eu, que tu muito jovem conheceste em 1966, também no terrível mês de Setembro, o mês da morte.

Não sei porquê mas de todos os sorrisos o que mais me apetece fixar é o do teu pai, lembro-me logo de ti e estou na ilusão de que ninguém saiu dessa fotografia de 1969. E fico a ouvir em fundo a música de um filme numa concertina no largo do Chiado. Sempre. Para sempre.

Um livro por semana 140

«Meu Brasil Brasileiro» de Duda Guennes (homenagem no dia da sua morte)

O jornalista Duda Guennes (Recife, 1937) vive em Portugal desde 1974 e colabora em A BOLA desde 1980 com «Meu Brasil Brasileiro». Ali cabem «crónicas, causos, estórias, factos, fofocas e acontecências» como esta curiosa definição de árbitro de Armando Nogueira: «O árbitro de futebol é o único ladrão que rouba a gente na presença de milhares de pessoas e ainda vai para casa protegido pela polícia». José Miguel Wisnick afirma que «A arte do amor, como a do futebol, é abrir espaços onde não há» e Rubem Braga testemunha que um dos maiores prazeres da vida é «Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro». Garrincha respondeu uma vez a um director que lhe chamou boémio por frequentar boates – «O senhor também já foi visto várias vezes em velório e não é defunto». Roberto Pásqua, presidente do Corinthians disse em 1985 – «Se minha vida particular atrapalhar o Corinthians, abandono a vida particular». Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama afirmou sobre a corrupção – «Ética é coisa de filósofo». Dissertando sobre a estética do futebol, o jogador Dadá Maravilha afirmou – «Não existe golo feio. Feio é não fazer golo».

Garrincha, farto de levar pontapés do chileno Eulálio Rojas no Mundial de 1962, gritou esta maldição – «Olha aí, ó panasca, vocês chilenos não jogam nada. O Chile só é bom em terramoto e mesmo assim perde para o Peru». Por fim um clássico: o médio Ananias antes de um Náutico-Santa Cruz no Recife disse – «Só faço prognóstico no final do jogo».

(Editora: Prime Books, Capa: Luís Afonso, Apresentação: Vítor Serpa, Prefácio: José Carlos de Vasconcelos)

Vinte Linhas 669

Aves de Rapina em Proença-a- Nova; Museu na Sobreira Formosa

Para quem passe no IC8, algures entre a Sertã e a saída para a A23, a Galeria Municipal de Proença-a-Nova apresenta até 30 de Outubro um trabalho de Marisa Mancilla intitulado «Vulture in my heart». Trata-se de uma reflexão em forma de desenho sobre a tragédia múltipla que é toda a violência. Neste caso em especial a violência contra a mulher.

As aves de rapina (águias, milhafres, gaviões, peneireiros, mochos, corujas) são predadores que este conjunto de trabalhos a lápis (grafite) em papel especial convoca, numa espécie de «reportagem» a preto e branco sobre a violência e a sua representação.

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Vinte Linhas 668

«Gaivotas mortas no convés» em 1972 (foto Círculo de Leitores)

Fernando Grade escreveu e Pedro Osório musicou a canção «Vamos cantar de pé» em 1972 para Paco Bandeira cantar no Festival da RTP. Foi a canção número um do sorteio. Mas não ganhou. Nem podia ganhar; soube eu hoje por um acaso de conversa.

Recordemos os versos iniciais: «Vives s em sol fechado no teu quarto / Que fica longe, ao pé do mar / Amigo triste, sombras marés / Gaivotas mortas no convés.»

E o refrão: «Amigo vem deita a tristeza ao mar / Vamos cantar de pé / Quem tem cabeça tem sempre valor / Vamos cantar de pé».

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Um livro por semana 253

«Arte Portuguesa – História essencial» de Paulo Pereira

Este volume compacto de 872 páginas tem como antepassado o livro «2000 anos de Arte em Portugal» publicado em 2000 pelo mesmo autor. Onze anos depois, todo o texto foi reescrito. O autor procura alcançar uma síntese, rejeitando o simplismo e, ao mesmo tempo, a excessiva erudição.

O ponto de partida é a Gruta do Escoural: «A primeira descoberta de arte paleolítica foi feita em 1963, na Herdade da Sala (Montemor-o-Novo), em pleno Alentejo. O tiro de uma pedreira revelou uma gruta que os operários exploraram, surpreendendo um cenário reverencial de ossadas e restos cerâmicos».

O ponto de chegada são os anos 80 e alguns dos artistas da época: «Joaquim Bravo, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, João Cutileiro, Rui Sanches, José Pedro Croft, Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Eduardo Batarda, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Jorge Molder, João Penalva, Paula Rego e Joana Vasconcelos».

Ao todo são centenas de ilustrações em 16 capítulos na busca da síntese, actualizando conhecimentos essenciais, incontornáveis e fundamentais. O mesmo é dizer – um manual de consulta imediata. Vejamos um exemplo: «O corpo pobre e despojado (o exterior) contrasta com a alma preenchida dos dons de Deus, rica e feérica (o interior). Nossa Senhora dos Cardais é um caso extremo, oferecendo por fora fachadas chãs e indistintas para depois se abrir num coro celestial de cor e celebração».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Revisão: João Pedro Tapada)

Um livro por semana 84

«Poemas da guerra» de José Niza

De 1969 a 1971 o autor integrou um batalhão militar em Angola. Ao chegar deparou-se com «O Carnaval em Zau Évua»: «Aqui o Carnaval é todo o ano/desde o içar da bandeira/ao cair do pano/trezentos soldados/mascarados/suam bem suados/bagas de suor de un confetti/amarelo verde e encarnado/que não é daqui/um clarim toca/várias vezes ao dia/Pavlov descobriu/que os reflexos condicionados/também serviam para os soldados/ eu vou estando/e não esqueço/adeus/até ao meu regresso». À sua volta uma onda de boatos: «Dói-me um dente / coitado tem um grande abcesso / ouvi dizer que era um tumor na cabeça / parece que já chamaram a família / a que horas é o funeral?» O alferes miliciano médico decide uma estratégia («Rir/é uma palavra capicua/que dá sorte/rir de tudo/até da morte») que envolve a música de J.S. Bach: «Amigo/séculos nos separam/e a tua música nos une/o tempo? /o que é o tempo/se a tua música vai existir/para além da tua vida/e da minha morte». Por fim despede-se de África já conhecida de viagens anteriores em 1958, 1960 e 1963: «Minha África Inútil/ sonho transformado em pesadelo/daqui te escrevo/ao pôr-do-sol/olhando este mar verde/sinfonia de capim em si bemol/daqui te escrevo/com a mágoa de te deixar assim/sozinha pobre sem futuro».

Lido em 2008 «Poemas da guerra» é um testemunho poético feito por alguém que viveu dois anos bem do lado de dentro dum certo tempo português: dos 12 mortos da «sua» guerra nenhum morreu em combate.

(Editora: O MIRANTE, Prefácio: Francisco Pinto Balsemão, Capa: José Nuno Niza)

Vinte Linhas 667

Quando Manuel da Fonseca nasceu S. Thiago do Cacém era Estremadura

Nos próximos dias 7,8 e 9 de Outubro vai realizar-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o Congresso Internacional «Por todas as estradas do Mundo» para celebrar o centenário do nascimento do escritor Manuel da Fonseca.

As inscrições devem ser feitas até ao dia 23 de Setembro na Faculdade (Centro de Estudos Comparatistas) ao cuidado de Rita Correia ou pelo Email cec@fl.ul.pt. O pagamento de 30 euros (geral) ou 15 euros (estudantes) inclui transportes e almoço em Santiago do Cacém.

Terão intervenções entre outros grandes especialistas na obra de Manuel da Fonseca como Eduardo Lourenço, Manuel G. Simões, Fernando Guimarães, Cristina Almeida Ribeiro, Manuel Gusmão, Fernando J.B. Martinho, Vítor Pena Viçoso e Luís Filipe Rocha – autor do filme «Cerromaior» de 1980.

Integram a Comissão Organizadora deste Congresso Internacional as Câmaras Municipais de Vila Franca de Xira e Santiago do Cacém, o Museu do Neo-Realismo, o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo.

Em vez de uma fotografia do escritor, esta «fotografia» de Portugal em 1911 tem a curiosidade de revelar uma Estremadura com limites entre Vila Nova de Ourém e Sines no tempo em que ainda não existia o distrito de Setúbal e, portanto, o distrito de Lisboa ia até perto de Vila Nova de Milfontes. E o nome de Espanha escrevia-se Hespanha.

Afinal cem anos passaram num instante tal como passou num instante uma noite de histórias do Manel no Seixal depois de uma reunião de um júrio do Prémio Maré Viva da Câmara local.

Vinte Linhas 666

Bairro Alto a terra queimada ou o deslize do brasileiro

João Correia Filho, jornalista brasileiro, escreveu o livro «Lisboa em Pessoa» – Guia turístico da Capital Portuguesa. Teve a sorte de visitar a Livraria «Fábula Urbis» ali à Sé. Historiador, livreiro e editor, João Pimentel ajudou o autor do livro a conhecer melhor a cidade de Lisboa sugerindo roteiros e elaborando listas de livros a descobrir. Na página 175 do livro aparece uma nota sobre o Miradouro de S. Pedro de Alcântara: «Quando o sol se vai embora, o miradouro vira um grande salão de encontros, tomado por jovens que enchem os seus quiosques-bar (abertos todos os dias. Entre quinta e sábado organizam-se aí concertos e actuações de DJ) e fazem do lugar o ponto de partida para a divertida noite do Bairro Alto.» Ora a verdade é muito diferente. Não só a realidade cujo mau cheiro a urina sai da Travessa de São Pedro (ali em frente) mas todo o espectáculo do lixo, das garrafas de litro e dos copos de plástico. Quanto à música e seu barulho existe uma carta do Departamento Camarário responsável que determina a cessação das actividades musicais à uma da manhã desde que a mesma não afecte residentes e vizinhos. Mas a Polícia Municipal, chamada por um morador cujo filho pequeno não conseguia dormir às duas da manhã, referiu que os senhores do Bar possuem uma carta do vereador Sá Fernandes (esse mesmo) a permitir barulho até às duas da manhã. Mas na Net são anunciadas actividades até às 3 da matina. Pois… O vereador, conhecido pelas providências cautelares e por integrar a comissão liquidatária dos jardins de Lisboa, terá assinado uma autorização sem saber da decisão anterior do Serviço respectivo. Sem saber, tal como o jornalista brasileiro. É o que faz escrever sobre uma realidade que não se conhece pois só quem vive no Bairro Alto percebe o sentido da expressão terra queimada.

Um livro por semana 252

«Os sinais da viagem» de José Correia Tavares

Natural de Castelo Branco, José Correia Tavares (n. 1938) foi dos primeiros poetas portugueses a escrever sobre a Guerra Colonial – «Três Natais» (1967). Depois do recente «O grande livro dos cães», Correia Tavares regressa neste livro ao ofício da quadra ao gosto popular.

O ponto de partida é o trabalho poético: «Hás entre razão e rima / Eterna má vizinhança / Uma em baixo, a outra em cima / Como os pratos da balança». O poeta define o seu campo de acção: «Parecendo surdo e mudo / Ao armar a minha teia / Tenho olhos para tudo / O que mexe, me rodeia». Mas não esquece o espaço de onde vem: «A oliveira mais velha / Seus frutos só um punhado / É que, debaixo de telha / Me tem sempre alumiado». Nem olvida o caminho percorrido: «Sedentário, vigilante / Ao germinar das sementes / Já cruzei, daqui distante / Oceanos, continentes».

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Rua da Misericórdia

Ao contrário dos lojistas de Cesário Verde
Marta não usa a bata nem o guarda-pó
nem vende drogas, miudezas e ferragens.

Vende sim sonhos em forma de tela colorida
seja o acrílico, o óleo, o pastel ou a aguarela
em paisagens povoadas por gente mais diversa.

Às vezes são grandes plantações de alfazema
ou são músicos em clubes nocturnos de jazz
ou ainda palhaços no intervalo das lágrimas.

Marta sabe; o Bairro Alto nasceu em 1513
um casal assinou a escritura num tabelião
e assim nasceu um bairro fora da muralha.

Algures entre São Roque e o azul do Tejo
passam por aqui os marujos e os calafates
e mais soldados para os navios da Índia.

Por aqui passaram os ardinas a correr
gritando notícias de primeira página
todos derreados pelas sacas dos jornais.

Hoje a desordem está mais massificada
garotos de 14 anos apanham bebedeiras
urinam as portas das casas e os automóveis.

Estudantes do Erasmus pegam em garotas
que deitam no tejadilho dos automóveis
dos moradores que sofrem desprevenidos.

Há gente a vender cerveja em garrafa na rua
a meninos que depois colocam a garrafa
junto ao pneu do carro já à espera do furo.

Ao contrário dos lojistas de Cesário Verde
Marta não se enfada no calor das tardes
lembra as filhas, conhece o tempo e o lugar.

Vinte Linhas 665

Para uma memória de Rua do Ouro em 1966

A fotografia muito antiga, roubada do computador em 17 de Julho, foi emprestada de novo pelo meu amigo Vítor Salgado, conceituado comerciante de ouro, prata e afins na Rua do Ouro. Serviu de ilustração a um poema; serve hoje para acompanhar uma crónica sobre o tempo dessa rua em 1966. Tempo em que as notícias saíam da Agência Havas para os jornais diários de Portugal – havia 11 em 1941, talvez a data desta fotografia. Tempo em que as notícias comerciais e particulares saíam de Portugal através da Rádio Marconi e dos seus cabogramas – os célebres cable em inglês.

Em 1966 o Banco à direita ainda se chamava Lisboa & Açores e o da esquerda ainda era o Totta Aliança. No segundo quarteirão à direita existia o Banco Português do Continente e Ilhas que em 1951 se passou a chamar Banco Português do Atlântico. O eléctrico da fotografia era o «Rossio-Graça», o antepassado do actual «28», o «Prazeres-Martim Moniz» sempre cheio de turistas. Alguns dos automóveis da foto permaneceram até 1966 quando aqui cheguei e vi um polícia sinaleiro em cada esquina. O Augusto, motorista do presidente do BPA, dava uma nota de 20 escudos a cada um no Natal porque eles facilitavam a passagem do Mercedes-Benz preto nas esquinas, também as da Rua Augusta. Anos depois no Diário Popular contaram-me outra história parecida: a administração do jornal do Bairro Alto precisava de tudo facilitado no caminho até Santa Apolónia para que os jornais não perdessem os comboios para o Norte.

Quarenta e cinco anos depois a Rua do Ouro continua na minha memória como em 1966 – eu ganhava 900 escudos e descontava 18 escudos para o Fundo de Desemprego mas sabia que se por acaso ficasse desempregado eu não podia ir lá buscar nada.

Fala do livreiro na esquina da rua

Eu compro livros usados
Ou antigos ou modernos
Bilhetes-postais guardados
Entre discos e cadernos

Gafonolas ou gravuras
Papéis velhos e cartazes
Compro as fotos escuras
Na gaveta dos rapazes

Compro banda desenhada
Manuscritos e colecções
E assim sem dar por nada
Tenho o tempo dos serões

Quando ao ler a adivinha
Dum Almanaque anual
Fazia da noite sozinha
Um convívio fraternal

Quando ideias sensatas
Dos sábios de cada dia
Davam soluções baratas
Ao que a gente não sabia

Havia sempre a borracha
Para apagar a solução
O tempo não se despacha
No degrau dum coração

E no sorriso do livreiro
Na minha rua à esquina
Está o tempo todo inteiro
Numa loja pequenina

Um livro por semana 251

«Mário Saa – Poesia e alguma prosa»

Com organização, notas e introdução de João Rui de Sousa, este volume de 388 páginas recolhe textos dispersos e poemas inéditos de Mário Saa (1893-1971). O poeta de Avis nasceu, afinal, nas Caldas da Rainha onde viveu até 1902 e foi amigo de grandes vultos das letras do seu tempo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raúl Leal, António Botto e José Régio. Os seus textos forma publicados nas mais importantes revistas literárias como a Presença, a Athena, a Contemporânea e a Sudoeste. Colaborou também regularmente em jornais tanto de âmbito nacional (Diário de Lisboa, A Capital) como de influência regional (Gazeta das Caldas e Brados do Alentejo).

A sua poesia não teve grande visibilidade pública pois Mário Saa nunca publicou em vida um volume de poemas mas este livro vem revelar uma voz poética singular. João Villaret divulgou muito em recitais o poema «Xácara das mulheres amadas»: «Quem muitas mulheres tiver / em vez duma amada esposa / mais se afirma e se repousa / pera amar sua mulher; / quem isto não entender…/ em cousas d´amor não ousa / em cousas d´amor não quer!»

Em 1921 nas páginas de A Capital Mário Saa polemizou («Há duas grandes vergonhas neste mundo: não a ter e ser sócio nacional das Belas Artes!») e em 1930 assinou no catálogo do Salão dos Independentes este texto: «A obra de arte é uma maneira exterior de dar o interior, mostrar é uma necessidade tão imperiosa como a de ver. Ora a arte é o gostoso estendal das dores do artista – as suas descobertas. A arte é um refúgio como todos os vícios. É a sede que a si própria se sacia mostrando exactamente como tem sede». Este livro tem um grande mérito: vem pela primeira vez colocar toda a obra de Mário Saa num volume acessível ao grande público.

(Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Organização, notas e introdução: João Rui de Sousa)

Vinte Linhas 664

Dissertação para um quadro de Ana Cristina Dias

Os olhos deste cão não enganam. A menina do vestido verde confia na sua vigilância e acredita na sua força. Os dois podem enfrentar o Mundo hostil, suas emboscadas e percalços quotidianos. A parede vermelha pode ser o fogo ou a palavra, pode ser o lume ou o grito da Terra mas as duas mãos da menina abraçam o cão para afastarem o medo.

Não importa o nome ou a raça: mastim dinamarquês, dobermann, lebreiro sueco ou pastor alemão. Importa apenas a segurança que transmite à menina no momento de olhar o Mundo. Importa apenas a ternura do gesto da menina num abraço feito carícia.

Os olhos deste cão não mentem. São um farol a avisar a navegação para as tempestades de todos os dias. São uma guarda pessoal pronta a seguir a menina em todos os caminhos e a defendê-la em todas as adversidades mesmo as mais inesperadas.

Os olhos deste cão não enganam. Os olhos deste cão não mentem. Os olhos desta menina confiam neste aliado de todos os momentos. A cabeça feita torre de vigia, o corpo feito pelotão de reconhecimento, a boca feita trompete numa batalha quotidiana contra as emboscadas do silêncio.

Todas as manhãs surge a luz do sorriso convocada pela chegada do cão ao espaço da menina. Entre o vermelho da parede e o vede do vestido, há no olhar da menina, uma bandeira de alegria. No seu reduto não cabe o mapa do medo nem o vento da angústia nem a escuridão da morte.

(Ana Cristina Dias inaugura a sua exposição integrada na mostra « I Love Bairro Alto» da CML na Rua da Misericórdia 30 no dia 22 de Setembro às 18h30m)

Vinte Linhas 663

Um outro olhar sobre a diabetes tipo II

A vida é um mistério, não é um negócio. No dia 11 de Novembro de 1992 a APDP pela sua dietista Rosalina David emitiu-me um programa alimentar com indicação de 7 refeições por dia entre as 8 e as 24 horas. O sinal de alarme foi a doença da minha mãe que viria a falecer em 13 de Abril de 1995 mas, como a diabetes não dói, lá fui fingindo que não era nada comigo. Um dia fui entrevistar o Dr. Estevão Pape sobre as Associações Protectoras de Diabéticos no Ribatejo. Corria o ano de 1999 e fiquei logo ali a saber que tinha mais esse problema. Em 23 de Julho de 2006 nasceu no Hospital Universitário de Londres o meu neto Tomás. Passei a ter outras responsabilidades, a minha vida mudou porque passei a tomar mais a sério essa doença que não dói. Os netos, talvez mais do que os filhos, são os nossos juízes implacáveis. Com eles não pode haver fugas à lógica, nem mentiras, nem desvios palavrosos. Hoje sou avô de três netos (Tomás, Lucas, Pedro) e sócio nº 23866 da APDP desde 14-10-2010 onde tenho sido tratado com toda a competência e toda a simpatia. O ponto alto desta ligação foi o dia 9-9-2011 quase todo ele passado no palacete da APDP na Rua do Sol ao Rato nº 11 num seminário sob a direcção de Catarina Andrade. Ao longo das seis horas do curso ficou bem claro que há três factores a ajudarem ao desenvolvimento da diabetes tipo II: falta de actividade física, excesso de peso e recusa de uma alimentação saudável. Pelo meio tivemos um passeio pelo Jardim da Estrela em marcha activa tendo como locomotiva a professora Catarina. Ninguém pisou ovos e assim merecemos o almoço que para mim foi uma posta de peixe grelhado com batatas e dois copos de vinho branco fresco da Adega de Santo Isidro de Pegões. Valeu a pena. A vida é mistério, não é um negócio. Se fosse um negócio os ricos compravam a saúde.

José do Carmo Francisco sócio 23866 da APDP

Carmo / Rua da Alfândega

São estes os lugares da memória.

Longe, mais de vinte anos longe /era esta a minha estrada.

Corria do quarto alugado / para o emprego na Baixa / por sete tostões num bilhete.

No Largo do Rato parava / e sempre me fez confusão / os trocos dum cego com lotaria.

Hoje já não há o cego / não haverá talvez o Largo.

Eu próprio passarei por aqui / talvez na minha última viagem / pois é este o mais barato caminho / entre a minha casa e o cemitério.

Vinte Linhas 662

O estado a que o nosso Estado chegou

Nos idos anos 90 colaborei numa revista (A Bola Magazine) com entrevistas a figuras das artes e das letras, da política e do desporto. Anos depois 30 dessas entrevistas foram publicadas no volume «As palavras em jogo» da Editora Padrões Culturais. Graças à amizade do então chefe de redacção (Joaquim Rita) escrevia lá nessa mesma revista um senhor muito especial para quem a solução de todos os problemas do nosso país passavam pela privatização dos Tribunais e da Polícias. Tudo o que não desse lucro devia ser privatizado para poder dar lucro.

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