Vinte Linhas 670

Dissertação para uma missa de sétimo dia

Na passada quinta-feira, dia 29 de Setembro pelas 18h 30m, atravessei o Largo do Chiado a caminho da igreja de São Paulo com um som de concertina nos ouvidos. Era a música de um filme e eu ainda não acreditava na tua morte, Rui.

A missa de sétimo dia foi marcada para uma igreja onde a tua gente, do lado do teu pai, tem muitas das suas raízes. O teu pai viveu ali. A tua avó tinha um lugar no mercado da Ribeira onde vendia mariscos. O sorriso não tinha preço.

No fim do ritual da liturgia a celebrar São Miguel, dia da festa das colheitas e dos pagamentos dos rendeiros, na festa da abundância, a única coisa abundante era a angústia no olhar de cada um de nós. No fim formou-se um grupo informal mas coeso de gente do BPA: o Esteves, o Dinis, eu, a Ana Matilde, a Paulinha; ainda e sempre Paulinha.

De repente já não estava à porta de igreja de São Paulo mas sim no número 110 da Rua do Ouro num dia qualquer de 1969. Todos estamos a sorrir para a objectiva à porta do BPA, alguns são apenas memória e afecto (o Pinho, o Gonçalves da Silva, o Rui Carlos) outros seguiram caminhos de não saber, outros estão em direcções desconhecidas no mapa da vida. As três meninas cresceram e já estão à espera da reforma. Todos estamos velhos, meu querido Rui. Até eu, que tu muito jovem conheceste em 1966, também no terrível mês de Setembro, o mês da morte.

Não sei porquê mas de todos os sorrisos o que mais me apetece fixar é o do teu pai, lembro-me logo de ti e estou na ilusão de que ninguém saiu dessa fotografia de 1969. E fico a ouvir em fundo a música de um filme numa concertina no largo do Chiado. Sempre. Para sempre.

6 thoughts on “Vinte Linhas 670”

  1. O BPA! O jcfrancisco trás com cada coisa à memória da gente. Fala para aí em 1966 no tempo da outra senhora.
    Eu, pela minha parte lembro-me do BPA aí por 1957. Procurava eu emprego e eis que se me depara um anúncio dum banco. Era o BPA. Faço concurso na Rua do Ouro e sou aprovado. Depois sou chamado e quem me recebe é um amigo meu de seu nome Barradas que na altura lá trabalhava. Que me mandou para um médico ali para a Av. da Liberdade. Como eu tinha uma deficiência visual (miopia) e depois de ver as letras na parede o sujeito não ficou satisfeito e mandou-me a um oftalmologista e pediu-me um relatório médico. Mandei-o para a puta que o pariu. Antes do 25 de Abril era assim. As pessoa tinham uma deficiência e em vez de serem ajudadas por esse facto, não, antes pelo contrário, era perseguidas e prejudicadas. Já tinha tido uma experiência anterior idêntica noutro banco daí recusar mais esta patifaria.Depois trabalhei normalmente em muitos lados, estive 27 anos numa grande empresa e, depois de reformado ainda trabalhei atá aos 68 anos numa outra. Para quê aquelas exigência e perseguição às pessoas com deficiência?
    Tempos que não gostamos de recordar ao contrário do jcfranciscol.

  2. Pronto está percebido mas cada um tem direito à sua nostalgia. Neste caso perante a morte de um colega e na missa de sétimo dia formou-se um grupo sem ninguém o convocar. E ali ficámos, alguns de nós estamos na fotografia. Ainda.

  3. Meu Caro Poeta:
    Não deixa de ser pena que a gente só se encontre nestas ocasiões, quando noutras menos adversas, melhor podiamos recordar e viver.
    Assim se compensa a perda de um amigo, dirá um optimista, já muito calejado de despedidas destas.
    Já agora, sai uma “letra” para Manteigas, a 90 dias, se era assim que se dizia.
    Jnascimento

  4. Um abraço amigo Joaquim, outro para o amigo Manteigas. Foi pena o mau fim do filme podíamos ter sido companheiros de trabalho, quem sabe, eu trabalhei com um Barradas no R/C do 110 só não sei se era o mesmo.

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